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Amor cortês

Jean Markale. Le Druidisme. Tradition et dieux des Celtes. Éditions Payot, Paris, 1985

O jogo do amor e da façanha

1. As turbulências do Ano Mil provocaram um questionamento de toda a sociedade cristã ocidental, sem abalar a lei das três ordens herdada da tripartição indo-europeia, levando à busca de uma organização do mundo conforme ao plano divino e abrindo, pelas divergências de interpretação das Escrituras, a era das chamadas heresias.

2. Do século XI ao fim do XIII, uma Europa nova integra numa síntese cada vez mais harmoniosa os aportes de sua longa gestação, numa verdadeira revolução, no sentido de retorno ao ponto de partida, que coincide com a época do amor cortês, ou fin'amor, manifestado na vida espiritual, intelectual e literária.

3. O aspecto literário do amor cortês é apenas a ponta emersa do iceberg, cuja parte submersa, muito mais considerável, ameaça perturbar as ideias recebidas e pôr em causa todo o sistema sobre o qual se estabeleceu o fim da Idade Média.

4. A expressão Idade Média é apenas um marco cronológico cômodo para um período composto de épocas diversas e contraditórias, tantas quantas foram as tentativas de explicar o mundo e o homem a partir das civilizações anteriores, indígenas ou importadas.

5. A latinidade, componente indiscutível mas não exclusivo da Europa em construção, deve ser entendida como greco-latinidade enriquecida pelo Oriente Próximo e veiculada por um baixo latim evoluído, o que desmente a concepção simplista de uma Europa nascida inteiramente de Roma, cuja herança papas e imperadores reivindicam por abuso de poder e de confiança.

6. O cristianismo, embora responsável pela vitória do latim sobre as línguas indígenas, não é simples ideologia latina, pois nasceu num meio judaico helenizado, impregnado de neoplatonismo, e chegou a uma Roma minada pelo ateísmo e pelos cultos de mistérios, numa complexa alquimia sociocultural.

7. O aporte germânico, continental pelos francos e visigodos e insular e escandinavo pelos homens do Norte, transformou profundamente as estruturas do Império Romano, numa evolução cuja profundidade, ainda visível em toda a Europa ocidental, permanece insuspeitada.

8. A influência árabe, longe de ser apenas destruidora, abriu a Europa a um mundo desconhecido e enriqueceu o pensamento filosófico, a arte e as tradições herméticas, sobretudo na Península Ibérica, encruzilhada de muçulmanos, judeus e cristãos de onde nasceu em parte a civilização occitana e possíveis arquétipos do amor cortês.

9. O elemento celta, o mais antigo e discreto, quase secreto, permanece vivo nas regiões colonizadas pelos povos de língua celta durante as idades do ferro e constitui, no século XI, o fundamento de tudo o que se constrói.

10. Esses dados explicam o surgimento no século XI de uma nova maneira de pensar as relações entre homens e mulheres, ligada a especulações intelectuais e espirituais, moda restrita a uma minoria aristocrática das cortes refinadas, cuja origem permanece obscura.

11. Saído dos terrores do Ano Mil, o Ocidente vê desagregar-se o Império restaurado por Carlos Magno, tornado apenas germânico, enquanto os Capetíngios sacralizam sua soberania e o sonho de universalidade cristã cede lugar ao particularismo de múltiplos principados independentes.

12. Os historiadores não perceberam nesse fenômeno a ressurgência da mentalidade celta, que, contra o centralismo latino da Urbs e da Civitas, recusa toda autoridade central e privilegia grupos sociais autônomos unidos apenas pela comunidade de origem e cultura, tendências horizontais reconhecíveis na Europa feudal.

13. A parcelização do antigo Império revela a ressurgência de temas ancestrais nunca esquecidos, e a feudalidade surge da tomada de consciência da dificuldade material de equilibrar forças num conjunto imenso, apoiando-se nas estruturas mentais e sociais enraizadas nos territórios.

14. O amor cortês reflete essas tendências profundas, não como satelitização em torno de um centro ideológico, mas como sucessão de sistemas solares independentes ligados por uma gravitação universal, em que a dama é o sol em torno do qual giram as façanhas dos cavaleiros em benefício da comunidade e dos próprios indivíduos.

