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Revoltados de Deus

MARKALE, Jean. Les Révoltés de Dieu. Paris: Éditions Presses du Châtelet, 2003

DESCOBRIR A HISTÓRIA SOB O MITO

1. Em francês, a expressão os revoltados de Deus admite duas interpretações opostas, designando tanto os que se revoltam contra Deus quanto os que se revoltam em nome de Deus, termo ele próprio totalmente ambíguo, pois, como mostrou Georges Dumézil em Os Deuses dos Indo-Europeus, vindo do grego Theos, oriundo do sânscrito Dyaus, já é um nome personalizado pelas funções que lhe são atribuídas, e não o do Ser supremo, por essência indiferenciado, inominável, inefável e incomunicável, como ocorre com o deus primordial da tradição hebraica no Gênesis, chamado Iahweh ou Javé, termo que talvez signifique o Ser, mas que aparece também como Adonai, senhor, mestre, e sobretudo sob a forma plural e misteriosa de Elohim, sendo Iahweh, às vezes grafado Jeová, apenas uma transcrição indo-europeia do hebraico, língua semítica que não escreve as vogais, enquanto o deus dos antigos celtas, deus criador único segundo tradições galesas aparentemente muito recentes, teria recebido o nome impronunciável de OYW, representado pelo símbolo /I\, signo ternário que constitui uma tríade, característica da tradição céltica, e que pode exprimir os três raios da energia divina, conceito metafísico subjacente ao que a teologia cristã chama de mistério da Santíssima Trindade.

2. Pouco importa como se nomeia o ponto alfa do universo concreto e dos existentes que o percorrem em todos os sentidos, do deus Pã da tradição helênica, cujo nome exprime o grande Todo, ao Ser supremo caro a Robespierre e Saint-Just durante a Revolução Francesa, mas essas denominações infinitamente variadas são muitas vezes redutoras, pois os relatos tradicionais de todos os povos distinguem nitidamente entre o que os cientistas contemporâneos chamam de Causa primeira, como o big-bang, e o Demiurgo, organizador que ordena um universo criado por outra energia, sem que o Demiurgo seja necessariamente a Causa primeira, exceto talvez no Gênesis hebraico, onde Iahweh parece desempenhar todos os papéis, embora com prudência, já que segundo a tradução de André Chouraqui, a mais fiel à mentalidade judaica, Elohim cria no princípio os céus e a terra, quando a terra era informe e vazia, com trevas sobre o abismo e o sopro de Elohim pairando sobre as águas, sendo portanto criador, mas também demiurgo, ao separar a luz das trevas, as águas da terra, o seco do úmido, até organizar o jardim do Éden e criar o Adão primordial, sem que se deva esquecer que Elohim é um plural, ainda que a maioria dos tradutores o trate, decerto por incômodo com suas convicções, como denominação singular e convencional.

3. Nisso reside toda a ambiguidade do texto bíblico, testemunho notável de uma pré-história remotíssima reduzida no tempo de Moisés à sua expressão mais simples, isto é, a estruturas simbólicas essenciais cujo código de acesso se ignora ou se esqueceu, o que levanta a questão, sem resposta satisfatória, de saber se Elohim designa a mesma entidade divina que Iahweh, sendo Adonai, senhor, apenas um qualificativo de respeito e temor aplicável a qualquer um, restando apenas comparar esse relato da criação com outros espalhados pelo mundo, todos testemunhos da mesma busca desesperada das origens e do sentido profundo da criação, pois se a ciência recusa considerar a finalidade, inapreensível e indefinível, o ser humano não pode contentar-se com a simples causalidade e quer saber com que fim existe, enquanto a maioria dos sistemas religiosos responde a essa questão primordial apenas com especulações intelectuais que são outras tantas hipóteses heurísticas, numa exploração de alcance imprevisível da psicologia individual e do inconsciente coletivo transmitido por milênios e enterrado numa memória ancestral difícil de desprezar.

