MORTE E RESSURREIÇÃO
KRAMER, Samuel Noah. The sacred marriage rite: aspects of faith, myth, and ritual in ancient Suméria. Bloomington: Indiana University Press, 1969.
O Casamento Sagrado: Morte e Ressurreição
A condenação de Dumuzi à morte pelos teólogos e mitógrafos sumérios não foi um capricho arbitrário, mas a consequência inevitável da observação realista dos “fatos da vida” durante o longo verão seco e escaldante da Mesopotâmia.
- Durante metade do ano, toda a vegetação murchava e caía, enquanto a vida no curral e no redil era estéril, o que só poderia significar que o deus encarregado dessas atividades havia morrido e ido para o Mundo Inferior.
- Para resolver o dilema de como reconciliar isso com a crença de que Dumuzi se casara com a poderosa deusa Inanna (que o tornara imortal), os poetas sumérios criaram uma história intrincada de ambição frustrada, astúcia divina, infidelidade ingrata, ciúme mórbido e amor fraternal terno.
A descida de Inanna ao Mundo Inferior
O poema começa com a decisão de Inanna de descer ao Mundo Inferior, a morada escura e temível dos mortos, pois não satisfeita em ser apenas rainha do “Grande Acima”, ela aspirava a ser também rainha do “Grande Abaixo”.
- Ela abandona o céu e a terra, o “senhorio” e a “senhoridade”, e suas cidades e templos mais renomados, enfeitando-se com todas as suas ricas roupas e joias tentadoras.
- A deusa segura firmemente os emblemas sagrados de seus poderes e prerrogativas enquanto se prepara para descer à terrível e fantasmagórica “Terra do Não Retorno”.
- Ela se dirige a Ninshubur, sua vizinha e mensageira, instruindo-a a preparar lamentações e a buscar ajuda dos deuses Enlil, Nanna e Enki caso ela não retorne.
As instruções de Inanna a Ninshubur e a chegada ao Mundo Inferior
Inanna ordena que Ninshubur estabeleça uma lamentação por ela nas ruínas, bata tambores no santuário da assembleia, rasgue seus olhos e boca, vista-se como uma pobre e vá sozinha ao Ekur, a casa de Enlil.
- Ninshubur deve chorar diante de Enlil, depois diante de Nanna em Ur e, finalmente, diante de Enki em Eridu, implorando que não permitam que a donzela Inanna seja morta no Mundo Inferior.
- Inanna acredita que Enki, o senhor da sabedoria que conhece a “comida da vida” e a “água da vida”, certamente a trará de volta à vida.
- Chegando ao “palácio” do Mundo Inferior, Inanna fala com o porteiro Neti e, quando questionada, inventa uma desculpa falsa sobre as cerimônias fúnebres do marido morto de sua irmã mais velha Ereshkigal.
A remoção das insígnias e a morte de Inanna
Neti descreve a aparência de Inanna (com seus mes, coroa, cabelos, vara de medir, pedras de lápis-lazúli, pulseira de ouro, peitoral e ungüento) para Ereshkigal, que fica furiosa ao perceber a tentativa de invasão de seu domínio.
- Ereshkigal ordena que Neti remova todas as vestes e ornamentos principescos de Inanna nos sete portões do Mundo Inferior, fazendo-a curvar-se.
- Conforme registrado pelo poeta: “Ao entrar ela no primeiro portão, / O shugurra, a coroa da estepe, foi removido. / 'O que é isto, por favor?' / 'Cala-te, Inanna, os me do Mundo Inferior são perfeitos'”.
- Depois de removidos os demais itens (vara de medir, pequenas pedras, pedras de ovo, pulseira de ouro e peitoral), Inanna é trazida nua e curvada diante de Ereshkigal.
- A sagrada Ereshkigal sentou-se em seu trono, os Anunna (os sete juízes) pronunciaram o julgamento, fixaram nela os olhos da morte, falaram a palavra da ira, proferiram o grito da culpa, golpearam-na, transformaram-na em um cadáver e penduraram o cadáver em um prego.
