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Mário Martins

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

O tempo, portador da morte. A própria morte que está chegando, na rapidez silente dos momentos breves — tão breves que o chegar quase equivale a partir. E ela, a morte, nos envolverá a todos, como a Noite, de Fernando Pessoa, enfermeira antiquissima sentada à cabeceira dos deuses moribundos e que os viu também nascer e sorriu, por tudo lhe parecer falso e inútil:

Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos,
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece…

E este pensamento da Mensagem: a vida é metade de nada. Existimos e desexistimos. Estamos a morrer ao longo das horas moribundas. Na Idade Média, esta reflexão atroz fez nascer a Dança Macabra (e dela falaremos em páginas longas) e um vasto mundo de obras marcadas por ela, pois o sentido da morte dá aos homens a profundidade angustiada que falta ao animal. E é talvez um eco inconsciente da Dança Macabra que põe nos lábios hora-cianos de Ricardo dos Reis (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) este sarcasmo doloroso: Pesa sobre os homens o decreto do fim certeiro. Mas eles riem. Felizes os néscios. Sus! Deixai / brincar os moribundos!

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