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Religião, Mitologia e Filosofia

SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.

  • A fórmula “Do Mito ao Logos”, consagrada por Wilhelm Nestle, não traça um caminho claro entre mitologia e filosofia gregas, embora alguma relação entre elas seja necessária.
    • Nenhuma leitura historiográfica conseguiu definir com precisão se o trajeto do mito à filosofia é reto ou sinuoso.
    • A filosofia grega não se apresenta como abstração ou transposição direta da mitologia em logomitia.
    • A hipótese de dois mundos mentalmente incomunicáveis é inverossímil para um mesmo povo, como observa Ordep Serra ao citar a frase heraclitiana sobre Zeus.
    • Três hipóteses preliminares são colocadas: a religião como tertium quid mediador; a filosofia ainda não tão lógica e a mitologia já não tão mítica nos primeiros passos; e as três — religião, mitologia e filosofia — dançando juntas por todo o terreiro da história.
  • A mitologia grega, a filosofia grega e a religião grega são interdependentes, pois cada uma só pode ser aquilo que a religião grega, como matriz, era capaz de gerar.
    • A religião grega não poderia ser qualquer religião, mas precisamente aquela que, ao final de seu desenvolvimento milenar, se despiu das insígnias do sagrado.
    • A filosofia grega resultante é uma filosofia saudosa de sua origem religiosa, como se vê nos últimos representantes do neoplatonismo.
    • A mitologia grega só pode ser a mitologia emergente dessa religião específica, não mitologia em sentido genérico.
  • A filosofia grega aparece, em vários momentos de sua história — sobretudo no início e no fim —, como forma sui generis de consciência religiosa, chegando a pretender substituí-la.
    • A lição mais instrutiva desse fenômeno é que houve uma religião destinada fatalmente a vir a ser filosofia.
    • A mitologia também estava comprometida nesse mesmo destino.
    • Traço notabilíssimo da mitologia grega é a possibilidade de transmutação em poesia e história profanas desde épocas muito remotas, o que a distingue das mitologias de povos que nunca filosofaram.
    • Esse processo de separação entre imagem mítica e ato ritual é diabólico em seu étimo: gera uma literatura mitográfica e deixa morrer, a golpes de rotina, uma parte da religião.
    • Schelling assevera que a poesia grega nasceu com a mitologia, dando razão profunda a Heródoto, que afirmara serem Homero e Hesíodo os outorgantes da teogonia aos helenos.
  • A religião grega, matriz da mitologia e da filosofia, constitui-se como uma religião que se oculta em sua própria progênie, sendo a poesia e a filosofia as que a devoram e dela se nutrem.
    • Na Grécia, mitologia e filosofia emergem à luz do sol na medida em que a religião imerge nas sombras da noite.
    • Esse movimento é o reverso do mito hesiódico de Crono, que devorava os próprios filhos para persistir.
  • A mitologia grega é simultaneamente fisiologia, antropologia e teologia — aquilo que a filosofia será apenas de modo sucessivo —, sem que por isso a filosofia se deduza ou decorra da mitologia.
    • O que a filosofia há de ser sucessivamente, a mitologia já o é de forma simultânea.
    • A mitologia não é uma soma de imagens do natural, do humano e do divino da qual se subtraem parcelas para obter a filosofia.
    • A física pré-socrática, de Tales a Anaxágoras, não se extrai da mitologia, mas decorre paralelamente ou concorre com ela para resolver problemas que são os da filosofia, não os da mitologia.
  • A física que a mitologia foi não coincide com a física que a filosofia é, porque na mitologia a fisiologia ainda era simultaneamente antropologia e teologia, numa visão em que as três dimensões formavam uma só imagem.
    • Esse “poder ter sido” fisiologia, antropologia e teologia ao mesmo tempo depende de que as três coisas fossem consideradas como uma coisa só.
    • A filosofia negará essa unidade em três momentos sucessivos: negando o humano e o divino, funda a Natureza; negando o natural e o divino, funda o Homem; negando o humano e o natural, funda a teorização de um Deus separado.
