PERCEVAL E A "QUESTÃO" DO GRAAL
VISEUX, Dominique. L'initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980
“Olha estas feridas com os olhos da alma; pois a alma adormecida tem olhos que a iluminam, enquanto no dia, a visão dos mortais permanece curta…” Ésquilo, as Eumenides.
“O que não é apreendido pelo coração é como inexistente, tais os talos de grama para a carroça que passa.” Abhinavagupta.
Embora tendo um lugar privilegiado na tradição Arturiana, a história de Perceval permanece incompleta. Para estudar o simbolismo, nos referimos a duas fontes que nos parecem igualmente importantes no que diz respeito à primeira parte do Perceval, mesmo se a segunda parece diretamente saída da primeira: trata-se do “Conto do Graal” de Chretien de Troyes e do “Parzival” de Wolfram Von Eschenbach.
Como na Aventura de Lancelot e talvez mais ainda em Perceval, o personagem de Gauvain toma um lugar muito importante e por assim dizer paralelo àquele que Perceval ocupa. Infelizmente, a parada brusca do relato de Chretien determina igualmente a de Wolfram, que, apesar de suas qualidades “literárias”, parece perder imediatamente sua qualidade simbólica. Resulta disso que a história paralela de Gauvain termina rapidamente para ceder novamente o lugar a Perceval, e que, por este fato, nos é impossível determinar o papel exato de Gauvain no caminho iniciático de Perceval. Por esta razão, nos parece então mais judicioso estudar a história de Perceval e a de Gauvain, separadamente, mesmo que se retorne a eventuais soluções de aproximação.
A estrutura da lenda de Perceval é muito análoga à de Lancelot e a divisão em três partes aparece tão nitidamente: em um primeiro momento, os feitos de Perceval são misturados com confusão e tendem a desviar o cavaleiro. Em um segundo momento, Perceval se vê sobrecarregado por todas as partes pelas consequências de suas faltas. De toda evidência, o terceiro momento (que falta em Chretien) correspondia à purificação e à perfeição do herói.
Perceval, ainda criança, vive no coração da floresta na companhia de sua mãe que quer, isolando-o assim, protegê-lo do ofício das armas. Um dia, ele encontra cinco cavaleiros que ele toma imediatamente por anjos, de tão deslumbrado que ele está por suas armaduras. A partir deste instante, Perceval não pensa mais senão em sua partida para a corte de Arthur. Com grandes lamentos, sua mãe lhe dá seus últimos conselhos (entre outros, o de honrar as Damas) depois cai morta de dor quando Perceval a deixou. No caminho, Perceval encontra, sozinha em um pavilhão, uma donzela adormecida de quem ele rouba um beijo e o anel que ela carrega no dedo, acreditando assim honrar as Damas, como sua mãe lhe havia aconselhado. Ele retoma seu caminho e pouco depois, retorna o cavaleiro da donzela que, sabendo do que se passou, suspeita de traição de sua amiga, fica furioso e jura colocá-la em apuros, não se ocupando mais nem de seu cavalo, nem de suas roupas.
Antes de chegar ao castelo de Arthur, Perceval cruza com um cavaleiro com armas vermelhas segurando uma taça de ouro. Chegado à corte do Rei, ele reclama deste para ser nomeado cavaleiro no mesmo instante e de obter as armas do Cavaleiro Vermelho com quem ele acaba de cruzar. Ora, este último vem precisamente de disputar o Reino a Arthur, depois de ter derrubado a taça de vinho do Rei sobre a Rainha, para fugir com seu troféu. Por zombaria, Keu, o Senescal, convida Perceval a se apoderar das armas vermelhas enquanto o Herói saúda na assistência uma donzela que então começa a rir, saudando-o por sua vez. Ora, desta donzela, havia sido dito que ela não riria mais até o dia em que voltaria “o Senhor de toda Cavalaria”. Keu, exasperado por esta previsão realizada, esbofeteia imediatamente a donzela. Perceval sai então do castelo para se apoderar das armas do Cavaleiro Vermelho. Ele aceita o desafio deste último, o mata com um golpe de dardo, depois o despoja, ajudado por um escudeiro a quem ele confia o cuidado de relatar ao Rei a taça e de dizer à “donzela que havia rido” que ela será vingada de sua afronta.
