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ZEUS E TÍFON

FONTENROSE, Joseph. Python: a Study of delphic myth and its origins. Berkeley: University of California Press, 1980.

  • Zeus, pai dos deuses e dos homens, travou um combate decisivo contra um dragão — pois é assim que se pode chamar Tífon, ainda que seu corpo não fosse inteiramente réptil e contivesse mais de uma serpente em si.
    • Tífon é denominado pelos gregos de drakon, termo que passa a ser usado amplamente para designar qualquer tipo de monstro de forma animal ou mista.
    • Tífon era uma figura supergigantesca, antropomórfica da cintura para cima e serpentina para baixo — suas pernas eram simplesmente serpentes.
    • Tal é o padrão primário de Tífon, frequentemente elaborado por poetas ou pintores.
    • Era ao mesmo tempo dragão, gigante e monstro, evidência da identidade folclórica de toda espécie de ogro.
  • O nome de Tífon aparece em diversas formas, e a primeira menção conhecida ocorre numa símile da Ilíada que não se refere ao combate propriamente, mas à ira duradoura de Zeus.
    • As formas do nome incluem: Tifon, Tifaon, Tifoeu, Tifos.
    • Na Ilíada, quando o exército aqueu avançava, “o chão retumbava sob os pés, como quando Zeus o trovejante, em sua ira, açoita a terra perto de Tifoeu, entre os Arimoi, onde dizem que está o leito de Tifoeu.”
    • A oração temporal da Ilíada tem o verbo no subjuntivo, indicando uma condição geral do presente.
    • Os Arimoi parecem ser os Aramaicos, e o território seria a Síria ou a Cilícia — mais provavelmente esta última, pois nas fontes posteriores é a terra de Tífon.
  • Hesíodo — ou seu interpolador — preserva a narrativa extante mais antiga do combate de Zeus com Tífon, na qual Gaia gera Tifoeu após a derrota dos Titãs e Zeus o vence lançando raios.
    • Após Zeus ter derrotado e expulsado os Titãs, sua mãe Gaia gerou em Tártaro seu filho mais jovem, Tifoeu, um ser monstruoso.
    • Tifoeu teria tomado o céu e expulsado os Olímpicos naquele dia, se Zeus não o tivesse avistado a tempo e iniciado o combate.
    • O deus primeiro arremessou raios do céu, depois desceu à terra e golpeou o monstro de perto, incendiando suas cem cabeças de serpente.
    • Tifoeu caiu em chamas nos vales das montanhas e Zeus o precipitou ao Tártaro.
  • O Tífon de Hesíodo também viveu entre os Arimoi, pois se uniu à monstruosa Equidna, que habitava uma caverna naquele lugar, e com ela gerou diversos filhos.
    • Com Equidna — chamada nessa passagem de Tipáon — Tífon tornou-se pai de Ortos, Cérbero, Hidra e Quimera.
  • O Hino Homérico a Apolo traz informações de grande relevância sobre Tífon, apresentando uma narrativa em que Hera é a mãe do monstro, em divergência com a tradição hesiódica.
    • No Hino, Hera, encolerizda com a androgenesia de Zeus ao gerar Atena, decidiu rivalizar com ele.
    • Afastando-se dos deuses, Hera bateu na terra com a palma da mão e invocou Gaia, Urano e os Titãs para que lhe concedessem um filho mais poderoso que Zeus.
    • Sua prece foi atendida e ela gerou Tipáon — poderoso, mas longe de ser admirável como Atena.
    • Tipáon era diferente de deuses e homens — uma criatura maligna que causava grande dano à humanidade.
    • Hera entregou-o imediatamente à dragonesa Délfica, que o criou.
    • A partir daí o poeta abandona Tífon da narrativa, mencionando-o apenas mais uma vez.
  • Uma narrativa citada por um escoliasta, semelhante ao relato do Hino sobre o nascimento de Tífon, descreve como Ge difamou Zeus diante de Hera e como Kronos forneceu os meios para que Tífon nascesse, sendo Hera depois reconciliada com Zeus.
