2 Duas inteligências
SCHWALLER DE LUBICZ, René Adolphe. Du symbole et de la symbolique. Dessins de Lucie Lamy. Le Caire: Imprimerie Schindler, 1951. (Reedição: Paris: Dervy-Livres, 1978).
1. A inteligência humana compreende uma modalidade cerebral e uma modalidade inata, denominada inteligência do coração, que surge da fusão entre a Causa cósmica presente em sua materialização e essa mesma Causa presente no ser humano, possibilitada pela identidade de natureza entre ambas.
2. A condição de dualidade diante da Natureza determina seu julgamento objetivo, enquanto o “pecado original” consiste na separação e consequente oposição entre aspectos complementares cuja reunião constitui a Unidade, assim como a sobreposição do vermelho e do verde produz a ausência de cor.
3. A inteligência cerebral deixa de discernir e de exercer sua função na Unidade, pois depende de oposições, como sujeito e objeto, homem e mulher, afirmação e negação, noite e dia, luz e sombra, que também caracterizam a constituição dos organismos vivos em sua incessante oscilação entre nascimento e morte, crescimento e declínio.
4. A percepção visual do verde decorre de sua interceptação e neutralização pelos bastonetes e cones vermelhos da retina, que provocam uma reação complementar do nervo óptico mediante a qual essa cor é percebida em oposição ao vermelho.
5. O funcionamento cerebral fundamenta-se inteiramente em um princípio de cruzamento, exemplificado pelo controle geralmente exercido pelo hemisfério direito sobre o lado esquerdo do corpo e pela evocação, a partir da visão concreta de um objeto, de qualificações abstratas constituídas mediante comparações.
6. A inteligência cerebral só concebe uma abstração ao defini-la por uma imagem concreta, devendo ser distinguida da inteligência do coração, à qual corresponde a comunhão entre todas as coisas provenientes de uma única fonte de energia, cuja origem comum estabelece parentescos entre minerais, plantas, animais e seres humanos por combinações de características básicas que geram inúmeras possibilidades, classificáveis em grandes famílias e subgrupos.
7. A diversidade das raças e dos indivíduos humanos conserva uma organização essencialmente comum, sendo as diferenças determinadas pelo estado de consciência e, consequentemente, pelo controle mental, pelas particularidades da vida psíquica e sexual e pelas afinidades de cada pessoa.
8. O fator variável da diferenciação humana pertence à ordem abstrata, embora seus efeitos possam ser observados e analisados com precisão.
9. A causa abstrata em gênese na constituição orgânica concreta e aparentemente estável do ser humano ultrapassa a análise racional, pois, embora sustentada por experiências corporais e pela hereditariedade individual e coletiva, depende de um impulso incompreensível, concebível como concentração sem forma na semente transmissora, enquanto a origem comum de todos os seres permanece presente na alimentação e nas trocas constantes entre o ser humano, os diferentes reinos da Natureza e, por intermédio da origem mineral, a energia cósmica da qual tudo procede.
10. A mente humana só concebe aquilo que pertence à Natureza concreta e foi experimentado no devir corporal, enquanto as limitações de compreensão entre os seres e a orientação própria de cada organismo revelam uma inteligência inata constitutiva de sua natureza, também presente no ser humano através do mineral dos ossos, da matéria vegetal dos tecidos e da coordenação animal dos órgãos, cuja integração forma um laboratório independente de assimilação e transformação, tornando insuficiente a simples designação de “instinto” sem a investigação de sua constituição e origem.
