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Prometeu

Karl Kerenyi. Prometheus.

  • O ensaio em questão, assim como outras obras devotadas à retomada da mitologia grega — Os deuses dos gregos e Os heróis dos gregos —, enfatiza o aspecto mitológico da religião grega, mas a série de monografias Imagens Arquetipal na Religião Grega, da qual este ensaio é o primeiro, coloca maior ênfase em uma dimensão tratada apenas implicitamente nas obras anteriores.
    • As obras anteriores foram “uma tentativa experimental de traduzir a mitologia dos gregos de volta, ao menos em alguma medida, ao seu meio original, à narração mitológica” — e a narração se move na dimensão da linguagem, do “palavra”, como a língua grega sublinha ao denominar essa espécie particular de narrativa, que trata largamente dos deuses e heróis, mythos (“palavra”) e mythologia (“narração”).
    • “Palavra” e “narração”, mito e mitologia, têm seu pleno significado apenas na dimensão mais ampla da existência como um todo — da existência grega no caso da mitologia grega; e os mitos, graças a sua forma de histórias, faziam parte da literatura grega e eram estudados sobretudo por estudiosos clássicos e arqueólogos.
    • O papel importante da mitologia, a contínua retomada dos mitos na literatura e na arte gregas, não pode ser explicado pelo mero “amor à narração”: se assim fosse, a literatura grega seria muito mais rica em temas puramente humanos do que se sabe que é.
  • A semelhança entre o papel da mitologia entre os maori da Nova Zelândia e entre os gregos fica clara no relato de sir George Grey — enviado à Nova Zelândia em 1845 pelo governo britânico e governador-geral a partir de então —, publicado em 1855 em Polynesian Mythology and Ancient Traditional History of the New Zealand Race.
    • Grey relata que os chefes, em seus discursos ou cartas, frequentemente citavam fragmentos de poemas antigos ou provérbios, ou faziam alusões que repousavam sobre um antigo sistema de mitologia — e embora fosse claro que as partes mais importantes de suas comunicações estavam incorporadas nessas formas figurativas, os intérpretes raramente conseguiam traduzir os poemas ou explicar as alusões.
    • “Claramente, porém, eu não podia, como governador do país, permitir que um véu tão cerrado permanecesse entre mim e os chefes idosos e influentes, a quem era meu dever vincular aos interesses britânicos… Somente uma coisa podia, nessas circunstâncias, ser feita: familiarizar-me com a língua antiga do país, coletar seus poemas e lendas tradicionais, induzir seus sacerdotes a me comunicar sua mitologia e estudar seus provérbios. Por mais de oito anos dediquei grande parte do meu tempo disponível a essas buscas.”
    • Thomas Mann caracterizou apropriadamente em sua conferência “Freud e o Futuro” a vida nos dias em que a mitologia ainda estava viva como uma “vida citacional” — e Ortega y Gasset expressou isso dizendo que o antigo, antes de fazer qualquer coisa, dava um passo para trás como o toureiro se posicionando para o golpe de morte: no passado buscava um modelo no qual se enfiava como em um sino de mergulho antes de se lançar, ao mesmo tempo protegido e distorcido, nos problemas do presente.
  • A correspondência estrita entre mito e existência — o caráter arquetipal e o significado existencial da mitologia — não foi deduzida pelos etnólogos da realidade grega tal como chegou pela tradição, embora seja altamente provável e quase evidente que essa relação deva ter sido a mesma entre os gregos como entre os povos em que foi possível observar a mitologia em estado vivo.
    • K. T. Preuss, em suas pesquisas entre os índios Cora, falou das “condições presentes e fenômenos constantemente recorrentes” que eram certificados “por um evento único na era primordial” — e Bronislaw Malinowski, em seu livro Mito na Psicologia Primitiva, baseado em observações nas Ilhas Trobriand ao norte da Nova Guiné, formulou com mais precisão: “O mito tal como existe em uma comunidade primitiva, isto é, em sua forma primitiva viva, não é meramente uma história contada, mas uma realidade vivida.”
    • Malinowski prossegue: “Sustento que existe uma classe especial de histórias, consideradas sagradas, incorporadas em ritual, moral e organização social, e que formam uma parte integrante e ativa da cultura primitiva. Essas histórias vivem não por interesse ocioso, não como narrativas fictícias ou mesmo verdadeiras; mas são para os nativos uma declaração de uma realidade primeva, maior e mais relevante, pela qual a vida presente, os destinos e as atividades da humanidade são determinados.”
    • Para uma correspondência como essa entre “uma realidade primeva, maior e mais relevante” e “a vida presente, os destinos e as atividades da humanidade” — entre “mito” e “existência” —, a linguagem dos platônicos ingleses possuía uma terminologia que também foi adotada em parte por uma tendência da psicologia moderna: arquetipal para o original e intemporal, ectipal para o que lhe corresponde em nosso mundo temporal.
    • A escolha de C. G. Jung pela palavra “Arquétipo” em sua teoria psicológica tinha seu fundo em nossa cultura ocidental e em sua tradição humanística — mas o termo “arquetipal” já havia sido usado nas línguas das nações ocidentais para designar um fenômeno com que qualquer investigação empírica da mitologia tem de lidar; um fundamento histórico para o paralelismo observado pelos etnólogos entre o mundo dos deuses e o “mundo ectipal” é fornecido pela tradição grega.
