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Niobe

KERÉNYI, Károly. Miti e misteri. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

  • A interpretação de Dante sobre a figura de Niobe restringe—se ao exemplo da justiça divina contra o pecado da soberba.
    • Base textual fundamentada na obra de Ovídio.
    • Relação cristã que identifica a pretensão de veneração divina por uma rainha terrena como uma falha moral.
    • Equivalência entre a morte dos filhos de Niobe e a matança dos inocentes em Belém sob a ótica da justiça divina.
  • A descoberta das estátuas dos Nióbidas no século 16 serviu inicialmente apenas como confirmação arqueológica de um relato antigo.
    • Escavações na Vigna Tomasini junto ao Latrão que revelaram as esculturas admiradas.
    • Visão dos cavadores e de estúdios da antiguidade clássica focada na ilustração de uma história tradicional.
    • Crítica de Jacob Burckhardt sobre a crueldade dos deuses gregos ao destruírem filhos inocentes para causar dor à mãe.
    • Perspectiva de Winckelmann que privilegia a beleza suprema em detrimento do sofrimento monstruoso.
    • Tais condições, em que cessa todo sentimento e todo raciocínio, são semelhantes à indiferença e não mudam nenhum traço da figura e da formação, de modo que o grande artista pôde formar aqui aquela suma beleza que efetivamente formou: Niobe e as filhas são, de fato, e continuam sendo as ideias supremas desta beleza.
  • O trono de Zeus em Olímpia apresentava a cena da morte dos filhos e filhas de Niobe como base para a imagem da divindade suprema.
    • Obra de Fídia considerada o encontro entre o homem e o deus.
    • Representação dos filhos dos tebanos raptados por Esfinges nos suportes anteriores do trono.
    • Friso com os Nióbidas caindo diante do arco de Apolo e as filhas mortas pelas flechas de Ártemis.
  • O significado da ornamentação no trono de Zeus transcende a decoração e aponta para uma referência supra—individual.
    • Rejeição da ideia de que as cenas seriam apenas relatos tristes de mortais isolados.
    • Posição de Sócrates e Platão contra a forma como Ésquilo levou a história de Niobe ao palco.
    • Proibição de relatos que atribuíssem a causa da ruína humana à vontade divina no estado ideal platônico.
  • A arte religiosa em Olímpia revelava a condição humana em seu contraste absoluto com a divindade por meio da imagem do desamparo.
    • Ausência de uma intenção de punição justa na exaltação do pai dos deuses e dos homens.
    • Caráter objetivo da arte que não se define como moral ou imoral.
    • Condição humana resumida na essência de estar indefesa diante dos demônios da morte e de divindades iradas.
  • Niobe é caracterizada como uma mãe humana universal e uma divindade vinculada às tradições da Ásia Menor.
    • Niobe como filha de Tântalo ou como a primeira mulher.
    • Conexão entre a montanha Sípilo e o mito da transformação em rocha que chora eternamente.
    • Parentesco linguístico entre os nomes Niobe, Hécabe e a grande mãe Cibele ou Cibebe.
  • Sófocles e Antígona mantêm a percepção de Niobe como um ser de linhagem divina apesar do fardo da dor.
    • E, Niobe, tu que tanto de dor peso sustentas, ai, eu te venero deusa, que choras eterna da tumba rupestre.
    • Da mais triste entre as mortes — ouvi — pereceu a exilada frígia, Niobe a tantalida, no cume do Sípilo. Como hera tenaz o vivo rochedo a si a prendeu, nem as chuvas deixam — como é voz entre os homens — de macerá—la nunca, nem nunca as neves das pálpebras em pranto refluentes sobre aquele dorso rupestre. Como ela serei eu no pedregoso leito onde o meu demônio quer que eu me deite.
    • Protesto do coro afirmando que Niobe era deusa e estirpe de deuses, enquanto os homens possuem natureza mortal.
  • A tragédia de Ésquilo sobre Niobe apresenta a condição humana geral através do silêncio da mãe e da intervenção divina.
    • Veneração de Niobe como deusa pela tribo dos cilícios.
    • Fragmento de papiro onde uma divindade, possivelmente Hermes, dirige—se ao público.
    • Digo a vós que não sois insensatos: A ocasião, aos mortais, cria—a o deus, quando quer arruinar uma casa.
    • Consternação dos deuses diante do luto mudo de Niobe que durava três dias.
  • A comparação entre Niobe e Deméter revela a transição da dor divina para o caráter humano de uma punição.
    • Referência na Ilíada ao momento em que Niobe volta a se alimentar após o pranto.
    • Mas, saciada enfim de pranto, do alimento teve ela também lembrança.
    • Diferença entre o luto de Deméter pela filha e a sofrimento de Niobe marcado pelas consequências de uma culpa modesta.
  • A proximidade entre os mitologemas de Niobe e Prometeu foi reconhecida desde a antiguidade como protótipos da resistência humana.
    • Classificação de Artemidoro que agrupa as histórias de Prometeu e Niobe como relatos em que muitos acreditam.
    • Simetria nos afrescos da Villa Doria Pamfili entre a libertação de Prometeu e a punição de Niobe.
    • Interpretação arqueológica de Niobe e Prometeu como protótipos da mulher e do homem no esforço e no suportar.
  • Niobe figura nas tradições gregas como a primeira mulher vinculada aos primeiros homens de diversas regiões.
    • Imagem de Prometeu e Atlas no trono de Zeus em Olímpia moldando a imagem cósmica de sofrimento e esforço.
