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Druidismo

Jean Markale. Le Druidisme. Tradition et dieux des Celtes. Éditions Payot, Paris, 1985

Preâmbulo

1. A derrota de Alésia, em 52 antes da nossa era, marcou a substituição da mentalidade celta, sensível, dialética e confiante na ação individual, pela mentalidade mediterrânea universalista e fundada no terceiro excluído, levando os ocidentais a esquecer sua origem celta e a buscar em vão no cristianismo o alimento de uma chama interior que a autêntica tradição espiritualista dos celtas outrora nutria.

2. A sensação contemporânea de ter perdido as raízes espirituais leva muitos ocidentais a refugiar-se nas filosofias orientais do não ser, caminho honroso mas ilusório, pois o Oriente possui lógica e valores próprios, opostos aos do Ocidente, e o fascínio pelo exotismo conduz apenas a sincretismos artificiais, já que não existe uma via verdadeira, mas vias diversas de meta talvez comum.

3. A tradição ocidental, embora ocultada em benefício do cristianismo judaico-romano e ferida por séculos de rejeição, permanece viva e acessível a quem se dispuser a uma busca pessoal, uma demanda exigente e incerta, mais difícil que o conforto oferecido pelas instituições hierarquizadas e tranquilizadoras.

4. O reencontro dessa tradição passa pelo conhecimento do verdadeiro passado cultural anterior a Alésia, distinto da herança greco-romana ensinada nas escolas, e cujo sistema de valores e modo de pensar sobrevivem não apenas como vestígios de museu, mas como sementes vivas prontas a germinar.

5. Essas sementes devem produzir frutos novos, pois seria absurdo reconstituir o druidismo como religião atual, tentativa contrária a seus próprios princípios e geradora da confusão que fez dele, por ser mal conhecido, o ponto de cristalização de todos os fantasmas de uma espiritualidade à espera.

6. O termo druidismo, embora nebuloso e muitas vezes reduzido a um sistema filosófico desprovido de aspectos rituais e mágicos, designa o conjunto das concepções religiosas, intelectuais, artísticas, sociais e científicas dos povos celtas antes de sua conversão, tradição perdida não pela romanização, mas pela cristianização.

7. Mais sonhado que reencontrado desde as elucubrações dos iluminados do século XVIII, o druidismo parece morto ou fundido no cristianismo irlandês e bretão, mas, como nenhuma religião desaparece por completo, subsiste na espiritualidade sobretudo rural, onde os deuses gauleses expulsos dos templos encontraram refúgio.

8. Os vestígios e testemunhos irrefutáveis que restam do druidismo, nos campos e nos documentos, justificam a exploração de seu universo nebuloso e a necessidade de torná-los conhecidos.

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