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mitologia:eliade:1969:9

9 Dualismo

ELIADE, Mircea. The Quest. Meaning and Content in the Study of Religion. Chicago: The University of Chicago Press, 1969

História de um problema

1. O dualismo religioso e filosófico recebeu uma nova interpretação com Durkheim e Mauss, cuja análise das classificações coletivas vinculou a organização lógica do universo à divisão social em clãs e totens, estabelecendo uma perspectiva sociologista na qual as estruturas da sociedade forneceriam o modelo para a ordenação das ideias.

2. A correspondência entre classificações sociais e cósmicas não demonstra que a sociedade seja sua causa ou modelo, permitindo apenas reconhecer um princípio comum de ordenação cuja origem pode ser buscada na experiência primordial de orientação no espaço.

3. A influência de Durkheim e Mauss estendeu-se a numerosas pesquisas, como a interpretação de Robert Hertz da preeminência da mão direita pela oposição religiosa entre sagrado e profano e o reconhecimento, por Marcel Granet, da importância dessa abordagem para os estudos chineses.

4. O interesse pelas organizações sociais binárias favoreceu também o difusionismo britânico, que explicou sua formação pelo encontro e pela combinação de povos distintos, atribuindo aos invasores vitoriosos e às populações autóctones a constituição conjunta de sistemas duais, como na interpretação de Rivers para a Melanésia.

5. A introdução da dimensão histórica na etnologia reconheceu as sociedades arcaicas como produtos da história, mas associou esse avanço à suposição de uma criatividade muito limitada, explicando quase exclusivamente pela difusão as semelhanças entre culturas.

6. O difusionismo panegípcio de Elliot Smith e Perry atribuiu ao Egito a origem das organizações duais e de numerosos elementos culturais difundidos pelo mundo, interpretando tanto a uniformidade dos grupos caçadores e coletores quanto as semelhanças das sociedades tradicionais como provas da escassa criatividade humana.

7. A historização panegípcia conferiu às culturas arcaicas uma origem histórica aparentemente comum, mas reduziu sua diversidade a uma única trajetória derivada do Egito e protagonizada pelos mesmos grupos difusores, tomando a organização dual como evidência dessa dependência universal.

Historicismo e reducionismo

1. As classificações duais da sociedade e do mundo foram explicadas por uma origem social ou pela combinação histórica de povos diferentes, tendência que também orientou interpretações menos extremas, como a hipótese de Piganiol sobre a formação romana pela união de latinos indo-europeus e sabinos mediterrâneos.

2. A hipótese de uma dualidade étnica romana distribuiu práticas funerárias, cultos e ritos entre dois povos, atribuindo aos indo-europeus a cremação, o fogo, o Sol e a rejeição do sacrifício humano, e aos sabinos a inumação, a Lua, a serpente e os sacrifícios sangrentos.

3. A interpretação de Dumézil enfraqueceu essa construção ao demonstrar que cremação e inumação podem coexistir sem indicar povos distintos e que a guerra entre romanos e sabinos corresponde a um tema mítico indo-europeu também presente no conflito escandinavo entre ases e vanes, encerrado pela integração das divindades da fecundidade e da riqueza.

4. O estruturalismo procurou superar as explicações sociológicas e historicistas ao interpretar as oposições como elementos de sistemas inconscientes, aplicando o modelo linguístico ao parentesco e aos mitos, cuja função seria fornecer uma organização lógica para reconhecer contradições e desenvolver sua mediação progressiva.

5. A interpretação estruturalista substitui as origens sociais e históricas por uma continuidade entre as estruturas da matéria, da vida, da mente, da linguagem e das criações religiosas, constituindo um reducionismo materialista mais abrangente e sutil que os materialismos clássicos.

6. A compreensão das polaridades religiosas exige uma hermenêutica que reconheça mitos, ritos, teologias e classificações como criações espirituais irredutíveis a realidades exteriores, buscando seus significados e a diversidade das soluções que oferecem aos problemas do antagonismo, da ruptura e da união dos contrários.

