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METIS
VERNANT, Jean Pierre; DÉTIENNE, Marcel. As Astúcias Da Inteligência: A Métis Dos Gregos. São Paulo: Odysseus, 2008.
- Ao término de uma longa investigação sobre a métis, torna-se possível, como quem olha para o caminho percorrido ao fim de uma viagem, refletir sobre o trabalho realizado e tentar definir o que foi feito.
- A pesquisa durou cerca de dez anos, com algumas interrupções, e revelou que o horizonte do estudo se expandia à medida que avançava.
- A cada vez que se julgava próximo de concluir, as fronteiras do domínio recuavam.
- O terreno explorado havia sido ignorado pelos helenistas, por não terem interrogado o lugar da métis na civilização grega.
- O livro não cobre todo o campo da métis — vastas zonas permanecem virgens e demandam investigações futuras.
- Françoise Frontisi já dedicou obra a Dédalo, patrono lendário dos saberes artesanais.
- Laurence Lyotard-Kahn desenvolve pesquisas sobre o personagem de Hermes, figura da inteligência astuciosa no âmbito divino.
- O leitor tem o direito de perguntar o que é esse domínio de estudos, onde situá-lo na sociedade e na cultura gregas e a quais disciplinas pertence a abordagem adotada, perguntas cuja resposta não é simples.
- A realidade investigada se projeta sobre uma pluralidade de planos: teogonias, metamorfoses de divindades aquáticas, saberes de Atena e Hefesto, de Hermes e Afrodite, de Zeus e Prometeu.
- Abrange ainda armadilhas de caça, redes de pesca, artes do cesteiro, do tecelão e do carpinteiro, a maestria do navegador, o faro do político, o olhar experiente do médico.
- Inclui as astúcias de personagens tortuosos como Ulisses, as metamorfoses da raposa, a polimorfía do polvo, os jogos de enigmas e adivinhações, o ilusionismo retórico dos sofistas.
- A investigação percorre o universo cultural grego desde as mais antigas tradições técnicas até a organização do panteão.
- O trabalho é, sob certos aspectos, um estudo de vocabulário — análise do campo semântico da métis, de sua coerência e de sua notável estabilidade ao longo do helenismo.
- Toca a história das técnicas e da inteligência aplicada nos saberes artesanais.
- Comporta capítulos inteiros de análise mitológica e de deciframento das estruturas do panteão.
- Insere-se na psicologia histórica, pois busca apreender uma grande categoria do espírito em todos os estratos da cultura grega.
- Trata-se de uma categoria mental, não de uma noção — não é possível fazer uma história das ideias nesse campo.
- As formas de inteligência astuciosa nunca são objeto de formulação explícita, de análise conceitual ou de exposição teórica sistemática.
- Não existem tratados da métis como existem tratados lógicos, nem sistemas filosóficos construídos sobre seus princípios.
- A presença da métis no universo mental dos gregos pode ser decifrada nas práticas sociais e intelectuais, mas não está dada em nenhum texto que exponha de antemão seus fundamentos.
- A métis não se manifesta abertamente pelo que é — ela aparece sempre de forma implícita, imersa em uma prática que não se preocupa em explicitar sua natureza nem em justificar seu procedimento.
- Os helenistas modernos, ao desconhecer seu papel, seu impacto e até sua existência, permanecem fiéis a uma certa imagem que o pensamento grego deu de si mesmo, imagem na qual a métis figura estranhamente como ausente.
- A métis é uma forma de inteligência e de pensamento, um modo de conhecer, que implica um conjunto complexo e coerente de atitudes mentais.
- Combina faro, sagacidade, previsão, flexibilidade de espírito, dissimulação, esperteza, atenção vigilante, senso de oportunidade, habilidades diversas e experiência longamente adquirida.
- Aplica-se a realidades fugazes, mutáveis, desconcertantes e ambíguas, que não se prestam à medida precisa, ao cálculo exato nem ao raciocínio rigoroso.
- No quadro do pensamento filosófico, todas as qualidades de espírito que compõem a métis são frequentemente relegadas à sombra, afastadas do domínio do conhecimento verdadeiro.
- São reduzidas, conforme o caso, ao nível da rotina, da inspiração aleatória, da opinião inconstante ou da pura charlataneria.
- Investigar a inteligência grega onde ela disserta sabiamente sobre sua própria natureza é, portanto, renunciar de antemão a encontrar a métis.
- É preciso persegui-la em outros setores — naqueles que o filósofo normalmente condena ao silêncio ou trata com ironia ou polêmica.