Perceval se dirige em seguida a Gorneman, o homem prudente, que lhe ensina o ofício das armas, assim como as virtudes cavalheirescas, entre outras, a reserva diante de seus hóspedes. O Herói chega em seguida diante de um castelo cujos habitantes são sobrecarregados de jejuns e de misérias. O castelo está de fato sitiado pelo Rei Clamadeu que tenta assim se casar à força com a Rainha Blanchefleur. Perceval, defensor da Rainha, derrota Clamadeu, o envia prisioneiro à corte de Arthur (com o dever de anunciar à “donzela que havia rido” que ela será vingada), devolve a vida ao castelo e promete a sua Dama Blanchefleur, amor e fidelidade. Anteriormente, ele deve partir para tentar rever sua mãe e retomando seu caminho, ele encontra uma noite um pescador que lhe propõe hospedá-lo por uma noite. Este último lhe indica seu próprio castelo para onde Perceval se dirige imediatamente. Ele é então introduzido junto ao “Rei Pescador” que, sofrendo, não pode se levantar de sua cama. Na grande sala quadrada onde ele se encontra, queima um grande fogo no meio de quatro colunas. O Rei Pescador lhe oferece uma esplêndida espada da qual só existem três exemplares e que só pode se quebrar em um único caso. Depois, entra na grande sala um serviçal segurando uma lança que sangra pelo ferro, seguido por outros dois serviçais segurando castiçais, depois por uma donzela carregando um Graal de ouro, acompanhada por outra donzela carregando uma tábua de prata. A partir de então, uma luz muito grande invade o cômodo; a procissão passa assim diante de Perceval que não ousa fazer pergunta a seu anfitrião, lembrando-se dos ensinamentos de Gorneman. O Senhor ordena então que se ponham à mesa; trazem para comer uma coxa de veado e uma segunda vez passa diante deles, a procissão do Graal. Após cada prato servido, este último repassa diante de Perceval que promete a Si mesmo perguntar no dia seguinte a um serviçal a razão desta estranha procissão; no dia seguinte, ao acordar, ele encontra o castelo vazio e sai dele muito espantado.
Ao examinar de perto a situação de Perceval no começo do relato, uma comparação com a infância de Lancelot se impõe: com efeito, ambos são criados em uma floresta por uma Dama que é ou faz as vezes de mãe. Ora, esta “mãe”, como já havíamos sublinhado, associada à floresta profunda, é mais uma vez a imagem de Maya, a Natureza Universal que primeiro retém cativo para liberar em seguida. É o primeiro aspecto que é particularmente desenvolvido em Wolfram onde é dito que um dia, a mãe percebeu o deslumbramento da criança Perceval pelo canto dos pássaros que, a partir deste dia, ela começou a odiar. Ora, se a mãe devota tal ódio aos pássaros, é evidentemente porque estes despertaram em Perceval o desejo de conquistar os estados superiores do Ser que eles simbolizam. Um pouco mais longe, é diante de cavaleiros em armas que ele se maravilha e o fato de ele tomar estes por anjos vem ainda reforçar este simbolismo, referindo-se igualmente aos estados superiores ou “angelicos” do Ser.
No entanto, como Viviane, a mãe de Perceval não encarna apenas o aspecto obscuro da Natureza: o segundo rosto da mãe se revela nos conselhos que ela dá a Perceval, entre outros, o de defender e honrar as Damas, de seguir os ensinamentos dos homens prudentes, de frequentar as igrejas e de invocar Deus. Certamente, o ensinamento da mãe de Perceval, não levará imediatamente este último à conquista dos estados superiores e Perceval, muito fogoso, não saberá apreciá-los em sua justa medida; pode-se acrescentar que se ele negligencia instintivamente o aspecto obscuro da Natureza e que ele se engana sobre o alcance real do aspecto benéfico, ele mata momentaneamente em eu sua própria mãe, a saber a Natureza Universal, o que terá, para o herói, consequências bastante infelizes.
