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Prefácio

KERÉNYI, Károly. Dionysos. Archetypal Image of Indestructible Life. Princeton: Princeton University Press, 1976.

  • O momento para uma história definitiva das religiões da Europa ainda não chegou, pois o quadro geral dessas religiões — especialmente as mais antigas — permanece provisório e em constante enriquecimento.
    • O enriquecimento desse quadro geral interessa não apenas aos estudiosos, mas a todos os que desejam maior consciência da experiência que constitui o conteúdo de uma cultura.
    • A história religiosa do espaço cultural europeu, mesmo em suas origens mais remotas, pertence à história da cultura independentemente de como cada indivíduo a interprete à luz de uma denominação religiosa ou convicção filosófica.
    • A história das religiões não pode ser corrigida retrospectivamente — e, ao contrário dos dogmas de uma fé, tampouco pode ser rejeitada.
    • Mesmo a rejeição de uma religião é um ato que ocupa seu lugar na história das religiões e acrescenta à soma das experiências do espaço cultural.
    • Uma história da religião ocidental que não levasse em conta Friedrich Nietzsche ou o ateísmo em geral não satisfaria nem as exigências de uma ciência moderna da religião nem as de uma história cultural abrangente.
  • Nietzsche foi um ateu radical e ao mesmo tempo opôs um deus grego a Cristo, formulando a alternativa “Dioniso ou Cristo” — escolha que, correta ou não, seleciona o deus compatível com seu ateísmo radical.
    • A ideia de Nietzsche, por mais estranha que pareça, não poderia ter sido totalmente infundada, e uma vez surgida, deve ser contada entre as experiências que compõem a cultura ocidental.
    • A questão que se impõe é a de saber o que estava por trás da palavra “Dioniso” quando era ainda o nome de um deus de uma religião histórica autêntica.
    • Na “Autocrítica” com que Nietzsche prefaciou a edição de 1886 de O Nascimento da Tragédia, escreveu: “Ainda hoje praticamente tudo nesse campo do dionisíaco permanece por ser descoberto e escavado pelos filólogos. Acima de tudo, o problema de que há um problema aqui — e de que os gregos, enquanto não tivermos resposta à questão 'O que é dionisíaco?', permanecem tão totalmente incompreendidos e inimagináveis como sempre.”
    • Essa observação permanece válida até os dias de hoje, embora precise ser transposta: os próprios gregos e seus precursores em Creta ajudarão a compreender o elemento em sua cultura que, uma vez entendido, tornará a própria cultura compreensível.
    • A cultura minoana não pode ser compreendida sem que seu caráter dionisíaco seja apreendido.
  • Nenhum outro deus dos gregos está tão amplamente presente nos monumentos e na natureza da Grécia e da Itália, na tradição “sensível” da Antiguidade, quanto Dioniso — podendo-se dizer que o elemento dionisíaco é onipresente.
    • Os dois produtos característicos da arquitetura grega dos quais se possui o maior número de ruínas ou vestígios são o templo e o teatro — e o teatro pertencia ao domínio de Dioniso.
    • De todas as plantas cultivadas da Antiguidade, é a videira que sobreviveu de forma mais abundante: ela também era sagrada a Dioniso e testemunhava sua presença.
    • Essa impressão surgiu em 1931 — ano em que nasceu a ideia para este livro —, quando se concebeu que qualquer relato da religião dionisíaca deve colocar o acento principal não na embriaguez, mas no elemento vegetativo, quieto e poderoso, que por fim engolfou até os antigos teatros, como o de Cumas.
    • A imagem daquele teatro tornou-se um símbolo condutor; outro símbolo foi a atmosfera da videira, tão evasiva quanto o perfume de sua flor.
  • Walter Friedrich Otto, com sua obra Dionysos: Mythos und Kultus, antecipou o plano que ainda estava longe de amadurecer, tratando o material de um elevado ponto de vista espiritual, principalmente a partir da tradição literária.
    • Otto não retratou o deus como doador de uma embriaguez passageira — orientação seguida até então por Erwin Rohde, amigo de Nietzsche, e pela maioria dos filólogos clássicos e historiadores das religiões.