    • Niobe associada a Foroneu em Argo como os primeiros seres humanos antes do dilúvio de Deucalião.
    • Identificação de Niobe como esposa de Alalcomeneu na Beócia ou de Anfião e Zeto em Tebas.
  • O paradoxo de uma deusa que carrega o destino humano resolve—se na visão grega da eternidade da maneira humana de existência.
    • Os deuses antigos como os Titãs e a natureza eterna da forma humana independentemente das realizações individuais.
    • Definição do mundo grego como um mundo do homem.
    • Reconhecimento do humano no céu através dos astros mais mutáveis e partícipes da escuridão.
  • A luta entre Prometeu e Zeus assemelha—se a esquemas míticos solares e lunares presentes em outras culturas.
    • Analogia com o mitologema africano sobre o engano entre a Lua e o Sol.
    • A Lua e o Sol — diz o mitologema africano — são irmãos. Eles planejaram juntos um engano. A Lua disse ao Sol: Queremos lançar nossos filhos na água. O Sol concordou. Chegado o tempo marcado, a Lua escondeu seus filhos, buscou pedras brancas e as colocou em um saco. O Sol porém, nada sabendo disso, pegou verdadeiramente seus filhos e os colocou em um saco. Depois, eles partiram e chegaram à margem do rio. Assim foi enganado o Sol que precipitou seus filhos no rio.
    • Explicação mítica para a Lua possuir estrelas enquanto o Sol permanece solitário.
  • O relato de Hesíodo sobre a disputa em Mecone reflete a separação entre a mente solar divina e o destino lunar humano.
    • Divindade solícita e humana que encontra seu lugar em figuras divinas originalmente celestes.
    • Prometeu como uma divindade lunar originária e primeiro homem.
    • Identidade entre o gênero humano sofredor e o enganador punido.
  • O litígio entre Leto e Niobe fundamenta—se na disputa pela superioridade baseada no número de filhos.
    • Leto e Niobe eram, uma vez, boas amigas.
    • Derrota de Niobe diante da qualidade divina dos dois filhos de Leto, Apolo e Ártemis.
  • A morte dos Nióbidas e o período de luto estão vinculados a ciclos temporais e divisões do mês lunar.
    • Matou—lhe os filhos Apolo, com os dardos do arco de prata, que estava irado com Niobe: Ártemis matou as filhas porque Niobe ousou a si mesma igualar a Latona. Disse que esta havia gerado dois filhos, ela muitos: e aqueles, só em dois, os seus exterminaram todos. Jazeram nove dias cadáveres; e ninguém havia para sepultar, pois em pedra as gentes tinha Júpiter convertido: sepultaram—nos enfim no décimo dia os Olímpios.
    • Relação entre o número de filhos (doze, quatorze ou vinte) e as unidades de tempo do calendário grego.
    • Período de nove dias de abandono e sepultamento no décimo dia como um terço do mês lunar.
  • Os números atribuídos aos filhos de Niobe explicam—se pela conexão com as fases e a visibilidade da lua.
    • O número quatorze como alusão ao mês quadripartido ou à metade do mês lunar.
    • Unidades de nove ou dez dias refletindo o jejum de Deméter ou as dores de parto de Leto.
    • Nascimento de Apolo no vigésimo dia do mês segundo a cronologia decimal.
  • Leto e Niobe representam as polaridades da luz e da escuridão no ciclo do mês lunar.
    • Leto como deusa da lua cheia e do esplendor em conjunto com os filhos.
    • Niobe como deusa da metade escura ou da lua minguante.
    • Identificação de Niobe como a mãe primordial que herda o hemisfério da obscuridade crescente.
  • Um registro pictórico de Herculano apresenta o erro original de Niobe durante um jogo de astrágalos com Leto e outras companheiras.
    • Presença de Aglaie, Hilaeira e Foibe junto às deusas principais.
    • Leto e Niobe eram muito amigas.
    • Representação da esfera primordial onde não havia distância entre o divino e o humano.
  • As companheiras de jogo de Niobe possuem nomes que as vinculam às Carites ou às Leucípides, reforçando o simbolismo lunar.
    • Aglaie identificada como uma das Carites em Hesíodo.
    • Hilaeira e Foibe como as irmãs raptadas pelos Dióscuros.
    • Relação das Leucípides com Apolo e as fases do percurso da lua.
  • As Carites representam as fases da luz lunar e a transformação da ridda celeste em dinâmica espiritual.
    • Veneração de duas Carites em Esparta chamadas Cleta (a invocada/lua nova) e Faena (a esplendente).
    • Auxo (a crescente) e Hegêmone (a que precede) como nomes atenienses para as fases lunares.
    • Graça espiritual inseparável da natureza expressa pelo termo charis.
  • O jogo de cinco pedrinhas nas mãos das divindades ilustra a alternância necessária entre vitória e derrota no ciclo existencial.
    • Aglaie e Hilaeira imersas na partida enquanto Leto se afasta irritada.
    • Culpa trágica de Niobe manifesta no desejo de vencer a todo custo e interromper o círculo.
    • Recusa de Niobe em aceitar a derrota que faz parte da dança das tríades.
  • A fixação de Niobe no hemisfério escuro consagra—a como o protótipo da dor da alma humana.
    • Transformação da deusa lunar em uma mãe que chora o perecer dos filhos.
    • Perda do retorno perene devido ao isolamento em uma única fase do ciclo.
    • Cristalização da condição humana no pranto incessante de uma figura petrificada.
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