    • Nessa versão, Ge, irada porque os deuses haviam destruído os Gigantes, caluniou Zeus perante Hera.
    • Hera, furiosa, recorreu a Kronos, que lhe deu dois ovos besuntados com seu sêmen, ordenando-lhe que os enterrasse; deles nasceria um daimon para usurpar o trono de Zeus.
    • Hera os enterrou na Cilícia, entre os Arimoi, e em devido tempo Tífon nasceu.
    • Hera, porém, já havia se reconciliado com Zeus e o avisou, e Zeus facilmente se livrou de Tífon.
  • Ésquilo apresenta uma versão muito semelhante à de Hesíodo, na qual Tífon, nascido de Ge e habitante de cavernas cilícias, se opõe aos deuses e é fulminado pelo raio de Zeus, jaz agora sob o Etna — e Píndaro segue a mesma versão.
    • Em Ésquilo, Tífon era um monstro destrutivo que queria pôr fim ao reinado de Zeus.
    • O raio de Zeus abateu-se sobre ele e destruiu todo o seu poderoso corpo.
    • Píndaro descreve Tífon de modo semelhante ao de Ésquilo e o situa definitivamente na caverna cilícia de muitos nomes — a Gruta Coríciana.
    • Píndaro apenas alude ao combate, dizendo apenas que Zeus destruiu Tífon entre os Arimoi, presumivelmente na Cilícia, e que ele jaz em terrível Tártaro sob o Etna.
    • Píndaro é o autor mais antigo a mencionar a fuga dos deuses diante de Tífon, quando assumiram formas animais para escapar dele.
  • Na versão do combate encontrada em Hesíodo, Ésquilo e Píndaro, Zeus não encontra grande dificuldade para vencer Tífon, seguindo diretamente para a vitória sem contratempos.
    • A maioria dos autores posteriores adere a essa visão simples da vitória.
    • As diferenças entre eles dizem respeito aos preliminares ou ao desfecho da batalha.
  • Apolodoro narra uma história mais complexa, na qual os deuses fogem para o Egito transformando-se em animais, Zeus é temporariamente derrotado e seus tendões são roubados por Tífon, sendo depois resgatado por Hermes e Egípan.
    • Após os deuses terem vencido os Gigantes, Ge, irada, uniu-se a Tártaro e gerou Tífon, um monstro enorme de forma mista.
    • Tífon atacou o céu, arremessando pedras flamejantes e expelindo fogo pela boca.
    • Os deuses fugiram para o Egito, onde assumiram formas animais para escapar de sua atenção — todos exceto Zeus, que se manteve firme contra ele.
    • Num primeiro momento Zeus o bombardeou com raios à distância; depois avançou com uma foice adamantina com a qual feriu Tífon.
    • Tífon fugiu para o Monte Cásio, na Síria, e Zeus o perseguiu e lutou corpo a corpo, oportunidade em que Tífon o enredou em suas espirais.
    • Tífon tomou a foice de Zeus, cortou seus tendões e transportou o deus, assim reduzido à impotência, pelo mar até a Cilícia, onde o depositou na Gruta Coríciana.
    • Os tendões foram escondidos numa pele de urso, e a dragonesa Delfine ficou encarregada de guardá-los.
    • Hermes e Egípan — Pã Caprino — recuperaram os tendões e os restituíram a Zeus, que retomou o combate, montando seu carro e novamente arremessando raios.
    • Tífon fugiu para Nisa, onde as Moiras o enganaram com frutos efêmeros, prometendo-lhe que comê-los aumentaria sua força.
    • Ele refugiou-se então na Trácia, onde ergueu nova resistência e arremessou montanhas inteiras contra Zeus; os raios do deus devolveram todos os projéteis e ele perdeu muito sangue pelos ferimentos — daí o Monte Haimos, a Montanha Sangrenta, na Trácia.