O primeiro engano de Perceval acontece com a Dama que ele encontra e que ele acredita honrar roubando-lhe beijo e anel. Ora, esta Dama é a primeira imagem do “Si” com a qual Perceval se confronta, com, aliás, um desrespeito que beira o ultraje: o rapto do beijo e do anel que são ambos símbolos de união à Suprema Realidade (que está aqui ainda adormecida, como está a donzela em seu pavilhão) se opera com uma tal falta de maneiras que ele desencadeará infalivelmente a parte adversa encarnada no cavaleiro da Dama, que tem por nome significativo: “O Orgulhoso do Pântano”. Longe de honrar a Dama, como sua mãe lhe havia aconselhado, Perceval a entrega por seu empolgamento a seu primeiro inimigo, o Orgulho, do qual ele terá em seguida que se livrar e é por isso que se pode dizer que ao acorrentar desta forma o Si, ele mata uma segunda vez sua própria Mãe.
O episódio seguinte mostra a saída de Perceval da floresta para enfim atingir o castelo de Arthur onde sua iniciação vai começar. Não retornaremos sobre o simbolismo dos lugares que é aqui muito claro. Por outro lado, o tema do desafio que se encontra com o Cavaleiro Vermelho exige alguns desenvolvimentos. Quem é, então, este “cavaleiro vermelho” que vem desafiar o Rei derrubando sua taça sobre a Rainha. O símbolo é aqui particularmente complexo por várias razões: em primeiro lugar, este cavaleiro que ultraja a Rainha (portanto o Si imanente) e que priva o Rei (o Ser em sua totalidade) de sua bebida de vida e de seu Graal, símbolo da Realeza contendo o Si divino (e neste sentido pode-se dizer que o Rei “contém” a Rainha como a Taça contém o Vinho, o que explica o jorro de vinho sobre a Rainha e o rapto da taça) este cavaleiro, dizíamos, constitui de certa forma um personagem que reúne as funções do Rei e as de Perceval (enquanto cavaleiro, portanto alma individual e volitiva) mas de forma antitética: o Cavaleiro Vermelho é primeiro o inimigo que visa destronar o Ser e este inimigo toma de todas as maneiras suas raízes no Orgulho, como acabamos de ver. Por outro lado, a cor vermelha faz aqui referência direta à Realeza, mas igualmente ao Orgulho como a seu remédio que determinará o caminho de Perceval e que constitui a via do Amor.
Estamos, portanto, aqui diante de um “resumo da situação” como isso é frequente nos romances arturianos: há identidade evidente entre Perceval e o Cavaleiro Vermelho, mas enquanto este último parece no fim de sua carreira, já que ele consegue pôr em perigo o Rei e sua corte, Perceval, ele, ainda está apenas em seu começo. Esta situação é, aliás, totalmente comparável com algumas diferenças de pontos de vista, àquela que ligava Merlin a Lancelot. Aqui, é pelo tema do desafio que a retransmissão entre a fase descendente e a fase ascendente vai se operar: Arthur é decaído e o desafio constitui um chamado à reabilitação do Rei. De outro ponto de vista, pode-se igualmente considerar a morte do Cavaleiro Vermelho como um sacrifício voluntário que deverá em retorno chamar um outro sacrifício: o do vencedor, ou seja, de Perceval, que só chegará ao termo de sua busca sacrificando-se ele mesmo, pelo aniquilamento de seu próprio eu. Enfim, a identidade de Perceval e do Cavaleiro Vermelho é mais evidente ainda se pensarmos que ao “despojar o velho homem” (ou o cavaleiro morto) de suas roupas, Perceval não faz em seguida senão “revestir o homem novo”, ou seja, ele mesmo.
“A donzela que havia rido” é, como se adivinha, uma outra imagem do Si. O riso é de toda evidência significativo de Vida e de Libertação e se exterioriza assim diante de seu futuro libertador, e se notará que ele se opõe, sobretudo no caso presente, à zombaria e ao sarcasmo do senescal, assim como o Si se opõe ao mental enquanto o eu não realizou a União. É a razão pela qual Keu esbofeteia “a donzela que havia rido” e que é dever de Perceval vingar esta afronta, ou seja, restabelecer a primazia do riso sobre o sarcasmo.
