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mitologia:mesopotamia:hierogamia:origem

ORIGEM

KRAMER, Samuel Noah. The sacred marriage rite: aspects of faith, myth, and ritual in ancient Suméria. Bloomington: Indiana University Press, 1969.

O Matrimônio Sagrado: Origem e Desenvolvimento

  • O Rito do Matrimônio Sagrado foi celebrado com alegria e êxtase por todo o Antigo Oriente Próximo durante cerca de dois mil anos, fundado na ideia de que cabia ao rei desposar a deusa da fertilidade e da fecundidade para garantir prosperidade e abundância ao povo.
    • A deusa em questão controlava a produtividade da terra e a fecundidade do ventre de homens e animais
    • Credos simples e persuasivos não surgem prontos — são produtos de indivíduos e culturas que possuem a necessidade, o impulso e a capacidade de inventá-los e desenvolvê-los
    • Foram os pensadores, sacerdotes e poetas sumérios do início do terceiro milênio a.C. quem primeiro concebeu e desenvolveu o rito como elemento essencial da fé religiosa e da prática ritual
    • A cultura suméria fomentava uma obsessão pela riqueza e pelas posses, sustentável apenas pela fertilidade da terra e pela fecundidade do ventre, numa economia agrícola e pastoril
  • A veneração quase obsessiva pela prosperidade e pelo bem-estar, pelo campo fértil e pelo ventre fecundo, permeia as composições literárias sumérias — mitos, hinos, lamentações e disputas.
    • Na composição conhecida como A Maldição de Agade, a deusa Inanna priva-se do sono para que Agade se torne a cidade mais proeminente da terra
    • Inanna vela para que tudo seja recolhido nos celeiros, que a cidade seja uma morada firmemente estabelecida, que seu povo coma alimentos confiáveis e beba água confiável, que os banhados façam reinar a alegria nos pátios e que o povo embeleze os lugares de festa
    • A mesma composição descreve a fartura de Agade: as moradias cheias de ouro, as casas luminosas cheias de prata, os celeiros transbordando de cobre, estanho e lápis-lazúli, os silos estufados pelas laterais
    • Em contraponto, um poeta descreve a desolação de Suméria decretada pelos grandes deuses — An, Enlil, Enki e Ninhursag — como a destruição de cidades e casas, o esvaziamento dos estábulos e currais, os rios correndo com água amarga, os campos cobertos de ervas daninhas, as mães indiferentes aos filhos, os pais calados, as esposas sem alegria, as crianças sem vigor, as amas sem canção de ninar, as margens do Tigre e do Eufrates tomadas por plantas doentias, os caminhos abandonados, as cidades transformadas em ruínas, o povo entregue à espada, os campos sem enxada e sem semente
  • Em hino a Enlil, divindade máxima de Suméria, proclama-se que sem ele nenhuma cidade seria construída, nenhum assentamento fundado, nenhum estábulo erguido, nenhum curral construído.
    • Sem Enlil, as cheias dos rios não transbordariam, o mar não produziria seu abundante tesouro, os peixes não depositariam ovos nos juncos, as aves não fariam seus ninhos na vasta terra, as nuvens não abririam a boca, os campos não se encheriam de grão rico, as pastagens não cresceriam, os jardins não dariam fruto
    • Sem Enlil, a vaca não pariria o bezerro no estábulo, a ovelha não daria cria no curral, a humanidade não se deitaria em repouso, os animais de quatro patas não gerariam descendência nem desejariam se acasalar
  • A palavra de Enlil é descrita como sublime e imutável, capaz de fazer transbordar o céu e brotar a exuberância da terra — ela mesma é as plantas, o grão e a água da enchente, a vida de todas as terras.
    • Quando a palavra de Enlil se aproxima do céu, o transbordo desce como chuva; quando se aproxima da terra, a exuberância brota
    • Tua palavra — ela é as plantas, tua palavra — ela é o grão, tua palavra — ela é a água da enchente, a vida de todas as terras
  • De Enki, o deus da água e da sabedoria que organizou o universo e suas atividades culturais, narra-se que sua presença faz a terra semeada produzir semente fecunda, a ovelha parir o cordeiro, a vaca parir o bezerro fecundo e a cabra parir o cabrito fecundo.
