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ORPHEUS

JAMES HILLMAN. MYTHIC FIGURES. SPRING PUBLICATIONS.

I.

  • A questão central é saber se os deuses verdadeiramente fugiram e se os tempos atuais constituem uma era empobrecida de alma, a dürftige Zeit.
    • A expressão dürftige Zeit, de origem germânica, designa uma época de penúria espiritual.
    • Questiona-se se os deuses, sendo as potências imanentes à variedade do mundo, podem de fato separar-se dele.
    • Os deuses seriam a imortalidade do mundo, conferindo a cada coisa sua transcendência inerente, seu encantamento sublime, sua beleza ao mesmo tempo temível, cruel e profundamente inteligível.
  • A aceitação moderna da tese de que os deuses simplesmente partiram revela uma contradição interna, pois sua ausência não poderia depender do comportamento humano sem reduzir sua autoridade sobre-humana a mera ficção.
    • Se a presença ou ausência dos deuses dependesse das práticas humanas — cultos, rituais, sacrifícios —, os deuses do mito seriam apenas o que o iluminismo secular insiste: ficções da fantasia humana.
  • A declaração de que os deuses fugiram beneficia tanto a conveniência secular quanto a conveniência cristã, ao desencantarem o mundo e abrirem espaço para uma nova figura salvadora.
    • A ausência dos deuses transforma o mundo em res extensa — espaço matemático calculável em forças, repleto de objetos sem alma.
    • Toda alma, toda mente, toda consciência se condensa no cérebro humano, colocando a natureza à disposição da vontade humana.
    • A ausência dos deuses abre campo para a presença de Jesus Salvador, que oferece sua resposta redentora à dürftige Zeit.
  • Numerosos estudiosos de religião, história, mito, literatura, artes e filologia insinuaram a sobrevivência dos deuses pagãos, ocultos ou não, dentro do mito cristão.
    • Igualmente numerosas foram as tentativas de revivificação dos deuses pagãos por meio de imitações, invocações e interpretações hermenêuticas.
  • O método seguido parte de duas frases célebres atribuídas a C. G. Jung, frequentemente citadas como fundamento de uma psicologia profunda.
    • A primeira frase tem origem supostamente délfica e estava gravada em pedra como lintel na porta da casa onde Jung viveu e trabalhou: “Chamado ou não chamado, o deus estará presente” — Vocatus atque non vocatus deus aderit.
    • A segunda frase é de Jung: “Os deuses tornaram-se doenças; Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar, e produz curiosos espécimes para o consultório médico, ou perturba o cérebro de políticos e jornalistas que desencadeiam inconscientemente epidemias psíquicas sobre o mundo.”
  • A interiorização da divindade — a passagem da transcendência à imanência — foi argumentada por Spinoza, que por isso foi banido de sua comunidade, e depois apresentada por Heinrich Zimmer, o indologista, que afirmou: “todos os deuses estão dentro.”
    • As perspectivas de Jung, Spinoza e Zimmer são entre si distintas, e distintas também da afirmação de Jesus em Lucas 17:21 — “O Reino de Deus está dentro de vós.”
    • A contribuição específica de Jung foi torcer a imanência dos deuses em direção à patologia: os deuses passaram a habitar os sintomas, exigindo irreprimivelmente reconhecimento e observância.
    • Os deuses recebem novos nomes emprestados dos manuais de psiquiatria e psicologia anormal, e seu refúgio não é mais o altar e o templo, mas a interioridade da psique.
    • O reprimido retorna sob a forma estranhamente inventiva dos sintomas, de modo que os deuses se tornaram doenças tanto na psique individual quanto na psique coletiva da anima mundi.
    • Para encontrar as figuras dos mitos antigos, recorre-se ao patológico em vez do idealizado — seguindo Jung em vez de Winckelmann.
  • Jung não é nem o único nem o primeiro nessa confluência entre o mitológico e o patológico, entre os deuses e as doenças.
    • Em 1900, W. H. Roscher publicou monografia sobre Efialtes com subtítulo “tratado patológico-mitológico.”
    • Contemporaneamente a Roscher, Freud deslocou Édipo de figura teatral a pulsão no corpo pessoal e íntimo, elevando as personificações míticas Eros e Tânatos à condição de deuses dominantes de todos os acontecimentos psicológicos.
