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2 A Resposta
SCHWALLER DE LUBICZ, Isha. Her-Bak Disciple: De la sagesse égyptienne. Illustrations de Lucie Lamy. Paris: Flammarion, 1956. (Reedição: Paris: Le Courrier du Livre, 1979).
II A RESPOSTA
- No grande dia, Her-Bak espera o Sábio na sala hipostila desde a aurora, e sua impaciência evolui com o passar das horas.
- Entrando como conquistador, ele proporciona seu sonho às dimensões do edifício e circula entre as colunas como um sonâmbulo inconsciente da altura e do abismo, até que a ausência do Sábio o inquieta.
- Na solidão da colunata, toma consciência da desproporção física e se sente esmagado pelos fustes enormes, como um pigmeu impotente diante de uma obra de gigantes.
- Os gigantes eram homens como ele, que não tiveram medo da massa, e o artesão revelado pela obra a cobriu de um pensamento exuberante que escapa a toda medida.
- Sentindo-se herdeiro daqueles construtores, Her-Bak ergue a fronte e procura o sentido secreto dos textos, até medir com pavor as trevas contidas na palavra ignorar.
- O Sábio chega como resposta ao apelo e impõe a condição de entrada no Templo coberto: silêncio absoluto sobre o ensinamento recebido, pois interpretar e comentar é traição até que o discípulo seja julgado firme na Inteligência do coração.
- Her-Bak se dirige à entrada central de grandes batentes de madeira lavrada a ouro, e o Sábio o detém para ensinar o sentido da porta.
- Entre o lugar desconhecido e quem nele entra, entre o que se será e o que se era, há uma passagem, um caminho, e em toda ação vital é esse caminho que importa, pois implica todas as relações de tempo, espaço e meios entre uma origem e seu fim.
- O ponto de partida do caminho, material ou ideal, é a porta, que determina a direção e a natureza do caminho, razão pela qual os Sábios se exprimiram sobretudo pelos símbolos, inscrições e orientação das portas.
- As palavras relativas às portas são sempre reveladoras, porque a língua egípcia não é vulgar, mas iniciática.
- A porta é ao mesmo tempo poder e destino inelutável: poder porque revela o sentido daquilo a que introduz, destino porque, uma vez transposta, impõe sua diretriz e seu sentido.
- A porta principal de dois batentes dá passagem ao Senhor-da-Casa quando ele se manifesta para fora e é porta de exteriorização, enquanto outra é a porta que introduz.
- O caminho de Her-Bak começa por uma porta baixa à esquerda, pouco visível na sombra, proporcional ao estreito sendeiro do Conhecimento, que não permite desvios nem complexidades arbitrárias, pois a lei é rígida e o cânone sem indulgência.
- Quem busca o Real deixa de dar fé às aparências.
- A frieza está na exatidão da Lei, mas a Vida é movente e o Fogo é ardente, e o discípulo escolherá o alimento que lhe convém sob a condição de deixar-se guiar em seu emprego.
- O ensinamento dos três Mestres é integral em cada um: o Místico ensina a alegria extática do dom, o Simbolista desperta a intuição das relações vivas entre coisas e seres e o Geômetra inicia nas propriedades do Número e no devir das formas.
- Seria um erro confundir os procedimentos dos três ensinamentos ou transpô-los de um para outro.
- A ciência das medidas é conhecimento de Leis imperturbáveis quando parte da realidade e não de uma suposição, como só os Sábios souberam fazer.
- Todos os axiomas filosóficos que fundamentam a Teologia devem poder transcrever-se em matemática geométrica, pois a matemática que não se exprime geometricamente abre a porta às hipóteses do racionalismo, que conduzem ao erro.
- A Mística é uma tomada de consciência direta por fusão, um estado de transparência que permite a visão direta e global de uma harmonia, e não uma compreensão.
- Querer obter esse estado por um jogo de pensamento e um emaranhado de noções é cair na imaginação e no erro.
- A transparência se alcança suprimindo os anteparos interpostos, e até lá a busca deve ser precisa, sem fantasia nem transposição entre os três ensinamentos, pois tal indisciplina desvia os discípulos das mais belas revelações.
