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Édipo (versões modernas)

KERÉNYI, Karl; HILLMAN, James. Édipo e variações. Tradução: Edgar Orth; Tradução: Gustavo Barcellos. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2025.

A tradução das tragédias de Sófocles realizada por Hölderlin, publicada em 1804, não corresponde aos ideais clássicos de fidelidade e precisão, sendo antes uma criação estranha e preciosa marcada pela doença mental do poeta.

  • O filólogo Schadewaldt constata que, em média, a cada quatro ou cinco versos da tradução de Hölderlin encontra-se uma confusão ou palavra malcompreendida, de modo que o texto alemão só penetra às apalpadelas o texto grego de Sófocles.
  • Wilhelm Dilthey afirma que Hölderlin perdeu o domínio sobre o grego, confundindo palavras conhecidas com outras de som semelhante, sendo visível sua incapacidade de manter uma conexão lógica.
  • Karl Reinhardt interpreta que, para Hölderlin, o trágico é um tipo de revelação despido da forma do eu, e os dramas de Sófocles são textos sagrados redescobertos porque começa a preparar-se uma nova proximidade dos deuses.
  • Hölderlin, em suas Notas a Édipo, escreve a frase singela sobre Deus que “nada mais é do que tempo”, e afirma que deseja apresentar ao público a arte grega acentuando seu aspecto oriental, ou seja, o primitivo e o arcaico.

O caminho político de Hölderlin, inspirado na Revolução Francesa e em Bonaparte, misturou-se progressivamente com a imaginação poética pura, o que constitui um sinal de sua insanidade mental, especialmente visível na dedicatória e nas notas de suas tragédias traduzidas.

  • A dedicatória “À Princesa Auguste von Homburg”, nas Tragédias de Sófocles, reflete o mundo contemporâneo do poeta ao colocar a princesa e o poeta no mesmo plano, respondendo publicamente a um bilhete íntimo da princesa que o havia incentivado.
  • Hölderlin escreve na dedicatória que escolheu a ocupação de tradutor porque ela está vinculada ao desconhecido e a leis históricas seguras, desejando também cantar os antepassados dos príncipes e os anjos da pátria sagrada.
  • Nas Notas a Édipo, Hölderlin afirma que falta à poesia moderna instrução e habilidade técnica, e que no trágico existe mais equilíbrio do que simples sucessão, representando-se o extraordinário quando Deus e o homem formam um par.
  • A preocupação de Hölderlin em ambas as tragédias foi a reprodução exata dos títulos tyrannos e anax, traduzindo tyrannos por Herr (senhor) e anax por “rei” e “príncipe”, termos que carregam um significado no tempo revolucionário de Édipo tirano.

O tema de Édipo como assassino inconsciente do pai e tomador de posse da mãe foi reconhecido como possibilidade humana geral por Sigmund Freud, que fundou em Viena um clube psicológico em 1902, espalhando uma atmosfera de interesse por suas ideias básicas.

  • Freud escreveu a Wilhelm Fliess, em 1897, que encontrou em si o enamoramento pela mãe e o ciúme contra o pai, tendo isso como um fato geral da tenra infância, e que a saga grega expressa a compulsão que todos reconhecem por terem experimentado em si a existência dela.
  • Freud explica que todo ouvinte já foi, em embrião e na fantasia, um Édipo, mas todos se horrorizam diante da realização do sonho trazido para a realidade, devido à repressão que separa a condição infantil da atual.

Hofmannsthal, em sua peça “Édipo e a esfinge”, criou um Édipo como um sonâmbulo da raiva e do prazer, cujo sonho profético prenuncia o destino de homicídio do pai e incesto com a mãe, sendo esta a fonte de um prazer que outorga divindade.

  • O velho servo Fênix descreve Édipo quando a raiva o sacode a ponto de ficar preto como a morte e depois branco como espuma, e o próprio Édipo omite a execução do ato homicida ao perguntar se a simples palavra já matou Lico perfeitamente vivo.
  • Édipo sonha com suas mãos matando um homem e com o coração ébrio do prazer da raiva, sendo levado pelo sonho para uma cama com uma mulher em cujos braços se sentiu como se fosse um deus, e o oráculo interpreta que o prazer do homicídio se expia no pai e o prazer do abraço na mãe.
  • Jocasta afirma que as mães atraem tudo, que o sangue é forte e o mundo depende das mães, e Édipo nunca tocou em mulher por causa de sua própria mãe.
  • A esfinge grita “salve, Édipo, aquele que sonha os sonhos profundos”, e Jocasta declara ao rei que eles unidos são mais do que os deuses, sendo sacerdote e vítima, e que suas mãos santificam tudo, sendo eles o mundo.

André Gide, em seu drama “Édipo”, propôs-se a mostrar o avesso do cenário da tragédia sofocliana, dirigindo-se à inteligência do espectador para fazê-lo refletir, não para fazê-lo tremer ou chorar.

  • Gide agradece a Freud por ter acostumado o leitor a ouvir falar de certos assuntos sem protestos, libertando-o de um tipo de vergonha falso e doloroso, mas considera que Hofmannsthal é insuperável com seu “Édipo e a esfinge” entre todos os que trataram do tema.
  • Gide concebeu um Édipo radiante, orgulhoso de seu sucesso, ativo, ignorando toda preocupação, um Édipo goetheano, e acredita que sua peça tem uma profunda exigência, justificando que o que Sófocles não soube ver e compreender em seu próprio assunto, Gide compreende por ser de outra época.
  • O Édipo de Gide não deveria cegar-se, mas ele se fura os olhos como um ato incalculável de libertação da rede do deus, gritando que a treva é sua luz, pois quando o mundo externo se escondeu de seus olhos corporais, abriu-se nele uma nova visão sobre o mundo interior.
  • No epílogo “Teseu”, Gide faz Édipo afirmar que precisa parar de ver o mundo a fim de olhar para Deus, que acredita que toda a humanidade tenha sido atingida por uma mancha original, e que o homem não consegue sair dessa situação sem alguma ajuda divina que o purifique.

Cocteau, em “La machine infernale”, criou um drama-Édipo inteiramente entrelaçado com sua autobiografia, onde a alma sabe tudo e a verdade mora silenciosa na profundidade, culminando na cena do quarto nupcial entre Édipo e Jocasta.

  • Cocteau afirma que um certo caráter infantil é comum a todas as formas heroicas da vida, desejando ser lido por pessoas que permanecem crianças custe o que custar.
  • No terceiro ato, “A noite de núpcias”, Jocasta não esconde seus desejos amorosos por homens jovens da idade de seu filho, e sozinha com Édipo no quarto nupcial, ela encontra para ele o berço e a canção de ninar diante do grande espelho chamado “psyché”, símbolo da região das almas.
  • A Jocasta de Cocteau usa um cachecol fatal sobre o qual ela diz “Ele me matará”, e o autor associa essa imagem à grande dançarina Isadora Duncan, vítima de um acidente com um cachecol vermelho.

Thomas Stearns Eliot, em “The Elder Statesman”, eliminou completamente o sacrum ambivalente do incesto, substituindo-o por um amor jovem e apaixonado que existe desde o começo do mundo.

  • Lord Cleverton, o último Édipo não bafejado por nenhum incesto, passa por uma porta que não se vê, da aparência para o ser, e a fuga do condutor de um acompanhamento fúnebre toma o lugar do parricídio.
  • A apaixonada Mônica declara que amou desde o começo do mundo, que já antes que fôssemos nascidos existia o amor, o qual sempre os conduziu um para o outro.
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