  • No mito autêntico, os personagens não são absolutamente deuses, nem absolutamente homens, nem absolutamente naturezas, porque na mitologia ainda não existem nem o Homem, nem a Natureza, nem Deus como categorias separadas.
    • A alegorese não esgota o conteúdo de um mito, pois consiste em verter o que o mito diz simultaneamente no que a filosofia diz sucessivamente.
    • No mito autêntico não há divindade exclusivamente adstrita a um elemento natural ou a uma paixão humana.
  • A mitologia grega é uma physiomythia — não uma fisiologia para a qual o mito apenas aponta, mas aquela que o próprio mito diz nos termos em que o diz.
    • Entendida como fisiologia mítica, a mitologia é expressão de uma physis que só miticamente pode ser expressa.
    • Essa physis não é a Natureza que a filosofia, enquanto física, teorizará; é o mundo em que os mitos acontecem, e o acontecer é que determina a essência e a existência desse mundo.
  • A partir da noção de physiomythia, abre-se caminho para uma nova exegese dos mitos gregos e não gregos, indagando não o que significam, mas qual é o cosmo em que esses acontecimentos podem ocorrer.
    • Novos horizontes assim abertos seriam cenários sobre tablados bem diversos daquele em que se representa o drama desta cultura que foi ocidental e se torna ecumênica.
    • Esse percurso levaria a compreender que dramas representados e teatros em que se representam dependem uns dos outros e, por sua vez, só dependem do Outro.
  • O mundo mitológico não é apenas o mundo em que o mito acontece, mas é também o próprio acontecimento mítico — a cena que cria o espaço, o tempo, a substancialidade e a causalidade nos quais e pelos quais ele mesmo se desenrola.
    • A antropologia confirma a existência de um tempo e um espaço “qualificados”, distintos do tempo histórico e do espaço físico, em que o homem “primitivo” situa o acontecer de seus mitos.
    • O acontecimento mítico funda e fundamenta as formas da apreensão sensível e as categorias que presidem às perguntas dirigidas à Realidade.
  • Avizinha-se uma época marcada pela renúncia ao mito do Homem criador, que impõe admitir que o transobjetivo, o eminentemente Real, envolve como um só horizonte todos os mundos possíveis junto com a irredutível subjetividade humana.
    • Real, Ser, Deus ou Absoluto são paradoxalmente cogitados sem cogitação, sendo Secretum ou Absolutum — “separado” — as designações mais apropriadas etimologicamente.
    • Mitologicamente, o Absoluto pode ser adjetivado de “Caótico” no sentido de “excessivo”, não de “confuso”.
    • A excessividade caótica que se contém e fulgura desoculta a si mesma na parte que não ofusca os olhos: esse é o mistério de toda cosmogonia.
    • A mesma luz cosmogônica gerou o próprio homem, configurado à semelhança da mesma contenção fulgurante, o que explica por que à cosmogonia deve seguir-se uma antropogonia.
    • Há uma parte do homem — a irredutível subjetividade — tão secreta, tão absoluta e tão excessiva quanto a Suprema Excessividade, habitando na Fulguração Ofuscante e sendo a condição de toda objetividade.
  • No mundo mítico, criado e objetivado pelo próprio acontecer do mito, não existem nem Homem, nem Deus, nem Natureza como personagens do drama representado na mitologia.
    • A negação de Homem, Deus e Natureza no mundo mítico aponta, ainda que de modo inseguro, para o que esses não-seres são: homens, deuses e naturezas no plural, sem referência a conceitos gerais e universais.
    • Homens que não seriam tão “humanos” quanto o Homem, deuses que não seriam tão “divinos” quanto Deus, e naturezas que não seriam tão “naturais” quanto a Natureza — tais seriam os seres do mundo mítico.
    • Para reencontrar o ser-mítico desse não-ser-lógico, seria preciso percorrer ao inverso o caminho já trilhado pela história da filosofia.
  • O caminho da filosofia foi o da invenção do Homem, que é simultaneamente o processo de desdivinização e desnaturação dos entes, reduzidos a projetos exclusivos do Homem.
    • A filosofia como processo de desocultação do ser do Homem é o mesmo processo de ocultação dos deuses no ser de Deus e das naturezas no ser da Natureza.
