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Mito
SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.
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Nenhum manual, tratado ou dicionário especializado consegue evitar que o leitor perca o pé no oceano de erudição, ao atentar em “histórias” que no fundo nada têm a ver umas com as outras.
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A distinção entre “mito” e “lenda heróica” já tem algo de significativo, embora nesta os deuses quase sempre intervenham com traços não desprezíveis.
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Decidiu-se apartar os deuses para o lado do mítico e alguns personagens historicamente demonstráveis para o lado da lenda heróica.
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Os traços do “conto popular” que emergem tanto no mito quanto na lenda heróica podem ser vistos como sobrevivências persistentes de situações originariamente míticas, cujo caráter mítico original se perdeu.
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Uma cronologia científica baseada em maior ou menor antiguidade de documentos escritos é inválida para a Grécia, dada a lacunaridade da tradição literária — um mito testemunhado por escritores helenísticos ou romanos pode ser tão ou mais antigo do que outro que já se lê em Homero ou Hesíodo.
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A cronologia verdadeira terá de assentar em critérios internos, entre os quais se releva o da gradativa “humanização” dos personagens no caráter e na ação.
Um mito autêntico situa-se na linha que vai das origens primeiras aos fins últimos, movendo-se entre teocosmogonias e escatologias, e os deuses no mito funcionam como nódulos de uma rede que aprisiona respostas e perguntas que o homem só viria a enunciar com o advento da filosofia.-
Mitologema ou mitema é resposta a uma pergunta que jamais e por ninguém foi feita; filosofia é pergunta que nunca aceitou qualquer resposta como definitiva.
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A filosofia surgiu como antagonista da mitologia, mas caminhou ao lado dela e de mãos dadas com o adversário sem o perceber.
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O ponto de separação está determinado historicamente pelo momento em que a filosofia una se dispersou em disciplinas com objetos próprios — como a luz que atravessa um meio refrangente —, esquecendo a luz que está em todas as cores.
A crença de que a idade do mito ficou para trás e de que se vive hoje na idade de uma razão soberana é apenas o fato de que, a partir de determinada época, não se contam nem escrevem mais mitos — mas o mítico persiste tanto mais quanto menos se adverte sua existência.-
O desenvolvimento tecnológico, dialeticamente ligado ao progresso da ciência, é uma explosão da verdade que não chegou a revelar-se inteiramente no mito de Prometeu: só agora o titã se tornou realmente “titânico”.
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O novo fogo aceso na terra está para além do bem e do mal, aguardando a decisão do único ser que se arrogou o poder de decidir acerca de tudo — o Homem que se julga senhor absoluto do universo.
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A substituição de Prometeu pelo próprio Homem não seria possível sem as linhas de força do mito judaico do Paraíso Perdido e do mito cristão do Regresso ao Paraíso.
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No Gênesis, o homem incorre na suspeita de se querer igualar a Deus; os Evangelhos abriram o caminho à crença em um senhorio absoluto sobre toda a natureza.
Todas as culturas e épocas vivem a vida de um mito — que pode não assumir a forma concreta de um relato —, e um mito oculto é o que traça, sem que se saiba, as linhas percorridas pelo pensar e pelo agir.-
O mito oculto pode ser o a priori de todo o apriorístico: não apenas das formas de apreensão do sensível e das categorias do inteligível, mas o que está antes e atrás de toda a dualidade sujeito-objeto.
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O mítico desconhece o dualismo radical e os opostos inconciliáveis; reconhece-se sempre que as oposições apontam para a terra ignota onde tendem a coincidir numa unidade inimaginável, irrepresentável, impensável e indizível.
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O mítico indica silenciosamente o silenciar-se de todos os choques da multiplicidade-parcialidade nessa Unidade-Totalidade que é o Real, o Absoluto ou o Ser.
Distinguem-se agora “mítico” e “mito”: os mitos viveram outrora e apenas uns poucos sobrevivem, sendo projetos da Realidade — configurações do acontecer que assumem uma forma com o lado de dentro no homem intramundano e o lado de fora no mundo extra-humano.-
Por “mito” entende-se qualquer dos relatos sui generis que chegam por último da Grécia Antiga e da Idade Média, com correspondentes nas culturas “primitivas” sobreviventes — as formas concretas, literárias ou pré-literárias, do “mítico”.
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Hoje nenhum digno representante da civilização conta ou escreve mitos ainda não escritos; mas o “mítico” não cessa de revelar-se nos poetas da palavra, das cores, dos volumes e dos sons, e sobretudo nas religiões.
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Das religiões nascem os mitos tão naturalmente quanto as formas de vida orgânica surgiram da vida cósmica da natureza; o mais difícil é detectar o mítico num sistema filosófico, embora não haja sistema que não deva seu início e seu término a um impulso mítico originário.
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Platão ainda contava mitos porque vivia numa época em que os poetas lhe davam exemplos cotidianos.
“Mítico” é derivado de “mito”, mas pretende-se atribuir-lhe uma universalidade que abranja tanto o mito relatado quanto aquele que tanto mais o é quanto menos se percebe sua existência e agência.-
A definição platônica de mito pela natureza dos personagens — história dos deuses, semideuses, heróis e dos que habitam o Hades — é a que vem primeiro historicamente.
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Todas as definições posteriores parecem tão abrangentes que o vago em que flutuam permite falar de um “mito de Getúlio Vargas”.
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A definição proposta é pela presença, no teor do relato, de referências explícitas às origens primeiras e aos fins últimos: os fins podem aparentemente faltar, mas a presença expressa das origens é indispensável para reconhecer o mítico que está no mito e até no que por tal não se reconheça.
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