As tentativas frustradas de Ninshubur com Enlil e Nanna
Enquanto isso, Ninshubur espera impacientemente o retorno de sua senhora e, após três dias e três noites sem sucesso, ela segue as instruções, vagando lamentando no “templo dos Deuses” com o corpo lacerado e vestida como uma pobre.
- Ela vai ao templo Ekur em Nippur e chora diante de Enlil, repetindo a súplica para que sua filha não seja morta no Mundo Inferior.
- Enlil se recusa a ajudar, pois não tem simpatia pela ambiciosa Inanna que desafiou os me dos deuses e quis governar tanto o “Grande Acima” quanto o “Grande Abaixo”.
- Ninshubur então vai ao templo Ekishnugal em Ur e repete o pedido diante do deus-lua Nanna (pai de Inanna), mas ele também se recusa pelo mesmo motivo.
O sucesso de Ninshubur com Enki e a criação dos seres assexuados
Ninshubur então procede ao templo de Enki em Eridu, onde encontra uma resposta simpática; Enki, perturbado, pergunta o que aconteceu com sua filha e com a rainha de todas as terras.
- Enki, deus renomado por sua astúcia, concebe um plano psicológico (usando bajulação) para compelir a relutante Ereshkigal a entregar o cadáver de Inanna para reanimação.
- Da sujeira de suas unhas, ele cria dois seres assexuados (kalatur e kurgarra), que podem entrar no Mundo Inferior despercebidos e ordena que vão até Ereshkigal, que jaz nua, doente e gemendo.
- Eles devem responder com simpatia aos gemidos dela e, quando ela prometer recompensá-los, devem fazê-la jurar pelos céus e pela terra e, em vez de aceitar água e grãos, exigir o cadáver pendurado no prego.
A ressurreição de Inanna e a exigência de um substituto
Os dois seres executam as instruções de Enki nos mínimos detalhes e, ao receberem o cadáver, um derrama sobre ele a comida da vida e o outro a água da vida, fazendo Inanna se levantar.
- Inanna está pronta para reascender à terra, mas os Anunnaki a agarram, afirmando que ninguém que desce ao Mundo Inferior pode ascender sem deixar um substituto em seu lugar.
- Inanna concorda em fornecer um substituto e recebe permissão para sair, mas é seguida pelos galla (pequenos e grandes como juncos), os “conestáveis da Terra do Não Retorno”, que a trarão de volta à força se ela falhar.
- Esses galla são criaturas que não conhecem comida nem bebida, não comem farinha polvilhada nem bebem vinho libado, e arrancam a esposa do colo do homem e a criança do seio da ama.
A busca pelo substituto e a recusa em entregar Ninshubur, Shara e Lulal
A primeira divindade a encontrar Inanna é a fiel Ninshubur, vestida de saco e prostrada no pó, mas Inanna impede os galla de a levarem, elogiando-a como sua vizinha de palavras favoráveis que não negligenciou suas instruções.
- Em Umma, o filho de Inanna, o deus Shara, também se veste de saco e se prostra diante dela ao vê-la sendo empurrada pelos demônios; Inanna novamente impede os galla de o levarem, dizendo que ele canta hinos para ela e corta suas unhas.
- Em Badtibira, seu filho Lulal faz o mesmo, e Inanna o protege pela terceira vez, afirmando que ele é seu líder que está à sua direita e esquerda.
A entrega de Dumuzi como substituto e sua fuga com a ajuda de Utu
Finalmente, em Erech (distrito de Kullab), Inanna encontra seu amado marido Dumuzi vestido com vestes nobres e sentado em um trono elevado, sem lamentar ou se prostrar diante da visão da esposa cercada por demônios.
- Isso a enfurece tanto que ela fixa nele o olho da morte, fala a palavra da ira, profere o grito da culpa e o entrega aos galla, que começam a amarrá-lo, espancá-lo e torturá-lo.