- A posição de Aristóteles não é idêntica à de Platão no que diz respeito à métis, e essas diferenças exigem nuances.
- Para Platão, a destreza, a segurança do golpe de vista e a penetração de espírito — operantes nas empresas em que a métis busca, por tentativa e conjectura, atingir seu alvo — pertencem a um modo de conhecimento exterior ao saber e alheio à verdade.
- Em Aristóteles, a prudência retém, em sua orientação e em seus procedimentos, muitos traços da métis.
- Pode-se perguntar se o próprio Platão não opera, no campo da métis, uma clivagem — conservando das habilidades artesanais o que, pelo uso de instrumentos de medida, pode integrar-se a um conhecimento de tipo matemático e fornecer ao filósofo o modelo de uma demiurgia produtora de obra real, estável e organizada dentro do devir.
- O estudo da contribuição dos sofistas, que ocupam posição decisiva na articulação entre a métis tradicional e a nova inteligência filosófica, precisaria ser retomado na perspectiva indicada.
- O escrito e o ensino filosóficos, tais como se desenvolvem no século IV, marcam uma ruptura com um tipo de inteligência que, embora se mantendo em vastos setores — a política, a arte militar, a medicina, os saberes artesanais —, aparece descentrada e desvalorizada em relação ao que constitui doravante o foco da ciência helênica.
- O universo intelectual do filósofo grego, ao contrário do dos pensadores chineses ou indianos, pressupõe uma dicotomia radical entre o ser e o devir, o inteligível e o sensível.
- As noções contrastadas se agrupam em pares e se ajustam umas às outras para formar um sistema completo de antinomias que definem dois planos de realidade mutuamente excludentes.
- De um lado: o domínio do ser, do uno, do imutável, do limitado, do saber reto e fixo.
- Do outro: o domínio do devir, do múltiplo, do instável, do ilimitado, da opinião enviesada e flutuante.
- Nesse quadro de pensamento, a métis não pode mais ter lugar, pois sua característica é operar por um contínuo jogo de oscilação entre polos opostos.
- O indivíduo dotado de métis — seja deus ou homem —, ao enfrentar uma realidade múltipla e cambiante, só pode dominá-la mostrando-se ele mesmo mais múltiplo, mais móvel, mais polivalente do que seu adversário.
- Para atingir diretamente seu alvo através de um mundo flutuante, é preciso proceder obliquamente — tornar a inteligência suficientemente tortuosa e flexível para dobrar em todos os sentidos.
- Cabe ao possuidor de uma métis torva combinar com a maior retidão o caminho que conduz o projeto à sua realização efetiva.
- A investigação buscou cercar, em todos os níveis e sob todas as formas possíveis, a gama variada de operações pelas quais a inteligência, para entrar em contato com seu objeto, se coloca diante dele em uma relação de rivalidade feita ao mesmo tempo de cumplicidade e de oposição.
- A investigação sobre as astúcias da inteligência se restringiu exclusivamente aos fatos gregos, com a maior parte das análises dedicada a estabelecer o lugar, as funções e os meios de ação de Métis no mito.
- Métis permite colocar certos problemas gerais de organização do panteão: há deuses dotados de métis e outros desprovidos dela.
- Questiona-se em que a métis de Cronos ou do Titã Prometeu se opõe à de Zeus, o Olímpico, soberano do universo.
- Interroga-se onde está a linha de clivagem entre a métis de Atena e as de Hefesto, de Hermes e de Afrodite.
- Pergunta-se por que a ciência oracular de Têmis e de Apolo, assim como as magias de Dionísio, se situam fora do campo da métis.
- As pesquisas foram conduzidas, essencialmente, a partir e em torno de Atena — filha de Métis —, que representa essa potência divina no mundo organizado dos deuses olímpicos.
- O personagem de Métis, seu papel nos mitos de soberania e, entre os órficos, nos mitos cosmogônicos, apela à comparação com as tradições míticas do Oriente Próximo.
- Especialmente com os relatos em que o deus sumeriano Enki-Ea aparece também como senhor das águas, inventor das técnicas e depositário de um saber pleno de astúcia.
- A métis grega coloca o problema da posição que ocupa, na economia dos mitos de numerosos povos, o personagem do tipo enganador — aquele que os antropólogos anglo-saxões convencionaram designar pelo nome de trickster, o logrador.
- O programa que se propõe ao término deste trabalho é a confrontação dos modelos operatórios que, no pensamento religioso, presidem à lógica da inteligência astuciosa — modelos que, no caso grego, se traduzem sob a forma do retorno, do laço e do círculo.
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