DUMÉZIL
Georges Dumézil (1898-1986)
Entretiens avec Didier Eribon
“Jamais tive vontade de escrever minhas Memórias”, declarava Georges Dumézil durante a emissão especial de Apostrophes que lhe foi consagrada em 18 de julho de 1986, “um sábio deve apagar-se por trás de sua obra”. Ele havia, contudo, aceitado, alguns meses antes, narrar-se no âmbito da obra que se vai ler. Evidentemente, não se tratava de compor aqui, sob a forma de diálogo, a autobiografia que ele não cogitava redigir por si mesmo. Meu projeto foi diferente desde o início: tentar inscrever o procedimento científico e o itinerário intelectual de um homem de exceção em suas relações com a experiência vivida, em sua história, a do século e do mundo, assim como a do indivíduo. Georges Dumézil aceitou o jogo: confiou-se sem rodeios e sem reticências ao gravador que registrava nossas palavras.
Mas que não se espere encontrar aqui uma síntese ou um balanço. Nem da vida, nem da obra. Da vida, antes de tudo: porque as reconstruções retrospectivas são por vezes muito belas, mas não dão necessariamente a “verdade”. Caem com demasiada frequência naquilo que Pierre Bourdieu chamou, em um artigo de título sugestivo, “a ilusão biográfica”. Uma vida é um entrelaçamento de acontecimentos, de escolhas, de encontros… sem outra continuidade evidente além do nome próprio; e querer conferir um pouco de ordem e de lógica a esse caos logo se aproxima do artifício. Mas, inversamente, para mostrar e pôr em cena as linhas quebradas, as temporalidades fragmentadas, os jogos da memória e do presente…, seria necessária toda a arte do romancista. Que se pense nos textos de Claude Simon, obras-primas do gênero. Apenas isto: não se queria — nem se podia — fazer obra literária. Assim, contentou-se, para não cair na armadilha posta em evidência por Bourdieu, em evitar dar às páginas que seguem uma ordem e uma organização rígidas demais. Tanto mais que seria necessário também, se se quisesse ser exaustivo, mobilizar todos os instrumentos do sociólogo para reconstituir o campo universitário de cada época, de cada período, o quadro das relações entre pesquisadores, entre correntes de ideias, entre instituições ou estabelecimentos de ensino etc. Mas a análise sociológica não era de nossa alçada. Procurou-se simplesmente discernir, na cena intelectual ou professoral — ou em seus bastidores —, as personagens que desempenhavam os papéis principais em cada momento considerado.
Também não se trata de um balanço da obra: que não se busque neste pequeno volume um resumo de sessenta anos — mais de sessenta anos! — de trabalho paciente e rigoroso. Georges Dumézil não cessa de dizer que não se podem separar seus resultados e suas descobertas do percurso que os produziu. Nenhum condensado poderia substituir os próprios livros em que esses processos são expostos. Georges Dumézil tem consciência demasiado viva do perigo de “manualização” que espreita todos os autores para que pudesse cogitar, por um só instante, apresentar ele próprio um manual.
Então? Então, são apenas conversações que se dão a ler. Com suas repetições e suas lacunas, inevitáveis. Conversações relidas, sem dúvida, retrabalhadas, reescritas (quis reduzir as perguntas para não atolarem as respostas; um tratamento formal convencional substituiu o tratamento familiar de todos os dias…), mas conversações ainda assim. Nada mais. Nada menos tampouco: elas fornecem, espero, muitas informações sobre a oficina da pesquisa, sobre as condições de elaboração de uma das maiores construções de nosso tempo no domínio das ciências humanas. O historiador das ideias sem dúvida delas tirará proveito; o sociólogo do conhecimento também. Mas, antes de tudo, gostaria que um público amplo encontrasse nelas simplesmente a felicidade de um encontro com esse homem fascinante e cativante que é Georges Dumézil, e que se abrisse, através de nossos diálogos, um acesso à sua obra.