- Dumuzi implora a Utu (deus-sol, seu cunhado), chamando-o de juiz justo, que não permita que seja levado, mas que mude suas mãos e altere sua forma para que escape como uma cobra sagkal pelas pastagens altas e leve sua alma para a casa de sua irmã Geshtinanna.
- Utu aceita suas lágrimas, transforma Dumuzi e ele foge para a casa da irmã.
A captura final de Dumuzi e o acordo do substituto semestral
Geshtinanna lamenta amargamente por seu irmão, que não tem esposa, filho, amigo ou companheiro, e os galla, frustrados, decidem ir para a casa dela, onde não o encontram, pois ele fugiu de volta para seu “curral sagrado”.
- Eles o alcançam no curral, o torturam novamente e estão prontos para levá-lo à morte eterna, mas sua irmã adoradora oferece-se para tomar o lugar dele.
- Inanna não pode recusar o gesto generoso, mas, não querendo que Dumuzi fique impune, decide à maneira de Salomão que ele deveria ficar no Mundo Inferior metade do ano, e sua irmã deveria tomar seu lugar na outra metade.
O sonho premonitório de Dumuzi e sua interpretação por Geshtinanna
Em uma versão da morte de Dumuzi, o poeta define o clima melancólico com Dumuzi, sentido sua desgraça iminente, dirigindo-se à estepe sem vida e implorando que estabeleça uma lamentação por ele e que sua mãe Sirtur grite.
- Enquanto jaz entre os botões, o pastor sonha um sonho: juncos crescem grossos ao seu redor; um junco de crescimento único curva a cabeça para ele; de um junco de crescimento duplo, um é removido; o terror de árvores altas surge ao seu redor; sua sagrada lareira não tem água derramada; seu cajado de pastor desapareceu; seu cálice santo caiu do gancho.
- Geshtinanna (escriba especialista e intérprete de sonhos) interpreta item por item: os juncos significam que assassinos se levantarão contra ele; o junco único que curva a cabeça é a mãe que o deu à luz; o junco duplo significa que um dos dois (ele e ela) será removido; o cálice caído e o cajado desaparecido anunciam sua queda e languidez.
O esconderijo de Dumuzi, a tortura de Geshtinanna e a captura final
Dumuzi pede que Geshtinanna não conte onde ele se esconderá (entre as plantas, entre as valas de Arali), e ela jura que, se contar, seus cães de pastoreio a devorarão.
- Os galla (que não comem, não bebem, não aceitam presentes, não saciam o colo da esposa nem beijam crianças) a seguem de cidade em cidade (Adab, Erech, Ur, Nippur), causando morte e desolação.
- Eles tentam suborná-la com água do rio e grão do campo, mas ela recusa, alegando não saber onde o amigo está escondido, e eles não o encontram nas plantas.
- Dumuzi, sentindo culpa pelo sofrimento de sua irmã, deixa sua presença ser traída; os galla o cercam, torcem uma corda para ele, raspam um pedaço de madeira, batem naquele que vai à sua frente e o arrancam como uma planta, com suas mãos amarradas em grilhões.
A transformação em gazela e o encontro com Belili
Dumuzi levanta as mãos para Utu, lembrando que é o marido de sua irmã, que carregou comida e presentes de casamento para Eanna, beijou os lábios sagrados e dançou no joelho sagrado de Inanna, implorando para que suas mãos e pés sejam transformados nos de uma gazela para que escape de seus demônios.
- Utu aceita suas lágrimas e o transforma; Dumuzi escapa, mas os galla o alcançam e o torturam novamente, levando-o a implorar mais duas vezes, sendo transformado para fugir para a casa da Velha Belili e depois para o redil sagrado de sua irmã.