    • Nudimmud é outro nome de Enki
    • Quando Enki vai ao campo cultivado, amontoa pilhas e montes de grão nas estepes altas
    • O próprio deus proclama: sou o senhor cujo comando não é questionado, o primeiro em todas as coisas; a meu comando os estábulos foram construídos e os currais cercados; quando me aproximei do céu, uma chuva de prosperidade desceu; quando me aproximei da terra, houve uma grande enchente; quando me aproximei dos seus prados verdes, os montes de grão se acumularam a meu comando
  • Enki não apenas traz a chuva do céu para fertilizar a terra — ele também enche os rios com suas águas cintilantes, o sêmen de sua libido, erguendo-se orgulhoso como um touro impetuoso diante do Eufrates e do Tigre.
    • Depois que o Pai Enki ergueu seus olhos sobre o Eufrates, levantou seu pênis e ejaculou, enchendo o Tigre com água cintilante
    • A vaca selvagem mugindo por seu filhote nas pastagens, o estábulo infestado de escorpiões — o Tigre se rendeu a ele como a um touro impetuoso
    • Ele levantou seu pênis, trouxe o dom nupcial, trouxe alegria ao Tigre como um grande touro selvagem ao dar à luz
    • A água que trouxe é água cintilante cujo vinho tem sabor doce; o grão que trouxe, seu grão rico, o povo come; ele encheu o Ekur, a casa de Enlil, de posses; com Enki, Enlil se alegra e Nippur fica contente
    • Enki dirigiu o arado e o jugo, abriu os sulcos sagrados, fez crescer o grão no campo cultivado, e colocou Enkimdu — o homem do fosso e do dique — em sua supervisão
    • Enki colocou em cargo Ashnan, a Senhora procriadora, o vigor da terra, a vida dos cabeças-negras, o pão nutridor de todos
    • Enki construiu estábulos, erigiu currais, trouxe alegria às salas de jantar dos deuses e fez prevalecer a prosperidade na estepe
    • Enki colocou em cargo Dumuzi, o divino ushumgal do céu, amigo de An e marido da santa Inanna, a Rainha de todos os me
  • Um hino lírico incomum é endereçado a Ninurta — primariamente o deus do Vento Sul tempestuoso e da guerra, mas também conhecido como o Agricultor de Enlil — associando seu nome ao sêmen vivificador e à semente germinadora.
    • Ninurta: deus sumério do vento sul tempestuoso, da guerra e também associado à agricultura
    • Sêmen vivificador, semente vivificadora — rei cujo nome foi pronunciado por Enlil, Ninurta cujo nome foi pronunciado por Enlil
    • Enquanto Ninurta reinou, água fresca correu no rio, grão rico cresceu no campo, o mar se encheu de carpas, os juncos velhos e novos cresceram no canavial, as florestas se encheram de cervos e cabras selvagens, a árvore mashgur cresceu na estepe, os pomares se encheram de mel e vinho, e no palácio floresceu a longa vida
  • Segundo um poeta, houve um tempo em que não existiam ovelhas nem cordeiros, cabras nem cabritos, e os grãos shesh de trinta e quarenta dias ainda não existiam — nem o grão pequeno, o grão da montanha, o grão das criaturas puras.
    • shesh-grão: variedade de cereal sumério com ciclo de maturação de trinta ou quarenta dias
    • Nesse tempo primordial, a ovelha não paria seus dois cordeiros nem a cabra seus três cabritos
  • Os deuses Enlil e Enki criaram as duas irmãs Lahar e Ashnan — uma como deusa dos currais, outra como deusa das colheitas — e as enviaram à terra para trazer abundância e o sopro da vida.
