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Incubação e catalepsia em Plutarco

PSYCHANODIA

* O estudo dos mitos escatológicos de Plutarco permite captar o Zeitgeist da época e registrar as diferenças entre a nova visão de mundo e as concepções platônicas.

  • Os tratados De facie in orbe lunae, De genio Socratis e De sera numinis vindicta foram escritos quando Plutarco já havia ultrapassado os cinquenta anos e exercia a função de sacerdote em Delfos, por volta do ano 100 d.C.
  • O personagem Arideu-Thespésio de Solos tem como modelo a viagem extática de Er; o mito de Timarco de Queroneia inspira-se no Fédon.
  • Três fatores retornam constantemente na obra: a referência à iniciação, os clichês literários e especulativos de Platão, e a vontade de conciliar Platão com o novo Zeitgeist por meio de materiais mitológicos arcaicos e de um sistema contemporâneo de exegese.
  • Timarco de Queroneia é provavelmente um personagem inventado por Plutarco para explorar a natureza do daimon socrático por meio de uma catabasis no antro de Lebadeia.
    • O oráculo de Lebadeia, consagrado ao personagem mítico Trofônio, era consultado desde o século VI a.C. e Plutarco conhecia as tradições locais, tendo um irmão, Lamprias, possivelmente em cargo sacerdotal no local.
    • O postulante devia submeter-se a purificação com abstinências, banho ritual nas águas do Hércine, sacrifício de carneiro preto, nova lavagem, unção com óleo por dois jovens chamados Hermai e ingestão de água das fontes Léthe e Mnemosyne.
    • Revestido de túnica de linho branco, o postulante descia por uma escada até um orifício estreito, penetrava de pés para frente segurando um bolo de mel e era aspirado para dentro do adyton por um sopro poderoso.
    • A saída pela mesma posição, a presença das fontes escatológicas e do bolo mortuário indicam que o postulante era homologado a um morto e que o rito tinha profundos vínculos com a iniciação.
  • O cenário da consulta ao oráculo tem caráter extremamente arcaico, com a gruta desempenhando papel central comparável ao das iniciações xamânicas.
    • Uma tradição análoga à do antro de Trofônio subsistiu na Irlanda até o século XVIII.
    • A apocalipse do cavaleiro Owein no Tractatus de Purgatorio Sancti Patricii, escrito por H. de Saltrey por volta de 1188-89, assemelha-se muito à de Timarco.
    • O nível histórico-cultural mais arcaico a que remonta a incubação ou a visão extática obtida em gruta é o das iniciações xamânicas.
  • Ao descer na escuridão do antro, Timarco sente um golpe na cabeça com barulho ensurdecedor e as suturas do crânio se disjuntam para dar passagem à alma; o retorno da alma ao corpo se dá pela mesma via, com violenta dor de cabeça.
    • A disjunção das suturas cranianas em Timarco corresponde ao brahmârandhra ou “bico de Brahma” das tradições indo-tibetanas, abertura craniana que permite a saída da alma.
    • No xamanismo há crenças análogas: durante o êxtase a alma sai pelo topo da cabeça; a alma de um doente é reinserida no corpo pela cabeça; a alma de um xamã penetra no corpo de sua futura mãe pela cabeça.
    • Plutarco acrescenta à tradição grega arcaica sobre a relação entre psyche e cabeça, reunida por R. B. Onians, o detalhe “xamânico” da disjunção das suturas.
  • Liberta do corpo, a alma de Timarco tem a sensação de respirar e de se dilatar como uma vela que se desdobra, escuta a harmonia das esferas e contempla os astros como ilhas flutuando no éter.
    • Um lago central corresponde provavelmente à esfera celeste; uma corrente mais rápida representa o equador celeste; o zodíaco está situado na cintura trópica.
    • As ilhas mais numerosas, representando as estrelas fixas, são arrastadas pelo movimento da esfera; as demais, os planetas, descrevem trajetória resultante da combinação do seu próprio movimento com o da esfera.
    • Dois rios de fogo que desembocam no mar celeste são provavelmente uma alusão ao Piriflegetonte e ao Cocito do Fédon, correspondendo aqui aos dois braços da Via Láctea.
  • Olhando para baixo, Timarco vê um vasto abismo arredondado como uma esfera cortada, cheio de trevas espessas e agitadas como ondas, de onde sobem gemidos e choros.
    • A explicação mais adequada é que o abismo representa a própria terra: no De facie 940f afirma-se que um habitante da lua que contemplasse a terra teria a impressão de ver o Hades e o Tártaro.
    • A alma de Timarco chegou a altitudes rarefadas, não distante da lua, mas ainda longe dos deuses astrais superiores, que permanecerão inacessíveis a ela.
