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POLICHINELO
René-André Lombard, “L'Enfant de la nuit d'orage”
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Tradições consideradas recentes fazem de Pulcinella um personagem da Commedia dell'Arte de origem napolitana, com esforço constante de vinculá-lo a um comediante real do fim da Idade Média.
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Para alguns, trata-se de Paulo Cinella, saltimbanco napolitano do tempo da presença francesa em Nápoles, sob Carlos de Anjou e as famosas “vésperas sicilianas”.
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Para outros, citados no Vocabulaire italien de 1789 e retomados por Lafont-Bompiani no Dictionnaire des personnages, trata-se de um camponês de silhueta extraordinariamente contorcida, encontrado por uma trupe de comediantes ambulantes, que os enfrentou numa luta de zombarias e caretas com tanto brio que foi incorporado à trupe e tornou-se célebre; chamava-se Puccio d'Aniello.
As origens “históricas” de Pulcinella parecem de curta visão, pois a silhueta corcunda de nariz adunco já era popular na França no tempo da Fronda, antes de qualquer importação italiana.-
O primeiro “Polichinelo” italiano em Paris foi Michel-Angelo Francajani nos belos dias do Hotel de Borgonha, no século XVII.
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O Polichinelo da Commedia dell'Arte não é nem adunco nem corcunda, veste-se todo de branco e usa máscara negra, aproximando-o de Pedrolino, Pierrot.
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A tradição russa confirma: seu Polichinelo adunco, corcunda e dizedor de “quatro verdades” chama-se “Petrouchka”, ou seja, Pierrot.
Por trás das duas silhuetas complementares, Arlequim e Pierrot, e do companheiro Pulcinella, há um arquétipo comum que remonta muito mais alto e explica a voga do portador de tradição popular, obsceno e contrastado na silhueta e nos propósitos, símbolo do desejo de viver apesar de tudo, apesar da morte, apesar do sofrimento, apesar das opressões e do “bom gosto” das classes favorecidas.-
Hans Wurst (Jean Saucisse), Pickelhering, Arlequim, Kasperl, Polichinelo, Petrouchka, Punch, difundidos pela Europa inteira como válvulas de escape da consciência popular através de comediantes e marionetes.
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Nota de rodapé: Hans Wurst citado por Lutero no século XVI; Wider Hans Worst.
Essa silhueta de corcova dupla e nariz enorme e adunco já aparece nas Atelanas, as farsas originárias de Atela, sob a Roma antiga, postas em forma de comédias por Novius e Pomponius, na época de Sylla.-
Representações em terracota no Museu do Louvre e em bronze no Museu de Nápoles.
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Trata-se de Dossenius, ou antes Maccus.
Maccus fala o úmbrio e não o latim, constituindo uma algaravia para os romanos; pia com voz de cabeça inarticulada (que será a “voz de Polichinelo”); saltita e se lança a torto e a direito como um pássaro.Todos esses elementos reunidos remetem uma vez mais a uma personagem ligada às origens rituais do Teatro, em relação com o início do ciclo do Ano.A “Lua Nova” oferece uma imagem primordial de grande importância, sendo o próprio sinal do início do ciclo e das festividades que o magnificam; os povos parecem ter hesitado entre “lua nova” em crescente e “lua cheia” em círculo completo para simbolizar esse sinal.-
A lua nova em crescente é a imagem mesma da renovação e inspirou múltiplas representações nos símbolos alquímicos ou esotéricos.
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No Egito, onde o crescente é muito horizontal, foi interpretado como “a criança em seu berço”, símbolo de “renascimento” e hieróglifo do “mês”; essa noção será reencontrada sob a etimologia do nome Pulcinella.
A cabeça de pássaro de bico curvo parece ter sido a imagem mais difundida desde a pré-história, encontrada no Magdaleniano na gruta de Lascaux, inspirando a silhueta do personagem lunar tipo dos mitos egípcios: o deus Thot, de cabeça de íbis.-
Nota de rodapé: Ver estudo sobre “a Dama com a licorne e a passagem do Ano”, in Atlantis.