    • O legado de Freud a não ser negligenciado é o retorno às fontes da cultura nos mitos mediterrâneos, enraizando a psicologia não no cérebro ou na genética, mas na base poética da mente, cuja imaginação é estruturada por configurações míticas — os universali fantastici, como Vico chamou essas presenças arquetípicas.
    • Nietzsche também lançou as bases para uma abordagem psicológica de Orfeu.
  • O reconhecimento da conexão íntima e sutilmente diferenciada entre mitos e dor, entre os deuses e as doenças, é a maior conquista da mente grega, singularizando aquela cultura entre todas as outras.
    • Essa conquista é a tragédia grega, que demonstra diretamente a governança mítica dos assuntos humanos dentro dos estados, das famílias e dos indivíduos.
    • Nenhuma outra cultura articulou a tragédia a essa altura, e esse feito não foi igualado desde então.
  • O método psicológico em questão dedica pouca atenção ao enquadramento histórico e geográfico dos mitos, à análise filológica dos textos, à autenticidade de sua transmissão, às evidências arqueológicas e às implicações sociológicas e políticas de seus temas.
    • O método é assumidamente sincretístico e pode ofender a devoção paciente à pesquisa acadêmica daqueles que abordam os mesmos contos com intenções diferentes.
    • O objetivo é desvendar mitos antigos em comportamentos e fenômenos absorvidos como realidade habitual e absolutamente não mítica — revelação que uma psicologia arquetípica busca.
    • Saqueia-se o conhecimento alheio e pilha-se o que for possível, justificando essas violações em nome de trazer compreensão mais profunda às aflições psicológicas.
  • Além de vincular uma desordem humana a um mito mais amplo, busca-se conectar a experiência presente à cultura histórica, abrindo uma porta há muito fechada e trancada dos dois lados.
    • De um lado, a história e sua erudição testemunham apenas o morto, o passado e o desaparecido; de outro, a psicologia está inteiramente contida na alma subjetiva, excessivamente próxima e pessoal.
    • Quando os estudiosos falam apenas a documentos e os psicólogos apenas a pacientes, a cultura definham — sua alma rasa e sem raízes no conhecimento histórico, seu conhecimento sem alma.

II.

  • A pergunta sobre qual Orfeu e de quem é Orfeu dispensa especificação, pois o extenso preâmbulo sobre método a dissolve.
    • “Orfeu” designa um entrelaçamento compacto de oito mitemas bem conhecidos que, juntos, compõem os traços perduráveis principais dessa figura, destilados a partir do estudo de Friedman, Orfeu na Idade Média.
  • Os oito mitemas orféicos são: Orfeu, da Trácia, descendente de uma Musa e de um deus do vinho e/ou possivelmente de Apolo; Orfeu entre os Argonautas, não exatamente um deles, não um herói nem um matador, mas aquele que “tocava para os remadores uma medida para o longo golpe dos remos”; Orfeu, a quem “as árvores não desobedeciam, as rochas sem vida o seguiam e os rebanhos das bestas da floresta” por causa de sua música; Orfeu, o sacerdote, primeiro de Dionísio e depois de Apolo, estudante de Moisés, profeta, simulacro de Cristo, doador de religião, autor de dogma e hino, ídolo de uma seita, mestre de um Lebensweg; Orfeu, poeta, especialmente poeta cosmológico, técnico da poesia a quem se atribuem a invenção do alfabeto e as variedades da métrica poética; Orfeu com Eurídice — viajante ao submundo, amante extraordinário, herói fracassado mas psicopompo, amante desconfiado, sofredor inconsolável e solitário; Orfeu, misógino, dilacerado pelas furiosas mulheres, membro a membro, por razões diversas, incluindo o desdém por elas, a exclusão delas de seu culto e a preferência pelo amor dos rapazes; e a cabeça cantante de Orfeu, que foi parar na ilha de Lesbos e continua cantando após seu desmembramento, sendo ali venerada junto com sua lira e também nos céus como a constelação Lyra.
    • O Lebensweg é um termo alemão que significa caminho de vida ou modo de conduzir a existência.
  • Mesmo que se encontrassem os ossos do homem, o crânio de sua cabeça e tábuas de seus ensinamentos, o mito de Orfeu não poderia ser dissipado — assim como a suposta evidência de um Jesus histórico não esvazia nem diminui o poder do Jesus mítico.
