Sacrifício do Dioniso fitomórfico
SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.
Dioniso-«Zagreus» podia ter sido mencionado na sequência da significação cosmobiológica do sacrifício do Dioniso fitomórfico (Dioniso-vinha); mas o sacrifício do deus, em sua epifania terio-mórfica (ou antropomórfica), tal como se nos defronta em testemunhos mais tardios e impregnados de influências órficas, e como essa epifania teriomórfica é de um touro, nada impede — pelo contrário, tudo nos leva a assim fazê-lo — de o apresentar nestas linhas que concluem um modesto alistamento de exemplares vestígios, ou «sobrevivências clássicas» da religião e da mitologia dos plantadores primitivos. Em seu traçado mais simples — porque despojado de sinais de «contaminação» inevitável, através de uma longa história, em que se interseccionam correntes religiosas de ambas as espécies (teística e cosmobiológica) —, quem pretenda dar-se por entendido nesta matéria tente ler o tumultuado artigo que Wolfgang Fauth redigiu para a RE, publicado em 1967, II série, IX vol., cois. 2221-2283 — uma exposição do mito de Dioniso-«Zagreus» terá de começar, lembrando algumas passagens das Bacantes e um fragmento (475, Nauck) de Os Cretenses, duas tragédias de Euripides, uma bem conhecida e outra tão exasperadoramente lacunar que até o argumento é dificilmente reconstituível:
1. Bacantes, segunda antístrofe do Párodo: «Ó tálamos dos Curetas, ó de Creta sacratissimo berço de Zeus infante! No recôndito de vossas grutas é que os Coribantes de elmo trípice me inventaram este orbe de couro tenso e ressoante, e depois, juntando seu alvoroço ao mais doce suspiro das flautas frígias, nas mãos da Reia-Madre o depuseram, para que ao cântico das Bacantes fizessem eco. Da Mãe-Divina, os ganharam os loucos Sátiros, e em instrumento se tornou das trietéridas danças que alegram o coração de Baco.»
2. Parte do Epodo: «como o fulgor rutilante do Tmolo, escorrendo ouro, cantai Dioniso ao som dos tímpanos de surdo bramido. Gritando ‘Evoé!’, o deus Évio magnificai; magnificai o deus com frígios clamores».
3. Em vários lugares do mesmo drama (por exemplo, 3.° episódio, vv. 616 e segs., e no 5.°, vv. 918 e segs.) torna-se claramente visível a metamorfose taurina de Dioniso.
4. O assassínio e despedaçamento (sparagmós) de Penteu (5.° episódio, vv. 1084 e segs.) não passa de velada alusão à «paixão e morte» do Dioniso Crético, assim como no Êxodo, v. 1184, as palavras de Agave («participa do meu festim») lembram inequivocamente o ritual da ómophagía.
5. Que o mesmo dramaturgo enfatizou no famoso fragmento de Os Cretenses: «Filho da fenícia princesa de Tiro, filho da tíria Europa (trata-se, pois, de Minos) e do grande Zeus, reinante nas cem cidades de Creta, eis-me junto de ti, após haver deixado os augustos santuários cobertos de madeiros das nossas florestas, cortadas pelo calíbdeo machado, ajustados sem frouxidão e seguramente mantidos por junturas de cipreste e pela adesiva geleia do touro. Pura minha vida tem sido desde a hora em que, iniciado no Zeus do Ida e pastor (boutés) de Zagreus de noite vagante, celebrando os ritos omofágicos e empunhando as tochas da Grande Mãe sobranceada na montanha, fui santificado, e dos Curetas recebi o nome de Baco. Coberto de alvas vestes, fujo a nascença dos mortais, minha mão não toca o cadáver que sepultam, e entre os meus alimentos, nenhum provém de nada que tivesse vida.»
É claro que uma crítica gratuitamente negativista tem dado por arbitrária sincrese estes testemunhos do grande trágico de Atenas. Decerto, as últimas linhas do fragmento citado parecem contradizer frontalmente parte do conteúdo das primeiras: não comer nada do que tivesse vida não condiz com a celebração de ritos omofágicos. Da contradição talvez só possamos escapar pelo especioso (?) argumento de que não entraria na abstinência de carne, a que provinha de um sacrifício solenemente prescrito como iniciação ou, presumivelmente, como «rito de passagem»; a omofagia, quantas vezes fosse praticada, ficava sempre o limiar de uma nova vida, e só nesta valia a prescrição de abstinência. Mas, por outro lado, não podemos recusar-nos à evidência arqueologicamente estabelecida, de que todos, ou quase todos os traços, tão vincados pelos versos de Euripides, nos despertam para bem atentar no facto de que a religião minoica, sob algumas características originais, ainda pertence à «área cultural Irano-Táurica». Mas aqui, onde está a vida que esperávamos ver surgir da morte e despedaçamento da vítima sacrificada, no caso, certamente, o Dioniso-Touro? Para responder a esta pergunta de importância capital neste contexto, temos de recorrer a outras fontes, embora de bem conturbadas águas. Mas antes, digamos que o autor do artigo «Zagreus» da RE, escreve em lugar dificilmente acessível, no meio da selva selvaggia da sua discussão dos testemunhos tradicionais, que no drama ritual do sparagtnós e da ómophagía, se reconhecem vestígios de «mitos acerca do criador despedaçamento de um ser primordial». Por conseguinte, não fomos só nós, a vítima de uma ilusão para a qual contribuiu, em grande parte, um impulso que nos permitimos apelidar de «instintivo».
