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FONTENROSE

Joseph Fontenrose (1903-1986)

FONTENROSE, Joseph. Python: a Study of delphic myth and its origins. Berkeley: University of California Press, 1980.

INTRODUÇÃO

  • Toda divindade possui um adversário próprio que deve ser derrotado e destruído.
    • Figuras como Zeus e Baal, Coiote e Ahura Mazda, Thor e o Senhor dos Exércitos enfrentam antagonistas terríveis.
    • O inimigo de Apolo era o grande dragão Píton, morto para que o templo e o oráculo de Delfos pudessem ser estabelecidos.
  • O presente estudo inicia—se e encerra—se com a análise desse mito específico.
    • As narrativas da humanidade estão repletas de deuses e heróis que vencem dragões, monstros, demônios e gigantes.
    • O combate isolado é insuficiente para provar uma relação genética entre o mito de Apolo e Píton e outras batalhas semelhantes.
  • A análise acadêmica convencional sobre Píton foca na identificação de fontes literárias e na relação com o culto délfico.
    • Tais estudos são considerados necessários e valiosos, tendo sido parcialmente realizados.
    • O escopo dessas pesquisas costuma se restringir à literatura e à arte clássicas diretamente ligadas a Delfos.
  • A existência de múltiplos pontos de concordância para além do combate sugere uma relação genética entre mitos.
    • Correspondências nos antecedentes e nas consequências da luta indicam o compartilhamento de um enredo comum.
    • Essa relação implica derivação direta ou descendência de um mesmo arquétipo original.
    • A segunda fase desta pesquisa investiga lendas de combate próximas no tempo e no espaço.
  • O exame de lendas menores que orbitam Delfos busca determinar o vínculo destas com o mito de Píton.
    • São exploradas as lendas de Títios, Forbas, Flégias, Cicno, Síbaris e outros personagens.
    • O combate de Zeus contra Tifão é abordado como uma narrativa igualmente central para os gregos antigos.
    • Zeus e Apolo lutaram contra Tifão e Píton sob risco de perderem sua soberania e suas próprias vidas.
    • A investigação avalia se esses dois mitos são variantes próximas de uma única narrativa original.
  • O reconhecimento de mitos de combate em civilizações vizinhas fundamenta a hipótese de influências externas sobre a Grécia.
    • Hititas, cananeus, babilônios e egípcios possuíam narrativas importantes de lutas entre deuses e dragões ou monstros.
    • Os antigos indianos preservaram o mito da batalha de Indra contra a serpente Vritra.
    • É razoável supor que os gregos receberam enredos dessas culturas orientais.
    • Pesquisas anteriores afirmaram que os mitos de Píton e Tifão derivam ou foram influenciados por modelos asiáticos.
    • Tais estudos limitaram—se a apontar coincidências superficiais.
    • A terceira fase deste trabalho propõe uma análise rigorosa das linguagens e literaturas clássicas e orientais para provar um parentesco genuíno.
  • A análise comparativa entre os mitos gregos e orientais revela um padrão subjacente a todo o grupo.
    • O uso de estudos de especialistas e traduções de orientalistas fundamenta o trato com os mitos asiáticos.
    • A existência de um padrão comum sugere uma origem única para todas as narrativas que o compartilham.
    • Mesmo sem aceitar a origem única, a presença de correspondências marcantes em mitos diversos é um fenômeno digno de atenção.
    • A difusão de um padrão pelo Velho Mundo, da Grécia à Índia e ao Egito, indica um significado incomum para os povos que o adotaram.
    • A exploração dos significados profundos busca entender o que gregos e asiáticos comunicavam através desses termos e imagens.
  • Os resultados da comparação permitem reavaliar a relação entre as lendas heroicas e os mitos divinos de combate.
    • São examinadas as conexões de Perseu, Cadmo e Hércules com os mitos de Apolo e Zeus.
    • O foco retorna ao mito délfico de Píton para aplicar as descobertas de toda a investigação.
    • A etapa final analisa a relação entre o mito e os rituais, considerando o combate como precedente para instituições de culto.
  • O conceito de mito é definido como uma história tradicional que acompanha rituais.
    • O mito deve possuir um enredo com começo, meio e fim.
    • Termos amplos que designam ideias teológicas ou animistas gerais são evitados.
  • A transmissão original da história tradicional ocorria de forma oral.
    • O relato descreve a origem de instituições religiosas, ritos e festivais.
    • Atos divinos estabelecem o precedente para as práticas tradicionais executadas no culto.
    • Mitos de criação geralmente aparecem vinculados a sistemas de culto.
  • Narrativas tradicionais não vinculadas a cultos são classificadas como lendas ou contos populares.
    • O mesmo enredo pode transitar entre mitos, lendas e contos de fadas.
    • Algumas variantes do combate pertencem mais ao universo dos heróis ou fadas do que ao mito genuíno.
  • O estudo de mitos antigos depende de narrativas, avisos e alusões presentes na literatura e na arte.
    • O propósito dos escritores antigos raramente era informar sobre um mito desconhecido pelo público.
    • Diferente de Babilônia e Egito, onde foram recuperados textos rituais conhecidos pelo sacerdócio, a Grécia carece de tais fontes.
    • Escritores gregos adaptavam materiais míticos para fins literários, alterando e fundindo elementos conforme desejavam.
    • Narrativas completas podem não representar fielmente a versão conhecida pelo povo em regiões de culto.
    • As fontes são comparadas a fragmentos de cerâmica que precisam ser reunidos para reconstruir o vaso original.
  • A suposição de que autores antigos dependiam exclusivamente de fontes escritas anteriores é contestada.