  • Uma Voz sem corpo interpela Timarco, disposta a explicar o que ele já viu, mas não as regiões superiores, pertencentes a outros deuses, e limita sua instrução ao “quinhão de Perséfone”, delimitado pelo Styx.
    • A Voz explica que o Styx é o caminho do Hades, que delimita a zona da luz em seu ponto mais alto e separa quatro princípios: vida, movimento, geração e corrupção.
    • A Mônada liga o primeiro ao segundo no invisível; o Nous liga o segundo ao terceiro na região do sol; a Physis liga o terceiro ao quarto na região da lua.
    • Cada um desses elos é guardado por uma Parca: Átropos, Cloto e Láquesis; a lua, “propriedade dos demônios terrestres”, é tocada pelo Styx a intervalos regulares, e durante esses instantes (eclipses lunares) certas almas se desprendem da lua e retornam ao ciclo da metempsicose.
  • A teoria das três junções cósmicas e das eclipses como momento de encontro entre a lua e o Hades terrestre havia sido exposta no De facie 944a-c e 945c-d.
    • Os estudiosos modernos consideram que essa teoria provém de Xenócrates, que distinguia três regiões: ultrasseleste, celeste e infrceleste; mas as três “estações” de Plutarco (sol, lua, terra) não correspondem à divisão de Xenócrates.
    • A hipótese da Religionsgeschichtliche Schule de que os três níveis cósmicos de Plutarco proviriam das cosmologias iranianas foi acolhida com excesso de entusiasmo pelos grandes estudiosos do entre-guerras.
    • Por volta da mesma época em que Plutarco compunha o De genio, outra teoria da ascensão da alma fazia provavelmente sua aparição, na qual a alma percorre todos os sete céus planetários para repousar na ogdôade; os Oráculos caldaicos veiculam também a doutrina das três zonas cósmicas.
  • A presença do Styx na zona sublunar é perfeitamente previsível no clima cultural do tempo, e Plutarco não faz senão transportar para o céu a paisagem escatológica subterrânea de Platão.
    • O motivo de um rio celeste de fogo poderia provir da apocalíptica judaica, onde já aparecera no século II a.C. no livro de Daniel (VII,10).
    • As descrições do rio de fogo em Orígenes, nos Extratos Valentinianos de Teodoto, no livro hebraico de Henoc, no Talmud babilônico e em três midrashim do século VI ao IX diferem completamente do Styx de Plutarco e constituem uma tradição separada, forjada pelos rabinos do século III.
    • Os Extratos de Teodoto foram influenciados pelas especulações rabínicas, contaminando Daniel (VII,10) sobre o rio de fogo e Jeremias (XXIII,19) sobre a tempestade de Deus que cai sobre a cabeça dos ímpios; isso não é válido para Orígenes.
    • Duas hipóteses igualmente justificáveis se apresentam: ou Plutarco conheceu uma tradição judaica anterior ao século III, ou os rabinos do século III usaram o mito de Plutarco como catalisador entre Daniel e Jeremias.
  • A ideia da tripartição do homem (corpo, alma, nous) é platônica, e as fórmulas de Plutarco recalcam as de Platão, especialmente o Timeu 70a e o Fedro 247c.
  • O mito de Arideu-Thespésio de Solos difere do de Timarco pela topografia vaga do além e pela obtenção acidental da visão, à maneira do modelo Er da República.
    • Arideu, depois de dissipar os bens da família e tentar refazê-los por meios desonestos, cai de certa altura sobre a nuca, morre aparentemente por três dias e ressuscita transformado no homem mais justo e piedoso dos cilícios.
    • A mudança de condição é marcada pela mudança de nome: Arideu parece deformação do nome do tirano Ardieu da República, condenado eternamente ao Tártaro; Thespésio remete a “coisas divinas e estranhas”.
  • A alma racional de Arideu sai do corpo com a sensação de um piloto que cai de seu navio ao abismo, seguida de uma visão intelectual plena na qual a psiquê “se abre como um único olho” e contempla de todos os lados.
    • Carregada pela luz astral comparada a um mar tranquilo, a psiquê contempla as almas dos mortos que sobem de baixo, parecidas com bolhas luminosas que se transformam em pequenas figuras humanas.
    • A alma de um parente morto ainda jovem se aproxima e o chama pelo novo nome, cumprindo a função literária de guia explicador da visão.
  • O cenário da apocalipse de Thespésio articula-se em sete sequências: as mensageiras da Justiça, a cor das almas, o destino dos iniciados dionisíacos (Léthe), a cratera dos sonhos, o oráculo de Apolo, os suplícios infernais e a metempsicose.
  • Adrasteia, filha de Ananke e Zeus, administra a justiça pelas três Erínias: Poiné (faltas leves), Díke (culpados graves mas curáveis) e Erínis (culpados endurecidos e incuráveis, lançados ao Tártaro).