- Her-Bak lamenta que uma ciência tão delimitada pareça não deixar campo de busca, e o Sábio reconhece nele o presunçoso Pois Chiche ainda presente.
- Escrita ou não, a Verdade está presente desde sempre, enquanto a alma está encarnada apenas por um tempo para tomar consciência dela, e o que importa é o desenvolvimento da consciência, relação entre a pessoa e a Potência causal.
- Cada verdade aprendida será tão nova quanto se nunca tivesse sido escrita e terá valor de descoberta por sua ressonância com o número próprio do estudante e sua função particular no Universo.
- A porta se abre por dentro a um sinal combinado, e Her-Bak, abraçado pelo Sábio e trêmulo de alegria, transpõe o limiar sob os olhos de um guardião.
- No mundo interior se operam todos os mistérios do Verbe, cuja face, her, é apenas um espelho.
- A face humana se abre ao mundo exterior por sete portas: três duplas, com entrada oriental e ocidental, e a sétima central e única, com duplo canal interior e dupla função.
- A atmosfera de Shu banha todas as portas igualmente, mas cada abertura capta nela, por adaptação, uma qualidade diferente: os olhos, ar-ti, recebem a luz de Shu e as narinas, sher-ti, respiram seu ar.
- A porta central, a boca, ra, tem dupla função: deixar entrar as oferendas de alimentos e deixar sair o Senhor-da-Casa, o Verbo-palavra.
- A boca recebe o nome genérico ra, abertura, entrada, porta, e o olho, ar-t, a narina, sher-t, e o ouvido, mesdjer, contêm a mesma letra r em seus nomes.
- O sentido de cada porta se aprende pela observação de sua forma, nome, situação e símbolos, que revelam sua função.
- O Mestre sabe o que omite: pode-se falar do ar, da luz, da sombra e da secura de Shu, pois Shu, Neter primordial elementar, contém com sua gêmea Tefnut as quatro Qualidades constitutivas do Mundo.
- Shu causa a manifestação do Verbo que se torna palavra, a voz, kheru, e todas as vozes da Natureza, e por isso os ouvidos são chamados as vivas, ankhui, portas que as recebem.
- Shu é imanente à criação perpétua como Princípio primordial, seu nome evoca a natureza aérea e espacial, e sua pluma, símbolo espiritual, é leve e não dualizada.
- A pluma de Amon é rígida, dualizada, compartimentada, colorida e penetra todo o céu, pois Amon, Neter universal também de natureza aérea e contendo as quatro qualidades de Shu e Tefnut, é essencialmente o meio espiritual gerador do ser no Universo.
- O nome de Amon é o de uma água aérea portadora do princípio de estabilidade.
- Shu dá à atmosfera suas qualidades de fogo, luz e ar, enquanto a água amniótica de Amon envolve a geração do ser no mundo como o feto é banhado na matriz.
- A primeira sala marca a entrada do Templo coberto e nela se consagram as oferendas recebidas na sala precedente, com colunas poderosas, mesa-altar e aparadores de oferendas.
- Os Neter não precisam das oferendas, mas o homem precisa deles.
- Não se deve confundir o caráter causal abstrato dos Neter com a forma concreta pela qual foram representados para evitar, por meio de um símbolo positivo, a transposição errônea que o ensinamento teológico abstrato poderia suscitar.
- Como o homem é sempre tentado a inventar deuses à sua imagem, mais vale oferecer-lhe quadros cuja expressão hierática e cujas estranhezas de composição excluam todo erro sentimental e toda interpretação do divino pelo humano.
- Os Neter são a expressão de Princípios e funções da Potência divina manifestando-se na Natureza, e seus nomes e imagens nos mitos são a definição desses Princípios, oferecida para que o estudante aprenda a buscá-los em si mesmo, pois os Neter estão no homem.
- Isso não pode ser explicado à multidão, mas sua consciência pode ser suscitada por um ato efetivo, e essa é uma das razões da oferenda.
- A oferenda que custa a quem a realiza desperta nele a consciência e o desejo eficaz da ação do Neter.
- Esse desejo é a atração ou imantação chamada MER, expressão de uma falta, de uma necessidade ou de um vazio que quer ser preenchido, e é o princípio ativo do sacrifício, baseado na lei de compensação.
