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Vida finita e infinita
KERENYI, Karoly. Dionysos. Archetypal Image of Indestructible Life. Princeton: Princeton University Press, 1976.
- A interdependência entre pensamento e linguagem revela que as línguas não são tanto meios de expressar verdades já estabelecidas quanto meios de descobrir verdades anteriormente desconhecidas — e sua diversidade é uma diversidade de modos de ver o mundo.
- A experiência humana nem sempre dá origem imediatamente a ideias — pode refletir-se em imagens ou palavras sem a mediação de conceitos.
- O ser humano reagiu interiormente à sua experiência antes de se tornar um pensador, e os insights pré-filosóficos são retomados e desenvolvidos pelo pensamento, processo esse refletido na linguagem.
- A linguagem ela mesma pode ser sábia e traçar distinções pelas quais a experiência é elevada à consciência e convertida em sabedoria pré-filosófica comum a todos os falantes de uma língua.
- Um amplo espectro de significado está ligado à palavra latina vita e a seus descendentes românicas, bem como a life, ao alemão Leben e ao escandinavo liv — mas o grego possuía em sua linguagem cotidiana dois termos distintos com a mesma raiz de vita e formas fônicas muito diferentes: bios e zoe.
- Ambas as palavras se mantiveram na língua grega graças a uma distinção de experiência — distinção que a língua reflete e que se buscará compreender antes de adentrar o domínio das imagens e visões.
- As leis do desenvolvimento fonético do grego permitem formular com precisão o processo pelo qual essas formas foram produzidas.
- Zoe ressoa de modo diferente de bios no grego — ressonância entendida em sentido amplo, além do acústico, como o conjunto de sobretons que ecoam para quem conhece intimamente a língua.
- Zoe ressoa com a vida de todos os seres vivos, designados em grego como zoon — seu significado é a vida em geral, sem ulterior caracterização.
- Quando se pronuncia bios, ressoa outra coisa: os contornos, os traços característicos de uma vida determinada, os contornos que distinguem um ser vivo de outro — bios carrega a ressonância de “vida caracterizada.”
- Bios é a palavra original grega para “biografia” — sua aplicação mais característica, embora não a mais antiga.
- Bios é atribuído também aos animais quando se deseja distinguir seu modo de existência do das plantas; às plantas, os gregos atribuíam apenas physis, a não ser que se quisesse caracterizar um modo de viver — falando então de phytou bios, “a vida de uma planta.”
- “Um homem covarde vive o bios de uma lebre” — o grego que pronunciava essas palavras via a vida de um animal — a lebre — como uma vida característica, a da covardia.
- A diferença de significado entre zoe e bios é discernível já em Homero, embora tal uso não fosse inteiramente consciente.
- Nos tempos presente e imperfeito, que significam o curso ilimitado da vida, emprega-se zen em vez de bioun.
- Em Homero, o imperativo bioto — “que ele viva”, em oposição a “que o outro morra” — ou o segundo aoristo bionai é usado como intensivo, conferindo peso especial à vida como vida limitada de um homem.
- Zoein — o estado não caracterizado e não especialmente enfatizado da vida duradoura — é frequentemente empregado em Homero em construções paralelas que significam o mínimo de vida: “viver e ver a luz do sol”, “viver e manter os olhos abertos sobre a terra”, “viver e ser.”
- Para os deuses é fácil perdurar na vida — por isso são conhecidos como rheia zoontes, “os que vivem com facilidade.”
- Quando Posêidon, na Ilíada, deseja afirmar seu próprio modo de vida em oposição ao de Zeus, faz isso com o verbo beomai, mais estreitamente relacionado a bios.
- A “vida” de que trata a biologia moderna não pode ser relacionada a bios — pois biologos significava para os gregos um mimo que imitava a vida característica de um indivíduo, tornando-a ainda mais característica por sua imitação.
- Bios não se opõe a thanatos — “morte” — de modo a excluí-la: ao contrário, a uma vida característica pertence uma morte característica, e a vida é caracterizada pela maneira como cessa de ser.
- Uma locução grega expressa isso com toda a concisão: quem morreu de uma morte característica “encerrou a vida com sua própria morte.”
- É zoe que apresenta contraste exclusivo com thanatos — do ponto de vista grego, a biologia moderna deveria ser chamada “zoologia.”
