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CORRIDA DE ANTÍLOCO
* No plano do vocabulário, métis designa, como nome comum, uma forma particular de inteligência — uma prudência avisada — e, como nome próprio, uma divindade feminina, filha de Oceano.
- A deusa Métis, personagem que poderia parecer apagada, está confinada em papéis de coadjuvante: primeira esposa de Zeus, é engolida pelo marido mal se descobre grávida de Atena.
- Nas teogonias atribuídas a Orfeu, Métis figura em primeiro plano como grande divindade primordial na origem do mundo.
- O filólogo alemão Wilamowitz julgara encerrada a questão ao notar, em margem de uma de suas obras, que métis sobrevivera apenas como simples reminiscência poética após fortuna reduzida na epopeia homérica, mas Henri Jeanmaire reabriu o debate com maior rigor.
- Do estudo de Jeanmaire sobre o nascimento de Atena e a realeza mágica de Zeus retêm-se duas conclusões: a capacidade inteligente designada por métis se exerce em planos muito diversos, sempre com ênfase na eficácia prática e na busca do sucesso na ação.
- O termo métis associa-se a toda uma série de palavras que formam um campo semântico vasto, bem delimitado e estruturado.
- Esse campo inclui múltiplos saberes úteis à vida, maestria do artesão, truques mágicos, uso de filtros e ervas, astúcias de guerra, enganos, fingimentos e espertezas de todo gênero.
- O texto de Homero mais revelador da natureza da métis encontra-se no canto XXIII da Ilíada, no episódio dos Jogos — a corrida de carros —, em que o velho Nestor, modelo do sábio conselheiro experiente em métis, prodiga a seu filho Antíloco recomendações diante de adversários com cavalos mais velozes.
- Nestor diz ao filho: “Cabe a ti, meu menino, pôr na cabeça uma métis múltipla para não deixar escapar o prêmio.”
- Segue o trecho que canta os elogios da métis: “É pela métis, mais do que pela força, que vale o lenhador. É pela métis que sobre o mar cor de vinho o timoneiro guia o navio veloz apesar do vento. É pela métis que o cocheiro supera seu adversário.”
- A métis de Antíloco sugere uma manobra mais ou menos fraudulenta: aproveitando o estreitamento da pista ravinada, ele empurra seu carro obliquamente diante do de Menelau, surpreende o adversário e ganha a vantagem necessária para distanciá-lo nas últimas passadas.
- O episódio ilumina a oposição entre o emprego da força e o recurso à métis — em qualquer situação de confronto ou competição, o sucesso pode ser obtido pela superioridade de potência ou pela utilização de procedimentos de outra ordem.
- O sucesso que a métis proporciona reveste significação ambígua: ora é visto como produto de fraude, ora provoca admiração por ter o mais fraco triunfado contra toda expectativa.
- Por certos aspectos, a métis se orienta para o lado da astúcia desleal, da mentira pérfida, da traição — armas desprezadas por mulheres e covardes.
- Por outros aspectos, ela aparece como a arma absoluta, a única capaz de assegurar em toda circunstância a vitória e a dominação sobre outrem.
- Se Zeus é rei dos deuses e supera em potência todas as demais divindades, é porque é por excelência o deus da métis.
- Os mitos gregos que narram a conquista do poder pelo Cronida sublinham que a vitória no combate pela soberania devia ser obtida não pela força, mas por uma astúcia — graças à métis.
- Kratos e Bie — Dominação e Força bruta — só enquadram o trono de Zeus como servidores eternamente rivados a seus passos na medida em que a potência do Olímpico ultrapassa a simples força.
- Zeus não se contentou em unir-se em primeiro casamento a Métis: ao engoli-la, fez-se ele mesmo inteiramente métis.
- Após ter concebido Atena, Métis teria gerado um filho mais forte que seu pai, que o teria destronado — como Zeus destronara o seu; ao engoli-la, Zeus eliminou essa possibilidade.
- Não há mais métis possível fora de Zeus e contra ele: nenhuma astúcia se trama no universo sem passar primeiro por seu espírito.
