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7.3 Imortalidade

Jean Markale. Le Graal. Paris: Retz, 1982

O Banquete de imortalidade

1. No Perlesvaus o herói é coroado rei do Graal no Dia de Todos os Santos, festa que nenhuma outra poderia superar para a Comunhão dos Santos constituída pela regeneração do reino, sendo a Refeição do Graal que a prefigura uma comunhão no sentido cristão ou um Banquete de imortalidade na linguagem das crenças pagãs, sem diferença real, pois a festa cristã de Todos os Santos apenas recobriu a festa pagã de Samain, com a mesma ideia, de um lado a comunidade dos eleitos de Deus, mortos e vivos reunidos simbólica e idealmente, de outro a comunicação entre o Outro Mundo e este, acompanhada de uma grande refeição comunitária e de cerimônias rituais, e até com a mesma data de primeiro de novembro, já que tradições e crenças têm vida longa, sendo essa mistura perfeitamente harmoniosa dos substratos celtas pagãos e das interferências cristãs que produziu a Demanda do Graal tal como a conhecemos.

2. Há, portanto, um Banquete de imortalidade, em que no castelo do Graal não se bebe ambrosia nem o hidromel da embriaguez divina, nem se comem os célebres porcos de Manannán, alimento dos convivas do Banquete de Goibniu segundo os textos irlandeses, mas o que o Graal fornece, e na Demanda do pseudo-Map o Graal sai até de Corbenic e aparece na corte de Artur, onde em certas ocasiões fornece alimento e bebida aos cavaleiros da Távola Redonda, comunidade em escala humana que prefigura a cavalaria celestial dos guardiães do Graal.

3. Wolfram define o Banquete do Graal como capaz de proporcionar não só a sobrevivência pela nutrição, mas também a suspensão do tempo, uma quase imortalidade, prodígios de que já gozavam os convivas do banquete presidido pela cabeça de Brân no segundo ramo do Mabinogi e que, menos nítidos nas outras versões, se percebem na idade indefinível dos guardiães do Graal ou dos misteriosos habitantes do Castelo das Maravilhas, já que o Rei Pescador pertence ao Outro Mundo e revive nele a imagem do deus Pwyll-Pellès, provavelmente o Teutates gaulês e o Dagda irlandês, e Brunissen é a Deusa-Mãe desolada porque um de seus filhos transgrediu o terrível interdito e derramou sangue sobre a terra, isto é, sobre ela própria, de modo que os convivas do Banquete do Graal, qualquer que seja sua forma, nunca se submetem à prova do tempo e podem até mudar de aspecto, como o Rei Pescador da Elucidação e o primo do herói no Peredur, ao mesmo tempo jovem louro e bela jovem morena.

4. Os convivas do Banquete do Graal formam uma casta muito fechada, de raros privilegiados, entre os quais, além do herói da demanda, apenas Gauvain e Lancelote vieram sentar-se, pondo-se à parte o trio de Galaad, Boorz e Perceval na Demanda cisterciense, o que indica a existência de uma comunidade do Graal.

5. Wolfram insistiu pesadamente nessa comunidade, fazendo dela uma verdadeira sociedade secreta de Templários guardiães do Graal escolhidos misteriosamente pelo próprio Graal, mas ela existe em todas as versões como comunidade fraterna em que atuam os laços de sangue.

6. Perceval, Peredur, Parzival, Perlesvaus ou Galaad pertencem à família, sendo sobrinhos, ou neto no caso de Galaad, do Rei Pescador pelo lado materno, numa história de família que levou alguns comentadores a ver no tema da vingança uma simples vendeta recuperada por outra ideologia, quando na verdade a vingança é elemento essencial no sentido mais amplo de sacrifício ritual, o que remete à Ceia evangélica, em que Jesus e os apóstolos partilharam o Cordeiro pascal, modelo do Banquete do Graal na versão cisterciense, refeição também posterior ao sacrifício ritual de um animal, e à Missa dos primeiros cristãos, reunidos não numa igreja, mas numa sala em torno de uma mesa para partilhar o Pão e o Vinho e uma refeição fraterna.

7. A refeição tem enorme importância em todos os usos e tradições, pois é em torno da mesa que se realizam as comunicações e fusões, os grandes acontecimentos da vida humana, os negócios, as homenagens à amizade e as trocas entre o mundo dos vivos e o dos mortos, e é também partilhando pão ou vinho que, segundo a crença popular, se pode lançar um malefício sobre alguém sem que este saiba.

