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Hermes da vida e da morte

KERÉNYI, Károly. Miti e misteri. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

1. Hermes e Eros

  • Hermes representa a fonte supra—individual de uma experiência particular do mundo que transcende a consciência sensorial puramente científica.
    • Abertura para uma guia ou companheiro suprassensível capaz de prover impressões coerentes e diversas.
    • Mundo hermético definido pelas estradas como campo de ação e pelo acaso como matéria prima.
    • Transformação do achado em obra de arte por meio do furto e da ilusão.
    • Realidade que abrange desde o elemento fálico até a função de guia das almas para além da vida.
    • Divindade como origem de um mundo que se torna visível e evidente apenas através de sua presença.
  • O mitologema de Poros e Pênia no Banquete de Platão revela a natureza de Eros como um demônio marcado pela penúria e pela astúcia inventiva.
    • Diotima de Mantineia como a sábia sacerdotisa que narra a origem de Eros a Sócrates.
    • Poros como filho da Inteligência e portador da capacidade de encontrar caminhos.
    • Eros como herdeiro da aspereza materna e da tenacidade viril paterna.
    • Natureza intermediária que oscila perpetuamente entre a plenitude e a carência.
    • Afinidade estrutural entre o demônio erótico e a figura de Hermes.
  • Poros representa a plenitude universal em movimento e atividade viril, distinguindo—se do Caos amorfo descrito por Hesíodo.
    • Menção por Álcman como uma das divindades mais antigas ao lado de Aisa.
    • Identificação de Poros com o Caos primordial em um sentido de potência ativa e direcional.
    • Caráter de agressão e agudo instinto de caça voltado para o criativo e o fecundo.
  • Eros compartilha com Hermes a amplitude da esfera hermética, atuando como o primeiro momento viril e psíquico do cosmos.
    • Monumento primitivo em Tespias consistindo em uma pedra bruta.
    • Aparição na Teogonia de Hesíodo como o terceiro ser após o Caos e Gaia.
    • Capacidade de libertar os membros e subjugar o conselho sensato de deuses e homens.
    • Diferença entre a memória dos arquétipos de Eros e a sagacidade calculista de Hermes.
  • Tradições secretas identificam Eros como filho de Hermes com Ártemis ou Afrodite, unindo elementos fálicos, psíquicos e espirituais.
    • Relatos preservados por Cícero referentes aos estudos de letras recônditas.
    • Cupido primus como filho de Mercúrio e da primeira Diana.
    • Cupido secundus como filho de Mercúrio e da segunda Vênus.

2. Hermes e as deusas

  • A relação entre Hermes e as ninfas é um dado da tradição clássica que posiciona o deus como senhor das ocasiões e companheiro de divindades da natureza.
    • Oferenda de Eumeu às Ninfas e a Hermes na Odisseia.
    • Convivência com Silenos em grutas profundas segundo o Hino Homérico a Afrodite.
    • Nutrição de crianças divinas e participação em danças corais.
    • Hermes como eterno senhor das ocasiões femininas em vez de servidor.
  • Hermes atua como acompanhante constante de tríades femininas em relevos que revelam o mistério da fecundidade selvagem.
    • Associação com as três Graças na Acrópole de Atenas.
    • Manifestação do feminino em figuras separadas que derivam de uma divindade trimorfa original.
    • Revelação do mistério das profundezas das grutas, fontes e montanhas.
    • Conexão com Deméter e Perséfone nos bosques sagrados.
  • Versões pré—olímpicas apresentam Hermes como filho de Urano e Hemera, possuindo um caráter priápico despertado pela visão de uma deusa.
    • Mitologema da primeira evocação do princípio puramente masculino pelo feminino.
    • Localização do evento na Grécia setentrional.
    • Natureza noturna de Hermes em tensão com a luminosidade diurna de Hemera.
  • O ser primordial andrógino reflete a união original entre Hermes e Afrodite, onde a masculinidade é ativada por uma deusa evocadora.
    • Afrodite como irmã de Hermes na linhagem de Urano.
    • Culto cipriota de Afrodito como aspecto masculino da própria deusa.
    • Hermafrodito concebido como filho da união ou aspecto original do deus antes da excitação masculina.
  • Brimo aparece como a divindade trimorfa que unifica as figuras de Deméter, Perséfone e Hekate no encontro primordial com Hermes.
    • Propércio e o relato das núpcias sagradas nas águas do lago Bebeide.
    • Brimo como a deusa virginal que provoca e exige a virilidade.
    • Hermes como o deus—servidor da mulher primordial.
  • A relação de Hermes com as águas e fontes remete ao seu papel de amante secreto e senhor das águas virgens.
    • Fonte com peixes sagrados em Faras.
    • Ermas que indicam o caminho para fontes na Arcádia.
    • Estátua de Hermes em Ainos pescada no mar.
    • Hekate como parceira de Hermes ou do Tritão itimorfo.
  • Hekate representa o aspecto mais hermético da divindade primordial, compartilhando com Hermes funções de guia de espíritos e proteção de portas.
    • Hekateia construídos sobre base triangular.
    • Sacrifícios de focáceas e incenso realizados na lua nova.
    • Proteção das estrebarias e concessão de riqueza ao lado de Hermes.
    • Conciliação entre o erotismo e a esfera das almas no mundo grego setentrional.

