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Grande-Força do Oceano

SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.

8. Na Grécia, como no Oriente, o processo teocosmogónico também se expressa em termos de geografia mítica.

O que sucede no tempo, permanece no espaço; e o mais remoto passado tem a sua presença assegurada, para além do mais longínquo horizonte. Para aquém deste, Céu e Terra mantêm-se separados; mas inseparados, indistintos, indiferenciados, pressente-se que ainda estejam no remanescente das águas primordiais, circundando um «para além de onde a terra acaba». O horizonte reassume a sua estatura mítica original, como leito do Oceano. A descrição do escudo de Aquiles (II., 18,478-608), termina-a Homero dizendo que em sua orla plasmou Hefesto a «grande força» (méga sthénos) do Oceano (607). A passagem é bem ilustrativa da outra, já citada, em que Hera declara encaminhar-se até aos «limites da terra», pois o divino forjador das armas transpôs para o escudo redondo uma figuração do universo, em seu todo. Mas este é o único lugar da epopeia homérica em que se menciona a «grande força» do rio extremo, e a interpretação não é óbvia. Podia tratar-se da forte correnteza das águas, no circuito do horizonte; mas, ainda assim, não se demita a possibilidade de que a «grande força» desempenha outro papel. A suspeita de um mais verídico significado da expressão insinua-se arteiramente pelo cotejo com outra passagem da Ilíada — é o princípio do vigésimo livro, onde, convocados os deuses a concilio, todos os rios comparecem, exceptuando um: Oceano (20, 7). Homero não se detém para nos explicar a ausência. Talvez, para um auditório da Grécia arcaica, a mesma ausência não carecesse de explicações, ou porque não fosse tão exigente, quanto à motivação dos sucessos épicos, ou porque muito bem conhecia os motivos que nós ignoramos. Proponha-se, como hipótese, que Oceano não pudesse ausentar-se porque a sua «grande força» é a única responsável pela firme e inabalável manutenção da própria estrutura do universo. Excede o alcance de mera curiosidade lembrar aqui que o sentido da palavra peírar (pl.: peírata): «limite», não se esgota no da palavra «extremo»; de uma a outra vai a diferença que se exprime por «ligadura». O Horizonte-Oceano ata, liga, contém, constrange. Enrosca-se como uma serpente (Aquéloo, protótipo dos rios que banham a terra, tem a figuração plástica de uma serpente com humana fronte cornuda) em volta da terra, nove vezes, como o dirá Hesíodo (Th., 790), certamente no propósito de acentuar a consistência do vínculo que mantém unidas as partes de um todo. Mas não esqueçamos o início deste parágrafo: a manutenção do todo, que é o universo visível, com seus dois grandes componentes, o Céu e a Terra, reveste-se de um duplo aspecto — o de horizonte extremo, na geografia mítica, e o de princípio primordial, no processo teocosmogónico.

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