    • Lahar: deusa suméria dos currais e dos rebanhos
    • Ashnan: deusa suméria das colheitas e dos grãos
    • Lahar em seu curral é uma pastora que aumenta a dádiva do redil; Ashnan entre as colheitas é uma donzela gentil e bela
    • A abundância que vem do céu, Lahar e Ashnan fizeram aparecer; na assembleia trouxeram abundância; na terra trouxeram o sopro da vida; os me dos deuses elas dirigem; os conteúdos dos armazéns multiplicam; os depósitos enchem até a borda; na casa do pobre que abraça o pó, elas entram e trazem abundância; onde quer que estejam, trazem grande incremento à casa; enchem de satisfação o lugar onde estão, abastecem o lugar onde se sentam; alegram o coração de An e Enlil
  • Segundo outra composição, Enlil — ao decidir fazer brotar toda sorte de árvores e grãos e trazer abundância à terra — criou os dois irmãos Emesh (Verão) e Enten (Inverno), atribuindo a cada um sua tarefa específica.
    • Emesh: personificação suméria do Verão
    • Enten: personificação suméria do Inverno
    • Enten fez a ovelha parir o cordeiro, a cabra parir o cabrito, multiplicou vacas e bezerros, fez aumentar o creme e o leite, alegrou o coração dos animais selvagens, fez as aves fazerem seus ninhos, os peixes depositarem seus ovos no canavial, o mel e o vinho abundarem nos pomares e vinhedos, e fez as árvores darem fruto onde quer que fossem plantadas
    • Emesh fez brotar árvores e campos, ampliou os estábulos e currais, multiplicou a produção nas fazendas, adornou a terra, trouxe a colheita abundante para as casas, acumulou grão nos celeiros, fundou cidades e habitações, construiu casas na terra e fez os templos se elevarem como montanhas
  • Com tanto peso dado ao valor da riqueza material, não surpreende que o deus-sol Utu — irmão de Inanna — queira que a irmã se case com o pastor, ao passo que Inanna prefere o agricultor, o que provoca a ira do pastor.
    • Utu: deus sumério do sol, irmão de Inanna
    • Inanna: deusa suméria do amor, da fertilidade e do poder régio, especialmente venerada em Erech
    • Utu argumenta em favor do pastor: seu creme é bom, seu leite é bom, o pastor, tudo que toca, é brilhante — seu bom creme ele comerá contigo
    • Inanna recusa o pastor e declara: eu, a donzela, casarei com o agricultor — o agricultor que cultiva muitas plantas, o agricultor que cultiva muito grão
    • O pastor, provocado, exclama: o agricultor, mais do que eu — o agricultor, o que tem ele mais do que eu
    • O pastor confronta seus próprios produtos com os do agricultor: ovelhas negras e brancas contra farinha negra e branca, leite contra cerveja, queijo contra pão, e termina se gabando de ter tanto creme e queijo que o agricultor poderia viver das sobras
  • Além da preocupação obsessiva com a riqueza material, os documentos literários sumérios revelam que, no plano espiritual, os sumérios desenvolveram e sistematizaram uma cosmologia e uma teologia de profunda convicção intelectual e realizaçao emocional, que se tornou o credo fundamental de grande parte do Antigo Oriente Próximo.
    • Os sumérios acreditavam que o universo era criado e governado por um panteão funcionando como uma assembleia chefiada por quatro divindades criadoras: os deuses do céu, da terra, da atmosfera e do mar
    • Esses deuses planejaram e trouxeram à existência tudo que é essencial ao cosmos — sol, lua, estrela e planeta, vento e tempestade, rio, montanha e estepe — e colocaram seus descendentes em cargo sobre cada elemento
    • Foram eles que criaram o homem, os animais e as plantas para nutri-lo; e, uma vez que o homem existia na terra, obrigaram-se a planejar cidades e estados, diques e valas de irrigação, campos e fazendas, estábulos e currais, nomeando divindades especialmente qualificadas para supervisioná-los
    • O que homem e animal mais necessitavam para garantir sua procriação e proliferação era o amor apaixonado e o desejo que culminavam na união sexual e geravam o sêmen fertilizador do ventre — a água do coração
    • Essas emoções ternamente arrebatadoras foram confiadas à deusa do amor Inanna — atraente, sensual e voluptuosa — especialmente adorada em Erech a partir de cerca de 3000 a.C.
