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MARKALE, Jean. La Grande Épopée des Celtes. Tome 2: De la guerre des héros au crépuscule des dieux. Paris: Éditions Pygmalion / Gérard Watelet, 1999.

INTRODUÇÃO

O poder e a glória

1. Os gaélicos, chamados Filhos de Milé, conquistam apenas a superfície da Irlanda, enquanto os povos da deusa Dana e os Fir Bolg conservam o domínio subterrâneo do sidh e das ilhas oceânicas, estabelecendo uma soberania compartilhada que corresponde à relação entre consciência e inconsciente e submete a existência humana às forças sobrenaturais presentes na memória coletiva.

2. As migrações celtas até os confins ocidentais do mundo habitado, diante de um oceano associado aos mistérios da vida e da morte, dão origem a narrativas que, embora distintas da história factual, preservam testemunhos fundamentais das maneiras de viver, pensar e sentir dos povos que contribuíram para a formação cultural da Europa.

3. A organização dos gaélicos na Irlanda permanece fundada na riqueza pastoril herdada de sua origem nômade, e a necessidade de garantir os melhores pastos para ovinos, bovinos e suínos constitui a base material dos conflitos dos quais nasce a narrativa épica.

4. Em uma sociedade de fronteiras provisórias, a sobrevivência e a prosperidade dependem da descoberta, exploração e defesa das pastagens, fazendo surgir heróis que protegem a coletividade e encarnam figuras divinas de sua memória, de modo que a epopeia integra necessidades cotidianas, estruturas religiosas e concepções sociais enraizadas no tempo mítico das origens.

5. As quatro províncias irlandesas — Ulster, Connaught, Leinster e Munster — correspondem a antigos reinos subdivididos em principados cujos reis distribuem e protegem as riquezas, mantendo entre si e com os soberanos provinciais vínculos contratuais, religiosos e mágicos que configuram uma espécie de confederação dotada de ampla autonomia local.

6. A unidade confederativa da Irlanda antiga permanece sobretudo teórica, como evidencia a designação gaélica das províncias como “quintos”, pois o quinto reino, Mide, situado simbolicamente no centro da ilha, possui caráter essencialmente moral e religioso, tendo Tara como centro sagrado da Irlanda pré-cristã.

7. O alto-rei de Tara, escolhido entre membros de famílias reais por outros reis e chefes mediante procedimentos provavelmente associados a rituais mágico-religiosos, parece ter exercido uma função sobretudo honorífica antes do século XI, enquanto o poder efetivo permanecia nas mãos dos soberanos provinciais.

8. Connaught e Ulster ocupam posição central na epopeia da Idade do Ferro celta, articulada em torno de Ailill e Maeve, de um lado, e Conor e seu sobrinho Couhoulinn, de outro, cujas rivalidades vinculam indissociavelmente os dois ciclos, com a tradição dos ulates frequentemente transmitida por personagens de Connaught.

9. A identificação do Ulster com uma região exclusivamente britânica, protestante e anglicizada obscurece a divisão de seus nove condados entre duas jurisdições, a origem seiscentista das colonizações presbiterianas, a importância cristã de Armagh e a persistência da língua gaélica, elementos que sustentam sua condição histórica de reduto dos costumes gaélicos.

10. A preservação das particularidades celtas do Ulster relaciona-se à necessidade de resistir às influências inglesas, à proximidade da Escócia, evangelizada e celtizada por Colum-Cill, à fertilidade das terras e à qualidade dos portos comerciais, bem como ao caráter decidido de suas populações católicas e protestantes.

11. Os antigos ulates conjugam coragem, energia e resistência no trabalho e na guerra com uma inclinação a banquetes prolongados, embriaguez e disputas que passam das palavras à violência, manifestando uma humanidade cujos defeitos possuem a mesma intensidade de suas qualidades.

12. A exuberância dos festins ulates convive com uma sociedade solidamente organizada por costumes dotados de força legal, cuja preocupação em disciplinar a existência encontra expressão na instituição da fraternidade do Ramo Vermelho, situada na confluência entre mito, história, sonho e realidade.

13. A fraternidade do Ramo Vermelho possui caráter guerreiro e parcialmente iniciático, associado às três casas reais de Émain Macha destinadas às assembleias, ao armazenamento de armas e à exposição dos despojos inimigos, cuja disposição em uma fortaleza-santuário consagra ritualmente as atividades políticas, militares e religiosas em torno do rei.