- Porém, ao chegar ao redil da irmã, Geshtinanna cobre o horizonte como uma vestimenta, rasga seus olhos, boca e ouvidos por ele, e os galla finalmente o atingem: o primeiro o golpeia na bochecha com um prego perfurante; o segundo, com o cajado de pastor; o terceiro remove o suporte da manteigueira sagrada; o quarto derruba o cálice do gancho; o quinto quebra a manteigueira e o cálice, e Dumuzi não vive mais, o redil é entregue ao vento.
A lamentação de Inanna por Dumuzi
Em outra versão, a Senhora chora amargamente por seu marido, Inanna chora amargamente por seu marido, lamentando por sua casa e sua cidade, por seu marido levado cativo e morto em Erech, em Kullab.
- Inanna lamenta: “Foi-se meu marido, doce marido, / Foi-se meu filho, doce filho, / Meu marido foi-se entre as plantas 'cabeça', / Meu marido foi-se entre as plantas 'traseiras'”.
- Sete galla cercam o redil sagrado de Dumuzi; os seis primeiros entram e causam tamanho estrago que o redil se torna um monte de pó, e o sétimo o desperta do sono com um grito “a-u-a” para que se levante e o siga, pois suas ovelhas e cabritos foram levados.
As instruções para Dumuzi se despir e a captura final
O galla ordena que Dumuzi tire a sagrada coroa de sua cabeça e ande com a cabeça descoberta; tire a vestimenta me de seu corpo e ande nu; tire o sagrado cetro de sua mão e ande com a cabeça descoberta; tire as sandálias de seus pés e ande descalço.
- Dumuzi deixa seu redil destruído em pânico e reza para Utu transformá-lo em gazela para escapar, o que o deus faz, e ele foge velozmente sobre valas e diques.
- Os galla frustrados decidem segui-lo entre os diques e valas da estepe e agarrar-se a ele no colo de sua mãe Sirtur (que falará de misericórdia), no colo de sua irmã (que falará de misericórdia) e no colo de sua esposa Inanna, a tempestade cujo rugido é estilhaçante, que se enfurecerá contra ele.
A destruição das águas e a transformação de Bilulu em odre
Em Erech, junto à grande macieira, o marido de Inanna derrama as águas destruidoras de barcos do Mundo Inferior; não havia creme, não havia leite, não havia curral, não havia ovelhas; os galla o agarraram pelos ombros.
- Em outro mito, Inanna, para “adoçar o lugar onde seu marido jaz” (a estepe desértica que era seu túmulo), mata uma velha chamada Bilulu e transforma seu cadáver em um odre de água doce para que o rapaz que viaja na estepe tenha água fresca para beber.
- Ela também decretou que o filho de Bilulu, Girgire, se tornasse o Udug da estepe e o Lamma da estepe, e seu neto, Sirru-Edinlilla, andasse pela estepe controlando a farinha.
A disseminação do tema para além da Mesopotâmia e possíveis paralelos
O tema de Dumuzi morto e sua ressurreição se espalhou da Mesopotâmia para a Palestina, e não é surpreendente encontrar as mulheres de Jerusalém chorando por Tammuz em um dos portões do templo de Jerusalém.
- É provável que o mito da morte e ressurreição de Dumuzi tenha deixado sua marca na história de Cristo, apesar do profundo abismo espiritual entre eles, incluindo a ressurreição de uma divindade após três dias e três noites no Mundo Inferior.
- A noção de trinta moedas de prata (o valor recebido por Judas por trair seu mestre) como um termo de desprezo e desdém pode ter paralelos, assim como os epítetos “pastor”, “ungido” e talvez até “carpinteiro”.
- As torturas sofridas por Dumuzi nas mãos dos cruéis galla (amarrado, forçado a se despir e correr nu, açoitado e espancado) são reminiscentes, em certa medida, da agonia de Cristo.
- Dumuzi, não diferentemente de Cristo, desempenhou o papel de substituto vicário para a humanidade; se ele não tivesse tomado o lugar de Inanna no Mundo Inferior, toda a vida na terra teria chegado ao fim.