- O segundo traço que o episódio da Ilíada esclarece diz respeito ao horizonte temporal da métis — sua ação se exerce em terreno movente, em situação incerta e ambígua, onde a cada momento as coisas podem se virar para um lado ou outro.
- O homem dotado de métis se mostra, em relação ao seu concorrente, ao mesmo tempo mais concentrado num presente do qual nada lhe escapa, mais tenso para um futuro de cujos aspectos já maquinou diversas possibilidades e mais rico da experiência acumulada no passado.
- Esse estado de premeditação vigilante é expresso pelo grego com as imagens da espreita e da tocaia — o homem em alerta espia o adversário para golpear no momento escolhido.
- Nestor previne Antíloco: “Tal outro, que conduz cavalos menos velozes, sabe mais de um truque; não tira os olhos do marco; faz a curva bem fechada; não esquece de segurar as rédeas de couro; conduz sem falhar, com o olho fixo em quem o precede.”
- O verbo grego que designa essa espreita é termo técnico de pesca, de caça e de guerra — o autor do Escudo hesiódico o emprega para falar de um pescador agachado à espreita, pronto a lançar sobre o peixe a armadilha de sua larga rede.
- A métis é rápida, pronta como a ocasião que deve ser agarrada ao voo; mas é densa e nutrida — carregada de todo o peso da experiência adquirida, e não leviana.
- Antíloco diz a seus cavalos: “Apressai-vos ao máximo. Encarrego-me de encontrar o meio e a ocasião, se a pista se estreitar, de me esgueirar à frente do Atrida, sem deixar passar o instante.”
- O conceito de kairós — a ocasião — está presente no texto da Ilíada: é uma ocasião que, longe de surpreender Antíloco, lhe fornece o meio de realizar o plano que concebera desde o início.
- Quando Píndaro celebra a habilidade do auriga Nicomaco, glorifica-o por ter sabido “dar rédeas aos cavalos no momento certo.”
- Dos dois cavalos divinos que compõem a parelha invencível de Adrasto, um chama-se Areion, que marca sua excelência; o outro chama-se Kairos — não basta ter os cavalos mais velozes; é preciso saber impulsioná-los no momento decisivo.
- Ao fim da corrida, Menelau acusa Antíloco de dolo e exige procedimento de juramento; o jovem reconhece seus erros e alega a irreflexão da juventude, que torna “leve” a métis do adolescente: “Sabes o que são os excessos do jovem? O espírito nele é rápido e a métis é leve.”
- A experiência do ancião lhe confere visão mais extensa: carregado de todo o saber acumulado ao longo dos anos, pode explorar antecipadamente os múltiplos caminhos do futuro, pesar o prós e os contras.
- Menelau exige que se faça vir o velho Príamo junto de seus filhos jovens: “O espírito dos jovens sempre flutua ao vento; quando um velho está com eles, ele vê, aproximando o futuro do passado, como é possível arranjar tudo da melhor forma para ambas as partes.”
- Polídamas é capaz de “ver ao mesmo tempo o passado e o futuro” — mas os troianos não o escutam e se rendem ao conselho de Heitor de travar batalha fora dos muros, conselho fatal.
- Diomede, ao partir em patrulha noturna, pede um companheiro: “Quando dois homens marcham juntos, se não é um, é o outro, em seu lugar, que vê a vantagem a aproveitar. Sozinho, pode-se ver também, mas a vista é mais curta e a métis mais leve.”
- É preciso ser tão experiente quanto Nestor ou dotado de métis extraordinária como Ulisses para ser capaz — segundo a fórmula que Tucídides aplica ao faro político de Temístocles — “de fazer, relativamente ao futuro, a mais justa ideia sobre as perspectivas mais extensas e prever da melhor forma as vantagens e os inconvenientes dissimulados no invisível.”
- Prometeu — aquele que reflete antecipadamente — tem por irmão gêmeo seu duplo e contrário Epimeteu — aquele que compreende depois; a previsão humana é apenas o outro aspecto de sua ignorância radical do futuro.
- A métis não é una nem unida, mas múltipla e diversa — Nestor a qualifica de pantoie, e Ulisses é o herói polimetis, assim como é polutropos e polumechanos, versado em astúcias variadas.
- O polimetis porta igualmente o nome de poikilometis e de aiolometis.