Dois tipos de sacralidade

1. A distinção entre sagrado e profano não constitui necessariamente um dualismo, pois a hierofania e a dessacralização permitem a passagem entre essas condições, enquanto o antagonismo religioso entre os sexos frequentemente opõe duas sacralidades específicas, como demonstram os ritos secretos masculinos e femininos e os mitos que atribuem às mulheres a posse original dos objetos cultuais.

2. A diferença entre sacralidades masculinas e femininas aparece em tradições como a de Malekula, onde ileo e igah designam potências sagradas distintas, cuja interação pode enfraquecer ou anular o poder religioso masculino, tornando perigosos para os homens os objetos e as manifestações dos ritos femininos.

3. A tensão entre as sacralidades dos sexos expressa a irredutibilidade de dois modos de existência e o desejo de apropriação dos poderes do outro, sem se deixar explicar apenas pela psicologia ou pela fisiologia, podendo ser superada tanto pela união sagrada quanto pela androginização ritual.

Gêmeos divinos sul-americanos

1. As tradições sul-americanas apresentam diversas soluções para os problemas da dicotomia e do antagonismo, articulando a divisão binária do espaço, os mitos dos Gêmeos Divinos, a bipartição de toda a realidade e uma oposição divina cuja complementaridade oculta fornece modelos para as instituições e os comportamentos humanos.

2. Os mitos sul-americanos dos Gêmeos Divinos, frequentemente filhos do Sol e vingadores da mãe assassinada, expressam uma dicotomia universal mesmo quando os irmãos cooperam, como entre os Kaingang, cuja organização social, instituições e classificação da natureza se fundamentam na atuação dos dois ancestrais míticos.

3. As diferenças entre os gêmeos podem organizar funções divinas e divisões sociais, como entre os Cubeo, que distinguem um criador celeste de seu irmão disforme, e entre os Apinayé, que vinculam os grupos ancestrais e as metades da aldeia ao Sol inteligente e à Lua menos perspicaz.

4. Entre os Caliñas, Tamusi e Yolokantamulu personificam dimensões luminosas e sombrias do universo, sendo o primeiro criador dos bens humanos e restaurador do mundo, e o segundo autor da obscuridade e dos males, embora sua complementaridade impeça identificar o irmão sombrio com o adversário absoluto ou com o espírito maligno.

5. Entre os Apapocuva, a dicotomia da natureza estende-se à constituição espiritual humana pela distinção entre uma alma de origem celeste, que retorna à sua região após a morte e deve ser tornada leve, e uma alma animal, recebida posteriormente, cuja espécie determina o temperamento individual.

6. A doutrina das duas almas reinterpreta criativamente a dicotomia universal ao atribuir origem divina apenas à alma vegetal, desvalorizando religiosamente a dimensão animal e procurando distinguir, entre as sacralidades do mundo, um elemento puramente espiritual de procedência celeste.

7. A concepção caliña de que toda realidade terrestre possui uma réplica espiritual no céu utiliza a dicotomia universal para explicar contradições do mundo e participa de uma tradição amplamente difundida que desempenhou papel importante na história do dualismo.

Polaridade e complementaridade entre os Kogi

1. Entre os Kogi, a polaridade organiza sociedade, aldeia, casa cultual e cosmos, estendendo-se às oposições entre masculino e feminino, direita e esquerda, calor e frio, luz e obscuridade, que se associam a animais, plantas, cores, ventos, doenças e valores morais.

2. Os princípios do bem e do mal coexistem nos indivíduos e nas divindades e dependem reciprocamente de sua atividade, tornando o equilíbrio entre energias criadoras e destruidoras, expresso pelo conceito de yulúka, o fundamento da conduta humana.

3. As oposições complementares integram uma estrutura quaternária que relaciona direções, cores, seres míticos e atividades, reproduzida no mundo, no território, nas aldeias e na casa cultual, onde a distribuição dos participantes também expressa diferenças de conhecimento e de confronto com as forças negativas.

4. O centro completa as quatro direções como lugar privilegiado de comunicação com os deuses, identificado à Sierra Nevada e reproduzido na região central da casa cultual, onde se depositam oferendas e o sacerdote estabelece contato com as potências divinas.

5. A cosmologia kogi articula sete referências espaciais e nove camadas de um ovo cósmico criado pela Mãe Universal, situando a humanidade na camada central e reconhecendo nas montanhas e nas casas cultuais reproduções dessa estrutura total.