Não gostaria de alongar desmedidamente este preâmbulo. Cumpre-me dizer, apesar de tudo, qual foi a alegria desses poucos meses de trabalho em comum. Há já vários anos, Georges Dumézil e eu temos o hábito de nos ver todos os domingos. Passamos assim longas tardes a conversar em grande cumplicidade e na mais total confiança. Nossa amizade não fora acaso selada e abençoada, em um belo dia de primavera, no pátio do Collège de France, por Michel Foucault, a quem nos ligavam, cada qual de seu lado, estreitas relações de amizade, antigas para Georges Dumézil, mais recentes evidentemente para mim, e infelizmente demasiado breves? Não foi, portanto, necessário modificar nossos hábitos, nosso “ritmo”, quando Hector Bianciotti me sugeriu fazer um livro de entrevistas para a coleção Folio das edições Gallimard. Continuamos a nos ver a cada semana, e bastou orientar, estruturar um pouco, nossas conversações, entre os meses de fevereiro e julho de 1986, com vistas a essa publicação.
Mas deixemos que se levante o pano: a cena se passa em um grande apartamento da rua Notre-Dame-des-Champs, em Paris, entre o bulevar do Montparnasse e o jardim do Luxemburgo. O interrogado está sentado em seu divã, bem apoiado contra uma pilha de almofadas; o interrogador está sentado diante dele, numa cadeira. Entre os dois, o gravador faz ouvir seu leve ronronar…
DIDIER ERIBON, 20 de julho de 1986.
É muito agradável contradizer-se, desmentir-se: prova, ou miragem, de liberdade. Mas disse demasiadas vezes que, para escolares de meu gênero, apenas conta o resultado, e que o indivíduo responsável só tem de desaparecer como uma ferramenta que já cumpriu seu tempo. Hoje, sinto-me um pouco constrangido ao ver-me arrastado para o partido contrário. A desculpa é que meu resultado, por natureza provisório, só tem interesse, só se compreende, pelos ensaios, pelos progressos, também pelos fracassos, que o prepararam, e que essas aventuras do espírito duplicam em parte os episódios de minha carreira e, em suma, de minha vida: crê-se pinçar a obra, arrancam-se farrapos de homem. Não deixarei depois de mim uma soma homogênea, horizontal, de livros, mas uma pilha de “Obras incompletas”, cujo equilíbrio é assegurado apenas por um mínimo de andaime carnal.
E, além disso, tenho escolha? O tempo já não permite a confortável solidão. Os meios, os apetites da informação fazem com que, se não se conta a si mesmo, outros, benevolentes ou malevolentes, componham a pessoa. Mais vale desempenhar de bom grado o papel ao qual não se pode escapar. Tive por longo tempo a impressão de que cada um de nós apenas representa um longo melodrama do qual é a vedete, o público e a crítica, mas não o autor, nem o encenador, nem o ponto, visto que bilhões de equações desconhecidas, manejadas ou não por uma Providência inconcebível, comandam a cada instante seu gesto e sua palavra. Ora, eis que, pelos meios de comunicação, uma segunda peça recobre a primeira, uma espécie de comédia de bulevar em que se é sobretudo figurante.
E, além disso, além disso, como resistir a Didier Eribon? Jornalista hábil, portanto curioso e ousado, ele jamais esquece os deveres da amizade. Amigo leal, portanto discreto, ele não esquece a vocação do jornalista. Ele tem seu lugar no grupo dos cadetes extremos que iluminam meu crepúsculo. Penso junto deles, nas noites prolongadas do verão upsaliano, em que se pode ler Lagerkvist ou Sófocles até quase meia-noite, sob um céu rubro, à orla do bosque. Mas não haverá aurora upsaliana.
Resta a interrogação do filósofo. Por que Eribon, por que eu, por que o diplodoco, por que, na imensidão entregue às radiações, “esses fogos vis”,
por testemunhas
de que de um astro em festa se acendeu o gênio
A interrogação é sem dúvida apenas uma tentação, previsível, da linguagem. O homo sapiens, ou seu predecessor, disse “para”, porque tinha intenções, e “quê”, porque tinha ignorâncias. Depois, na maioria das línguas, soldou as duas palavras e não cessa de experimentar esse par sobre qualquer matéria. Seria belo demais se obtivesse um sentido a cada vez.
GEORGES DUMÉZIL, 27 de julho de 1986.
