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DETIENNE
Marcel Detienne (1935-2019)
DETIENNE, Marcel. Comparer l’incomparable. Paris: Seuil, 2000.
Abertura: Para um comparatismo construtivo. Entre Historiadores e Antropólogos
- Nada o espírito humano faz tão frequentemente quanto comparações, e o ato de comparar carrega consigo, por capilaridade gramatical, uma apreciação, uma estimação e um primeiro julgamento de valor que se aloja na fórmula quase proverbial “só se pode comparar o que é comparável”.
- Bernardin de Saint-Pierre é citado como autoridade sobre a onipresença da comparação no pensamento humano.
- A fórmula “só se pode comparar o que é comparável” implica uma escolha prévia no espírito do observador que declara “comparável” uma coisa, uma situação, uma pessoa — escolha que parece já afastar a possibilidade de construir o que pode ser “comparável”.
- O anatomista comparado não começa por emitir juízos de valor sobre os órgãos que examina; o linguista que trabalha numa gramática comparada — das línguas do Cáucaso ou do mundo indo-europeu — recorre à morfologia, à fonética ou ao vocabulário sem declarar que “só se pode comparar o que é comparável”; seria ligeiramente ridículo se o fizesse.
- Desde os anos 1920, os historiadores mais reputados repetem a fórmula restritiva, enquanto nenhum antropólogo dela se serve — o que revela que o senso comum não é o mesmo de um saber ao outro.
- A atividade comparativa é consubstancial ao saber antropológico; na “ciência histórica”, ela é sempre insólita e logo inquietante, sobretudo quando pretende ser construtiva e experimental.
- No século XIX, desde as primeiras esboços do que Edward Tylor chamava de “ciência das civilizações”, os antropólogos puseram em relação não relações imediatas, mas conjuntos de relações previamente extraídos de cada cultura por análise interna.
- Os historiadores franceses, soberanamente indiferentes à etnologia — cultivada em países distantes como Inglaterra ou América —, entregavam-se apaixonadamente ao conhecimento do que lhes parecia marcado pelo selo do Incomensurável: a Nação, a sua própria.
- Os historiadores fardados desde 1870 erguem, dos dois lados do Reno, numa Europa então rica e poderosa à escala do globo, a fortaleza do Incomparável: os nacionais inventam uma “ciência histórica” destinada a forjar a identidade de uma raça e de suas forças de terra e de sangue; as sociedades sem civilização ou sem escrita são descartadas.
- Os comparatistas de passagem são abatidos à vista, sem advertência; os etnólogos, administradores ou viajantes eram contados nos dedos de uma mão — esses insignificantes que não tinham direito nem às cátedras nem mesmo aos assentos suplementares da Universidade.
- A necessidade de apresentar ao antropólogo, recém-chegado à Île-de-France, quem era o historiador que tinha diante de si motivou a elaboração de um manifesto pelo comparatismo construtivo.
- O exercício comparatista exige trabalhar em conjunto: convida a cunhar as categorias do senso comum, a construir comparáveis que nunca são imediatamente dados e que não visam nem a estabelecer tipologias nem a traçar morfologias.
- Um medievalista, um sinólogo ou um indianista teriam podido igualmente engajar um comparatismo construtivo entre historiadores e antropólogos; a escolha de um helenista se justifica porque o helenismo nobre prefere deixar livre curso ao julgamento de valor e à exaltação do Incomensurável.
- Nem sempre foi assim: a civilidade da Grécia antiga, desde que percebida em seus traços maiores, entrou no campo da comparação aberta; desde o século XVI, o Grego e o Americano conversam — mesmos relatos fabulosos, costumes tão próximos.
- Se a Grécia foi declarada “incomparável”, foi sob a pressão dos nacionais impacientes de se reservar a herança de Platão, de Homero e do Ocidente como acréscimo.
- Sob a influência da antropologia social introduzida na França por Claude Lévi-Strauss, historiadores da Idade Média e das sociedades antigas lançaram nos anos 1970 programas de antropologia ditos “históricos”, sem muito se preocupar em ser “comparativos”.