    • Sacerdotes e teólogos de Erech conceberam então a ideia de que o rei se tornaria o amante e marido da deusa, partilhando assim seu inestimável poder de fertilidade e sua imortalidade divina
    • Assim teria surgido o Rito do Matrimônio Sagrado envolvendo Dumuzi — provavelmente um dos memoráveis governantes de Erech — e Inanna, sua divindade profundamente venerada
  • Há indícios de que um Rito do Matrimônio Sagrado envolvendo a deusa Inanna já era praticado em Erech várias gerações antes de Dumuzi, conforme atesta um poema épico sobre o governante heroico Enmerkar e sua luta com o governante de Aratta.
    • Enmerkar: governante heroico de Erech que, segundo a tradição histórica suméria, reinou duas gerações antes de Dumuzi
    • Aratta: cidade rival de Erech, cujo governante exigia a submissão de Enmerkar e a transferência da deusa Inanna
    • O governante de Aratta desafia Enmerkar: que ele se curve diante de mim, carregue o cesto diante de mim; então ele viverá com Inanna junto a uma parede, mas eu me deitarei com Inanna na casa de lápis-lazúli de Aratta; ele se deitará a seu lado em um leito frutífero, mas eu me deitarei em doce sono em um leito ornamentado; ele apenas contemplará Inanna em sonho, mas eu conversarei com Inanna a seus pés, os totalmente brancos
    • Esse poema indica que o matrimônio ritual de Inanna com o governante de Erech e de Aratta era praticado pelo menos desde Enmerkar
  • Não foi o nome de Enmerkar, mas o de Dumuzi — mais conhecido no mundo ocidental como Tammuz, forma do nome encontrada no livro de Ezequiel (8:14) — que ficou ligado a Inanna no Rito do Matrimônio Sagrado ao longo dos séculos.
    • Tammuz: forma ocidental e bíblica do nome Dumuzi, mencionada em Ezequiel 8:14
    • Dumuzi: governante de Erech cuja origem, segundo uma tradição, era a cidade de Kua, nas proximidades de Eridu — uma das cidades mais sagradas de Suméria, no extremo sul
    • Ao contrário de seus predecessores Enmerkar e Lugalbanda, ou de seu famoso sucessor Gilgamesh, Dumuzi não aparece em nenhum conto épico heroico
    • A razão pela qual Dumuzi passou a ser considerado o marido por excelência de Inanna permanece desconhecida
    • Os poetas sumérios narram que foi Inanna de Erech quem o escolheu especialmente para a divindade da terra, de acordo com os desejos dos pais da deusa
  • Inanna declara ter lançado seu olhar sobre todo o povo e chamado Dumuzi à divindade da Terra — Dumuzi, o amado de Enlil, aquele que a mãe guarda caro e o pai exalta.
    • Lançei meu olhar sobre todo o povo, chamei Dumuzi à divindade da Terra, Dumuzi, o amado de Enlil, minha mãe o guarda eternamente caro, meu pai o exalta
    • Inanna se banha, esfrega-se com sabão, veste seus especiais vestimentos de poder e faz Dumuzi ser trazido à sua casa e santuário repletos de orações e cantos
    • A presença de Dumuzi enche Inanna de tal paixão e desejo que ela compõe ali mesmo um canto para sua vulva, comparando-a a um chifre, ao barco do céu, à lua crescente, à terra em pousio, a um campo alto, a um montículo
    • Quanto a mim, minha vulva, para mim o montículo acumulado — eu, a donzela, quem a lavrará para mim? Minha vulva, a terra irrigada — para mim, eu a Rainha, quem estacionará o boi ali?
    • Ó Senhora Soberana, o rei a lavrará para ti — Dumuzi, o rei, a lavrará para ti
    • E ela responde com alegria: Lavra minha vulva, homem do meu coração!