A imagem do Si Divino, depois de ter aparecido na Dama do anel, injustamente “posta em apuros” pelo Orgulhoso do Pântano, na Rainha ultrajada pelo Cavaleiro Vermelho, na “donzela que havia rido” igualmente ultrajada, vai enfim se estabilizar em Blanchefleur, aquela que se tornará verdadeiramente a Dama de Perceval. Ora, como as três precedentes, Blanchefleur não está isenta de males. Lá ainda o Si Divino é maltratado, faminto, prisioneiro de um cavaleiro traidor que quer forçá-la. A reação de Perceval se torna então característica de uma vontade de realização e a progressão é digna de ser notada: da ação destrutiva sobre a Dama do anel, à indiferença diante da Rainha ultrajada, Perceval passa à ação diferida para “a donzela que havia rido” e enfim à ação direta em relação a Blanchefleur, derrotando imediatamente Clamadeu. Notemos enfim que quando Perceval devolveu a vida ao castelo e que ele jurou amor e fidelidade à sua Dama, ele não comete o erro de Lancelot, a saber, de se entregar ao “princípio natural” da Natureza, virtual em cada imagem da Dama. A castidade de Perceval é, por assim dizer, natural e ao contrário de Lancelot, ele carece precisamente da generosidade e do amor que ele deverá ganhar pouco a pouco sobre o orgulho.
Antes de estudar a cena do castelo do Graal que ocupa uma situação central no relato e cujo simbolismo é notável em vários aspectos, é necessário resumir a segunda parte do Drama que decorre diretamente dele.
Na manhã de sua visita ao castelo do Rei Pescador, Perceval, continuando seu caminho, encontra uma Donzela chorando sobre o corpo de seu cavaleiro, morto na mesma manhã, com a cabeça cortada. A Donzela anuncia então a Perceval que o Senhor do castelo de onde ele vem, foi ferido outrora na coxa e que sua ferida lhe proíbe toda atividade, exceto a de pescar. Ela se desespera então quando Perceval lhe anuncia que ele não fez a pergunta que teria curado imediatamente o Rei Pescador, lhe diz em seguida que sua mãe morreu de dor e lhe indica o meio de ressoldar sua espada se ela viesse a se quebrar. É então que pela primeira vez, Perceval toma conhecimento de seu nome… Um pouco mais longe, ele encontra uma Donzela nobre mas miserável, em trapos, montada em um triste cavalo sem ferradura. Ele compreende então que se trata da Donzela do anel e se faz reconhecer pelo Orgulhoso do Pântano que quer imediatamente cortar-lhe a cabeça. O combate começa e Perceval o obriga a perdoar e a honrar de novo sua Dama, depois o envia à corte de Arthur para anunciar que “a donzela que havia rido” será vingada. O Rei decide então partir em busca de Perceval, com sua corte. Uma manhã, enquanto a neve acaba de cair, diante de Perceval, um falcão ataca um ganso branco que, ferido, deixa três manchas de sangue na neve. Perceval cai então em uma torpor extática e não pode se desfazer da contemplação das três manchas onde ele reconhece o rosto de Blanchefleur. Sagremor o descobre assim e o interpela mas não pode atrair sua atenção. Ele fica então com raiva e o ataca, mas Perceval o derruba com um golpe de lança. Keu, por sua vez, o provoca em duelo, mas o herói em resposta, lhe quebra os ossos, depois se mergulha novamente em sua visão. Sobrevém então Gauvain que compreende imediatamente a dor de Perceval mergulhado na lembrança de Blanchefleur, faz desaparecer as manchas e lhe diz que ele pode agora voltar à corte de Arthur, pois “a donzela que havia rido” acaba de ser vingada.
Pouco depois, chega ao acampamento do Rei uma donzela de uma feiura monstruosa, montada em uma mula, que acusa publicamente Perceval de ter faltado gravemente de coração por não ter feito a Pergunta no castelo do Rei Pescador, sobre a lança que sangra e sobre o homem que o Graal servia. Ela o amaldiçoa e proclama sua dor e os males a vir. Sobrecargado de vergonha, Perceval vai perder então a memória de Deus, durante cinco anos, buscando as piores aventuras, evitando as igrejas. Na sexta-feira santa do quinto ano, ele encontra um eremita ao qual ele confessa seus pecados. Este lhe anuncia que ele fez sua mãe morrer e que, por esta razão, sua língua não se moveu ao ver a lança que sangra.
Aqui para o relato de Chretien e com ele, a segunda fase do Mito. Como já assinalamos, a cena do Graal constitui o nó central do relato e reveste, por este fato, uma importância particular.