    • Do ponto de vista psicológico, qualquer “real” possui sempre um componente mítico e arquetípico, ou pode ser visto arquetipicamente.
    • Se “real” é determinado por características como poderoso, efetivo, atual, fecundo, duradouro e emocionalmente comovente, então o real é o mítico.
  • Dos oito temas orféicos, três merecem comentário por revelarem a presença e a ausência de Orfeu na psique contemporânea: Orfeu em meio à natureza, Orfeu e a música, e Orfeu com Eurídice.
  • Orfeu em meio à natureza — aquele a quem animais, rochas e árvores escutam em atenção absorta e cujos hinos cosmológicos alcançam as estrelas e além — é um deus da natureza, senhor das bestas e do que se supõe inanimado.
    • A palavra antropocêntrica “ambiente” vem do francês environs, ao redor, colocando o humano no centro e reduzindo a natureza a mero pano de fundo, simples res extensa, com animais, rochas e árvores como matérias-primas e recursos naturais.
    • René Descartes, educado pelos jesuítas, teria expulsado Orfeu do mundo, deixando-o como matéria morta a ser usada e abusada em proveito de uma única espécie.
    • Muito antes, como relatou Plutarco, o grande deus Pã havia morrido e, com sua morte, o mundo perdera sua vida interna oculta — a súbita selvageria que provoca pânico e desejos espontâneos.
    • Com a chegada do Cristianismo, Orfeu também foi eliminado, e o politeísmo que reconhecia a alma na natureza foi suprimido pela assimilação de Orfeu a Cristo.
    • A ausência de Orfeu pertence aos sintomas do Weltbild — a visão de mundo que a sociedade cristã ocidental continua a exportar com zelo missionário, militar e comercial para lugares remotos, pagãos e politeístas como a Amazônia, a Irian Ocidental e o sub-Saara.
  • Um caso imaginário ilustra como Orfeu pode estar presente na psique contemporânea: uma adolescente que subitamente adere a campanhas por direitos dos animais, converte-se ao vegetarianismo, coleciona cristais e rochas, protege árvores, lê textos religiosos orientais, escreve poemas e toca instrumento de cordas, e nutre um desdém raivoso pelos homens.
    • Pausânias relatou que os Órficos preferiam feijões e evitavam ovos.
    • Gaston Bachelard utilizou a expressão “complexo de Orfeu” para designar esse tipo de despertar.
    • Essas conversões súbitas sugerem a presença viva de Orfeu na psique, atraindo novos membros para seu culto mesmo hoje.
  • Apesar de sua presença subliminar nos movimentos contemporâneos de “neo-orfismo” — o ambientalismo —, Orfeu está dolorosamente ausente na linguagem desses próprios movimentos.
    • A relação entre Orfeu e o mundo natural se dava por meio da linguagem — os hinos, a ars poetica —, pois ele era filho de Calíope, a musa da eloquência e da poesia épica.
    • Elizabeth Sewell, em seu estudo A Voz Órfica, demonstrou que o dom aural de Orfeu está ausente hoje na linguagem da ecologia.
    • A palavra “ecologia” permanece cartesiana — atonal, matemática, econômica, hiperracionalizada, falando em depleção de petróleo, sustentabilidade, população zero, eficiência energética, medição climática, partículas de poluição, desertificação e bancos de genes.
    • A linguagem cristã do ambientalismo tampouco alcança o coração do problema, enfatizando a moralidade — culpa pelo que foi feito ao mundo, reparações, dever, boa administração.
    • Nenhuma dessas linguagens — cartesiana ou cristã — atinge o núcleo do problema ambiental, que é a resposta estética ao sofrimento, à feiura, ao abuso e à sublime beleza do mundo.
    • O movimento ambiental precisa encontrar o modo órfico de poiesis para encantar os ouvidos humanos a escutarem o canto do mundo.
  • Orfeu e a música constituem o segundo exemplo de sua presença — incontáveis salas de concerto, imagens, poemas líricos e óperas o associam ao som e ao canto.