    • Após banharem seu sagrado regaço, eles coabitam e, não surpreendentemente, a vegetação floresce ao redor: junto ao regaço do rei ergueu-se o cedro ascendente, as plantas cresceram altas a seu lado, os grãos cresceram altos a seu lado, e os jardins floresceram exuberantemente a seu lado
  • Uma vez felizmente instalada na casa do rei, Inanna eleva uma súplica e faz uma promessa — pede creme, leite e queijo ao marido pastor e promete em troca velar pelo seu celeiro e pela sua casa da vida.
    • Inanna suplica: Faz amarelecer o leite para mim, meu noivo, faz amarelecer o leite para mim — meu noivo, beberei leite fresco contigo; touro selvagem, Dumuzi, faz amarelecer o leite para mim; o leite da cabra, faz correr no curral para mim; com queijo enche minha santa manteigueira; Senhor Dumuzi, beberei leite fresco contigo
    • Inanna promete: Meu marido, o bom celeiro, o santo estábulo — eu, Inanna, preservarei para ti; velarei pela tua casa da vida; o radiante lugar maravilhoso da terra, a casa onde o destino de todas as terras é decretado, onde o povo e todos os seres vivos são guiados — eu, Inanna, preservarei para ti; a casa da vida, o celeiro da longa vida — eu, Inanna, a preservarei para ti
    • O autor desse mito hímnico provavelmente viveu nos dias da Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2000 a.C., quando as florescentes escolas de Suméria produziram mitógrafos e poetas cujas obras perdurariam por séculos
    • Quase um milênio depois dos dias de Dumuzi, há evidências claras de que o rei de Suméria, qualquer que fosse, tinha de se tornar o marido de Inanna como uma espécie de encarnação de Dumuzi
  • Não é possível saber ao certo quando esse credo transcendental e rito místico começou nem quem foi o primeiro governante sumério a celebrar o Rito do Matrimônio Sagrado como um Dumuzi reencarnado — embora seja razoável supor que tenha ocorrido por volta de 2500 a.C., quando os sumérios se tornavam cada vez mais nacionalmente conscientes.
    • É somente com Shulgi, o segundo governante da Terceira Dinastia de Ur, que se obtêm detalhes significativos sobre o Rito do Matrimônio Sagrado
    • Shulgi: segundo governante da Terceira Dinastia de Ur, cuja capital era Ur
    • A recém-publicada Bênção de Shulgi começa com a jornada do rei de sua capital Ur até a cidade de Inanna, Erech, onde atraca seu barco no porto de Kullab — o distrito mais antigo e venerado de Erech — e segue carregado de animais sacrificiais até o santuário de Inanna, o Eanna
    • Shulgi, o fiel pastor, partiu no barco; ante os me da realeza, os me da nobreza, Suméria e Acádia se maravilharam; no porto de Kullab atracou seu barco; com grandes touros de montanha conduzidos pelo braço, com ovelhas e cabras amarradas à mão, com cabritos malhados e cabritos barbudos apertados ao peito, a Inanna no santuário de Eanna ele veio
    • Shulgi veste um me-garment ritual, cobre a cabeça com uma peruca semelhante a uma coroa e impressiona tanto a deusa com sua presença que ela irrompe espontaneamente em um canto apaixonado
    • Inanna canta: Quando para o touro selvagem, para o senhor, eu me tiver banhado — quando para o pastor Dumuzi eu me tiver banhado — quando com âmbar minha boca eu tiver coberto — quando com kohl meus olhos eu tiver pintado — quando em suas belas mãos meus quadris tiverem sido moldados — quando o senhor, deitado junto à santa Inanna, o pastor Dumuzi, com leite e creme o regaço tiver suavizado — quando em minha vulva suas mãos ele tiver posto — quando no leito ele me tiver acariciado — então acariciarei meu senhor, um doce destino decretarei para ele; acariciarei Shulgi, o fiel pastor, um doce destino decretarei para ele; acariciarei seus quadris, o pastoreio de todas as terras, decretarei como seu destino
  • O destino glorioso que Inanna decreta para Shulgi abrange a liderança na batalha, o amparo no combate, a defesa na assembleia e a sustentação da vida — ao mesmo tempo em que o confirma em todos os atributos da realeza.