6. O ovo cósmico, a terra, as montanhas, as casas e os túmulos são interpretados como úteros da Mãe Universal, de modo que o funeral representa um retorno gestacional e uma reintegração cósmica do morto.

7. A polaridade constitui para os Kogi uma lei da natureza, da vida e da ética, fazendo da perfeição humana o equilíbrio entre forças antagônicas e complementares, cuja correspondência com o centro cósmico permite compreender a existência como recapitulação do universo.

8. A diversidade das criações espirituais fundamentadas na polaridade revela que cada concepção binária somente adquire seu significado profundo quando integrada ao sistema abrangente de que participa.

9. As tradições norte-americanas apresentam uma variedade semelhante de divisões espaciais, cosmologias e antagonismos religiosos, mas sua distribuição desigual demonstra que classificações binárias não implicam necessariamente concepções dualistas e podem receber valorizações religiosas distintas.

Combate e reconciliação: Mänäbush e a cabana medicinal

1. O herói cultural dos algonquinos centrais organiza o mundo e enfrenta as potências aquáticas, cujo assassinato de seu irmão Lobo introduz a morte e desencadeia uma sucessão de vinganças e catástrofes, encerrada pela proposta de reconciliação mediante a instituição da cabana medicinal e de seus mistérios iniciáticos.

2. A tradição esotérica do midēwiwin atribui ao Grande Espírito a orientação para que as potências aquáticas reparassem seu crime, oferecendo a Mänäbush uma iniciação celeste cujos ritos benéficos ele posteriormente transmite aos seres humanos com a ajuda da Terra, sua avó.

3. A reconciliação obriga as potências responsáveis pela mortalidade a fornecer uma iniciação que assegura saúde, longevidade e existência espiritual após a morte, encenando morte e ressurreição em uma cabana cuja divisão dual simboliza a integração dos ritmos opostos na totalidade cósmica.

4. A tradição menomini transforma as forças negativas em fontes de auxílio para a existência humana, elaborando uma resposta ao sofrimento e à morte que se distingue de outras tradições algonquinas, nas quais o herói cultural não participa dos ritos da cabana iniciática.

5. Entre os Ojibway, a cabana quaternária construída pelo Grande Espírito representa um universo ordenado e assegura vida eterna após a morte, enquanto entre os Menomini sua estrutura dual expressa a reconciliação de forças antagônicas e oferece benefícios individuais conquistados por Mänäbush após acontecimentos que ameaçaram destruir o mundo.

Deus supremo e herói cultural

1. A passagem da cabana ojibway à menomini substitui a ordem cósmica assegurada pelo Deus supremo por um universo marcado pelo antagonismo e pela morte, no qual o herói cultural protege os seres humanos e a integração dos contrários procura preservar a vida e conferir sentido à precariedade da existência.

2. A Grande Casa dos Delaware reproduz o cosmos e seu eixo central sob a autoridade do Deus criador, enquanto a celebração anual do Ano-Novo recria a terra, renova sua fecundidade e a protege de catástrofes, voltando-se à regeneração universal em vez da iniciação individual.

3. As três modalidades algonquinas de casas cultuais correspondem a sistemas religiosos diferentes, passando da regeneração periódica do cosmos à melhoria da condição humana, enquanto o dualismo ligado a Mänäbush decorre de uma história mítica contingente, e não de uma oposição essencial e predeterminada.

Dualismo iroquês: os gêmeos míticos

1. A cosmologia iroquesa distingue as realidades terrestres de seus protótipos celestes e situa o início da criação no lançamento de Awenhai e de modelos de animais e plantas para fora do céu, após a gravidez milagrosa da jovem provocar o ciúme do Chefe celeste.

2. A terra forma-se sobre uma tartaruga com o lodo retirado do oceano primordial, e a filha de Awenhai gera gêmeos que já disputam no ventre, sendo sua morte causada pelo nascimento anormal de Tawiskaron, cujo corpo de sílex e falsa inocência levam a avó a expulsar o outro irmão e a transformar o cadáver materno no Sol e na Lua.