3. O mistério da erma

  • A forma itifálica das ermas tem origem nos mistérios de Samotrácia e nos ensinamentos dos pelágios sobre a origem da vida.
    • Testemunho de Heródoto sobre a adoção da forma pelos atenienses via empréstimo pelágio.
    • Poesia de Calímaco referente ao relato mistérico dos tirrenos.
    • Localização da esfera geográfica entre Samotrácia e o lago Bebeide.
  • A base quadrada das ermas constitui uma expressão arquetípica da totalidade e do enraizamento ctônico no fundamento do mundo.
    • Quadrado como forma de expressão da totalidade divina radicada no solo.
    • Uso do quadrado em monumentos sepulcrais e no lado ctônico das moedas gregas.
    • Zeus Teleios em Tegeia como exemplo de totalidade realizada pelo matrimônio.
  • Paralelismos com o culto de Príapo na Frígia revelam a conexão entre o princípio vitalizador e o reino da morte.
    • Príapo como filho de Hermes em tradições recentes.
    • Local da morte e da vida como definição do campo de ação priápico.
    • Função de conduzir e reconduzir as almas mencionada por Petrônio.
  • O monumento de Lisandra em Esmirna ilustra a esfera de Hermes e Hekate como fonte primordial de imortalidade.
    • Presença de cães e figuras de Psiquê com asas de borboleta.
    • Serpente que recorda os mistérios do trono de Deméter.
    • Psiquês masculinas que entregam símbolos de imortalidade a uma mulher morta.
    • Falos de pedra como geradores perpétuos e origem eterna da vida.
  • O conceito de sêmen como alma na época arcaica vincula o elemento fálico à origem da imortalidade.
    • Vaso ático representando a queda de sêmen como borboletas em direção ao voo da alma.
    • Nome grego para mariposa (phalaina) como forma feminina de falos.
    • Imortalidade concebida sob o aspecto do elemento móvel masculino.
  • A visão da origem da vida nos mistérios de Samotrácia confere uma dimensão atemporal ao ser através do símbolo fálico.
    • Abertura de uma quinta dimensão além do tempo e do corpo.
    • Os Cabiros como divindades masculinas centrais nos mistérios samotrácios.
    • Representação do Kabirion de Tebas com a linhagem de Kabiros, Pais, Pratolaos e Mitos.
  • O cabirismo de Hermes fundamenta sua função de mensageiro e guia de almas na mediação entre morte e vida.
    • Iniciação de Hermes nos inferos para assumir a carga de mensageiro.
    • Purificação da Angelos pelos Cabiros no lago Aquerúsio.
    • Caduceu com serpentes entrelaçadas como símbolo da mediação entre os reinos.
    • Linhagem dos arautos (kerykes) em Elêusis vinculada ao deus.
  • A etimologia de Hermes deriva da pedra erguida (herma), servindo como suporte e símbolo primordial da ideia dos Cabiros.
    • Hermaias como derivado da pedra individual colocada em pé.
    • Identidade entre procriador e procriado na masculinidade absoluta.
    • Hermes como o Cabiro jovem, Kasmilos, ou como o progenitor Barburas.
  • Hermes é identificado com o Cabiro jovem em Imbros, representando a masculinidade em sua mobilidade lúdica e protótipo do efebo.
    • Culto em Imbros dedicado a Hermes Imbramos.
    • Inscrição de conhece—te a ti mesmo no Hermes de Alcamenes.
    • Papel de protetor da juventude masculina nas palestras.