O personagem “lua nova” de cabeça em crescente carrega as características lunares, sendo a mais importante o domínio dos líquidos vitais: a água, a lava, a seiva e o sangue, o que implica o domínio do ciclo feminino (28/29 dias) e da fecundação.Quando as intuições, finas e diversificadas, dos tempos do caçador/coletor e do xamanismo sobre o funcionamento das forças de vida forem esquecidas, o personagem lunar permanecerá marcado por uma dominante de sexualidade que poderá parecer animal e “vulgar”.O vestuário bipartido de Pulcinella recorda a redução da imagem lunar ao momento do primeiro quarto; o amarelo traduz o brilho (ouro), o vermelho, o fogo celeste da Tempestade cuja potência lunar é também soberana, como mostra a silhueta contrafeita do ferreiro do relâmpago celeste, Hefaistos.O nome de Maccus, tema M.KH, parece ligado à noção de sexualidade feminina com ideia de derrisão; Maccho (grego), mulher estúpida de quem se zomba: “fazer a makko” = ficar boquiaberto como um imbecil; Macchus, latim, devasso e adúltero (aplicado a Júlio César cujas aventuras frequentemente homossexuais alimentavam a crônica: “moechus calvus”, o devasso calvo, gritavam seus soldados).O nome de Pulcinella, diminutivo do tema P.LL.Kh, é muito mais significativo e pode ser considerado o vocábulo mais antigo, portador de imagens míticas, e é por essa razão que atravessou o tempo.O nome Pulcinella conduz em duas direções: a primeira evoca a energia vital toda nova, pois P.LL designa em bom número de palavras o “pequeno”, filhote bem vivo de um animal, que em latim será Pullus.-
Conservam-se atualmente: Poule, poulet, poussin, também poulain, pouliche, palavras que permanecem carregadas de afetividade (termos de ternura) ligada à noção de “criança”.
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A tradução de Pulcinella por “o pintinho” que certos dicionários dão concorda com essa interpretação, correspondendo à “natividade” da lua em crescente e à aparência de “pintinho” pipilante que caracteriza a mais antiga silhueta do personagem.
A segunda direção é nitidamente sideral: P.LL e P.LL.K evocam a claridade, a luminosidade branca de um astro.-
Pallas Atena, a mestra dos cálculos lunares que resplandece na noite; resta a palavra “pale” (palidus).
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Pollux, estrela dos Gêmeos, companheiro de Kh-Astor, Castor, guardião da Via Láctea, setor celeste privilegiado da Passagem do Ano e da passagem das almas pela reencarnação.
Está-se portanto diante de um conjunto muito coerente que faz de Pulcinella o herdeiro de uma imagem teatral da lua nova em crescente à sua chegada no setor do céu noturno que dá o sinal da Renascença pelo sacrifício e pela fecundação.Esse setor começa em P.LL, Pleias, Pleiad, o grupo cerrado da constelação das Plêiades, onde se vê a unidade de todos esses termos: P.LL é também o signo da “Chuva” fecundante, mas também “o pássaro”, a “pomba”, e é também Pulliceni: “os pintinhos”, pois todo o Medievo explica a constelação das Plêiades por um grupo de pintinhos (“a galinheira”).-
Pulliceni: Polecenella fecha o círculo em torno do “Pintinho”, o “Polegar” o menor mas o mais vigoroso, rodeado de seus sete irmãos (leitura das Plêiades atestada na América do Sul).
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Polecenella é o aparecimento do crescente anunciado pelas Plêiades.
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Nota de rodapé: Ver Cl. Levy Strauss op. cit.: “o cru e o cozido” e R.A. Lombard: “as noites do ano da pré-história” (edição de Poliphile).
Pulcinella, a meia-lua das festividades xamânicas primordiais, aparece como a terceira figura indispensável entre a lua negra – o felino de máscara obscura, detentor da energia da Tempestade, Arlequim – e a Lua Cheia branca e redonda, ambígua, sacrificial e carregada de almas em trânsito: Pierrot; em suma, “Pintinho”, vigoroso, obsceno e sarcástico, meio-homem, meio-pássaro, pipilando com sua voz alta e voando, crescente quanto ao nariz adunco, crescente quanto à forma da cabeça, crescente quanto à espinha corcunda.Mensageiras do subconsciente coletivo, essas três figuras, alternadamente “cômicas” e “trágicas”, persistiram até nós sem cessar de estar ligadas à nossa emotividade profunda.À medida que o grupo humano tomava sua dimensão aparente de senhor do mundo terrestre, essas figuras sofriam uma miniaturização contínua em todos os planos.-
De figuras cósmicas tornavam-se personagens humanas.
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De silhuetas gigantes tornavam-se “marionetes”.
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De P.LL, o brilho sideral e o pássaro Plêiade, fazia-se Pulccinella, o “pequeno” P.LL.
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De SWR/SWLL, o além da Via Láctea, fazia-se Hellquin, Arlequim, o “pequeno” H.LL.
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De P.T.R, o lunar criador e fecundante (Phtah no Egito), fazia-se Pedrolino/Petrouchka/Pierrot, o “pequeno” Pierre.
Assim vão as grandes ondas às quais obedecem os arquétipos sagrados, expansão e contração, “tudo funciona por oscilação compensada”, dizia Hermes Trismegisto.mitologia/lombard/polichinelo.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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