Quando Perceval encontra pela primeira vez o Rei Pescador em sua barca, ele lhe pergunta se existe uma ponte para atravessar o rio. A senha é dada e o simbolismo da ponte não deixa nenhuma dúvida a este respeito: o Rei Pescador o envia em retorno a seu próprio castelo onde a provação capital espera o herói. O quadro é à medida da provação: a sala quadrada do castelo é uma autêntica Imagem do Mundo, o fogo central evoca o sacrifício original da divindade que dá nascimento ao mundo e, simultaneamente, o elemento purificador que permite por um sacrifício análogo a reintegração na divindade. A espada que é oferecida a Perceval pela sobrinha do Rei Pescador é, como se sabe, a arma do Conhecimento, indicando por aí, a natureza superior da provação a ser realizada; esta arma é oferecida, é claro, pelo Si como já indicamos, e que, temporariamente, se encarna na Virgem do Graal.
A procissão que desfila incessantemente diante de Perceval durante a refeição constitui, de toda evidência, o nó do mistério: os símbolos que a compõem, mesmo se eles remetem inevitavelmente a uma interpretação exotérica, não deixam de conservar um caráter universal; a lança que sangra, que se assimila frequentemente à do centurião Longinus, não é outra coisa senão a Árvore da Vida de onde emana o “Orvalho celestial”, e que pode igualmente remeter ao simbolismo védico do sacrifício de Purusha, as gotas de sangue se tornando aqui “as emanações” da divindade sacrificada. O Graal se associa naturalmente à lança que sangra, pois ele contém ele mesmo o sangue da divindade, a saber, a bebida da imortalidade e que é, além disso, análogo ao coração em sua função simbólica, sendo o elemento central do ritual. É de se notar na passagem, que o nome dado por Wolfram à Virgem do Graal está em relação direta com sua função: “Repanse de Joie” pode igualmente ser lido como “Repansadora ou Repouso da Alegria”, ou seja, de beatitude. Enfim, sempre de acordo com Wolfram, a lança que sangra é mergulhada regularmente nas feridas do Rei Pescador para aliviá-lo, o que em Si não tem nada de estranho, já que no ferro desta lança, goteja o “Orvalho de Vida”.
O terceiro elemento do ritual que é frequentemente silenciado, é a tábua de prata, que no cristianismo poderia ser associada ao prato de onde o Cristo dá a porção a Judas e sobretudo àquele no qual se traz a cabeça de João Batista. Com efeito, a lenda celta de Peredur (que é o homólogo exato de Perceval) relata que neste prato de prata, uma cabeça humana se banha em seu sangue e que esta cabeça pertence ao filho do Rei Pescador. Este detalhe suplementar ilumina singularmente a situação: o simbolismo da decapitação é, como se sabe, muito ligado ao do sacrifício e a cabeça que se encontra virtualmente no prato (na lenda de Perceval) não é outra coisa senão a cabeça do próprio Rei Pescador, atribuída ao filho na lenda de Peredur por razões que exporemos talvez em seguida. Esta identificação do “sacrificado” ao Rei Pescador se reencontra, aliás, um pouco mais longe, durante o banquete onde se traz para comer uma “coxa de veado”; ora, a história nos ensina que o próprio Rei foi ferido na coxa e é muito provável que o veado era para os Celtas, como no cristianismo, um símbolo da divindade sacrificada. O banquete é, portanto, bem eucarístico, todos os elementos do sacrifício estando reunidos nesta sala microcósmica, a vítima sendo o próprio Rei Pescador, o Ser sacrificado e decaído, que subsiste pelo único fato da “clemência divina” à qual o liga ainda o Raio Celestial, significado pela lança que sangra.
A história nos diz que este Rei, outrora apaixonado por caça, não pode mais se oferecer desde sua decadência, outras alegrias senão a pesca. Ora, este Rei Pescador é antes de tudo um “pescador de homens”, diríamos mesmo um pescador de Heróis, pois não podendo mais caçar ele mesmo, é necessário que um Herói restaurador o substitua nesta obra cósmica, nesta “caça à divindade”. Aqui, a analogia entre Merlin e o Rei Pescador, se torna evidente e mostra bem que através do cativeiro ou da ferida, o sofrimento do Ser é um sofrimento metafísico no sentido em que é dito nos Brahmanas que Prajapati, embora decapitado e decaído, “sobrevive a este infortúnio”.
