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Senhora do Labirinto
KERÉNYI, Karl. En el laberinto.
- Após a constatação de que em Cnossos, o lugar mais importante da cultura palaciana cretense, entre 1500 e 1400 a.C., já se falava e escrevia em grego, o helenista se pergunta com certa perplexidade com qual texto introduzir seus ouvintes ou leitores no mundo espiritual dos gregos.
- A linha heroica do primeiro verso da Ilíada — “Canta, ó Deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu” — é o ponto de partida mais antigo disponível, pois os manuscritos de Cnossos, de Micenas ou do pequeno palácio de Pilos precedem em vários séculos esse verso.
- Essas inscrições cronologicamente anteriores a todo o homérico não podem de nenhuma maneira ser consideradas espirituais: ainda são válidas as palavras de Spengler, que observou que “na totalidade dos achados cretenses falta qualquer indício de uma consciência histórica, política ou mesmo biográfica, como os que dominaram o homem da cultura egípcia desde as épocas mais precoces do antigo reino.”
- Os manuscritos já decifrados são relações de bens, pertences ou tributos pagáveis a homens ou a deuses, ou de pessoas obrigadas a prestar serviços; nas lápides das sepulturas micênicas não constam os nomes — não se encontraram vestígios de nenhum anseio por imortalizar-se através da escrita.
- A forma homérica para a imortalização, em sua essência, tampouco dependia da escrita: baseava-se em uma determinada linguagem poética que surgia como cântico de uma consciência poética sustentada por uma fonte divina, expressa mediante recitação com voz melodiosa, embora muito cedo a escrita se pusesse ao serviço da memória para preservar a obra oral.
- Através do desciframiento da escrita micênica não foi recuperada nenhuma obra oral — e nos manuscritos gregos mais antigos só se pode buscar, quando muito, uma construção linguística ou uma indicação concreta de onde talvez se possa ouvir algum tom de uma obra oral tardia, homérica ou pós-homérica.
- Em uma tábua de Cnossos, um escrupuloso linguista leu pela primeira vez, em um grego pré-homérico, as palavras: “Mel para a Senhora do labirinto” — dando-as a conhecer como um dos achados mais extraordinários no campo do deciframento.
- A outra linha da mesma tábua diz: “Mel para o conjunto dos deuses” — e com ela começa a história religiosa europeia.
- A história espiritual grega para todos começa sempre caracterizada pelo poético — e no poético, pelo mitológico — em seu tema principal, chegando até a última versão do mitologema de Ariadne em Naxos, composta por Richard Strauss com poema de Hugo von Hofmannsthal.
- A ofrenda de mel alcança zonas da história espiritual em que Ariadne se converte em símbolo importante não apenas para poetas, mas também para um filósofo — Nietzsche vangloreia-se no Ecce Homo: “Quem, exceto eu, sabe o que é Ariadne?”
- No Zaratustra de Nietzsche, o protagonista diz a seus animais enquanto sobe a uma alta montanha: “Mas procurai que ali eu tenha mel ao alcance da mão, amarelo, branco, bom e fresco mel de favos. Pois sabei que lá em cima quero fazer oferendas com mel” — e essa oferenda, que no Zaratustra é apenas uma simulação assim como o modo de deixar para trás a forma mais pura do paganismo, é uma das mais antigas oferendas.
- O mel já era alimento para o homem na mais remota Idade da Pedra, e desde então nas religiões do entorno mediterrâneo é considerado apropriado para as oferendas aos deuses; o alimento mais doce correspondia à essência dos deuses como doadores de felicidade e bem-aventurança.
- O mel era o alimento divino mais antigo, anterior mesmo à ambrósia; o Hino Homérico a Hermes o denomina “o doce alimento dos deuses”, e ainda na Antiguidade tardia se diz: “Pois o mel é o manjar dos deuses.”
- Corresponde à mitologia dos deuses mais arcaicos — um dos quais, Cronos, se embriagava com mel, porque então, por ser antes do nascimento de Dioniso, o vinho ainda não existia.