8. Esse aspecto sociológico, religioso, sagrado e mágico da refeição reaparece no Banquete do Graal, reunião de uma comunidade de mesma origem e unida pelo sangue, em que a vingança realizada pelo herói é também a de todos os participantes, já que ele não agiu por si só, mas como mão da comunidade, regenerando-a, bastando isso para que se considerasse a comunidade do Graal depositária de segredos que permitem a imortalidade e se partisse em busca desses segredos.

9. O Rei Pescador que preside essa comunidade fraterna chama-se em certos textos Pellès, transcrição francesa do galês Pwyll, herói, no primeiro ramo do Mabinogi, de uma estranha aventura em que recebe a visita do misterioso Arawn, senhor de Annwfn, o Outro Mundo, e ambos se juram amizade fraterna eterna, que só se tornará real se forem cumpridas as condições de um contrato que constitui verdadeira prova, pois Arawn pede a Pwyll que vá a seu reino livrá-lo de um inimigo temível enquanto ele cuida do reino de Pwyll, devendo Pwyll governar durante um ano o reino de Arawn sob sua aparência sem que ninguém perceba a substituição, enquanto Arawn assume a aparência de Pwyll e age do mesmo modo nos domínios deste.

10. Tudo corre bem até que Pwyll, sob a aparência de Arawn, deve deitar-se com a esposa deste, tendo inteira liberdade para agir sem nenhum limite fixado e sem que a mulher saiba da substituição, num relato saboroso que nunca cai no vaudeville do Merlin de Robert de Boron, em que o encantador dá a Uther Pendragon a aparência do duque da Cornualha para que se una a sua mulher, a bela Igraine, e gere Artur, pois Pwyll, no leito, vira-lhe as costas e permanece de rosto voltado para a borda da cama todas as noites até o fim do ano, e é ao saber dessa conduta que Arawn ratifica a amizade fraterna, podendo confiar inteiramente nele, trocando ambos muitos presentes e recebendo Pwyll de Arawn porcos maravilhosos.

11. Trata-se de um rito de fraternidade marcado por uma prova sexual, de que Pwyll sai vencedor, recebendo em recompensa o epíteto de Penn Annwfn, senhor do Outro Mundo, antes atribuído a Arawn, como sucessor designado, e os porcos que recebe, referência à época em que o porco doméstico era raro e precioso, evocam os porcos de Manannán que alimentam o Banquete de imortalidade de Goibniu, de modo que Pwyll, por seu êxito na prova iniciática, preside agora um banquete de imortalidade como Pellès preside a Refeição do Graal.

12. Essa comunidade fraterna pode obter-se também por outras provas e obrigações, e a tradição celta oferece muitos exemplos de fraternidade de sangue, com os usos conhecidos em toda parte do afrairamento pelo sangue, como os Fianna, tropa guerreira de nômades caçadores de Finn, verdadeiro clã de admissão regida por regras muito precisas, ou, no ciclo do Ulster, a comunidade fraterna dos principais heróis em torno do rei Conchobar, chamada Ramo Vermelho ou Ramo Sangrento, nome de uma sala da fortaleza onde se expunham os troféus de guerra, sobretudo as cabeças cortadas, e que, ligado a uma comunidade guerreira, supõe a prática do afrairamento pelo sangue, pelo qual os membros, misturando um pouco de seu sangue, se tornavam todos irmãos sem laço familiar real.

13. Um relato irlandês alheio ao Banquete de imortalidade revela a importância da fraternidade de sangue entre os celtas, ao narrar como Cúchulainn, lançando uma bola de funda contra uns pássaros, fere um deles, que ao tocar o chão se transforma, segundo tema muito difundido, numa radiosa jovem ferida no flanco, fada capaz de assumir a forma de pássaro, que viera procurá-lo por ter-se apaixonado por ele, sem nunca tê-lo visto, por causa de suas façanhas, e Cúchulainn cura-a chupando a ferida e retirando a bola, mas, quando ela lhe pede para unir-se a ela, recusa por não poder unir-se a um flanco que chupou, já que, tendo absorvido seu sangue, tornaram-se irmão e irmã e a união seria incesto, testemunho precioso do afrairamento pelo sangue entre os celtas, povo exogâmico por excelência, para o qual o tabu do incesto, mesmo frequentemente transgredido, permanece regra social fundamental.