3. O irmão auxiliado pelo pai organiza a terra, cria animais e seres humanos e coloca os astros no firmamento, enquanto Tawiskaron produz imitações defeituosas, aprisiona animais, favorece monstros e cria obstáculos físicos, tentando destruir uma criação que não consegue reproduzir.

4. O conflito entre os gêmeos termina quando o irmão criador aquece e fragmenta o corpo de sílex de Tawiskaron, perseguindo-o até sua queda e fazendo de seus restos as Montanhas Rochosas.

5. O antagonismo dos gêmeos fundamenta a religião e o calendário iroqueses e permite comparações com o dualismo iraniano, embora não implique identificar o irmão maléfico com uma essência ontológica do mal.

O culto: antagonismo e alternância

1. A casa longa e o calendário iroqueses organizam os sexos, as estações, os clãs e as danças segundo a oposição dos gêmeos, fazendo das cerimônias masculinas de inverno e femininas de verão, dos jogos e das práticas sagradas ou recreativas manifestações de uma alternância cósmica.

2. A reforma de Handsome Lake, no início do século XIX, substitui os gêmeos pelo Grande Deus e pelo Diabo e concentra a vida religiosa no primeiro, retirando o caráter sagrado dos ritos associados ao irmão maléfico e convertendo-os em danças sociais.

3. A orientação monoteísta da reforma resulta tanto da experiência extática do profeta quanto da pressão europeia contra a suposta adoração do Diabo, embora o gêmeo negativo represente originalmente a dimensão sombria e complementar do universo, em vez de encarnar o mal absoluto.

4. Os ritos das máscaras realizados na primavera e no outono articulam a estrutura dualista à cura, atribuindo às confrarias das Faces Falsas e das Faces de Palha de Milho a expulsão de doenças por meio de visitas às casas, água medicinal e cinzas protetoras.

5. As doenças e outras aflições são atribuídas a um ser sobre-humano que constitui o duplo de Tawiskaron.

6. O adversário derrotado pelo Criador recebe a tarefa de curar e ajudar os seres humanos, enquanto seus auxiliares deformados, concebidos como criações fracassadas de Tawiskaron, são representados por homens mascarados que afastam as doenças das aldeias.

7. A permanência dos efeitos negativos da ação do adversário não significa sua livre expansão, pois o Criador aceita o mal como dimensão inevitável da vida e obriga seu responsável a combater as consequências de sua própria obra.

8. A ambivalência do mal organiza uma imagem do mundo que contrapõe o centro habitado e cultivado ao exterior perigoso, conservando-se mesmo na reserva iroquesa, onde casas e campos pertencem ao irmão benéfico e o mundo industrial dos brancos é associado ao irmão maléfico.

Pueblos: pares divinos antagônicos e complementares

1. Entre os Pueblos, pares divinos substituem o Deus supremo e articulam oposições complementares, enquanto a agricultura sistematiza antigas divisões sociais e cósmicas em mitologias e calendários religiosos que variam significativamente entre os diferentes povos.

2. A cosmogonia zuni deriva o Céu e a Terra de um ser primordial que reúne masculino e feminino, fazendo nascer a vida de sua união e situando os ancestrais humanos no interior da Terra-Mãe, de onde dois gêmeos guerreiros os conduzem à luz e ao centro do mundo.

3. Os gêmeos zuni não são adversários e possuem pouca importância ritual, enquanto a vida religiosa se organiza principalmente pela alternância sazonal entre deuses da chuva e deuses animais, cujos cultos e confrarias expressam forças cósmicas opostas e complementares.

4. Entre os Acoma, duas irmãs substituem o ser primordial e dividem a humanidade e a realidade entre agricultura, ordem, sacralidade e tempo, associados a Jatiki, e caça, desordem, indiferença religiosa e espaço, associados a Nautsiti.

5. A comparação entre Iroqueses, Zuni e Acoma demonstra que sociedades agrícolas semelhantes elaboram de maneiras diferentes suas estruturas duais, privilegiando respectivamente o antagonismo dos gêmeos, a alternância litúrgica das forças cósmicas ou a distribuição complementar da humanidade e das atividades entre duas divindades femininas.