- A palavra grega para apaziguar os deuses é uma derivação da palavra mel, uma forma que revela seu uso em territórios não gregos; “melosos ou doces como o mel” eram considerados sobretudo os deuses do submundo, dos quais se esperavam grandes bem-aventuranças tanto na época pré-homérica como na de Homero.
- Uma paradoxo, e ao mesmo tempo uma dedução absolutamente certa, conduz a uma deusa: um recipiente com mel, como diz a tábua, não teria sido suficiente como tributo para uma rainha terrena, mas sim como oferenda para a rainha do submundo — logo, a dona do labirinto é uma deusa.
- Mas que reino seria o labirinto para uma deusa, se a palavra labyrinthos só denominasse uma obra feita pelo homem, ainda que a obra de um artista como Dédalo? O reino da deusa não era uma edificação — o que Dédalo havia construído só podia ser uma imagem de seus domínios.
- A obra de Dédalo, segundo Homero, era um lugar para a dança e para Ariadne em Cnossos; na lenda pós-homérica era uma edificação com planta formada por intrincados corredores onde se ocultava o Minotauro — mas o labirinto só assim era visto em sua época pós-homérica.
- Em representações gregas e moedas de Cnossos o labirinto guardava a forma de um quádruplo meandro, uma singela linha de caracol ou de meandro (espiral com forma angular) — e originariamente essa figura podia ser dançada, e segundo a lenda era dançada em Delos pelos jovens e donzellas atenienses que Teseu havia libertado do labirinto.
- Na Ilíada a obra de Dédalo para Ariadne era um lugar para a dança — lugar que também era, e mesmo antes do tétrico e inframundano edifício da lenda pós-homérica, uma imagem do verdadeiro império da “Senhora do labirinto”: o submundo visto de um aspecto especial, representado pela linha espiral que retorna sobre si mesma.
- Na época pré-homérica a imagem do submundo foi pensada como um labirinto em espiral, e o retorno de lá, como uma graça concedida pela rainha do submundo — e de lá embaixo ela reinava como “Senhora do labirinto”, como Ariadne, como “a puríssima”: isso é o que significa o nome, o mais apropriado da perspectiva grega para a rainha do submundo, também chamada Perséfone, com seu nome pré-grego.
- Não só deixava sair do submundo a quem ela queria, mas ela mesma regressava para converter-se em “a claríssima”, a Aridela do céu, como era chamada em Creta com outro nome igualmente grego.
- Como figura pré-homérica, era a donzela divina dos cretenses, uma deusa lunar — não apenas da lua no céu, mas como senhora do reino dos mortos que, cheia de clemência, devolvia à vida.
- Desde Homero era considerada uma filha mortal do rei Minos: havia ajudado o jovem e belo ateniense Teseu com seu conselho e seu fio, e segundo uma versão antiga com sua coroa que brilhava e iluminava os tétricos corredores do labirinto — assim ele pôde regressar de uma morte certa.
- Ainda assim — segundo uma versão antiga da lenda à qual já se refere a Odisseia — foi assassinada por Ártemis, por indicação de Dioniso, na ilha de Día: ou naquela pequena ilha situada diante do porto de Cnossos, ou em Naxos, que anteriormente também se chamava Día.
- Segundo a muito conhecida e posterior variante, válida também para Hofmannsthal, não morreu ali mas foi abandonada enquanto dormia profundamente — e assim Dioniso encontrou sua Ariadne, sobre quem exercia um antigo direito, e a conduziu em seu carro para o céu, onde ainda hoje resplandece a “coroa de Ariadne.”
- Os posteriores poetas já não sabiam que ele a havia reencontrado e tomado de novo — e se Dioniso não tivesse um antigo direito sobre ela, tampouco poderia ter exigido a Ártemis seu castigo.
- Uma imagem em uma vasilha tarentina não publicada demonstra como Teseu recua diante do deus, e como Dioniso possui a adormecida.
- Cada um dos relatos de Ariadne tem como condição prévia sua misteriosa e antiga relação com o deus, cuja presença ao redor do mundo da “Senhora do labirinto” a partir de agora já não é apenas atestada por um nome — e o amor de Dioniso por Ariadne pertence à imagem da antiga cultura cretense que se estende diante dos olhos.
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