- O termo poikilos designa o desenho variegado de um tecido, o cintilamento de uma arma, a pelagem manchada de um cervo, o dorso brilhante da serpente constelado de toques escuros — esse mosaico de cores e esse entrelaçamento de formas produzem um efeito de iridescência e ondulação.
- Platão associa o poikilos ao que nunca permanece semelhante a si mesmo, e o opõe ao que é simples.
- Hesíodo chama Prometeu de poikilos ao mesmo tempo que de aiolometis.
- Esopo observa, em uma fábula, que se a pantera tem a pelagem variegada, a raposa é poikilos de espírito.
- Aristófanes, em Os Cavaleiros, adverte um dos protagonistas contra um adversário especialmente perigoso: “O homem é poikilos, manhoso; encontra muito facilmente expedientes para se tirar das dificuldades.”
- Segundo análise linguística de Émile Benveniste, aiolos está ligado à raiz de aion — força de vida que se realiza na existência humana, depois continuidade de vida, duração, período de tempo —, e sua significação fundamental é: rápido, móvel, mutável.
- O termo aiolos designa, entre os objetos, escudos que giram cintilando; entre os animais, vermes, mutucas, vespas e enxames de abelhas; entre os homens, aqueles cujo espírito tortuoso sabe se virar em todos os sentidos.
- Píndaro chama Ulisses de “aiolos” — impostor ondulante.
- A métis aparece múltipla, variegada e ondulante porque seu campo de aplicação é o mundo do mutável, do múltiplo e do ambíguo — ela porta sobre realidades fluidas que reúnem em si, a cada momento, aspectos contrários e forças opostas.
- Para dominar uma situação cambiante e contrastada, a métis deve se fazer mais flexível, mais ondulante, mais polimórfica do que o fluxo do tempo: assim o timoneiro usa de astúcia com o vento para conduzir, apesar dele, o navio a bom porto.
- Apolodoro atesta que a esposa de Zeus é dotada do poder de metamorfose — como outras divindades marinhas: Nereu, Proteu, Tétis — podendo assumir as aparências mais diversas; “Métis se metamorfoseou em toda sorte de formas” para escapar ao abraço de Zeus.
- Zeus subjuga Métis retornando contra ela as próprias armas da deusa: a premeditação, o engano, o ataque de surpresa, a apreensão brusca.
- A variegatura e o cintilamento da métis marcam sua parentela com o mundo múltiplo, dividido e ondulante em que está imersa para exercer sua ação — é essa cumplicidade com o real que assegura sua eficácia.
- A métis é ela mesma uma potência de astúcia e de engano — ela age por disfarce, e para enganar sua vítima assume uma forma que mascara, em vez de revelar, seu ser verdadeiro.
- A manobra de Antíloco, tal como a descreve a Ilíada, é um “logro” — dólos — desse gênero: o jovem premeditou seu golpe, observou o terreno e, ao urdir sua astúcia, mostrou-se prudente e precavido, atento a não agir de forma irrefletida.
- Para ser eficaz, a manobra deve enganar Menelau e se disfarçar em seu contrário: quando vê o carro de Antíloco se inclinar para o seu, o rei de Esparta imagina que o jovem, por falta de experiência, perdeu o controle de seus animais — “Antíloco, ele lhe grita, tu conduzes como um louco.”
- A astúcia prudente de Antíloco, calculando seu golpe e conduzindo diretamente suas bestas sobre a linha escolhida, simula a irreflexão e a impotência, como se não ouvisse Menelau.
- Ulisses — o polimetis, a astúcia feita homem — diante dos troianos reunidos, ao se aprontar para urdir a trama cintilante de seu discurso, fica ali, gauchamente plantado, os olhos fixos no chão, sem levantar a cabeça, segurando o cetro imóvel como se não soubesse usá-lo — o mestre da duplicidade, ao tomar a palavra, finge ser incapaz de abrir a boca.
- O dólos homérico abrange: o cavalo de Troia, o leito de amor com laços mágicos, o isca para a pesca — todas armadilhas que dissimulam, sob aparências tranquilizadoras ou sedutoras, o perigo que encerram em si mesmas.
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