6. O sistema iroquês aproxima-se formalmente do dualismo iraniano mais rígido, enquanto a alternância complementar zuni recorda a interpretação chinesa dos princípios yang e yin.

Mitos cosmogônicos californianos: Deus e seu adversário

1. Certas tradições californianas de caçadores e coletores apresentam um Deus criador confrontado por Coiote, ser ambivalente que compromete a criação por oposição deliberada, imprudência ou vaidade e que, em algumas versões, acompanha o Criador desde o princípio.

2. Nos mitos maidu, Coiote altera a criação, destrói o meio de rejuvenescimento humano e estabelece a mortalidade contra o projeto divino, descobrindo com a morte do próprio filho que os acontecimentos e as palavras da fase cosmogônica instituem modalidades de existência que já não podem ser abolidas.

3. A oposição de Coiote transforma a condição quase paradisíaca imaginada pelo Criador em uma existência marcada por esforço, trabalho, sofrimento e morte, mas também torna possível a continuidade da vida terrestre.

4. No mito yuki, Taikomol forma a si mesmo sobre o mar primordial, cria alimento e terra a partir do próprio corpo e recebe a colaboração de Coiote na formação humana, embora este determine a mortalidade e recuse a ressurreição do próprio filho.

5. O afastamento do Deus criador pode ceder lugar a Coiote como único agente cosmogônico, como entre os Pomo costeiros, cuja narrativa atribui a acidentes, acessos de cólera e iniciativas ambivalentes a criação do mundo, de sucessivas humanidades, dos animais, do Sol e das cerimônias religiosas.

6. Mesmo quando ocupa a posição de único criador, Coiote conserva seu caráter de trapaceiro e demiurgo involuntário, realizando uma cosmogonia imperfeita e sendo ridicularizado pelos próprios seres humanos que criou.

O trapaceiro

1. O trapaceiro reúne funções contraditórias de introdutor da morte, transformador do mundo e herói cultural, obtendo fogo e outros bens ou vencendo monstros por astúcia e fraude, enquanto suas imprudências frequentemente ameaçam o êxito das próprias iniciativas.

2. Sua relação ambivalente com o sagrado manifesta-se na paródia de experiências xamânicas e ritos sacerdotais, cujo ridículo também se volta contra ele, aproximando-o simultaneamente dos deuses por seus poderes e dos seres humanos pela fome, sexualidade e ausência de moralidade.

3. O trapaceiro representa uma mitologia da condição humana situada em um universo sagrado, opondo-se à imortalidade e à existência paradisíaca projetadas pelo Criador e satirizando as pretensões das elites religiosas sem conseguir anular seus poderes.

4. Seus êxitos imperfeitos, fracassos e soluções não heroicas refletem a condição humana atual e sugerem a procura de uma nova modalidade religiosa, por meio de uma mitologia secularizada que parodia os gestos divinos e a própria rebelião contra os deuses.

5. O dualismo que opõe radicalmente Coiote ao Criador também pode expressar a oposição humana a Deus, embora essa revolta permaneça marcada pela precariedade e pela paródia e revele apenas uma forma embrionária de reflexão filosófica.

Algumas observações

1. A diversidade norte-americana demonstra que as formas de polaridade e dualismo são criações espirituais cujas funções não podem ser explicadas apenas por sua gênese social, pois o dualismo mais radical ocorre entre povos não agrícolas e a divisão binária do território pode coexistir com religiões sem estrutura dualista.

2. As respostas ao enigma da polaridade variam entre o antagonismo contingente de Mänäbush, a integração cósmica da cabana ojibway, a alternância litúrgica zuni, o dualismo mítico e ritual iroquês e a elaboração californiana da condição humana pelo conflito entre Deus e Coiote.

Cosmologias indonésias: antagonismo e integração

1. As cosmologias indonésias concebem a criação como resultado da união ou do conflito entre princípios celestes e inferiores, frequentemente derivados de uma totalidade primordial em que os contrários ainda permaneciam unidos ou indiferenciados.

2. Entre os Ngadju Dayak, dois princípios emergem da totalidade cósmica e geram mundo, vida e humanidade por seu combate, enquanto os ritos individuais e coletivos procuram reintegrar a totalidade divina que permanece como fundamento da religião.