    • W. K. C. Guthrie, em capítulo intitulado “Orphica e a Nova Era” de seu livro publicado originalmente em 1935 — muito antes dos hippies, da maconha e do pacifismo —, referia-se ao período do sincretismo greco-romano, quando Orfeu era uma das principais figuras de culto.
    • Esse sincretismo antigo é comparável ao humor, interesses e crenças da “Era de Aquário” contemporânea, cristalizada nos anos 1960, quando a música foi força comunitária e mensageira da agitação social, da libertação feminista, da política de protesto e da reforma idealista.
    • Guthrie observou: “O sincretismo e a mistura de tradições religiosas eram a ordem do dia” e “Uma marca da nova era foi a difusão e a crescente importância de sociedades de culto privadas e esotéricas.”
    • Os cultos de Mitra, Osíris, Cristo e Baco/Dionísio reivindicavam descendência ou mostravam semelhanças com o culto de Orfeu.
  • Clemente de Alexandria, em sua Exortação aos Gregos, apresentou Cristo como portador de uma Nova Canção — tropo que fazia uso da Nova Canção mencionada nos Salmos, mas que ressoava mais familiarmente na atmosfera sincrética da época como referência indireta e mesmo direta a Orfeu.
    • A identificação Orfeu/Cristo tem sido objeto de vasto estudo, e a presença de Orfeu como música continua a inspirar cristãos de Bach ao Gospel.
    • A Nova Canção dos anos 1960 chegou com Joan Baez e Bob Dylan, os cânticos dos manifestantes negros no Alabama e na África do Sul, as canções de amor dos Beatles, o pelvis dionisíaco dançante de Presley.
    • Essa música incorporou, de modo sincretístico, flauta andina, cordas indianas e persas, guitarras latinas, ritmos africanos, Brasil, Tibete, blue grass, rhythm-and-blues, country-and-western — este último especialmente órfico em seu lamento sobre separações perdidas, Eurídice, e também o blues em seu anseio por um amor que foi embora.
    • A mistura de tradições religiosas incluiu Cabala, alquimia, Zen, mosteiros birmaneses, Nepal, Pondicherry, os Apócrifos e os Manuscritos do Mar Morto, rebirthing, sufismo, xamanismo, magia, meditação e asanas de yoga, medicina chinesa e o andar errante como modo de vida.
    • Transistores e aparelhos de som levaram o Novo Som ao mundo todo — assim como em Jericó, a música derrubou os muros; diz-se que a influência polonesa do papa não fez tanto para transformar a Europa Oriental trancada atrás da Cortina de Ferro quanto a Nova Canção soando pelos pequenos transistores.
  • A música de Orfeu em nossos tempos começou décadas antes dos anos 1960 — já no final do século XIX —, não numa sala de concerto, mas na arte de escutar.
    • Orfeu é um fenômeno do ouvido, como demonstrou Elisabeth Sewell: os animais e as árvores ficam suspensos pela faculdade da audição.
    • Uma mudança radical nessa faculdade ocorreu nos consultórios vienenses dos doutores Breuer e Freud, quando surgiu a “cura pela fala” — Freud e Breuer escutavam o canto das almas contando suas estranhas aflições, ouvindo as sobretones do implícito e as subtones do não dito, os refrões repetitivos, os duplos sentidos e as metáforas.
    • O psicoterapeuta traz uma atenção à performance do paciente semelhante à de um recital musical — escutando mudanças de tonalidade, respirações, pausas, asides sub voce como recitativos, crescendos de volume e glissandos de fuga.
    • Esse ouvido é especificamente órfico porque escuta o ausente no evidente e os mais tênues indícios involuntários do espírito espontâneo que inflecte a fala — as transcendências súbitas que recompõem o ordinário em extraordinário, em revelação.

III.

  • Orfeu e a perda de Eurídice constituem o fio do tecido órfico que mais veio à tona nos tempos modernos — a narrativa da perda da amada no dia do casamento, da descida ao submundo, da hesitação fatal e do olhar para trás.
    • A condição imposta por Hades e pela Rainha Perséfone era de ordem folclórica: não olhar para trás.
    • Interpretações divergem sobre o sentido da hesitação: dúvida, desconfiança da amada, desconfiança da mulher como ser independente pertencente à natureza em vez da civilização, descuido do puer aeternus, ou intenção inconsciente disfarçada de lapso.