- Zoe é a vida considerada sem qualquer caracterização ulterior e experimentada sem limitações — o mínimo de vida com que a biologia começa.
- Zoe raramente possui contornos, mas contrasta agudamente com thanatos — o que ressoa nela é “não-morte”, algo que não deixa sequer a morte se aproximar.
- A possibilidade de equiparar psyche a zoe — a “alma” a “vida” — e de dizer psyche por zoe, como faz Homero, foi representada no Fédon de Platão como uma prova da imortalidade da alma.
- Uma definição grega de zoe é chronos tou einai — “tempo do ser” — não no sentido de um tempo vazio no qual o ser vivo entra e permanece até morrer, mas como um ser contínuo enquadrado em um bios enquanto este dura — sendo então chamado de “zoe de bios” — ou do qual o bios é retirado como uma parte e atribuído a um ser ou outro, podendo a parte ser chamada de “bios de zoe.”
- Plotino chamou zoe de “tempo da alma”, durante o qual a alma, no curso de suas reencarnações, avança de um bios a outro — o que lhe era possível dizer precisamente porque no grego as palavras zoe e bios, cada uma com sua própria ressonância, já estavam presentes.
- Se se pode empregar uma imagem para a relação entre elas — relação formulada pela linguagem e não pela filosofia —, zoe é o fio no qual cada bios individual é enfiado como uma conta, e que, ao contrário do bios, só pode ser concebido como infinito.
- Quem quisesse falar em grego de uma “vida futura” poderia dizer bios; quem, como Plutarco, desejasse exprimir pensamentos sobre a vida eterna de um deus ou proclamar uma “vida eterna” tinha de empregar zoe — como fizeram os cristãos com sua aionios zoe.
- O grego aferrou-se a uma “vida” não caracterizada que subjaz a todo bios e mantém com a morte uma relação muito diferente da que tem uma “vida” que inclui a morte entre suas características.
- O fato de que zoe e bios não possuem a mesma “ressonância”, e que “bios de zoe” e “zoe de bios” não são tautologias, é a expressão linguística de uma experiência muito definida.
- Essa experiência difere da soma das experiências que constituem o bios — o conteúdo da biografia escrita ou não escrita de cada homem individual.
- A experiência da vida sem caracterização — precisamente aquela que “ressoava” para os gregos na palavra zoe — é, por outro lado, indescritível: não é produto de abstrações alcançadas por um exercício lógico de eliminar todas as caracterizações possíveis.
- A experiência de zoe — a vida sem atributos — é a mais simples, mais íntima e mais evidente de todas as experiências, vivenciada quer se conduza ou não qualquer exercício filosófico.
- Quando a vida é ameaçada, a oposição irreconciliável entre vida e morte é experimentada no medo e na angústia.
- A limitação da vida como bios pode ser experimentada; sua fragilidade como zoe pode ser experimentada; e mesmo o desejo de deixar de ser pode ser experimentado.
- Querer estar sem a experiência do próprio bios — com todas as suas características — é querer que zoe continue em outro bios; querer estar sem experiência em geral seria algo que jamais foi experimentado.
- Zoe é a primeira de todas as experiências — seu início foi provavelmente muito semelhante à renovação da experiência após um desmaio: ao retornar de um estado de não-experiência, não se pode sequer lembrar de um fim que se pudesse chamar de última experiência.
- Zoe não admite a experiência de sua própria destruição — é experimentada sem fim, como vida infinita —, diferenciando-se assim de todas as outras experiências que chegam ao ser humano no bios, na vida finita.
- A diferença entre a vida como zoe e a vida como bios pode encontrar expressão religiosa ou filosófica — e espera-se da religião e da filosofia que suprimam a discrepância entre a experiência do bios e a recusa de zoe em admitir sua própria destruição.
- A língua grega detém-se na mera distinção entre zoe e bios, mas a distinção é clara e pressupõe a experiência da vida infinita.
- A religião grega aponta para figuras e imagens que aproximam o mistério do ser humano: elementos que na fala cotidiana se colocam lado a lado e frequentemente se mesclam são transpostos para um tempo puro — o tempo festivo — e um lugar puro, onde se esperam e se buscam as epifanias divinas.
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