    • Poiné ocupa-se dos que são punidos no corpo e pelo corpo, o que suscita dois problemas de interpretação: o que acontece, após a morte, às almas punidas “no corpo”; e se a expressão dia somaton tem sentido causal (punições corporais por transgressões de mesma natureza) ou instrumental (a alma retornará imediatamente ao ciclo da metempsicose, punida pela assunção de um novo corpo).
  • As paixões terrestres deixam cicatrizes nas almas, e a doutrina das cores das almas desencarnadas é original em Plutarco: o escuro e sujo é o verniz da baixeza e da cupidez; o vermelho e inflamado, da crueldade; o verde, da intemperança nos prazeres; o violeta doentio, da malevolência e da inveja.
    • As cores são produzidas na terra pelos vícios respectivos e só desaparecem após a purificação no tribunal de Díke; se o tratamento não surte efeito, a alma impenitente se encarna num corpo animal.
    • Embora os vícios em Plutarco, na astrologia hermética e em Sérvio sejam efetivamente muito semelhantes entre si, a doutrina das cores em Plutarco corresponde apenas parcialmente às tradições astrológicas: a cor de Júpiter na astrologia é o branco, não o violeta que lhe caberia segundo Plutarco.
    • Plutarco provavelmente se inspira nas cores dos quatro “quarteirões” de Roma segundo a divisão de Rômulo, referindo-se apenas a quatro cores e não a cinco como seria de esperar pelo número das planetas.
  • Um “abismo profundo” semelhante a um “antro dionisíaco” chamado Léthe, cercado de vegetação luxuriante e pleno de danças báquicas e risos, é o lugar onde as almas conhecem a constância do prazer.
    • O guia de Thespésio impede sua descida, explicando que a parte racional da alma se dissolve pelo prazer e que o irracional e corpóreo, reavivado, traz o desejo de se encarnar.
    • O jogo etimológico que relaciona genesis (“nascimento”) a epi gen neusis (“inclinação para a terra”) aparece no fragmento De anima de Estobeu e depois em Plotino, Porfírio, Jâmblico, Juliano, Damáscio, Olimpiodoro e Pselo.
    • A iniciação dionisíaca é considerada inferior à eleusiana porque conduz necessariamente ao retorno ao ciclo metempsicótico; o verdadeiro iniciado, segundo o fragmento VI do De anima, é o que nunca mais desce de sua morada celeste ao lodaçal do mundo.
  • Orfeu aparece no mito de Thespésio sob luz pouco favorável: chegou apenas até a cratera dos sonhos ao buscar a alma de sua esposa e, por falta de memória, transmitiu aos homens uma opinião falsa sobre o oráculo de Apolo e o da Noite.
    • O verdadeiro oráculo comum é o da Lua e da Noite, que não tem sede fixa na terra mas erra sobre os homens por sonhos e imagens.
    • A cratera de Plutarco contém matéria “enganosa” dos sonhos, enquanto o de Macrobe, provavelmente provindo do Comentário ao Timeu de Porfírio, remete diretamente ao Timeu; o único elemento comum é a referência a Orfeu.
  • Para Plutarco, Apolo ocupa uma região celeste totalmente inacessível à experiência humana, enquanto Dioniso e Orfeu são figuras ambíguas com estreitos vínculos com a vicissitude humana.
    • Thespésio não suporta sequer a luz que emana do tripode apolíneo, duplo celeste do famoso tripode délfico.
    • A Sibila, que profere oráculos, é um ser mais próximo da terra e voa sobre a superfície da lua, sem ter caráter solar como o deus que a inspira.
  • Os supliciados nos infernos visitados por Thespésio dividem-se em quatro categorias: hipócritas esfolados e virados às avessas; inimigos em vida que se devoram mutuamente; pecadores graves mergulhados em tanques de metal fundido ou gelado; reincidentes perseguidos pelos descendentes sobre quem recaiu sua culpa.
    • A ordália do metal fundido é aplicada apenas aos culpados individuais, não ao conjunto dos vivos como no zoroastrismo.
    • Não há vestígio de julgamento final em Plutarco, e os modelos de todos os suplícios são gregos.
  • O último episódio escatológico contemplado por Thespésio é a reencarnação das almas, incluindo a de Nero, que deveria tomar forma de víbora mas recebe in extremis sorte melhor em reconhecimento por ter concedido liberdade aos gregos.
    • Uma mulher imensa imprime na memória de Thespésio sua apocalipse por meio de uma “varinha em brasa”; em seguida, “como aspirada pelo sopro violento de um sifão”, a alma do cataléptico retorna ao corpo no exato momento em que este ia ser sepultado.
    • O cenário da apocalipse de Thespésio permanece fiel ao mito de Er; a única diferença verdadeiramente importante entre os dois relatos é a mudança dos quadros cosmológicos tradicionais, pois na época de Plutarco a escatologia celeste havia se generalizado.
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