15. As turbulências atingem também a Igreja, pois a cultura, antes episcopal, aristocrática e principesca, conservada pelo escolástico à imagem de Gerbert de Aurillac à sombra das catedrais, passa depois do Ano Mil para os mosteiros, num processo de parcelização e desagregação.

16. A Igreja romana, apesar de ter imposto uma estrutura monolítica após as primeiras heresias e o sufocamento das igrejas nacionais, permanecia vulnerável aos sobressaltos internos e evoluiu de dentro a partir do século XI graças ao papel crescente dos mosteiros.

17. O monaquismo, de dupla origem, beneditina e celta, esta devida a São Columbano, tornou-se, pela ligação direta dos mosteiros ao papado para escapar aos poderes locais, um Estado no Estado e uma Igreja na Igreja, enquanto o alto clero se politizava e se desinteressava da espiritualidade e da cultura, deixadas aos monges.

18. Os monges aproveitaram essa ocasião para ocupar-se realmente da espiritualidade e da cultura, iniciando a mudança de mentalidade.

19. Depositários do saber, os monges do século XI conservaram, fizeram viver e amadureceram o patrimônio cultural do Ocidente, sendo os verdadeiros artífices do que se chama Idade Média.

20. Na ótica do tempo, as disciplinas intelectuais não se especializam, e ser filósofo supõe um conhecimento enciclopédico e sintético que integra a vida cultural à vida espiritual, ponto essencial para compreender a mentalidade medieval.

21. No século XI surge a evidência ofuscante da existência da mulher ao lado do homem numa sociedade cristã construída por e para machos, que, segundo a mensagem deformada de São Paulo, só admitia a mulher como ser inferior e serva do homem.

22. Essa tomada de consciência é dupla, pois a mulher se revela potência econômica como herdeira de domínios e fortunas, e os teólogos percebem que Cristo deve sua humanidade ao ventre de uma mulher, o que gera a confusão em torno da Theotokos, resolvida pela Igreja com a virgindade perpétua de Maria, mãe sem papel sexual.

23. A Theotokos assim asséptica, apresentada como modelo de todas as mulheres, despertou as pulsões do inconsciente e a antiga imagem da deusa-mãe celta, origem do duplo rosto da mulher cortês, Virgem universal e Prostituta Sagrada.

24. No século XI, a lei humana e a lei divina são feitas por homens, o que leva a indagar onde está o Amor pregado por Cristo nos Evangelhos.

25. Esse amor existe à sombra dos mosteiros e triunfa em São Bernardo de Claraval, até que o trovador Uc de Saint-Circ afirme atingir-se Deus pela mulher, coincidindo o triunfo do culto mariano com o da dama cortês, duas formas complementares, sagrada e profana, de uma mesma concepção da mulher em sua plenitude.

26. A dicotomia entre a dama cortês e a Virgem Maria é artificial, exagerada para servir a interesses e mal percebida por uma laicidade indiferente ao sagrado, pois se trata de dois rostos de uma mesma realidade.

27. Quando uma sociedade faz da mulher o eixo necessário de seu funcionamento, a imagem feminina é sublimada por todos os meios, aparecendo como fada maravilhosa, feiticeira castradora ou Virgem que gerou miraculosamente um Deus-Menino, projeção do homem em busca de transcendência.

28. Essa sublimação provoca hesitações e transbordamentos entre biologia, psicologia, sociologia e religião, e os teóricos da fin'amor tentaram conter um fluxo incontrolável, prova da gravidade de um problema que atingia a base da estrutura social.

29. A evolução da mentalidade resume-se na valorização da mulher e da feminilidade como motor da vida e fundamento de uma espiritualidade natural, mística profana e erótica sem raízes cristãs, perigosa para a civilização patriarcal, que logo encerrou a feminilidade na imagem de Maria.

30. As sociedades patriarcais sentiram a intrusão do sagrado no cotidiano como ameaça a seus privilégios e romperam todo vínculo entre pulsões carnais e aspirações metafísicas, criando a imagem da Virgem que esmaga a serpente, sem perceber que a serpente era originalmente parte dela.