3. Entre os Toba-Batak, o combate das potências superiores e inferiores conduz à reintegração por uma nova criação, enquanto em Nias as divindades opostas do mundo superior e inferior se completam corporalmente e compartilham atributos, demonstrando que o antagonismo também constitui uma unidade.

4. O dualismo cósmico indonésio organiza aldeias, casas, vestimentas, objetos e ritos de passagem, mas pode reconhecer um terceiro elemento como síntese superior que integra e equilibra as duas séries antitéticas.

5. As competições rituais entre grupos antagonistas dramatizam o confronto das forças cósmicas e procuram sua conjunção, como nos casamentos minangkabau e na festa dayak dos mortos, cujo combate simbólico reatualiza a cosmogonia e transforma destruição e morte em nova criação.

6. O antagonismo polar constitui um princípio cosmológico que torna inteligíveis mundo, sociedade e existência, mas tende a superar-se pela produção de um terceiro termo que, embora represente uma nova síntese, também restaura a totalidade primordial em que os contrários coexistiam sem diferenciação.

7. A interpretação indonésia da vida e da criatividade permanece ligada ao modelo de união e separação dos opostos, privilegiando a sabedoria e a criação artística em vez de desenvolver as formas de filosofia e ciência encontradas em outras tradições.

Cosmogonia, competições rituais e disputas oratórias: Índia e Tibete

1. A Índia antiga permite reconhecer a transformação de esquemas mítico-rituais em elaborações teológicas e metafísicas, demonstrando a abertura dos símbolos fundamentais a sucessivas reinterpretações capazes de revelar diferentes dimensões da existência humana.

2. O combate de Indra contra Vṛtra representa a passagem do não manifesto à criação e fornece um modelo para vitórias, disputas poéticas e competições rituais, cuja realização, especialmente nas celebrações do Ano-Novo, procura renovar a vida e estimular as forças criadoras.

3. A valorização criadora das disputas verbais ultrapassa o mundo indo-iraniano e encontra no Tibete uma articulação com debates religiosos, competições físicas e celebrações do Ano-Novo, nas quais a recitação dos mitos e o confronto entre representantes dos clãs renovam a ligação entre comunidade, ancestrais e potências cósmicas.

4. As competições festivas afirmam o prestígio social e a ligação religiosa com o território, reunindo deuses e seres humanos, favorecendo colheitas e rebanhos e reafirmando e apaziguando simultaneamente as oposições sociais pela reconexão do grupo com suas origens.

5. As influências iranianas no Ano-Novo tibetano provavelmente reforçaram elementos indígenas anteriores, sem justificar a interpretação de todo o conjunto ritual como empréstimo cultural.

Devas e Asuras

1. A oposição védica entre Devas e Asuras, potências luminosas e sombrias, recebe uma interpretação original pela introdução de uma origem comum que revela sua fraternidade ou consubstancialidade primordial.

2. A doutrina védica articula duas perspectivas, reconhecendo a oposição irreconciliável dos Devas e Asuras no mundo presente e sua consubstancialidade antes da criação ou da constituição da ordem atual.

3. Os deuses podem ser, ter sido ou tornar-se Asuras, revelando uma possibilidade de passagem entre condições divinas e não divinas.

4. A ambivalência divina exprime simultaneamente a coexistência de aspectos contraditórios nas divindades e a busca de um fundamento originário único para mundo, vida e espírito, exigindo distinguir a verdade da eternidade daquela que se manifesta no tempo.

Mitra-Varuṇa

1. O par Mitra-Varuṇa representa os aspectos complementares da soberania divina no sistema indo-europeu, contrapondo serenidade racional e sacerdotal a violência inspirada e guerreira, com correspondências nas instituições, nos reis e nas tradições cósmicas de Roma e da Índia.

2. Enquanto Roma historicizou deuses e mitos e conservou a complementaridade sobretudo nos ritos e nas narrativas de origem, a Índia desenvolveu suas implicações teológicas e filosóficas, fazendo da alternância dos princípios um modelo explicativo do cosmos e das contradições da condição humana.