    • O fim desse processo de hominização está presente no último patamar da história que se proclama universal.
  • A realidade simbólica, cuja expressão mais adequada é o mito, é constituída por entes fluidos e translúcidos, nos quais o limite entre ser humano, ser divino e ser natural permanece indistinto.
    • Quando o simbólico perde sua fluidez e transparência, tudo se coisifica: o corpóreo oculta o anímico, o homem esconde o divino, a metamorfose torna-se impossível.
    • A cousificação do símbolo é o que o poema do “Último Sortilégio” lamenta: a perda do condão que fadava as sarças e erguia presenças das formas naturais das coisas.
  • A relação entre o mundo mitológico e o mundo em que existem Deus, o Homem e a Natureza se estabelece por meio da relação entre a física que a mitologia foi e a física que na filosofia há.
    • O mundo em que se vive e sobretudo se pensa já não é o da mitologia, mas o da filosofia ou de seu subproduto, a ciência, cuja origem deve ser datada pelas consequências do ensino socrático, situado nas cumeadas da sofística.
    • A antropologia ou ciência do Homem — surgida de uma fulguração ofuscante do Ser — determinou uma reformulação da fisiologia e a formação de uma teologia.
  • A mitologia grega, emergente de uma religião cuja essência implicava vir a ser filosofia, já era ela mesma uma filosofia, mas não uma filosofia proeminentemente antropológica como a que surgiu com Sócrates.
    • A mitologia grega era uma imagem da physis definida pelo Homem — a Natureza dos filósofos que vieram depois de Sócrates.
    • A relação entre mundo mitológico e mundo filosófico se estabelece pela relação entre a física que a mitologia foi e a física que na filosofia há.
  • A fisiologia dos pré-socráticos situa-se historicamente entre a física mitológica e a física filosófica, no limiar do “já não ser mito” e do “ainda não ser ciência”, conforme a classificação aristotélica.
    • Para os antigos, todos os pré-socráticos são físicos, tendo escrito sobre a natureza (peri physeos).
    • Aristóteles aponta que a doutrina física de Tales depende dos theologoi, os que filosofaram tomando a Noite como arché, indicando uma filosofia ainda implicada numa teologia.
    • Para os historiadores antigos, a fisiologia dos pré-socráticos também é teologia: natureza e divindade se revelam como aspectos de um mesmo ser.
  • A filosofia dos pré-socráticos consistiu principalmente na indagação do Um (to hen), que não é um entre os muitos, mas a Lei do Ser (to on) dos entes, sendo Um e Ser termos intercambiáveis.
    • A physis não significa o mesmo que a palavra “Natureza”: é a lei que governa todas as configurações possíveis da totalidade dos entes.
    • Heráclito afirma que a physis “ama ocultar-se” (kryptesthai philei), e entre seus fragmentos se acha o “raio que tudo governa”.
    • A atividade especulativa dos primeiros filósofos culmina no esforço por desocultar a Natureza que preferia ficar oculta, transmutando ausência em presença sentida e pensada.
    • O Ser, o Um e o princípio da Natureza não são a água, o ar ou o fogo em si: o Indiferenciado de Anaximandro é o único “abstrato” a que convêm as formas “concretas” de seus antecessores e sucessores.
  • A physis dos pré-socráticos nasceu do “interiorizar-se” de uma natureza que, antes, não tinha dentro nem fora, ao separar-se dela uma de suas partes — o Homem.
    • A aurora da humanidade é o crepúsculo da “naturidade”: a natureza interiorizou-se nos limites que o Homem estabeleceu pelo próprio surgir nela ou diante dela.
    • Na época dos pré-socráticos, mal começara o processo de hominização: a natureza ainda era divina ou povoada de deuses, com epifanias vegetais, animais, humanas e siderais.
    • Schelling deu a entender que não seria possível instaurar uma filosofia da mitologia sem uma concomitante filosofia da natureza.
    • Se os homens fossem apenas primi inter pares — os mais nobres entre os seres naturais —, a natureza não seria despotenciada de seus deuses, e Aristóteles, cuja filosofia ainda nada sabe do Advento do Homem, crê inabalavelmente na eternidade do Mundo.
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