14. A memória de Conor preserva a imagem de um soberano poderoso e glorioso, mas sua identificação como personagem histórico do início da era cristã depende apenas de uma narrativa tardia que atribui sua morte à cólera provocada pela notícia da crucificação de Jesus.

15. Conor encarna o ideal celta de uma realeza sagrada fundada na regulação social e na escolha dos governados, pois sua ascensão, preparada pela mãe guerreira e feiticeira Ness mediante a cessão temporária do trono por Fergus e a distribuição de presentes aos chefes, demonstra que a legitimidade régia decorre da proteção e da generosidade para com os súditos.

16. A autoridade de Conor depende da atuação conjunta de nobres, druidas, guerreiros e artesãos, tornando a fraternidade do Ramo Vermelho um instrumento de coesão do reino que reúne os mais valorosos, sábios e hábeis por vínculos de parentesco, adoção e irmandade de armas, em paralelo com as fraternidades da Távola Redonda e do Graal.

17. Entre os companheiros destacam-se o druida Cavad, pai de Conor, e Fergus mac Roeg, rei deposto que se refugia em Connaught após uma traição, cuja força gigantesca e sexualidade desmedida personificam as potências instintivas do ser sem excluir a bondade, a compaixão, a afeição e um elevado senso de honra.

18. Os companheiros do Ramo Vermelho conservam características de antigas figuras divinas ou demoníacas, aproximando-se dos guerreiros da tradição arturiana arcaica e de outros heróis indo-europeus por sua crueldade guerreira e seus poderes mágicos, ainda distantes do refinamento cortesão dos romances medievais.

19. Bricriu, nobre ulate de “língua envenenada” que provoca discórdias entre seus companheiros e compatriotas, corresponde ao tipo mítico do semeador de conflitos, representado também por Kaï, Tersites, Loki e o osseta Syrdon, cuja intervenção se relaciona a acontecimentos destrutivos e maldições coletivas.

20. Celtchar, guerreiro temido e enigmático, apresenta uma ferida comparável à do Rei Pescador e integra um conjunto de heróis marcados por deformidades simbólicas, enquanto sua morte em uma vingança sangrenta o aproxima da condição de vítima divina expiatória.

21. Conall Cernach, Couhoulinn e Loegairé formam uma irmandade de armas unida pela coragem e dividida pela disputa da primazia guerreira, na qual Conall, sobrinho mais velho de Conor por linhagem feminina e presumível herdeiro do trono, representa o modelo mais acabado do guerreiro do Ramo Vermelho e corresponde ao Gauvain arturiano.

22. A presença de Conall Cernach em diferentes ciclos narrativos confere-lhe uma dimensão que ultrapassa tempo e espaço, enquanto sua deformidade, causada pelo tio materno Cêt para impedir o cumprimento de uma profecia contra Connaught, fundamenta uma hostilidade irreconciliável agravada pela aliança do agressor com Ailill e Maeve.

23. A fraternidade do Ramo Vermelho constitui uma comunidade moral cujos vínculos mágicos prevalecem sobre origens étnicas e relações familiares, como demonstra Fergus ao preservar seus antigos companheiros, especialmente Couhoulinn, mesmo depois de romper com Conor e passar ao campo inimigo.

24. Cûroi mac Daeré, aliado e rival dos ulates em expedições sobrenaturais e provas mágicas, pertence ao Outro Mundo e possui uma invulnerabilidade condicionada, sendo morto por Couhoulinn graças à traição de Blathnait, acontecimento que desencadeia uma cadeia de vinganças envolvendo seu filho Lugaid e Conall Cernach e se associa ao motivo folclórico do corpo cuja alma permanece fora dele.

25. Couhoulinn, grande herói ulate e símbolo da liberdade gaélica, ultrapassa a comparação com Aquiles e Sigurd-Siegfried porque sua força não depende de uma imunização física nem sua morte se reduz à fatalidade divina ou à traição humana, decorrendo antes do cumprimento de sua missão terrestre e de uma potência conquistada por sua própria atuação.

26. Couhoulinn representa de maneira privilegiada o espírito, a cultura e a concepção heroica dos celtas, cuja epopeia preserva uma especificidade arcaica favorecida pela marginalização, enquanto a tradição grega conhecida resulta de uma elaboração literária e racionalizada de antigas liturgias e concepções esquecidas.

