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CUMONT

Franz Cumont (1868-1947)

Franz CUMONT, Franz. LVX PERPETVA. PARIS: LIBRAIRIE ORIENTALISTE PAUL GEUTHNER, 1949

Perfil pessoal e nacionalidade de Franz Cumont

  • Sua personalidade era marcada pela discrição, simplicidade e um trabalho constante, porém discreto, com uma aparência que incluía olhos azuis e barba loura pouco branqueada.
  • Como belga, ele era profundamente apegado à sua pátria, considerada um império, a suas tradições, sua dinastia e à Academia Real, tendo recebido o prêmio Francqui e sido distinguido pelo rei Alberto e pela rainha Elisabeth.
  • Sua trajetória acadêmica incluiu doutorado na Universidade de Gand, estudos nas universidades de Bonn, Berlim e Viena, passagens por Atenas, Roma e Paris, e finalmente um cargo na Universidade de Gand, do qual se retirou em 1910 para viver em Roma.
  • A conferência proferida por ele no final de 1914 no palácio Rusticucci, em Roma, revelou explicitamente sua identidade belga, em um contexto de invasão alemã durante a Primeira Guerra Mundial.
  • A frase que resume a posição belga diante da intimação alemã é citada: “não acreditava que um povo, por mais fraco que fosse, pudesse ‘desconhecer seu dever e sacrificar sua honra curvando-se diante da força’”.

Análise da Romanização como crítica ao colonialismo alemão

  • Em sua conferência, Franz Cumont argumentou que a Roma antiga não impunha à força seus costumes, língua ou crenças aos povos conquistados, ao contrário das práticas de colonização alemãs de seu tempo.
  • De acordo com sua análise, a administração romana era menos opressiva que a das nações modernas, atuando pela persuasão em vez da contrição, com um governo de alto e largo alcance, sem uma burocracia numerosa e opressiva.
  • A frase que descreve este método é: “Légatos e procuradores agiam mais pela persuasão do que pela coerção. No entanto, a ação do Estado foi muito poderosa e muito eficaz graças à adoção de certas medidas de ordem geral que foram tomadas desde a anexação”.

Legado duradouro da civilização romana na Bélgica

  • Franz Cumont acreditava que as “sementes férteis” lançadas por Roma sobreviveriam a todos os desastres materiais, germinando mais tarde para produzir “flores imortais” da civilização.
  • Ele via nos monumentos votivos, como as “colunas ao gigante”, uma expressão clara do espírito de lealdade e devoção das populações aos seus soberanos romanos, que lhes garantiram a paz e a segurança.
  • A explicação para esse sentimento é que Roma proporcionou paz, fim das lutas intestinas, proteção contra hordas germânicas, leis mais perfeitas, justiça mais segura, costumes mais polidos e participação em uma alta cultura literária e artística.
  • Conclui-se que a conquista moral de Roma se deu pelo “raio de sua civilização e o consentimento dos povos”, resultando em uma “submissão das vontades e uma conciliação dos corações que nenhum asservimento teria obtido”.

Franz Cumont como cidadão do mundo e membro da República das Letras

  • Além da Bélgica, suas outras pátrias intelectuais eram a França e, sobretudo, Roma, que ele considerava a “mãe do mundo ocidental”, onde fixou residência em 1912.
  • A sentença de Tucídides foi aplicada a sua memória: “O túmulo dos homens ilustres é a terra inteira; e não é apenas a inscrição sobre a coluna na pátria que o assinala, mas também, em terra estranha, a lembrança não escrita que habita em cada espírito, mais do que uma lápide visível”.
  • Sua visão sobre a comunidade dos espíritos foi expressa no discurso inaugural ao VI Congresso Internacional de História das Religiões, em Bruxelas: “Nos Estados totalitários que pretendem submeter à sua dominação não apenas os atos, mas os sentimentos dos indivíduos, a experiência religiosa ensina como as convicções íntimas, perseguidas em suas manifestações exteriores, encontram em nosso foro interno um asilo inviolável”.
  • A despeito dos nacionalismos exacerbados de sua época, ele acreditava na “universalidade do reino do espírito”, que permite uma reunião harmoniosa de representantes de muitas nações em torno de uma história fecunda em ensinamentos.

O método científico e a personalidade acadêmica de Franz Cumont

  • Ele tratava todos os trabalhadores intelectuais, do mais simples estudante ao mais ilustre mestre, com igualdade, acessibilidade e presteza, evitando qualquer tom professoral ou dogmático.
  • Sua influência era exercida por uma via liberal, pois acreditava que a verdadeira ciência é uma invenção perpétua, que resulta do encontro de várias disciplinas que antes operavam separadamente.
  • Em vez de se ater a uma escola específica, ele se definia como um “simples sábio”, esforçando-se sempre por retornar às fontes e sendo dócil aos fatos apresentados pelos documentos.
  • Ele mesmo escreveu que “aqueles que se fecham em uma estreita especialidade podem se gabar de conhecê-la perfeitamente. É melhor expor-se às críticas do que se assemelhar ao dragão da fábula na caverna onde guarda ciosamente um tesouro estéril. O essencial é colocar à disposição comum dos trabalhadores os materiais que eles farão entrar em suas construções futuras”.