Em tal contexto, podemos facilmente determinar qual deveria ter sido o papel de Perceval e o que se esperava dele. Em primeiro lugar, ele parecia ser qualificado para resolver esta provação: fazer a pergunta teria trazido ao Rei Pescador a cura, a restauração do estado primordial, porque o próprio fato de fazer uma pergunta sobre o sentido da procissão ou sobre o mal do Rei implica uma identificação do Herói com o sofrimento, com o próprio sacrifício e por aí, uma abdicação do eu diante do Si, presente em todos os elementos do ritual. Perceval promete a Si mesmo fazer a pergunta no dia seguinte, mas é tarde demais e o castelo vazio é a prova disso. É tarde demais porque a pergunta se faz sempre “agora” e em um eterno presente, porque o importante não é saber do que o Rei sofre, mas de “conhecer” o sofrimento ou antes de o reconhecer como seu. Há aqui toda a diferença que existe entre o saber que distingue e o Conhecimento que unifica, diríamos mesmo entre a dualidade e a Não-Dualidade (Adwaita).
Para se justificar, Perceval se refugia nos ensinamentos de Gorneman; mas Gorneman, homólogo de Gauvain, encarna apenas as virtudes humanas e esta reserva que só tem valor exterior, se torna um obstáculo à realização, à união com o Si.
A verdadeira razão do silêncio de Perceval é dada pelo eremita: é porque Perceval matou sua mãe que sua língua não se moveu ao ver a lança que sangra. Sabemos que a primeira falta de Perceval é o orgulho que se manifesta, entre outras, pela indiferença a tudo o que não se refere ao eu. Perceval queimou as etapas, atropelando tudo em seu caminho, guardando dos ensinamentos apenas o que lhe convém, cometendo enfim o erro fatal de querer aniquilar em eu a imagem da Natureza, da Mãe, enquanto ele deveria tê-la superado. Este assassinato vai então se manifestar como um reforço do ego que, longe de se “dissolver” para liberar o Si, vai “coagular” os interesses do eu, comprometendo assim o sucesso do Herói. O aspecto monstruoso de Cundrie, montada em sua mula e que sobrecarrega Perceval de censuras, não é em definitiva senão o reflexo de uma alma ignorante e muito ocupada de Si mesma, incapaz de partilhar o sofrimento, nem de ver “que homem sofre em eu”.
Nestas condições, é evidente que Perceval não pode fazer a Pergunta, porque ele se põe diante deste espetáculo apenas como espectador, recusando-se a tomar parte no sacrifício, como de começar seu próprio sacrifício. O cavaleiro morto que ele encontra na mesma manhã e sobre o qual sua Dama chora é uma outra imagem do Rei decaído e, em última análise, do próprio Perceval, pois só ele é responsável por esta morte e “decapita” incessantemente o Rei enquanto ele não faz a Pergunta; desta vez, no entanto, parece que ele deve enfim sair desta “letargia da alma” já que ele toma enfim conhecimento de seu nome, portanto de sua via.
Se tanto insistimos na cena do castelo do Graal, é antes de tudo porque ela põe em evidência a interpretação sacrificial do Drama cósmico com um simbolismo impressionante e temos fortes razões para pensar que se trata aqui dos restos de um autêntico ritual iniciático, comparável em numerosos pontos de vista, à missa cristã ou a qualquer outro rito sacrificial. A continuação da Aventura de Perceval será, aliás, determinada por esta entrevista “misteriosa” no castelo do Graal. Armado desta vez da espada iniciática e não mais daquela do Cavaleiro Vermelho, ou seja, daquela do velho homem, a primeira ação de Perceval será de submeter o Orgulhoso do Pântano, o que não precisa de comentários. A verdadeira “revelação” de Perceval seguirá de perto este ato libertador: um falcão ataca um ganso branco que deixa três manchas de sangue na neve. Pode-se reconhecer nesta agressão, a atitude de Perceval em relação a sua Alma Imortal; em todo caso o simbolismo das cores reveste aqui uma importância particular: Perceval é vermelho como o sangue e a Realeza, enquanto Blanchefleur, sua Dama, ostenta como a neve e o ganso branco, a cor sacerdotal. O que Perceval reconhece nas três manchas de sangue na neve, é primeiro o rosto de sua Amiga que ele negligenciou, que ele matou ou feriu por sua indiferença, é em seguida a imagem do sofrimento e do sacrifício aos quais ele deverá doravante se submeter, é enfim o reconhecimento da pequenez, da limitação do eu volitivo na infinitude do Si divino.