    • Histórias literárias tendem a ver qualquer diferença como uma inovação do autor.
    • Inovações supostas ou características tardias frequentemente encontram paralelos em formas muito mais antigas.
    • É provável que autores tenham bebido da tradição oral que os cercava.
  • A transmissão oral dos mitos permaneceu viva durante toda a antiguidade.
    • Essa tradição assumiu vestes cristãs durante a Idade Média.
    • Traços da oralidade podem ser detectados em Pausânias e em pinturas de vasos.
    • A compreensão da tradição oral depende do estudo comparativo entre fontes e cognatos do mito.
  • O uso de materiais da literatura e arte grega e latina abrange tanto períodos iniciais quanto tardios.
    • Informações de escritores tardios auxiliam na compreensão das formas primitivas do mito.
    • Conclusões baseadas em fontes tardias geralmente encontram suporte em evidências mais antigas.
    • O mesmo princípio se aplica aos registros da Mesopotâmia, Egito e Índia.
  • A escassez de registros escritos da Grécia arcaica e do antigo Oriente Médio exige o aproveitamento de qualquer evidência.
    • Não existem gravações de informantes nativos daquelas épocas.
    • Uma versão de aparecimento tardio pode ter existido anteriormente por escrito ou na tradição oral.
  • O registro literário permanente mascara a natureza fluida e mutável da tradição mítica.
    • É um equívoco acreditar que os mitos gregos sempre seguiram a forma narrada por Ovídio.
    • Dificilmente um grego do século V conheceria as histórias na forma em que Ovídio as apresentou.
    • Qualquer narrativa representa apenas a versão conhecida por um indivíduo em um momento específico.
  • Mitos e contos populares sofrem mudanças constantes ao passarem de geração em geração.
    • Novas versões surgem com alterações em detalhes, temas ou sequências de episódios, mantendo—se os nomes próprios.
    • Uma nova variante é formada quando nomes de pessoas e lugares são alterados.
    • A variante consiste essencialmente na mesma história contada sobre deuses e homens diferentes em novos cenários.
    • Define—se tipo como o enredo tradicional que se manifesta em diversas variantes.
    • O tipo possui um núcleo durável de episódios e temas que permanece fixo.
    • A história da esposa de Putifar serve de exemplo de tipo, com variantes em Gênesis e nas lendas gregas de Belerofonte, Hipólito e Tênis.
    • A variante de Hipólito possui diferentes versões conforme a narrativa.
    • Os nomes garantem a unidade da variante, enquanto o enredo garante a unidade do tipo.
    • A relação entre variante e versão assemelha—se à de espécie e variedade, sendo o tipo o gênero.
  • Enredos tradicionais costumam se fixar em divindades e heróis locais ao entrarem em novas regiões.
    • Um povo pode substituir o deus da tempestade da história original por sua própria divindade correspondente.
    • O estudo da difusão mítica foca mais em enredos e temas do que nos nomes dos participantes.
    • O desenvolvimento do mito é independente da origem histórica dos deuses que nele aparecem.
  • A investigação prioriza a análise dos temas narrativos recorrentes.
    • Um tema é uma característica ou episódio integrante da história, mas separável e presente em outros tipos.
    • Temas podem ser essenciais a um tipo ou aparecer apenas em certas variantes.
    • A expressão externa do tema muda conforme costumes nacionais e características locais.
    • A análise temática cuidadosa é necessária para revelar a origem comum dos mitos de combate.
  • As variações temáticas ocorrem através de mudanças de papéis, ações e intensidades.
    • Mutações de papel incluem a substituição de deuses por heróis ou de dragões por leões.
    • Parentescos como pai, tio ou rei, e mãe, enfermeira ou esposa são frequentemente intercambiáveis.
    • Ações como o modo de combate ou tipos de punição podem ser substituídas por outras equivalentes.
    • O termo tema é preferido ao motivo de Stith Thompson por ser definido de forma mais ampla e funcional.
    • Elementos que cumprem o mesmo propósito narrativo são agrupados sob um único tema.
    • Exemplos incluem a natureza bestial do inimigo (dragão, leão ou porco) e métodos de enganação (disfarce ou intoxicação).
  • Características marcantes de uma variante podem aparecer atenuadas ou disfarçadas em outra.
    • A morte pode ser reduzida a um ferimento, sono, exílio ou simples derrota.
    • Atos e traços podem ser transferidos entre o campeão, seus ajudantes e o próprio inimigo.
    • Temas e papéis podem ser fundidos, como quando a heroína seduz o inimigo para destruí—lo.
    • Atribuições do dragão, como guardar uma fonte ou bloquear estradas, frequentemente se fundem.
    • Expansões ocorrem quando o campeão se divide em pai e filho ou o inimigo solitário torna—se uma horda.
  • O pensamento mítico assemelha—se ao processo dos sonhos conforme definido por Freud.
    • A condensação faz com que diversos pensamentos converjam para um único elemento ou pessoa composta.
    • O deslocamento envolve a substituição ou inversão de ideias sem alterar o sentido essencial.
    • A duplicação de elementos também é comum tanto em sonhos quanto em mitos.
  • A identificação de um tema exige que se olhe para além da cobertura externa da narrativa.
    • O pensamento mítico é ilógico pelos padrões modernos, contendo contradições e inconsistências.
    • Apesar disso, o mito possui uma lógica própria que deve ser compreendida pelo pesquisador.
  • O termo mito é utilizado tanto para definições gerais quanto para versões e variantes específicas.
    • Uma lista de temas recorrentes com símbolos numéricos e letras facilita a referência ao longo do estudo.