  • A correspondência estrita entre mito e existência se verifica no mitologema do sacrifício de Prometeu — o sacrifício primordial dos gregos —, que se encaixa exatamente com o que Malinowski observou sobre o papel da mitologia entre os habitantes das Ilhas Trobriand.
    • A história desse sacrifício tal como contada por Hesíodo era para os gregos a declaração de uma grande realidade primordial que determinou a existência e o destino subsequentes da humanidade — e o conhecimento dessa realidade fornecia aos gregos do período histórico o tema de sua mais importante ação sacrificial e as instruções para realizá-la.
    • Esse exemplo torna claro que entre os gregos a “mitologia” começou com funções pré-literárias, formalmente idênticas às que servia naquelas outras comunidades arcaicas que Malinowski chama de “primitivas.”
    • Prometeu, fundador do sacrifício, era um trapaceiro e um ladrão — esses traços estão na base de todas as histórias que o envolvem; o significado de seu estranho sacrifício, em que os deuses foram enganados dos bocados saborosos, é simplesmente este: que o sacrifício oferecido pelos homens é um sacrifício de ladrões temerários, roubadores da divindade ao seu redor — pois o mundo da natureza que os rodeia é divino —, cuja temeridade lhes traz infortúnio imenso e imprevisto.
    • Malinowski negou tanto o caráter simbólico quanto o etiológico da mitologia viva: “Podemos certamente descartar todas as interpretações explicativas assim como todas as simbólicas desses mitos de origem. Os personagens e seres que neles encontramos são o que parecem ser na superfície, e não símbolos de realidades ocultas.” — mas ao menos nos mitos gregos há algo que vai além disso: a transparência que a mitologia adquire quando considerada à luz da correspondência entre “arquetipal” e “ectipal.”
  • O melhor caminho para a mitologia é através dos poetas que são mais próximos — pois por seu tratamento do material eles conseguem comunicar não apenas o conteúdo dos mitos, mas também a experiência da mitologia; não são apenas as ciências naturais que carecem de experiência (em grego, empeiria), mas as ciências que lidam com criações do espírito devem estar fundamentadas em uma espécie de experiência que lhes dê, se não uma empeiria, ao menos uma peira — uma “testagem” e “amostragem”, um mínimo de experiência da ocupação espiritual com que se preocupam.
    • O poeta grego Álcman diz: “Peira toi mathēsios archa” — “Testar por si mesmo é o começo do aprendizado.”
    • Os poetas que entraram na tradição viva — os poetas antigos, mythológoi — permaneciam dentro do quadro do mitologema, aderindo às linhas gerais das versões anteriores; repetiam o que haviam ouvido e o que era conhecido de seus ouvintes e leitores, mas variando o tema colocavam o mitologema em movimento.
    • Outros poetas retomaram o mitologema após ele ter permanecido imóvel por muitos anos e lhe deram novo movimento e vida — e este é o caso dos poetas dos tempos modernos; o mitologema se tornou parte de sua própria experiência e assim puderam comunicar uma peira própria, não um mero conhecimento do material, mas uma verdadeira peira.
  • O tema de Prometeu foi retomado repetidamente por poetas dos tempos modernos, cujas imaginações foram inflamadas pelo Prometeu Acorrentado — a única parte da trilogia de Ésquilo que chegou inteiramente até nós.
    • Elizabeth Barrett Browning produziu uma versão poética do Prometeu Acorrentado; Shelley, em seu drama lírico Prometeu Desacorrentado, tentou preencher a lacuna criada pela perda da tragédia homônima de Ésquilo, mas tomou uma visão completamente nova do tema; do trabalho de Shelley disse-se com razão que nele “reside a quintessência de toda a sutileza de Shelley” e que “ecoa repetidamente com todo o melhor conhecimento científico da geração de Shelley” — mas o que Shelley refaz não é o mitologema de Prometeu, mas a profecia sobre a libertação de Prometeu, que desenvolve em um poema sobre o futuro da humanidade.
    • Goethe, diferentemente de Shelley que conhecia os poetas gregos profundamente e se desviou conscientemente da concepção de Ésquilo, conhecia muito menos grego — e isso o ajudou a tratar o material antigo com maior liberdade; onde Shelley continuava a tradição grega como um poeta helenístico, Goethe era mais primitivo.
    • Goethe se situa a meio caminho entre o presente e a Antiguidade em dois sentidos: comunica uma peira da substância humana e seu novo mitologema pode criar um obstáculo para a compreensão do antigo mitologema — mas ajuda ao interpretar sua própria obra de um modo sem paralelo entre outros poetas modernos.
    • Um paradoxo da mitologia é que os mitologemas — as linhas gerais das versões precoces dos mitos — e os personagens do drama já estão historicamente presentes onde quer que se escolha começar; hipóteses engenhosas sobre origens, na maioria produtos de teorias indemonstráveis elaboradas por homens modernos, só podem afastar do campo do empenho científico sério.
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