4. Quanto aos Elohim, de expressão incontestavelmente plural, a resposta não está na Bíblia hebraica, onde é apenas subentendida, mas nos textos babilônicos ou sumérios, de anterioridade comprovada, já que a arqueologia assírio-babilônica revelou seres multiformes, geralmente assustadores, intermediários entre o divino e o humano, dotados de nomes diversos e constituindo os chamados demônios, do grego espíritos dotados de poderes sobrenaturais, ao passo que os romanos, pragmáticos e materialistas ao extremo, falavam de numina, plural do neutro numen, forças presentes entre o visível e o invisível, conceito antigo sobre o qual parece ter-se construído depois a noção cristã de anjo, com toda a hierarquia simbólica elaborada em torno desse tema.

5. Compreendido corretamente, o termo Elohim, presente desde os primeiros versículos do Gênesis, designa não só o Iahweh criador do universo, mas todas as entidades materiais ou espirituais geradas por esse criador misterioso, incognoscível e sobretudo inefável, intermediárias entre Ele e as criaturas materiais que são suas emanações, pois Deus, qualquer que seja seu nome, não existe, mas é, enquanto os seres vivos existem, isto é, saíram dele, donde o fosso trágico que ao longo dos séculos separou de modo quase irremediável o Ser e o Existente, e, contrariamente a certas teses indianas, tanto do bramanismo contemporâneo quanto da religião do Veda primitivo, retomadas por metafísicos ocidentais como Spinoza ou Schopenhauer, os humanos e todos os existentes não são parcelas do divino dispersas no espaço, formulação eminentemente panteísta, mas criações individuais num quadro relativo e determinado.

6. O plural Elohim exige lembrar que a criação dita divina só pode ser múltipla e que o Homem não está sozinho no universo, apesar do que parecem afirmar os primeiros versículos do Gênesis, onde Adão, entidade carnal modelada de argila, o Glebeu da tradução de Chouraqui, aparece com poder e autoridade sobre tudo o que existe fora dele, pois esse Homem, apesar das aparências e por causa da ambiguidade do texto, não está no centro do mundo, como por muito tempo afirmou a exegese judaico-cristã, sendo apenas uma parte do universo, ainda que represente uma espécie de ponto último da criação imaginada por Iahweh-Elohim, evidência por cuja defesa o teólogo italiano Giordano Bruno foi queimado como herege em 1600 antes de ser reabilitado no fim do século XX por uma Igreja romana esclerosada, ultrapassada pelos acontecimentos e sem saber a que santo apelar, noção nada nova, reconhecível nas teorias gnósticas que no início da era cristã tentaram sintetizar as especulações mais antigas da humanidade e a revelação dos Evangelhos, segundo as quais o mundo espiritual emana de um princípio primeiro por intermédio de seres abstratos, os Éons, palavra grega que significa tempo e exprime a relatividade de um universo material perceptível apenas no tempo e no espaço, universo imperfeito, gerador de perturbações e sofrimentos, votado à morte, que impõe o problema do Mal, insolúvel pela simples introdução de um ser como Ahriman entre os persas, Loki nas Eddas escandinavas ou Satã, o Diabo ou Lúcifer, entre os cristãos, ao passo que os cátaros medievais, de origem gnóstica indubitável, responderam que toda matéria, ininteligível e inexplicável, só pode provir de um erro ou de uma queda provocada por um Éon espiritual desviado ou revoltado, de modo que o mundo luminoso e divino só será restabelecido quando a última alma for salva e nenhuma substância material, criação má e portanto anticriação, aprisionar o princípio divino presente em cada existente, voltando então os existentes a ser os seres que eram antes da queda, quaisquer que sejam as representações dela nas inúmeras teogonias, cosmogonias, epopeias e textos sagrados de todas as religiões, desde que o ser humano, liberto das três obrigações fundamentais de nutrir-se, proteger-se e procriar, teve tempo de interrogar-se sobre sua presença no universo.

