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mitologia:eliade:1954:6.3

6.3 Mantra

ELIADE, Mircea. Le Yoga. Immortalite et liberte, 1954

YOGA E TANTRISMO

MANTRA, DHĀRAṆĪ

1. O valor dos sons místicos é reconhecido desde os tempos védicos, sobretudo na identificação de Oṃ com Brahman, os Vedas, as grandes divindades e Īśvara, mas é o tantrismo budista e xivaíta que confere aos mantras e às dhāraṇīs a condição de veículos de libertação, desenvolvendo tradições anteriores sobre a potência criadora da palavra e das fórmulas rituais.

2. A difusão das fórmulas sagradas compreende tanto sua popularização pela aparente facilidade de alcançar méritos e salvação mediante a repetição quanto uma elaboração espiritual mais profunda, cujo fundamento reside na utilização dos fonemas como suportes de concentração e na constituição tântrica de uma gnose e de uma liturgia que renovam as tradições arcaicas dos sons místicos.

3. As dhāraṇīs, empregadas como proteção e sustentação da concentração, possuem um uso talismânico entre os profanos e uma função contemplativa entre os ascetas, que as articulam à respiração e à repetição mental, reconhecendo nesses fonemas frequentemente ininteligíveis uma linguagem iniciática cujo significado somente se revela pela pronúncia correta, pela meditação e pelo despertar de sua ressonância interior.

4. Os fonemas descobertos na meditação expressam estados de consciência de estrutura cósmica que escapam à linguagem profana e se aproximam das invenções sonoras e das línguas secretas do êxtase xamânico, permitindo ao iogue tântrico buscar uma consciência primordial e uma plenitude anteriores à linguagem e à experiência temporal, ao mesmo tempo que revaloriza a experiência ordinária mediante léxicos secretos.

5. Os mantras e as dhāraṇīs devem ser recebidos oralmente do mestre, e sua aplicação correta é considerada capaz de produzir poderes extraordinários, eliminar perigos e pecados e conduzir ao conhecimento supremo e à condição de Buda, embora essa eficácia exija uma técnica rigorosa de purificação do pensamento, concentração sobre cada letra e observância das condições adequadas de recitação.

6. A eficácia dos mantras decorre de sua identidade potencial com as realidades que representam, pois cada divindade e estado de santidade possui um som-semente cuja repetição permite assimilar sua essência ontológica, tornando possível concentrar uma doutrina inteira, como a Prajñāpāramitā, em uma única sílaba que comunica diretamente sua realidade espiritual.

7. O mantra não constitui um simples resumo conceitual, mas um símbolo que reúne o signo e a realidade simbolizada, permitindo assimilar diretamente a verdade espiritual por meio das correspondências entre sons, letras, cores, imagens, órgãos sutis e forças divinas, de modo que a meditação sobre qualquer desses suportes pode despertar no corpo as potências do cosmos e incorporar a modalidade de ser que lhes corresponde.

8. A ausência de significado discursivo dos mantras pode conduzir ao reconhecimento da irrealidade do mundo profano, mas essa dissolução constitui apenas uma etapa para alcançar uma realidade mais profunda, pois a repetição indefinida destrói a linguagem ordinária e, em determinadas tradições místicas, prepara as experiências espirituais subsequentes.

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