14. Esse afrairamento pelo sangue traz vestígios de uma antiga antropofagia ritual, presente num plano apenas simbólico no consumo do pão e do vinho na comunhão católica, já que, segundo o dogma, são realmente o corpo e o sangue de Cristo, ritos antropofágicos herdados da noite dos tempos que certas sociedades africanas talvez ainda pratiquem, que seitas religiosas praticaram em diversas épocas e de que os primeiros cristãos foram acusados, não sendo proibido pensar que os celtas, sobretudo os irlandeses, que não eram obrigados a converter-se, apenas sublimaram no novo ritual lembranças que rondavam seu inconsciente coletivo.

15. É difícil não ver no Banquete do Graal ecos mais ou menos compreendidos de uma antiga refeição totêmica como a descrita por Freud em Totem e Tabu, impressão acentuada pela cabeça cortada banhada em sangue no prato do Peredur, sobretudo em comparação com o banquete presidido pela Cabeça de Brân, e os contos populares ecoam frequentemente esse tipo de refeição, geralmente de gigantes ou diabos, cujas vítimas são inocentes ou audaciosos que quiseram apoderar-se dos Tesouros ocultos do Outro Mundo, como um conto do Jura, As três moças e os três cavaleiros, inteiramente historicizado, o conto bretão de Yann o Caçador, cujo herói, esquartejado e comido em empadão por gigantes, é ressuscitado por uma jovem princesa-fada, o conto provençal da Mão que fala, em que um encantador diabólico quer fazer o herói comer uma mão humana, o que o tornaria condicionado e maldito, e o conto agenês da Gulosa, em que uma jovem voraz, a quem dão de comer a perna de um morto, é depois devorada por ele.

16. No limite, o Banquete do Graal poderia ser a manducação ritual, por membros de uma comunidade fechada, do corpo do ancestral real ou suposto, possível apenas em certas ocasiões, como na refeição totêmica primitiva, o que explicam os numerosos interditos alimentares dos heróis da epopeia celta, como o tabu primordial de Cúchulainn, que não deve comer cão por ser ele próprio um cão, o Cão de Culann, guardião junto ao ferreiro Culann cujo cão matara, imagem simbólica do fundador de sua família, sendo evidente que os convivas do Banquete da Hospitalidade da Cabeça Sagrada comem simbolicamente o corpo de Brân, o que lhes dá a imortalidade, enquanto a cena da refeição no Castelo das Maravilhas do Peredur e a cena de antropofagia do Perlesvaus não revelaram todos os seus segredos, e na Demanda cisterciense a irmã de Perceval dá seu sangue e morre para curar uma jovem atingida por doença de outro modo incurável.

17. A época de redação das diferentes versões da demanda vê florescer os textos antropofágicos, como a canção de Dan Guiron mencionada no Tristão de Thomas, cujo coração foi comido pela amante, a lenda do Castelão de Coucy e da Dama de Fayel, em que um marido faz a mulher comer o coração do amante, e sobretudo o Lai de Ignaure, breve relato anônimo de por volta de 1200, de origem bretã, que embaraça os graves medievalistas, sobre um homem com doze amantes, número não gratuito, que descobrem amar loucamente o mesmo homem, que as ama todas igualmente, e o obrigam a escolher uma só, com quem passa tanto tempo que o marido o surpreende e, sabendo-o amante de outras onze, delibera com os onze maridos uma vingança comum, castrando-o, matando-o e fazendo as doze mulheres, reunidas para a ocasião e ignorantes de tudo, comer seu coração e seu sexo, prato que acham tão bom que juram nunca comer nada melhor, e, ao saber a verdade, fiéis ao juramento, deixam-se morrer de fome.

18. À primeira vista uma paródia erótica da Ceia de Cristo, com quase todos os elementos e o amor de Cristo substituído por um amor louco a um amante maravilhoso, esse episódio vai muito mais longe, pois a manducação do coração e do sexo do amante, isto é, simbolicamente, do amor-sentimento e do amor sexual, representa o mais alto grau da comunhão, já que as mulheres não precisam comer mais nada por terem atingido o êxtase em seu grau supremo num ato de amor insensato, sabendo-se que o amor físico tem componentes antropofágicos, como não desmente o exemplo do louva-a-deus.

19. Pode surpreender a comparação entre a Refeição do Graal e a refeição erótico-macabra do Lai de Ignaure, mas trata-se em ambos de um autêntico Banquete de imortalidade, e as doze mulheres formam uma comunidade fechada, como uma tropa guerreira fraterna encarregada de guardar o Graal, que, como se viu, pode apresentar-se tanto como o cálice que contém o sangue de Cristo quanto como um simples recipiente, uma panela no sentido etimológico, contendo o que há de mais precioso no mundo, o coração e o sexo do Amante ideal e maravilhoso.

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