4. Hermes e o carneiro

  • O culto doméstico grego incluía estátuas de Hermafrodito como representação da fonte inesgotável de vida da família.
    • Prática do homem supersticioso de coroar os Hermafroditos em dias sagrados.
    • Hermafrodito como fundamento primordial da união conjugal que precede a individuação.
    • Divindades paternas vinculadas à origem da estirpe e das almas.
  • Hermes atua como mediador na entrada da casa, reconduzindo as almas do mundo das estradas para o calor da família.
    • Epítetos de Propylaios, Pylaios e Epithalamites.
    • Relação com Héstia no centro do lar e no focolar.
    • Cardines da porta como pontos de irrupção para as almas sob controle divino.
  • As festas de Hermes celebram a irrupção do elemento ínfero e a ascensão da vida reduzida à noite do sêmen.
    • Inversão de papéis entre senhores e escravos em festivais cretenses.
    • Festa de Hermes Caridotes em Samos marcada por furtos e rapina.
    • Fortalecimento do fraco e retorno da vida ínfera para a luz.
  • O tipo do crióforo e a festa em Tanagra simbolizam o transporte do novo sol e a regeneração da vida.
    • Jovem que carrega um carneiro ao redor das muralhas da cidade para afastar epidemias.
    • Geração de Saos, herói de Samotrácia, por Hermes em forma de carneiro com Rhene.
    • Carneiros de ouro como presentes divinos para as casas de Atreu e Frixo.
  • A conexão com o deus—carneiro pré—histórico vincula Hermes à origem da luz que nasce em cada alma.
    • Apolon Karneios e a divindade Amon em Gítio como paralelos mediterrâneos.
    • Hermes como progenitor do lunare—obscuro Pan.
    • Geração simultânea da luz e do seu espelho nas profundezas do ser.

5. Sileno e Hermes

  • A linguagem e a interpretação constituem facetas da sabedoria hermética que espiritualiza a obscuridade animalesca das origens.
    • Etimologia relacionando herma ao termo sermo e ao ato de explicar.
    • Hermes como hermeneus e mediatore por meio da língua articulada.
    • Espiritualização do mutismo animalesco através do sussurro e da interpretação.
  • Hermes e Sileno compartilham a função de portadores do menino divino, unindo o espiritual ao animalesco na totalidade perfeita.
    • Estátua de Praxíteles representando Hermes com o menino Dioniso.
    • Sileno como educador tradicional do deus do vinho e portador de crianças divinas.
    • Hermes como deus das vinhas em Lesbos.
  • Representações em vasos revelam a fusão entre o simbolismo silênico e a função de guia de almas durante as festas das Antestérias.
    • Silenos com atributos de Hermes em um psykter de Dúris.
    • Silenismo como representação da origem da vida que se expande abertamente.
    • Quinta feira das Antestérias como dia dedicado a Hermes e às almas.
  • A ânfora de Berlim sintetiza a relação entre Sileno e Hermes como sosias que evocam a vida luminosa a partir do fundo obscuro.
    • Troca de atributos: Sileno com a lira de Hermes e Hermes com o recipiente de vinho de Sileno.
    • Presença de um cervo simbolizando o mundo selvagem pacificado pelo encanto divino.
    • Hermes como guia comum para todos aqueles que veem a vida como uma aventura espiritual ou amorosa.
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