    • Na batalha sou tua líder, no combate sou teu auxílio, na assembleia sou teu defensor, no caminho sou tua vida
    • Tu, o pastor escolhido da casa sagrada, o sustentador do grande santuário de An — em todos os aspectos és digno
    • És digno de erguer alto a cabeça no alto estrado, de sentar no trono de lápis-lazúli, de fixar a coroa em tua cabeça, de vestir vestes longas, de cingir o manto da realeza, de carregar a maça e a arma, de guiar o arco longo e a flecha, de prender o bastão e a funda ao lado, de ter o cetro sagrado em tuas mãos, as sandálias sagradas em teus pés, de pular em meu santo seio como um bezerro de lápis-lazúli
    • Que teu amado coração seja longo em dias; assim An determinou o destino para ti — que não seja alterado; Enlil, o decretador do destino — que não seja mudado; Inanna te guarda caro, tu és o amado de Ningal
    • Ningal: deusa suméria da lua, mãe de Inanna
  • Shulgi não foi o último rei a celebrar o matrimônio sagrado com Inanna como avatar de Dumuzi — um hino à deusa descreve em detalhes consideráveis o que ocorria durante a cerimônia do matrimônio na véspera do Ano Novo.
    • Avatar: encarnação ou representação humana de uma divindade
    • Na véspera do Ano Novo, um leito de cedro e juncos é preparado no palácio e coberto com uma colcha muito especial; a deusa é banhada e esfregada com sabão, óleo perfumado é aspergido no chão, e o rei se dirige ao leito sagrado onde se unem em êxtase sexual
    • No palácio — a casa que guia a terra, a casa do rei de todas as terras — em seu salão de julgamento onde o povo cabeça-negra se reúne, o rei erigiu um estrado para a Rainha do Palácio, Inanna; o rei, o deus, viveu com ela em seu interior
    • Para cuidar da vida de todas as terras, para realizar com perfeição as regras divinas no dia do dormir, no Ano Novo, o dia dos ritos, um lugar de dormir foi preparado para minha rainha; o povo o purifica com potes cheios de juncos e cedro; sobre ele estendem uma colcha que alegra o coração e adoça o leito
    • Minha rainha é banhada no sagrado regaço — banhada no regaço do rei, banhada no regaço de Iddin-Dagan; a santa Inanna é esfregada com sabão; óleo de cedro perfumado é aspergido no chão; o rei vai com a cabeça erguida ao sagrado regaço, vai com a cabeça erguida ao regaço de Inanna; Amaushumgalanna se deita com ela, acaricia amorosamente seu sagrado regaço; depois que a rainha repousou longamente no sagrado regaço, ela murmura: Ó Iddin-Dagan, tu…
    • Iddin-Dagan: rei sumério que celebrou o Rito do Matrimônio Sagrado com Inanna; Amaushumgalanna é seu epíteto ritual
    • No dia do Ano Novo, provavelmente, é preparado um rico banquete no grande salão de recepção do palácio: para os santos sacrifícios, para os ritos bem estabelecidos, para o altar incandescente, para as oferendas abundantes de pão e as vasilhas repletas, ele entrou com ela em seu lofty palácio, abraçou sua amada esposa, abraçou a santa Inanna, conduziu-a como a luz do dia ao trono no grande estrado, instalou-se a seu lado como o rei Utu, desfilou abundância, alegria e fartura diante dela, preparou-lhe um belo banquete, desfilou os cabeças-negras diante dela
    • Com o tambor cujo discurso é mais alto que a tempestade, a lira de doce voz, o ornamento do palácio, a harpa que acalma o espírito do homem — ó cantores, pronunciemos cantos que alegram o coração
    • O rei pôs a mão na comida e na bebida; Amaushumgalanna pôs a mão na comida e na bebida; o palácio está em canção, o rei em alegria; pelo povo saciado com fartura, Amaushumgalanna permanece em alegria duradoura; que seus dias sejam longos no trono frutífero
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