    • Versões medievais e moralistas argumentavam que Orfeu tinha razão em perdê-la — ela seria uma mulher de má índole, pertencente ao reino das trevas desde sempre.
  • A pergunta de Beverly Zabriskie — “Ela quis a si mesma mais profundamente para dentro da morte? Depois de estar entre os mortos, como poderia viver entre os que não morreram?” — sugere que Eurídice pode ter deliberadamente tornado impossível o retorno à vida.
    • Separada de Orfeu, Eurídice permanece sua noiva eterna e constante, a serva que mantém fidelidade com a morte.
  • A questão de por que Orfeu, Senhor dos Animais — cujas representações às vezes mostram uma serpente entre seu público de bestas —, teria permitido a mordida mortal de uma cobra na sandália de sua noiva convida à especulação mítica.
    • A serpente pode ter sido emissária do submundo, afirmando a reivindicação sobre Eurídice-Agriopê e sua aliança com os de baixo, impedindo uma aliança inadequada com Orfeu.
    • A serpente pode ter sido Asclépio, chegando como hóspede no casamento para salvar Eurídice das agruras da existência conjugal, ou curando-a de uma inconsciência simples por meio da mordida que revelou instantaneamente sua natureza de duas vezes nascida.
    • A morte da donzela — a imagem idealizada de anima que Orfeu, o pacifista vegetariano poeticamente meditativo e divinamente inspirado, não podia mais sustentar — teria sido necessária para que ele cumprisse seu próprio destino, que o mantém presente até hoje.
  • O fio final da história de Orfeu é ao mesmo tempo trágico — como ecoado na Alceste —, romântico, e enigmático como um drama Noh.
    • Um enigma é um estímulo ao espanto e à especulação — um gnomon heraclitiano, um koan, um convite ao prazer hermenêutico de desvelar, para romper os hábitos primários da mente.
    • Marie Delcourt escreveu: “Um ainigma refere-se a todas as coisas com um segundo sentido — símbolos, oráculos, ditos pitagóricos.”
    • O segundo sentido — a hyponoia abaixo da falha fatal evidente — é dado pela dedicação de Orfeu ao alhures: sua lira, sua cabeça cantante, seu culto, sua poiesis.
  • Neste mundo não havia lugar para Eurídice senão como ouvinte encantada e seguidora — papel que ela, reconheceu Orfeu, não podia desempenhar.
    • Ao deixá-la ir — ou ao vê-la ir —, ao olhar para trás porque ela estava se soltando, Orfeu reconheceu que não era ela o que desejava, mas o anseio inspirado por sua imagem.
    • Era a imagem dela que precisava guardar, não sua mão — manter a perda dela, a perda como lembrança — é o que ressoa através da voz órfica.
  • Naquele momento começa a castidade fatal de Orfeu — não como abstinência e frustração, nem como misoginia e homossexualidade, mas como fidelidade energizante à imagem amada.
    • Como Petrarca e Dante, a castidade do anseio é exigida pela vocação poética, dando-lhe as asas que se expandem pelo cosmos mais amplo e tornam possível uma imaginação cosmológica, uma imaginação órfica.
  • O anseio pelo que não está aqui, pelo que é transcendente e não pode ser apreendido — o pothos que dói em direção a uma margem mais distante — é a fonte do encantamento poético de Orfeu.
    • Como Rumi disse em incontáveis versos, o que ansiamos é o próprio anseio — estar pleno de anseio é a plenitude.
    • Os românticos alemães disseram: diz-me o que anseias e eu te direi quem és — Sehnsucht.
    • Desse anseio divino vêm as canções; e a ausência de Eurídice está presente na poesia lírica de amor, nas árias imortais da ópera italiana, no apelo imediato do Romantismo — das histórias de amor irônicas e sofisticadas de Ovídio às alusões de Shakespeare a Orfeu, a Anna Kariênina, o bovarismo e Hollywood.
    • Orfeu é o deus da doença humana do Sehnsucht — afligindo-nos com lembranças nostálgicas e solitárias, nossa dor por uma beleza ausente, nossas cabeças à deriva e sacudidas por ondas de emoções ingovernadas, cantando o que não pode ser e nunca foi, exilados numa margem distante longe de qualquer lar e incapazes de cessar de poetizar as dores dilacerantes da vida humana.
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