- Helenistas como Moses I. Finley ou Jean-Pierre Vernant partiram com bom passo em direção à perspectivação de sociedades separadas pelo tempo e pelo espaço, e alguns anos depois voltaram ao vilarejo para, sem dúvida, melhor comparar os Gregos com os Gregos.
- Desses esforços surgiram “antropologias” locais — do banquete na Grécia ou do parentesco em Roma —, deslumbradas com novos aspectos e objetos inéditos; por trás delas emergem frequentemente antropologias da Grécia onde se tem a certeza de nunca sair do solo grego nem mesmo dos arredores imediatos da Acrópole.
- Marc Bloch, ao propor há mais de setenta anos a comparação de sociedades limítrofes e contemporâneas no quadro da Europa medieval, ainda hoje faz figura de inovador nas águas mornas dessas antropologias para historiadores indiferentes a qualquer comparatismo heurístico.
- Comparer les Grecs avec les Grecs non seulement ne gêne personne mais va dans le sens des historiens naturellement amoureux de la Nation — tradução: comparar os Gregos com os Gregos não só não incomoda ninguém como vai no sentido dos historiadores naturalmente apaixonados pela Nação.
- Três ou quatro terrenos para um comparatismo construtivo foram retidos dentre os canteiros abertos em quinze anos de trabalho.
- O primeiro se desdobra em torno da questão: o que é um lugar, o que é um sítio, como se faz o território? — bastando articular cinco ou seis sociedades para descobrir as dissonâncias de uma cultura à outra e interrogar o que significa fundar, traçar um caminho, ter raízes ou fazer de um lugar um não-lugar; no horizonte desse percurso comparatista está a configuração “A Terra e os Mortos”, entre Barrès-Vichy e o recente “Français de souche” de um lado do tempo, e de outro o puro ateniense em sua autoctonía fremente à aproximação dos ameríndios surgidos para apagar todo rastro de seus passos num território.
- A segunda enquete diz respeito à historicidade e seus regimes — o que significa o passado entre o Japão, o mundo védico, Israel e Roma com seus Pontífices? o que quer dizer mudança? como se chega a se convencer de que há um “saber do passado em si”? — pois a historicidade de uma cultura dominada pelo saber divinatório não se compõe necessariamente dos mesmos elementos que a de uma sociedade que valoriza as rupturas e as mudanças radicais.
- Um terceiro reconhecimento incide sobre práticas de assembleia que moldam lugares do político, observando maneiras inéditas de deliberar coletivamente — na Etiópia do Sul hoje, nas fundações dos Cossacos do século XV ou no laboratório surpreendente das comunas italianas entre os séculos XI e XIII; que uma forma de democracia tenha sido inventada nas montanhas da Etiópia permite pensar “o político” à margem da via expressa que liga a Atenas de Péricles à Revolução de 1789.
- Os sistemas politeístas — na Índia, no Japão, na África e nas culturas antigas como Egito, Mesopotâmia, mundo grego ou asteca — aguardam os analistas comparatistas dispostos a inventariar todas as posições ocupadas por uma divindade, um gênio ou uma potência, e sobretudo decididos a se entregar ao jogo da experimentação.
- Convencido de que as potências devem se definir pelo conjunto dos lugares que podem postular, o analista suspende os traços individuados de seus gênios ou divindades para focalizar em objetos, gestos e situações que utilizará como reativos entre as potências — ora emparelhadas em casais ou grupos constituídos, ora combinadas para a ocasião da manipulação.
- O essencial é fazer reagir uma potência, isolada ou agenciada, a uma série de objetos concretos, de gestos significativos ou de situações extraídas do espaço cultural de uma sociedade politeísta — simplesmente para ver o que acontece: fazer reagir para descobrir um aspecto despercebido, um ângulo insólito, uma propriedade oculta.
- O jogo vale a pena: o comparatista experimentador se dá assim a liberdade e o prazer de desmontar e remontar lógicas parciais de pensamento — lucro pleno para o antropólogo e seu companheiro, o historiador.
- O texto foi redigido entre Johns Hopkins e Pisa, em 1998–1999.
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