27. Couhoulinn é um nome iniciático imposto pelos acontecimentos da infância, e não o nome original do herói, exprimindo a missão que lhe foi atribuída pela divindade invisível e inominável dos celtas.

28. A dupla origem de Couhoulinn, marcada por dois nascimentos e por uma semicegueira transitória ligada ao transe e ao conhecimento interior, combina a maternidade de Dechtiré com a ambiguidade de uma paternidade atribuída a Lug ou a Conor, enquanto Sualtam ocupa a posição de pai presumido para encobrir a possibilidade de um incesto fundador de caráter divino.

29. A ligação de Couhoulinn com Lug, divindade que reúne origens luminosas e obscuras e concentra todas as funções sem se limitar a nenhuma, esclarece sua posição excepcional entre os ulates, semelhante à de Lancelot entre os cavaleiros arturianos, pois sua presença é indispensável à vitória e sua natureza o preserva da maldição de Macha.

30. Sétanta, nome original do herói cujo sentido de “Caminhante” reforça sua singularidade, transforma-se em Cù Chulainn, “Cão de Culann”, quando a criança mata o poderoso animal do ferreiro e assume sua função protetora como reparação, recebendo o reconhecimento coletivo e a consagração de um druida.

31. Os transes de Couhoulinn transformam seu corpo em uma figura monstruosa e polimórfica que concentra e dirige as forças instintivas da natureza, produzindo uma fúria guerreira tão intensa que seu retorno à condição habitual exige a imersão sucessiva em três recipientes de água fria, quase inteiramente consumida pelo calor de seu corpo.

32. A fúria guerreira de Couhoulinn aproxima-se da potência animal incorporada pelos guerreiros germânicos berserkers e pelos homens-lobos, mas encontra suas analogias mais expressivas nas tradições ossetas situadas na extremidade oriental do domínio indo-europeu.

33. Batraz, herói dos nartes e filho de Haemyts, apresenta afinidades profundas com Couhoulinn por seu nascimento extraordinário, pelo calor capaz de evaporar as águas, pelas vitórias precoces sobre adversários e monstros e pela têmpera realizada pelo ferreiro celeste Kurdalaegon, que transforma seu corpo em aço.

34. A proximidade entre Batraz e Couhoulinn abrange tanto sua natureza ígnea quanto a duplicidade da origem, pois a mãe sobrenatural de Batraz, obrigada a usar uma pele de rã durante o dia e a manter esse segredo, retorna ao Outro Mundo após a violação do interdito provocada por Syrdon e transfere o feto para o dorso de Haemyts.

35. O nascimento de Batraz a partir do corpo paterno, auxiliado por Satana, figura comparável a outras deusas maternas, insere-se no conjunto de nascimentos ou gestações anormais que simbolizam iluminação e conhecimento interior e atestam a origem divina ou sobrenatural dos heróis, de Atena e Moisés a Jesus.

36. A natureza divina de Couhoulinn não dispensa sua formação guerreira, mágica e sexual por mulheres iniciadoras, característica fundamental da tradição celta também presente na aprendizagem de Peredur, enquanto a localização dessas mestras na Escócia se associa a aproximações linguísticas e imaginárias entre a Cítia e a Escócia.

37. Scatach, Uatach e Aifé exemplificam a presença decisiva das mulheres nos caminhos heroicos e sua ligação com o sobrenatural, preservando a memória de uma ordem social e religiosa anterior à chegada dos celtas à Europa ocidental, centrada na Grande Deusa como feminilidade divina e maternidade universal.

38. Maeve, rainha de Connaught e adversária de Conor, ocupa o centro das intrigas como mediadora entre deuses e homens e entre o visível e o invisível, exprimindo, sob a forma heroica da embriaguez divina, a continuidade das antigas figuras da Grande Deusa, designadas por nomes como Ériu, Brigit, Bobdh, Morrigane, Étaine e Boann.

39. Dechtiré, mãe de Couhoulinn capaz de assumir a forma de um cisne, aproxima-se das antigas deusas-aves e de outras figuras femininas metamórficas, enquanto Leborcham, apesar de sua aparência selvagem e pouco atraente, exerce com eficácia as funções de mensageira de Conor e mãe nutridora de Déirdré.