31. As sociedades clericais, recusando toda conotação simbólica, impuseram à Virgem uma virgindade física no sentido mais primário, embora São Bernardo reconhecesse que o amor humano começa pela carne, numa Idade Média que, longe de pudica, sabia chamar as coisas pelo nome.

32. O amor cortês é uma nova arte de amar e de viver, já que viver é amar, essência da mensagem de Cristo, e a inversão de Roma em Amor merece reflexão.

33. O amor supõe pelo menos duas pessoas, pois o amor de si degenera em egoísmo ou autismo, e, como Deus sem criatura equivale ao nada segundo Hegel, o ser humano sem o outro não tem consciência de sua própria existência.

34. Arte de amar, arte de viver e código simbólico de aprendizagem do amor, o amor cortês coloca em última análise um problema de metafísica ontológica que abre as portas do invisível e do sutil.

35. A partir do século XI, a elite intelectual pergunta-se se o amor é simples jogo ou cópula reprodutora ou um meio de transcendência, e a mulher, antes desprezada, sai da sombra com prudência, enquanto a Virgem Maria recobre a antiga deusa-mãe de três rostos, tornando-se a Mãe por quem se deve passar para chegar a Deus.

36. Notre Dame, universal e despojada do aspecto amoroso, é apenas Mãe, enquanto a amante, recalcada do culto, ronda o inconsciente nos ritos campestres, nos contos de fadas e nos mitos retomados pelos poetas, como Morgana de Avalon, de modo que a dama, Domina visível e individualizada na esposa do senhor, deixa de ser Notre Dame para tornar-se minha dama.

37. A minha dama exige um amante contemplador, cavaleiro ou trovador, que busca aproximar-se dela por proezas guerreiras ou literárias, num jogo refinado análogo à liturgia da Theotokos, em que o amante se torna sacerdote de uma nova religião paralela, unindo profano e sagrado como aspectos de uma mesma realidade.

38. O amor cortês concerne ao casal formado pela dama e pelo amante quando cumpridas as condições rituais, nascendo o serviço de amor, feito de renúncia, sacrifício, lealdade, encanto, orações e gestos que se transcendem na proeza, pois é preciso merecer minha dama como se busca a compaixão de Notre Dame.

39. Despojada do aspecto materno tolerado pela Igreja, minha dama arrisca ser vista como erótica e diabólica, reacendendo os antigos terrores antifeministas dos Padres da Igreja, que viam na mulher um ser impuro marcado por Satã.

40. O casal cortês, de relação sentimental ou sexual, exclui o casamento e supõe a dama casada e o adultério real ou simbólico, segundo o modelo de Tristão e Isolda ou de Lancelote e Guenièvre, contrário ao ideal moral cristão, o que sugere algo de subversivo nesse suposto jogo de sociedade.

41. A subversão nunca nasce das camadas mais desfavorecidas, mas da aliança entre o Poder e o Saber, e, do século XI ao XIII, os detentores do saber, clérigos e aristocratas esclarecidos, manipularam a opinião infundindo nas regras de uma sociedade aparentemente cristã os elementos estranhos de uma Tradição nada inocente.

42. A formação do amor cortês revela correntes de ortodoxia suspeita, a tradição dos trovadores occitanos tingida de catarismo e de lembranças visigóticas, a persistência celta na Occitânia montanhosa, visível nas igrejas românicas, nos contos e na língua occitana, e o papel de Leonor da Aquitânia, catalisadora das lendas celtas, e de Chrétien de Troyes, judeu convertido herdeiro da tradição cabalística, numa Champanhe onde a heresia cátara primeiro se manifestou.

43. Essas madrinhas feéricas do amor cortês, classificadas como diabólicas pela Idade Média, inspiraram à nova elite nascida nos mosteiros propostas que ameaçavam o edifício dogmático da cristandade, como mostram os mistérios das igrejas românicas e as heterodoxias veladas dos construtores góticos, numa síntese genial das correntes mais contraditórias do pensamento.