7. O eixo dessas especulações metafísicas e mitológicas é a noção de queda, segundo a qual a condição humana, embora privilegiada, está manchada de imperfeições, lógica implacável num universo inteiramente imperfeito, isto é, etimologicamente inacabado, mas a queda só se justifica por uma causa, e na quase totalidade das tradições essa causa é uma revolta, ou melhor, a transgressão de um interdito, como se o existente, qualquer que fosse seu grau na hierarquia da criação, tivesse ultrapassado limites impostos por alguém mais poderoso, devendo a queda ser entendida como castigo, conforme mostram todos os relatos mitológicos.

8. Esse conceito pertence também à filosofia, cujas especulações mais ousadas falam de um aprisionamento do ser primitivo numa matéria que o cega, o impede de alcançar a realidade pura e o obriga a errar pelos meandros de uma relatividade que é apenas a visão fragmentária e invertida do mundo superior onde, segundo Platão, reinam as Ideias puras de que os existentes são reflexos passivos, como atesta a alegoria da Caverna da República e como ensinaram os pitagóricos, senão o próprio Pitágoras, figura mais mítica que real, cujos dados mais extremos foram explorados por neoplatônicos como Plotino ou Jâmblico, aprisionamento que esses filósofos evitam justificar por uma causa precisa e que equivale estritamente às maldições lançadas contra os humanos por uma ou várias divindades nos textos mitológicos que fundaram as religiões, maldições que, se a divindade é perfeita, só podem resultar de uma transgressão, de modo que todos os existentes são revoltados de Deus, por terem cometido eles mesmos a transgressão ou por partilharem por natureza e hereditariedade sua responsabilidade, como no judaico-cristianismo, sobretudo em santo Agostinho, para quem todo existente humano está sob uma maldição original da qual só pode libertá-lo a redenção, obra do próprio deus criador.

9. Resta saber qual foi realmente essa transgressão e em que medida não era necessária à evolução do universo e de todos os que o compõem, pois as religiões limitam-se a definir, às vezes de modo muito diverso, uma salvação individual ou coletiva, as filosofias tentam justificar pelo raciocínio lógico a imperfeição de um universo em perpétuo devir, e a resposta parece encontrar-se nos grandes mitos da humanidade, transcritos de modo específico segundo as épocas em relatos de acontecimentos incontroláveis situados nas origens, num illo tempore perdido na névoa cujo código de compreensão já não se possui, o que leva a perguntar como a humanidade perdeu esse código de acesso.

10. No Timeu, ou nos fragmentos que restam desse diálogo de importância considerável, Platão dá uma resposta que vale o que vale, mas parece evidente à análise, ao apresentar Sólon, o célebre legislador de Atenas, conversando com sacerdotes egípcios de Saís sobre a origem do mundo e ouvindo deles que, quando os deuses purificam a terra por um dilúvio, os boiadeiros e sacerdotes nas montanhas escapam ao flagelo enquanto os habitantes das cidades são arrastados para o mar, de modo que toda uma civilização é destruída com as cidades submersas e sua renascença repousa sobre boiadeiros ignorantes e alguns sacerdotes eremitas, mantenedores de uma tradição que, confrontados com condições de vida novamente primitivas, podem perder grande parte do que sabem, salvaguardando apenas o essencial em alguns relatos imagéticos, o que constituiria a causa primeira da perda do código de acesso privilegiado à tradição primordial e encerra uma lição clara: para saber mais, é preciso remontar o mais longe possível no tempo.

11. Esse retorno às origens permite compreender, ou ao menos admitir, o que se passou nos tempos em que os animais falavam, como na Idade de Ouro, ou em que criador e criatura podiam dialogar, como diz o Gênesis, sendo a palavra divina compreensível ao humano e vice-versa, o que impõe o conceito de revelação, a chamada palavra perdida, comparável às informações apagadas de um computador que subsistem na lixeira mesmo depois de esvaziada e podem ser recuperadas e restauradas por esforços técnicos que desafiam toda lógica, assim como o mito, mesmo ininteligível, está presente no domínio misterioso que os psicanalistas chamam, à falta de melhor termo, de inconsciente, e mais ainda nas estruturas mentais que Jung, discípulo dissidente de Freud, qualifica de inconsciente coletivo, memória coletiva e ancestral contida nos genes humanos e refugiada nas camadas mais baixas da consciência, pronta a emergir à menor solicitação, herança cujo significado e modo de uso se perderam.

