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Firmicus Maternus

SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.

Chegou a hora de depor um apologeta cristão (Firmicus Maternus, De errore profanarum religionum, cap. 6, na primorosa edição de Ziegler, Munchen, 1953, pp. 47-48): «Liber (Dioniso) era, pois, filho de Júpiter (Zeus), isto é, do rei de Creta (não esqueçamos de que se trata de uma versão inteiramente evemerística). Ainda que ele fosse nascido de mãe adúltera, foi educado por seu pai com mais cuidados que os merecidos. A mulher de Júpiter, que se chamava Juno (Hera), movida por sua fúria de madrasta, preparava insidias de toda a espécie, para matar a criança. Tendo o pai viajado para o exterior, e porque era sabedor da ira da esposa, e para evitar que ela agisse traiçoeiramente, confiou a tutela do filho a guardiões que julgava idôneos. Então é que Juno viu chegado o oportuno momento para o crime. Mais violentamente amargurada pelo facto de o pai, por ocasião da viagem, haver confiado ao menino o trono e o ceptro reais, tratou primeiro de corromper os guardas com prêmios e ofertas dignas de reis; depois relegou seus sequazes, chamados Titãs (em versões anteriores ao século VI a. C., os guardas são os Curetas; é de crer que os nomes tivessem sido trocados por Onomácrito, personagem histórico, da época de Pisistrato), à parte interna do Palácio, e com brinquedos e um espelho de engenhosa fábrica, de tal maneira seduziu o ânimo do menino, que ele deixou os seus reais aposentos, encaminhando-se para o local da emboscada, por irrazoável impulso de infantilidade. Aí chegado, aprisionaram-no e mataram-no, e de modo a que não se encontrasse nenhum vestígio do assassínio, a turba de seus perseguidores cortou-lhe os membros em pedaços e repartiu-os entre si. Depois disto, juntando ao crime outro crime, por temor da violenta crueldade do soberano, cozeram de vários modos os pedaços da criança e devoraram-nos, comendo carne humana — até esse dia, inaudito banquete. O coração que lhe coube em partilha — pois também ela participara do crime — conservou-o a irmã, que se chamava Minerva (Atena), com o duplo propósito de usá-lo como indício na delação, e para mitigar a furiosa ira do pai. Logo que Júpiter regressou, a filha denunciou-lhe os facínoras sucessos. O pai, ouvindo o relato do desastre fatal e impelido pelo furor e pelo acerbo luto, matou os Titãs, submetendo-os às mais diversas torturas, e na execução da vingança do filho não passou por alto forma alguma de tormento e castigo: em sua fúria esgotou a inteira gama de punições, unindo aos sentimentos de um pai a violência de um tirano. Depois, por não mais poder suportar os tormentos de seu coração enlutado e porque a dor nenhuma consolação mitigava, mandou fazer uma estátua dele em gesso, por obra de um artista, e o coração foi colocado pelo escultor naquela parte da estátua onde se representavam os lineamentos do peito. Isto feito, em lugar de uma sepultura, mandou construir um templo e designou, como seu sacerdote, o tutor da criança (cujo nome era Sileto). Para moderar os transportes de raiva de seu rei, os cretenses estatuíram que festivo fosse o dia da morte do filho, fundaram um culto anual trietérico (?) em que se representava, por sua ordem, tudo quanto a criança, naquele dia, fizera e sofrerá. Descarnaram com os dentes um touro vivo, com o que, em festividades anuais comemorativas, despertam a lembrança do cruel banquete, e pela solidão dos bosques, ululando clamores dissonantes, fingem a insânia de um ânimo furente, para que se creia que o horrendo crime foi cometido, não por impostura, mas por (mental!) insânia. A frente vem a cista, em que secretamente foi escondido o coração e, ao som de flautas e percussão de címbales, imitam os brinquedos que seduziram o menino. Assim, em honra de um tirano, a subserviente plebe fez um deus que não pôde ter sepultura.»