Na lenda de Peredur, um detalhe revelador lança uma luz mais importante sobre a cena. Com efeito, é dito que um falcão vindo de matar um ganso branco, um corvo se abate sobre a carne do pássaro. Ora, isto adiciona uma terceira cor às duas primeiras: trata-se do Preto. Lá ainda, temos uma referência direta aos três “gunas” hindus dos quais se diz que Sattwa é branco, Rajas é vermelho, e Tamas é preto, simbolizando assim as três tendências do universo. Estamos aqui na presença de uma nova “Imago Mundi” e não é estranho que Peredur reconheça nestas três manchas a imagem de sua Dama. É preciso notar, no entanto, que o Si, embora sendo intrinsecamente idêntico ao Universo, não deixa de estar localizado aqui no símbolo do ganso branco. Com efeito, na cosmologia hindu, “Hamsa” é primeiro o cisne celestial que simboliza por sua pureza a essência divina e o Senhor que produz o Universo, e é em seguida o pássaro migratório preso nos laços do devir (Samsara), ou seja, em última análise, a Alma Imortal ou o Sopro divino que transmiga de existência em existência, antes de poder definitivamente retomar seu voo. Assim, mesmo se a Alma Imortal é idêntica ao Universo, ela se distingue, embora em modo ilusório, da alma individual simbolizada pelo falcão, pássaro caçador e real por excelência (não nos esqueçamos que Perceval é ele também um guerreiro que caça a divindade), assim como da alma “tamasica” e inferior que se alimenta do assassinato da Alma Imortal.
Esta visão extática já levou nosso Herói para fora do alcance das limitações humanas: a impetuosidade, o desregramento de Sagremor que dominava a infância de Perceval é largamente superado; o espírito crítico e negador de Keu não tem mais domínio sobre ele. Só Gauvain não é afastado inteiramente, o que implica que Perceval terá em seguida que ultrapassar definitivamente o estágio das virtudes cavalheirescas para enfim poder “fazer a pergunta”. Em Chretien, é o sol que faz desaparecer as três manchas, mas sabemos igualmente que Gauvain é ele mesmo um herói solar cuja “força cresce ao meio-dia e decresce à noite”. Por outro lado, é significativo que em Wolfram, este herói se sirva de um véu para mascarar as três manchas ao olhar de Perceval, e é preciso evidentemente compreender aqui que só o véu da consciência humana podia então dissimular a imagem de Blanchefleur.
Perceval fez duas coisas ao mesmo tempo. Ao reconhecer seu Si divino, ele vinga “a donzela que havia rido”, reduzindo à mercê o senescal do Rei e pode a partir de então reintegrar a corte deste último. Infelizmente, por pouco tempo: à imagem distante e transcendente de Blanchefleur sucede a monstruosidade de Cundrie, outra figura do Si, que conhece perfeitamente a alma de Perceval e sua falha no castelo do Graal. A feiura de Cundrie não tem, no caso presente, nada de espantoso: Perceval está atualmente sob o império da desmedida e após uma tal revelação, ele percebe de repente sua falta como uma verdadeira monstruosidade. Oprimido de vergonha, ele vai então errar durante cinco anos “até que ele saiba enfim que homem se nutre do Graal”; mas esta raiva de Perceval, esta perda da memória de Deus é daquelas que “Deus” ama, o que fará o eremita Trevizent dizer: “Nunca se viu maior milagre, ao mostrar sua raiva, você obteve de Deus o que desejava.”
Esta memória humana de Deus vai progressivamente se transmutar em memória divina, pois se Perceval se defende a partir de então de visitar Deus nas igrejas, ele não deixa de continuar sua Busca com ferocidade, “buscando as piores aventuras, as mais cruéis e as mais duras… para enfim saber qual é esta lança que sangra e por que ela sangra…”