44. Como divertimento, o amor cortês distingue uma elite intelectual e aristocrática da massa, mas, sob a superfície, revela realidades temíveis que põem em causa a sociedade que pretende exprimir e codificar.

45. A casuística das cortes de amor coloca não só o problema da mulher, mas o do casal, pois, contra a antiga visão do homem que trabalha, reza e guerreia e da mulher reprodutora e repouso do guerreiro, descobre-se que a atividade masculina, sobretudo guerreira, pode estar ligada à atividade sexual e à mulher.

46. O século XI realizou uma espécie de psicanálise da sexualidade, enfraquecendo a velha noção androcrática e revelando heroínas corteses como Guenièvre, Enide ou Isolda como figuras ativas, muito distantes da mulher romântica do século XIX que definha e morre de amor.

47. Segundo Denis de Rougemont, o amor cortês, ao demonstrar a incompatibilidade entre amor-sentimento e casamento e ao integrar a sexualidade ao amor-sentimento, gerou ao mesmo tempo o casamento cristão fundado no amor e seu corolário, o adultério, cristalização do amor-paixão, ao passo que a época atual regride para uma sexualidade pura e um casamento de conveniência.

48. Trata-se de um debate fundamental e perpétuo sobre as relações entre homem e mulher e sobre a necessidade de defini-las em todo grupo social.

49. O cristianismo primitivo seguia o modelo greco-romano da predominância masculina, reduzindo a mulher à procriação e ao prazer do homem e acrescentando a noção de dever sagrado, início de uma longa culpabilização feminina.

50. Nos séculos XI a XIII, a mulher, em vez de perverter o homem, assiste-o e motiva sua ação, tornando-se a imagem mais perfeita do divino encarnado e a iniciadora da ação humana, sem a qual esta careceria de sentido.

51. Ao privilegiar o amor extraconjugal e propor novas regras de comportamento contra as antigas leis avalizadas pela moral cristã, o amor cortês transgride interditos e formula uma filosofia do comportamento profundamente diferente, portanto subversiva e, na terminologia medieval, diabólica.

52. A ideia nova é a aliança entre o amor e a ação guerreira que conduz à proeza, numa relação em que a dama idealizada, de alta posição, e o cavaleiro de condição inferior, dotado de uma potencialidade de ser, se ligam por um serviço de amor que o inicia e eleva, beneficiando por fim toda a sociedade, num cúmulo de ambiguidade.

53. Compreender o amor cortês exige compreender o casal que ele constitui, pois a dama nada é sem o amante escolhido entre os pretendentes, com quem estabelece um ritual de posse e encantamento que o leva a transgredir interditos sociais, morais e sexuais, desaparecendo a noção de indivíduo em favor da de casal.

54. A inocência desse casal é duvidosa, oscilando entre o amor espiritualizado à maneira da devoção de São Bernardo à Virgem e o meio refinado de ligar um cavaleiro ao senhor pela esposa deste, como Artur pede a Guenièvre que retenha Lancelote, sem que se saiba até onde convém ir.

55. Nascido de uma especulação intelectual que subverte a ordem das coisas, esse casal ambíguo e marginal assume ares diabólicos, ao contrário da preciosidade do século XVII, que o reduziu a jogo cerebral e puritano, pois nos séculos XI a XIII espiritual, intelectual e carnal se mesclam num todo indissociável, tornando inevitável o adultério efetivo de Guenièvre e Lancelote.

56. Qualquer que seja a abordagem, literária, psicológica, sociológica ou política, o casal formado pela dama e seu amante revela-se uma espécie de casal infernal que se atravessa na sociedade cristã medieval e perturba sua boa consciência.

57. Como o diabo, que se atravessa no caminho, o casal cortês conduz ao inferno, onde Dante encontra Francesca da Rimini, seduzida pela paixão de Guenièvre e Isolda, pois as energias despertadas pelo amor cortês, ainda que canalizadas para a demanda do Graal ou para o culto mariano, são de origem sexual e nem sempre se resolvem no êxtase místico.

58. Resta saber se o casal infernal não seria a passagem obrigatória do ser em busca de sua plenitude.

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