40. Déirdré ultrapassa sua condição de símbolo da Irlanda oprimida ao encarnar a mulher que procura assumir o próprio destino e é destruída pela mentira, pela traição e pela covardia masculinas, conservando uma potência mágica ocultada pela glória dos homens e prolongada em figuras como Isolda, Grainné e as mulheres-vampiras que conjugam temor e desejo.

41. A singularidade das heroínas celtas manifesta-se em Blathnait, guardiã de um caldeirão comparável ao Graal, em Fand, esposa divina que conduz Couhoulinn a uma ilha maravilhosa, em Émer, cuja atitude combina ciúme e tolerância, e nas profetisas druidesas, todas próximas das fadas e donzelas encontradas pelos cavaleiros arturianos.

42. A coragem, a inteligência e a vontade de poder dos companheiros do Ramo Vermelho coexistem com fraquezas capazes de conduzi-los à catástrofe e à renúncia moral, permanecendo indeterminada a responsabilidade dessas quedas entre a falibilidade humana e a intervenção destrutiva dos deuses.

43. A maldição de Macha nasce da injustiça de obrigar a deusa, grávida e próxima do parto, a competir com os cavalos do rei, impondo aos ulates, durante nove gerações e sempre que o país estiver ameaçado, cinco dias e quatro noites de dores de parto, das quais apenas Couhoulinn permanece livre em virtude de sua essência divina.

44. A “Novena dos Ulates” não se identifica com a couvade, pois a simulação masculina das dores do parto constitui uma participação simbólica e ritual no nascimento, enquanto o sofrimento imposto aos guerreiros representa uma punição por uma falta anterior.

45. Macha reúne, sob três figuras femininas, as funções indo-europeias da profecia sacerdotal, da soberania guerreira e da prosperidade produtiva, constituindo uma manifestação tríplice da Grande Deusa cuja potência fundamenta a punição dirigida aos ulates por sua ofensa.

46. A corrida de Macha contra cavalos e a associação de seu nome à planície aproximam-na de Rhiannon e de Épona, deusa gaulesa representada como cavaleira ou égua acompanhada de um potro e venerada no Império Romano como protetora dos equinos.

47. Rhiannon, deusa cavaleira que só permite ser alcançada por Pwyll mediante seu próprio consentimento e que, após o desaparecimento do filho, é condenada a carregar visitantes nas costas, apresenta afinidades com Macha e Épona, enquanto seu nome, associado à realeza, reafirma sua condição de Grande Rainha e Grande Deusa.

48. Macha, mãe primordial e adotiva, pune os homens que desrespeitam sua função materna impondo-lhes uma condição feminina, em paralelo com a mulher-rã da tradição osseta que, após a transgressão de um interdito, transfere ao marido a gestação de Batraz e a obrigação de dar à luz.

49. A punição feminina imposta aos homens também aparece na tradição dos citas que saquearam o templo de Afrodite Celeste em Ascalon, sendo atingidos, juntamente com seus descendentes, por uma “doença de mulheres” associada à condição daqueles denominados enareus.

50. A condição dos enareus e o sofrimento dos ulates exprimem o perigo de ultrajar a Grande Deusa e possuem caráter punitivo, distinto dos rituais de feminização ou castração religiosa, enquanto a associação com Afrodite pode resultar da combinação de tradições citas e próximo-orientais, entre as quais figura o nome divino Inara.

51. As tradições irlandesa, osseta e cita preservam uma mesma estrutura mítica na qual uma divindade ligada ao mar se une a um mortal, proporciona prosperidade e, ofendida durante a gravidez pela violação de sua condição sobrenatural, transfere aos homens a gestação ou os sofrimentos do parto, conectando a origem de Batraz à Novena dos Ulates.

52. A convergência desses mitos remete a uma unidade primordial da Tradição, cuja fragmentação, simbolizada por Babel, teria produzido incompreensões e conflitos, enquanto a maldição de Macha, comparável à condenação de Adão e Eva após a transgressão, impõe aos ulates a tarefa de buscar a libertação pelo heroísmo e pela superação das possibilidades humanas.

53. A libertação dos ulates realiza-se pelo compromisso heroico que também orientará os santos cristãos, pois o desafio imposto por Macha transforma a existência incerta em uma busca de poder e glória mediante a superação das provações da vida e da morte, permitindo alcançar o essencial através do mundo real entendido como reflexo do divino.

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