    • Enquanto fugia pelo Mar da Sicília, Zeus lançou sobre ele o Monte Etna e assim o imobilizou definitivamente.
  • A versão de Apolodoro imprime a impressão de ser mais antiga que a de Hesíodo, por preservar episódios como a derrota temporária de Zeus, sua grande dificuldade em alcançar a vitória final, o engano de Tífon e a fuga do próprio Tífon.
    • Na versão hesiódica, Zeus desce do céu após arremessar raios, avança e golpeia Tífon, alcançando imediatamente a vitória.
    • É evidente que Hesíodo ou sua fonte omitiu a derrota e a mutilação de Zeus por considerá-las incompatíveis com seu poder e majestade.
    • A maioria dos autores posteriores seguiu Hesíodo nesse ponto.
  • Dois traços distintivos da versão de Apolodoro — o engano de Tífon com a ajuda de Pã e a fuga de Tífon — reaparecem em outros autores.
    • Segundo Opiano, Pã auxiliou Zeus assando peixe na praia, atraindo assim Tífon da Gruta Coríciana para o espaço aberto, onde Zeus pôde abatê-lo.
    • Segundo um escoliasta, Pã capturou Tífon em redes.
  • O longo relato de Nono, embora conceda a Zeus uma vitória relativamente fácil uma vez iniciado o combate, revela-se claramente uma atenuação da versão de Apolodoro — um exemplo tardio e muito ornamentado do processo que resultou na versão hesiódica.
    • Nono certamente introduziu muitas alterações por conta própria, mas algumas peculiaridades de sua narrativa devem ter chegado até ele pela tradição, pois refletem temas presentes em mitos afins.
    • Em Nono, Zeus, envolvido num amor com a jovem Pluto — que se tornou mãe de Tântalo — escondera suas armas sob uma rocha na Cilícia, de onde Tifoeu as roubou.
    • Kadmos, que vagava pela Cilícia à procura de sua irmã Europa, foi recrutado por Zeus; assistido por Pã e Eros, Kadmos disfarçou-se de pastor e encantou Tífon com a música da flauta de Pan, de modo que Zeus pôde entrar secretamente na caverna e recuperar suas armas.
  • Estrabão menciona a fuga ferida de Tífon, no curso da qual ele abriu o canal do rio Orontes ao procurar desesperadamente um refúgio subterrâneo, e sua fonte situa os Arimoi na Síria.
  • A fuga dos deuses diante de Tífon e sua transformação em formas animais — episódio conhecido por Píndaro — resultou da identificação de Tífon com o egípcio Set, e foi por meio disso que os gregos explicaram as formas animais dos deuses egípcios.
    • O fragmento de Píndaro não menciona o Egito, mas para todos os autores posteriores — como Nicandro, Ovídio e Nigídio — que falam da fuga e da transformação, o Egito era o cenário.
    • Tanto a derrota de Zeus quanto o engano de Tífon foram absorvidos nesse episódio.
    • Para Ovídio e talvez Píndaro — que diz “todos os deuses” — o próprio Zeus fugiu e se transformou num carneiro, identificando-se com Amon.
    • Segundo Nigídio, os deuses, por conselho de Pã, enganaram Tífon assumindo formas animais, para que pudessem circular ao seu redor sem serem reconhecidos.
  • Em contraste com o mito de Python, o mito de Tífon apresenta apenas duas versões principais: a hesiódica — que aparece primeiro na literatura extante — difere da versão anterior sobretudo por omitir um episódio desonroso para Zeus.
    • Alguns autores que seguem Hesíodo nesse ponto — como Opiano e Nono — incluem ainda assim traços distintivos da versão anterior, seja em forma original, seja atenuada.
    • Seria mais exato afirmar que o mito grego de Tífon tinha uma única forma — a narrativa tal como se encontra em Apolodoro — e que alguns autores optaram por omitir a parte central e mais significativa da história.
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