    • Em Dioniso, Otto via a “loucura criadora”, o fundamento irracional do mundo — sendo duplamente influenciado por Nietzsche: por sua “filosofia dionisíaca” e por seu trágico destino.
    • Otto nunca adquiriu a perspectiva sobre “Nietzsche” que lhe teria permitido reconhecer os sintomas do estado patológico deste — como a estranha obsessão com Ariadne — nem tomou consciência do caráter limitado de sua própria reação ao fenômeno antigo: permaneceu fechado ao aspecto erótico do elemento dionisíaco.
  • O livro de Otto deu origem, em 1935, à publicação dos primeiros pensamentos sobre Dioniso, nascidos em um vinhedo na Panônia meridional e na ilha dálmata de Korčula, contrabalançados por observações próprias em países vinícolas do sul e em Creta.
    • A decifração do segundo script linear cretense — Linear B — por Michael Ventris trouxe à luz nomes dionisíacos, incluindo — em Pilos, no sul do Peloponeso — o nome do próprio deus, confirmando a visão de Otto sobre a antiguidade do culto na Grécia.
    • Dioniso deve ter estado presente na cultura grega pelo menos ao final do segundo milênio a.C.
    • Já em 1930, o arqueólogo francês Charles Picard tomava como certo que Dioniso era um dos deuses gregos de origem cretense-micênica, abrindo a possibilidade de iniciar a investigação da identidade de Dioniso pelo estudo da arte minoana.
    • Essa oportunidade foi aproveitada nos estudos Die Herkunft der Dionysosreligion, “Dionysos le Crétois” e Der frühe Dionysos — primeiros passos em direção à obra presente.
  • A escrita desta obra exigiu uma dupla perspectiva — a de um historiador das religiões atento aos mitos tradicionais, ações cultuais e festivais do mundo antigo, e a de um historiador da cultura grega e minoana dedicado a uma esfera particular da vida.
    • A esfera escolhida foi aquela em que um elemento essencial da existência social característica que se entende por “cultura” encontrou sua expressão pura e adequada na religião.
    • A partir da Idade Micênica, isso era válido não em toda religião, mas apenas naquele estrato mais antigo dominado pela imagem arquetípica de um elemento particular: a vida indestrutível.
    • Em relação à existência humana — cuja imagem arquetípica foi tratada em Prometeu — esse elemento é o proteron, o logicamente e cronologicamente anterior.
  • O ponto de vista adotado é o de um historiador e, ao mesmo tempo, o de um pensador rigoroso — entendido como pensamento diferenciado sobre as realidades concretas da vida humana.
    • O pensamento sumário que se tornou dominante nos estudos dos povos da Antiguidade — sob a influência de Sir James Frazer — e nos estudos da religião grega — especialmente sob a influência de Martin P. Nilsson e Ludwig Deubner — não consegue levar em conta essas realidades.
    • A definição mínima de vida vigente hoje estabelece que “assimilação e hereditariedade (e suas consequências: crescimento, reprodução e evolução) distinguem a matéria viva da matéria morta.”
    • Porque a vida inclui hereditariedade — do contrário não seria vida — ela transcende os limites do ser vivo individual e mortal, provando-se, em cada caso individual, indestrutível.
    • A vida pressupõe hereditariedade e possui, assim, a semente da infinidade temporal — semente presente mesmo que nada brote dela — justificando-se falar em “vida indestrutível” e encontrar sua imagem arquetípica nos monumentos da religião.
  • A distinção entre vida infinita e vida limitada é feita na língua grega por duas palavras diferentes — zoë e bios —, distinção possível em Grécia sem intervenção da filosofia ou mesmo da reflexão, pois a linguagem é expressão direta da experiência.
    • A obra presente trata de uma experiência ainda mais profunda do que a da existência humana — tema de Prometeu.
    • Uma breve investigação do significado das duas palavras gregas para “vida” pode servir de introdução a essa experiência, seja o leitor conhecedor do grego ou não.
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