A principal contribuição científica: os Maguséus e o sincretismo irano-semita

  • Suas pesquisas o levaram a uma descoberta capital na história das religiões: a civilização caldeu-mazdeísta dos Maguséus ou Magos ocidentais, um sincretismo iraniano-semita.
  • A descrição destes Maguséus é que eram sacerdotes das colônias mazdeístas ocidentais que, separados da reforma zoroastriana, adotaram uma língua semítica (aramaico) e ficaram mais expostos a influências estrangeiras, mesclando o velho mazdeísmo com a astrologia babilônica e o estoicismo grego.
  • A abrangência dessa influência caldeu-iraniana se estende do mundo judaico e helênico ao romano, influenciando o próprio cristianismo e, através dos Paulicianos e Cátaros, chegando até a Europa medieval.
  • A fórmula de Nonnos que exemplifica essa combinação é: “Mithra, um Faetonte assírio na Pérsia”, expressando a combinação dos três elementos, grego, caldeu e iraniano, que a lenda mitraica oferecia.
  • Seu amigo Joseph Bidez demonstrou posteriormente que esses Maguséus haviam deixado sua marca na obra de Platão, enquanto Cumont continuou a detectar seus traços no mundo greco-romano.

Obras fundamentais e abordagem do simbolismo funerário romano

  • A obra principal que sintetiza essa descoberta é “As Religiões Orientais no Paganismo Romano”, considerada tão importante quanto “A Cidade Antiga” de Fustel de Coulanges.
  • Em colaboração com Joseph Bidez, ele produziu a obra capital “Os Magos Helenizados”, que aprofunda o estudo desse sincretismo religioso.
  • O conhecimento profundo dos textos antigos, monumentos arqueológicos e ideias religiosas do Oriente Próximo o levou a escrever “Estudos sobre o Simbolismo Funerário dos Romanos”.
  • Nesta obra sobre os sarcófagos e estelas funerárias, cada interpretação de cena se fundamenta nos testemunhos convergentes de textos literários, inscrições e outros monumentos arqueológicos.

A relação do cristianismo com seu contexto religioso e filosófico

  • Franz Cumont passou a reconhecer que o cristianismo não poderia ser isolado do meio onde se produziu, havendo um ponto de contato entre a tradição irano-caldeia dos Maguséus e o cristianismo nascente.
  • Ele afirmou que “o episódio dos Magos no primeiro evangelho tem manifestamente por objeto mostrar o clero da mais poderosa e mais sábia das religiões do Oriente se curvando diante da Criança que deve fundar a do futuro”.
  • Embora influenciado, o cristianismo não era totalmente redutível ao seu meio, escapando por algo que não permitia confundi-lo nem com os cultos dos mistérios pagãos nem com as especulações do neoplatonismo.
  • Uma citação que demonstra essa visão é: “Platão, primeiro defensor de um espiritualismo integral, refutador penetrante do materialismo, exerceu sobre a elaboração da teologia cristã uma influência decisiva que deveria se prolongar durante séculos”.

Questões sobre a Providência e a evolução espiritual na história

  • Em suas reflexões tardias, ele questionava se “os negócios do mundo são conduzidos por forças cegas, pelo que os Antigos chamavam de Fatum, ou se são dirigidos por uma Providência que os leva em direção a um objetivo que ela mesma se assinalou”.
  • Ele concluía que, “se uma vontade divina preside esta evolução, ver-se-á necessariamente na invasão do Ocidente pelos cultos orientais uma transição que deveria finalmente assegurar a expansão da nova fé em uma larga porção da humanidade”.
  • Essa perspectiva o aproximou da corrente do pensamento cristão, compreendendo nele as contribuições estrangeiras onde a própria Igreja se reconheceu.
  • Em sua mensagem de maio de 1947, ele se referiu a Roma como aquela “que, após ter, pagã, transmitido ao mundo latino a civilização helênica, tornada cristã, espalhou pela Europa a religião que é nossa”.

Atitude final diante da morte e reconciliação com a fé

  • Nos últimos meses de vida, sua única paixão foi a conclusão da obra “Lux perpetua” (Luz perpétua), que trata da vida após a morte no paganismo romano e que ele queria publicada antes de seu falecimento.
  • Diante da incerteza sobre o futuro, ele citou Homero, “ὄζον ἒν γούνασσι κεῖται” (isto está sobre os joelhos dos deuses), e acrescentou a oração cristã: “fiat Voluntas tua” (seja feita a Tua vontade).
  • Perto da morte, em Woluwe Saint-Pierre, ele pediu ao amigo Monsenhor Vaës que lhe ministrasse a extrema-unção, “retornando ao regaço materno”, como ele mesmo disse, da forma mais pacífica do mundo.
  • A citação final que marca essa reconciliação é: “Ele não disse nada além, a não ser, várias vezes durante seus últimos dias, que era bom cristão, confiando-se assim, ao que parece, sem se atormentar mais com terrores nem se embaraçar com escrúpulos, a essa Vontade que sentia ser boa”.
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