12. É preciso, como um informático experiente e obstinado que restitui a memória perdida, ou supostamente perdida, de um disco rígido, reencontrar esses códigos esquecidos a partir das imagens remanescentes e tentar restituir o discurso das origens, tarefa difícil mas apaixonante, pois permite mergulhar no mais fundo de um universo ainda inexplorado e descobrir não só sua causalidade mas sua possível finalidade, tratando-se, através dos inúmeros mitos que aludem a uma revolta contra Deus, ou contra a ideia que se faz de Deus num contexto determinado, de reativar certa história passada para melhor preparar os termos e estruturas de uma história futura que, com toda evidência, só pode ser elaborada e escrita pelo gênero humano.

13. Esse vasto projeto não pode ser levado a termo por um só homem, mas é preciso começar sabendo que todo conhecimento é um eterno começo, como indica a etimologia de iniciação, que significa simplesmente início, sem nenhuma conotação esotérica ou hermética, pois não há ciência oculta ou secreta reservada a pretensas elites sempre autoproclamadas, mas um único conhecimento que, desde o acontecimento simbólico e enigmático da torre de Babel descrito na Bíblia, se fragmentou em inúmeras afirmações tidas cada uma por seu locutor como a Verdade absoluta, fragmentação catastrófica para uma humanidade que desde então se dilacera nos piores excessos da intolerância, do sectarismo e do orgulho mais detestável, o do existente humano que se toma por Deus e quer eliminar, pela força ou pela manipulação do espírito, tudo o que parece opor-se às suas convicções.

14. A Verdade com maiúscula não se confunde com a Realidade, por essência inapreensível e incomunicável, sendo apenas uma constatação do pensamento humano sobre um acontecimento passado, presente ou às vezes futuro, reflexo da Realidade entrevista ou interpretada pela consciência e sujeito a todas as suas vicissitudes e fraquezas, além do handicap de uma informação deficiente ou fragmentária que pode criar ilusão mas permanece restritiva, razão pela qual se exige extrema prudência na exploração da memória coletiva da humanidade, que contém tudo, mas cujo conteúdo é difícil, senão impossível, de fazer emergir ao nível consciente.

15. Para conhecer o inconsciente humano, é preciso distinguir o inconsciente individual do coletivo, em interação permanente e inseparáveis, embora o primeiro, por sua natureza única, possa falsear o acervo do segundo, e mesmo que o inconsciente coletivo guarde a memória da humanidade, como parece demonstrar a psicanálise, não é certo reencontrá-la integralmente, como tentou Sándor Ferenczi, um dos mais brilhantes discípulos de Freud, em seu ensaio Thalassa, ao mostrar que a existência do indivíduo reproduz a da espécie, sem que isso baste para conclusões, já que essa remontada ao inconsciente talvez seja apenas produto do imaginário.

16. Existem pontos de referência, imagens concretas transmitidas por relatos repetidos de geração em geração ou por representações plásticas como pinturas, gravuras e signos simbólicos, todos os chamados artefatos, essenciais mas insuficientes para penetrar mais adiante, tão densa e opaca é a névoa que recobre a realidade dos acontecimentos assim preservados, de modo que só uma decifração paciente pode dissipar algumas camadas desse nevoeiro, apoiada, como a Pedra de Roseta que permitiu a Champollion compreender os hieróglifos egípcios, em elementos de comparação, pois o conhecimento dos relatos mitológicos e das imagens mais arcaicas não basta sem uma reserva analógica, mesmo que a analogia, raciocínio filosófico muito contestado por não ser científico, tenha fraquezas e limites, exigindo-se estender ao máximo e em todas as direções um campo de investigação originalmente restrito, ainda que se colha apenas uma informação mínima ou se elaborem hipóteses passíveis de abandono após exame posterior.