3. As oposições entre Mitra e Varuṇa abrangem dia e noite, masculino e feminino, compreensão e ação, poder espiritual e temporal, oferecendo correspondências para as distinções entre puruṣa e prakṛti no Sāṁkhya e entre Brahman e māyā no Vedānta.

Polaridade e coincidência dos opostos

1. Mitra e Varuṇa constituem uma expressão privilegiada de um princípio polar que o pensamento indiano reconhece na totalidade cósmica e na existência, reaparecendo nas distinções entre aspectos manifestos e não manifestos de Brahman, espírito e natureza, Śiva e Śakti, saṃsāra e nirvāṇa.

2. Certas polaridades são superadas em uma unidade paradoxal que reúne os contrários, expressa na condição do liberto em vida, na identidade entre saṃsāra e nirvāṇa para o desperto e nas práticas tântricas, pois a liberdade absoluta exige ultrapassar as oposições e os condicionamentos que organizam a existência ordinária.

3. A superação ritual dos contrários aproxima formalmente os ritos dayak das técnicas indianas, embora os primeiros restaurem a totalidade divina necessária à renovação cósmica e as segundas procurem uma existência incondicionada de liberdade e beatitude, acessível por meios humanos que até os deuses precisam assumir para alcançar a libertação.

4. A criatividade religiosa manifesta-se tanto na reinterpretação das polaridades quanto no sentido atribuído à sua reunião, de modo que experiências e símbolos semelhantes podem possuir finalidades distintas e somente uma perspectiva abrangente permite avaliar sua fecundidade inesgotável.

Yang e yin

1. A polaridade chinesa de yang e yin organiza ritos, classificações, cosmologias, técnicas corporais e especulações filosóficas, sendo reconhecível em antigos objetos rituais cujos símbolos conjugam luz e obscuridade para expressar renovação temporal e regeneração espiritual.

2. Yang e yin designam inicialmente aspectos concretos e opostos do clima, como calor luminoso e frio nublado, desenvolvendo-se em uma concepção do mundo como totalidade cíclica constituída pela alternância de manifestações complementares.

3. A articulação de yang e yin no calendário evidencia a relação entre oposição e alternância, representando a sucessão sazonal como transformação cíclica de forças antitéticas, na qual o yang enfraquecido durante o inverno reaparece fortalecido na primavera.

4. A correspondência entre os ritmos cósmicos e a alternância das atividades dos sexos confere dimensão religiosa à união sagrada, expressa nas festas em que coros masculinos e femininos se desafiam e culminam em uma hierogamia coletiva que suspende ou transcende a polaridade vigente durante o ano.

5. A comparação entre o tao e as fórmulas arcaicas do terceiro termo capaz de resolver as polaridades constitui uma possibilidade relevante de investigação para a história das ideias.

Observações finais

1. As criações espirituais não se reduzem a sistemas de valores preexistentes, pois cada cultura reelabora as estruturas de polaridade e lhes atribui funções próprias, exigindo uma hermenêutica atenta à diversidade das dicotomias e à multiplicidade de seus significados.

2. As polaridades podem ser distinguidas entre aquelas relativas ao cosmos, como direções, estações e ritmos vitais, e aquelas vinculadas à condição humana, como diferenças sexuais, étnicas, míticas, religiosas e éticas, sendo estas últimas especialmente fecundas para o desenvolvimento de especulações filosóficas.

3. Muitas dicotomias implicam-se reciprocamente e expressam ritmos complementares da vida sem constituir um dualismo ético ou religioso, enquanto o dualismo rigoroso surge quando os antagonistas deixam de depender mutuamente e seu conflito não decorre necessariamente de uma complementaridade constitutiva.

4. A transformação dos aspectos negativos da vida em manifestações do mal exige investigação histórica específica, pois nos sistemas religiosos dominados por polaridades a ideia de mal pode surgir lentamente e não abranger sofrimento, doença, crueldade ou morte, permanecendo às vezes integrada à totalidade cósmica.

5. A mediação dos contrários admite soluções diversas, como a produção de um terceiro termo, a coexistência paradoxal, a transcendência ou a recusa de qualquer reconciliação, e essa multiplicidade de respostas às crises provocadas pela descoberta das polaridades favorece a reflexão crítica e prepara o surgimento da filosofia.

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