TEMAS DO MITO DE COMBATE

  • 1. O Inimigo possuía origem divina.
    • 1A. Filho da mãe primordial: demônia do caos ou deusa da terra.
    • 1B. Filho de um deus pai: demônio do caos, deus pai deposto ou governante.
    • 1C. Possuía esposa ou companheira de mesma origem e caráter.
  • 2. O Inimigo tinha uma habitação distinta.
    • 2A. Vivia em regiões onde costumavam ser colocados monstros e demônios.
    • 2B. Habitava caverna, cabana ou árvore.
    • 2C. Ocupava o recinto sagrado de um deus.
    • 2D. Era o guardião ou espírito de uma fonte.
    • 2E. Vivia no mar, lago ou rio.
  • 3. O Inimigo tinha aparência e propriedades extraordinárias.
    • 3A. Era gigantesco.
    • 3B. Tinha forma não humana: serpente, lagarto, crocodilo, escorpião, peixe, hipopótamo, javali, leão, lobo, cão, cavalo, touro, águia, abutre, falcão ou formas mistas.
    • 3C. Possuía várias cabeças, braços ou pernas.
    • 3D. Causava morte por fogo, olhar ou hálito vindo das narinas, boca ou olhos.
    • 3E. Poderia mudar de forma à vontade.
    • 3F. Era um espírito da morte, demônio maligno ou espectro do submundo.
    • 3G. Manifestava—se como vento, inundação, tempestade, praga, fome ou seca.
  • 4. O Inimigo era vicioso e ganancioso.
    • 4A. Saqueava, roubava, assassinava e fazia guerra.
    • 4B. Atuava como governante despótico que oprimia súditos e impunha tributos.
    • 4C. Levava embora os filhotes de homens e feras.
    • 4D. Era glutão, devorando rebanhos inteiros e praticando antropofagia.
    • 4E. Era luxurioso e estuprador, exigindo o sacrifício de donzelas.
    • 4F. Controlava estradas e matava viajantes, muitas vezes em competições forçadas.
    • 4G. Bloqueava rios ou fontes para privar homens de água ou os secava com sua sede.
  • 5. O Inimigo conspirava contra os céus.
    • 5A. Desejava governar o mundo.
    • 5B. Era incitado por sua mãe, esposa ou companheira.
  • 6. Um Campeão divino surgia para enfrentá—lo.
    • 6A. O deus do clima ou do céu partia para a luta.
    • 6B. A luta era seu primeiro feito, sendo ele ainda menino ou jovem.
  • 7. O Campeão lutava contra o Inimigo.
    • 7A. O Campeão matava o Inimigo usando suas armas favoritas.
    • 7B. Necessitava de inúmeros projéteis devido à invulnerabilidade ou força do Inimigo.
    • 7C. Outros deuses fugiam ou tentavam apaziguar o Inimigo por pânico.
    • 7D. Recebia ajuda de sua irmã, esposa ou mãe.
    • 7E. Era auxiliado por outro deus ou herói.
    • 7F. O Inimigo fugia durante o combate.
    • 7G. A luta era o encontro central de uma gigantomaquia.
  • 8. O Campeão quase perdia a batalha.
    • 8A. Sofria derrota temporária ou morte.
    • 8B. O Inimigo removia um órgão ou objeto potente de seu corpo.
    • 8C. Era vencido após ser atraído para um banquete.
    • 8D. A consorte do Inimigo seduzia o Campeão para sua destruição (tema de Venusberg).
    • 8E. O Campeão morto era lamentado.
  • 9. O Inimigo era destruído após ser enganado ou enfeitiçado.
    • O Inimigo era suscetível a iscas de comida, sexo ou disfarce, além do uso de magia.
  • 10. O Campeão dispunha do Inimigo e celebrava a vitória.
    • 10A. Punia o Inimigo aprisionando—o no submundo, sob uma montanha ou mutilando seu cadáver.
    • 10B. Celebrava com banquetes e festividades, sendo aclamado por deuses e homens.
    • 10C. Passava por purificação da poluição do sangue.
    • 10D. Instituía cultos, rituais, festivais e construía seu próprio templo.
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