NEUMANN
Erich Neumann (1905-1960)
Prefácio de Jung em 1949 a “THE ORIGINS AND HISTORY OF CONSCIOUSNESS”
O AUTOR me pediu que escrevesse um prefácio para seu livro com algumas palavras de introdução, e aceito de bom grado, tanto mais quanto achei sua obra mais do que bem-vinda. Ela começa exatamente onde eu também, se me fosse concedida uma segunda chance na vida, começaria a reunir os fragmentos dispersos de meus próprios escritos, a selecionar todos aqueles “começos sem continuação” e a moldá-los em um todo. À medida que lia o manuscrito deste livro, ficou claro para mim quão grandes são as desvantagens do trabalho pioneiro: tropeça-se em regiões desconhecidas; é-se desviado por analogias, perdendo para sempre o fio de Ariadne; é-se oprimido por novas impressões e novas possibilidades, e a pior desvantagem de todas é que o pioneiro só sabe depois o que deveria ter sabido antes. A segunda geração tem a vantagem de um quadro mais claro, ainda que incompleto; certos marcos que, pelo menos, se situam nas fronteiras do essencial tornaram-se familiares, e agora sabe-se o que é preciso saber para explorar o território recém-descoberto. Assim, prevenido e preparado, um representante da segunda geração pode identificar as conexões mais distantes; ele pode desvendar problemas e apresentar uma descrição coerente de todo o campo de estudo, cuja extensão total o pioneiro só pode avaliar ao final de sua obra.
Essa tarefa difícil e meritória o autor realizou com notável sucesso. Ele entrelaçou seus fatos em um padrão e criou um todo unificado, o que nenhum pioneiro poderia ter feito nem jamais teria tentado fazer. Como que para confirmar isso, a presente obra se inicia exatamente no ponto em que, sem saber, eu desembarquei no novo continente há muito tempo, a saber, o reino do simbolismo matriarcal; e, como estrutura conceitual para suas descobertas, o autor utiliza um símbolo cujo significado me ocorreu pela primeira vez em meus escritos recentes sobre a psicologia da alquimia: o uroboros. Sobre essa base, ele conseguiu construir uma história única da evolução da consciência e, ao mesmo tempo, representar o corpus de mitos como a fenomenologia dessa mesma evolução. Dessa forma, ele chega a conclusões e insights que estão entre os mais importantes já alcançados neste campo.
Naturalmente, para mim, como psicólogo, o aspecto mais valioso da obra é a contribuição fundamental que ela traz para a psicologia do inconsciente. O autor colocou os conceitos da psicologia analítica — que para muitas pessoas são tão desconcertantes — sobre uma base evolutiva sólida e, a partir dela, ergueu uma estrutura abrangente na qual as formas empíricas de pensamento encontram seu devido lugar. Nenhum sistema pode prescindir de uma hipótese global que, por sua vez, depende do temperamento e das suposições subjetivas do autor, bem como de dados objetivos. Esse fator é da maior importância na psicologia, pois a “equação pessoal” influencia a maneira de ver as coisas. A verdade última, se é que existe tal coisa, exige o conjunto de muitas vozes.
Não me resta senão parabenizar o autor por sua realização. Que este breve prefácio lhe transmita meus sinceros agradecimentos.