O longo relato, redigido em conformidade com o evemerismo, quis fazer do mito uma história tão verosímil quanto possível. Mas basta uma só pergunta, para lhe arruinar as intenções. Porque, nas festividades instituídas pelos súbditos do «rei Zeus», substituíram a criança por um touro? Note-se que, perguntando assim, não o fazemos com o intuito de mostrar que fosse exigível sacrificar um ser humano (embora haja motivos para crer que, alguma vez, tal sacrifício tenha sido celebrado); a pergunta só se refere à substituição pelo touro. Já o dissemos: a lacunaridade da tradição escrita, na Grécia, não só invalida ou minora a importância do argumento ex silentio, como também faz que se reconheça em formas do mito, de redacção efectivamente tardia, a substituição de outras, muito mais antigas, que, no decorrer do tempo e por desconhecidas circunstâncias, se perderam pelo caminho. Assim é que da história contada ou simplesmente recolhida por Firmicus Maternus (século iv d. C.) não consta resposta directa ou indirecta à nossa pergunta, e que ela se acha numa longa série de hexâmetros, nas Dionisíacas de Nonnos (século v d. C.). Grande não é a distância que separa os dois autores, mas a forma literária da segunda obra mencionada permitia que se escrevesse o que nunca poderia figurar na primeira, em obediência à «verosimilhança» evemerística. Não vamos transcrevê-la por inteiro; basta reproduzir a passagem em poucas palavras (Dionysiakôn, IV, 155-205). Trata-se, evidentemente, do Dioniso de tradição órfica, pois Zagreus, aqui (155-169), é o filho incestuoso de Zeus e Perséfone. «Zagreus não ocupou por muito tempo o trono celeste»; e depois vêm os factos conhecidos, embora com traços inéditos. Um, é que os Titãs, antes de perpetrarem o crime, cobriram as faces com a poeira branca do gesso, mas, vibrados os primeiros golpes, Dioniso-Zagreus, para escapar à morte iminente, começa a mudar de forma: mancebo (como Zeus), velho (como Crono), um «adulto em delírio», um «leão simulado», um «cavalo indomável», um «dragão cornudo», um «tigre de pele mosqueada», e, por fim, reveste-se da forma de um «touro» (197) e, como tal, recebe os golpes finais: «e Baco, em sua natureza de touro foi despedaçado pelos falcões alternados dos Titãs». E aqui está inequivocamente expressa a resposta à pergunta acima formulada. Demais, as metamorfoses de Dioniso-Zagreus não são, ou não são todas elas, invenção do poeta de Panóplis, pois não há divindade, no mundo grego, que ultrapasse Dioniso em real poder de mudar de forma, como lhe apraz. Seria o caso de, muito a propósito, lembrar Proteu, divindade marinha, pois o elemento líquido os põe, naturalmente, em confronto e, precisamente, no tocante a metamorfismo. Também de Dioniso se podería dizer que ele vem do mar e, por isso, quando perseguido, no mar procura refúgio (mito de Licurgo, por exemplo). E não menos a propósito, deveríamos averiguar quantas vezes se nos deparam exemplos de metamorfoses provocadas por feitiçaria, em que, a efectiva mudança de forma só se dá depois de jogada uma porção de água no rosto da vítima; e, quando falta a água, mago ou maga lhe cospe no rosto (na colectânea árabe que circula sob o título de Mil e uma Noites pululam casos semelhantes). Outro traço importantíssimo, no testemunho de Nonnos, é o gesso ou o giz. O lexicógrafo Harpocrátion (s. v. apomattón) confirma-o pelos seguintes termos: «outros usam a palavra em sentido mais especializado, como, por exemplo, quando falam de pôr uma camada de argila ou de piche nos iniciandos, como dizemos ao fazermos o molde de uma estátua, em barro […]. Nesta cerimônia, representavam mimeticamente o mito relatado por alguns, em que os Titãs, quando mutilavam Dioniso, usaram um revestimento de gesso, para não serem identificados». Também não deixa de ser interessante notar que, entre os caçadores de cabeças (este assassínio ritual que, praticado numa situação de liminaridade, se pode classificar como «rito de passagem»), o matador procura sempre não ser visto por sua vítima.

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