17. Todos os relatos, textos e imagens sobre os revoltados de Deus têm um contexto comum: cada revolta é invariavelmente seguida de um castigo ou ao menos de uma advertência, sob a forma de uma maldição que atinge o revoltado ou de uma catástrofe universal que atinge todos os que aceitaram, encorajaram ou participaram da revolta, como na transgressão de Adão e Eva, revolta contra a natureza cujas consequências aparentemente desastrosas repercutiram sobre toda a raça humana, entre muitos outros exemplos mitológicos e históricos, evidência que obriga todo observador de boa-fé a perguntar como e por que ocorreram acontecimentos considerados catastróficos e totalmente injustificados, senão aberrantes.

18. Essa investigação na tradição universal conduz a duas respostas de natureza diferente: uma metafísica ou religiosa, segundo a qual todo cataclismo, terremoto, furacão, maremoto, seca, dilúvio, inundação, queda de meteorito, epidemia ou fome, resulta de uma falta humana sancionada pelos deuses, e outra racionalista, segundo a qual o espírito humano, ignorando e não compreendendo as causas de uma catástrofe natural, a interpreta como punição enviada por seres invisíveis e todo-poderosos, resposta que acarreta o comentário sarcástico de que os sacerdotes de qualquer religião inventam tal explicação para assegurar seu poder sobre os povos e mantê-los em obediência passiva, recaindo-se assim na eterna querela entre clericalismo e anticlericalismo, fundada no problema da existência ou não de uma divindade, una ou múltipla, criadora do universo e juíza suprema da ação humana.

19. A resposta racionalista, de lógica implacável, é contudo muito redutora, pois recai na explicação evemerista das religiões, segundo a qual os deuses não existem e são apenas personagens históricos, heróis de ações memoráveis elevados pela memória popular à categoria de divindades, equivalendo o culto dos deuses ao dos grandes homens, tese do grego Evêmero, materialista convicto, ao passo que outro grego, Plutarco, conhecido quase só como moralista e historiador mas que era sacerdote ligado ao oráculo de Delfos, concilia notavelmente as teorias materialista e espiritualista no tratado Sobre o E de Delfos, ao afirmar que a divindade, incorruptível e eterna por natureza, sofre transformações por efeito do destino e de uma lei inelutável, ora convertendo-se em fogo por abrasamento e assimilando todas as substâncias, ora diversificando-se em formas, valores e estados diferentes, como no presente, e constituindo então o mundo, e que os sábios designam veladamente essas transformações como dilaceramento e desmembramento, narrando mortes e desaparecimentos divinos seguidos de renascimentos e regenerações, relatos míticos que são alusões obscuras a essas mudanças, texto admirável que merece longa meditação.

20. Segundo a doutrina oficial da Igreja Católica Romana, Plutarco desenvolve aí os elementos de um método comparatista que a Igreja rejeita absolutamente, e essa meditação sobre as metamorfoses de Deus lembra as concepções indianas do círculo rítmico das criações, do Akasha, substância infinita de onde se extrai o Prana, energia, até a mahapralaya, a grande dissolução, comparável ao Ragnarök, crepúsculo dos deuses e fim do mundo da tradição germano-escandinava, e assim até a eclosão de um novo ovo cósmico do qual nascerá e se desenvolverá outro mundo.

21. O texto de Plutarco evidencia a relação entre a divindade, por essência espiritual, e os fenômenos naturais e portanto materiais pelos quais apenas pode manifestar-se, levando a considerar as transformações do universo visível, se não como metamorfoses de Deus, ao menos como expressão de sua vontade criadora, o que supõe a presença do Espírito por trás da Matéria e reconhece a primazia do Espírito sobre a Matéria e sobretudo seu poder.

22. Nessa concepção espiritualista, Plutarco vai ainda mais longe no Diálogo sobre o desaparecimento dos oráculos, onde um interlocutor, tendo aportado numa ilha do fim do mundo habitada por curiosos personagens, assiste a uma grande perturbação atmosférica, ventos desencadeados e violenta tempestade, após a qual os habitantes lhe explicam que um dos seres superiores acabara de desaparecer, pois, assim como uma lâmpada acesa não incomoda ninguém mas ao apagar-se pode incomodar muita gente, as grandes almas têm enquanto brilham um esplendor benfazejo, mas ao extinguir-se e perecer provocam muitas vezes ventos e tempestades, o que remete inevitavelmente ao relato evangélico da morte de Cristo, quando a terra treme, a escuridão invade o espaço e o véu do Templo se rasga.

23. Admitida a existência de potências invisíveis e inapreensíveis pelos sentidos, de um mundo espiritual não encarnado e concomitante, à semelhança do que a ficção científica chama de quarta dimensão, conclui-se que o mundo invisível só é percebido quando se manifesta por formas concretas acessíveis aos sentidos limitados dos humanos, como no dogma cristão da Trindade o papel de Jesus Cristo, totalidade de Deus tornada acessível e compreensível ao gênero humano pela encarnação, e, projetado esse esquema sobre os relatos dos grandes cataclismos ao longo dos milênios da história da Terra, pode-se afirmar que esses cataclismos e outros fenômenos ditos naturais podem ser a manifestação de uma vontade superior que usa meios materiais para fazer-se compreender por uma humanidade encerrada nos limites da matéria e incapaz de apreender a essência de uma mensagem, já que a apreensão da abstração tem limites e a matemática, ciência pura por excelência, é apenas um código de acesso privilegiado a um conhecimento complexo que escapa ao espírito humano.

24. O espírito humano, prisioneiro das contingências impostas pela Matéria, precisa de imagens concretas para penetrar o abstrato, como na alegoria platônica da Caverna, e assim na mitologia grega, se é que realmente se conhece, o que Georges Dumézil negava formalmente, os deuses tomam forma humana para manifestar-se aos homens, enquanto na tradição judaico-cristã, exceto Moisés no Sinai em contato direto com Iahweh através de uma sarça ardente, são mensageiros que transmitem a palavra divina, os misteriosos anjos intermediários entre o visível e o invisível, o relativo e o absoluto, o existente e o Ser, sempre apresentados em forma humana, restando saber se isso é apenas um modo de apresentar o incomunicável ou uma verdadeira materialização de entidades espirituais que, para comunicar-se com os humanos, usam aquilo de que estes dispõem.

25. Jean-Paul Sartre, agnóstico feroz que recusava toda referência às Ideias puras de Platão, dizia que os humanos são pacotes de existentes lançados ao acaso sobre a Terra e que só a existência conduz a uma essência, ideia talvez não de todo errada na medida em que a definição do humano, segundo o Gênesis, passa pelo famoso repouso do sétimo dia em que Iahweh-Adonai se retira da Criação e se torna, como diziam os romanos, um deus otiosus que deixa à criatura a continuação do mundo de que lhe deu o domínio, mas partilhar essa opinião implica negar o Deus Providência, noção essencial do cristianismo, e recusar toda intervenção divina na origem dos fenômenos naturais, tanto no dilúvio quanto na travessia do mar Vermelho pelos hebreus fugindo das tropas do Faraó, o que deixa em aberto as respostas a todas essas questões.

26. O método comparatista comporta muitos perigos, pois pode abrir caminho a todos os delírios de uma imaginação exacerbada, já que os fatos, como os indivíduos, são únicos e relacioná-los arbitrariamente é um jogo arriscado, um quebra-cabeça de peças misturadas e muitas vezes informes, mas não há outro modo de tentar compreender senão lançar-se ousadamente nessa aventura, pois toda projeção do espírito nas trevas do mistério desemboca fatalmente numa parcela de luz.

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