- A compensação só se compreende pelo jogo do cruzamento e da força reativa em toda a Natureza, modo de pensamento necessário para decifrar os símbolos, pois todas as noções são cruzadas.
- Todo fenômeno é efeito reativo, e uma causa ativa nunca produz efeito direto, permanecendo abstrata e imperceptível se falta a resistência.
- Quando uma resistência da mesma natureza da causa a absorve e anula, há um primeiro cruzamento, que é uma morte, e quando a resistência reage e se torna ativa, como a força que repele o martelo sobre a bigorna, resulta o fenômeno-vida, significado pelo segundo cruzamento.
- Aplicada à oferenda, a lei de cruzamento significa que o sacrifício feito ao Neter produz por reação seu efeito no próprio ofertante, o que é exato quanto à magia moral do sacrifício.
- O sacrifício defende a consciência humana contra o efeito aniquilador da busca de satisfação, à qual o homem animal se submete como a Natureza obedece à lei de inércia.
- A satisfação de um desejo neutraliza a potência do desejo e é uma espécie de morte, como a posse da coisa ardentemente desejada, cuja única força ativa resultante é o medo de perdê-la, movimento egoísta e constritivo que diminui a potência atrativa do apelo.
- A oferenda das primícias de rebanhos e colheitas não é uma troca com os Neter, que estão no próprio homem, mas provoca no doador a fé, potência realizadora da coisa desejada.
- O efeito de uma simples prece corre o risco de ser comprometido pela dúvida inconsciente que ela evoca, por reação, em quem a formula.
- O sacrifício não é troca no sentido de mercado ou escambo de quantidades, mas compensação segundo a lei de Maat, o equilíbrio imanente à Natureza dualizada, como a noite equilibra o dia e a expiração equilibra a inspiração.
- A oferenda pode visar suscitar pela magia do sacrifício a fé criadora da coisa desejada, evocar essa coisa pelo desejo, mer, ou pela magia dos análogos, ou provocar sua realização por efeito de reação.
- A provocação excita a reação da coisa, ser ou potência a que se dirige oferecendo-lhe uma resistência, como o combatente desafiado que redobra a audácia, o vento que fortalece os caules das árvores e das espigas e o osso devorado pelo abutre ou pelo cão que provoca a secreção dos sucos digestivos.
- Privados desse tipo de alimento, tais animais definham, pois a falta de calcário atrofia a função digestiva para a qual estão organizados.
- A evocação chama a realização do objeto desejado oferecendo-lhe aquilo que pode ser seu ímã, diretamente ou pela magia dos análogos.
- A evocação direta age criando a falta ou o vazio, que se torna MER, atração e ímã para o que é de sua natureza, como o canal mais profundo que reúne as águas vizinhas, o alimento preferido evocado que desperta a fome e os arbustos plantados no deserto com o mínimo de água, cujas raízes buscam a água subterrânea e cujas folhas atraem a umidade.
- A plantação no deserto evoca as funções amonianas-osirianas da Natureza pela oferenda de vegetais a Osíris, triunfando do fogo sethiano do deserto e transformando o solo estéril em fértil.
- A magia dos análogos escolhe inteligentemente um análogo com as características da coisa desejada, como os buquês montados das oferendas funerárias, flores que parecem sair umas das outras e simbolizam a nova ascensão da vida ressuscitada que já não se apoia na terra.
- Às vezes se dá à imagem da múmia uma altura desmedida para acentuar esse símbolo.
- A mesma intenção se exprime no voto frequente dos textos de que o nome do defunto refloresça.
- O cerimonial fúnebre testemunha isso pelo traje das carpideiras, cujas vestes e cabeleiras evocam a água de rejuvenescimento, e os mitos o confirmam pela ressurreição de Osíris operada pelas lágrimas de Ísis e Néftis.
- Na evocação pela magia dos análogos, a oferenda não é um dom, mas o símbolo daquilo que o Neter invocado pode dar.
- Julgar a correspondência entre a matéria oferecida e a coisa pedida exige a ciência das correspondências analógicas da Natureza, sempre aplicada nas imagens simbólicas.
- A carne nutritiva da coxa de um quadrúpede não tem o mesmo valor funcional que o khepesh, a pata dianteira, que dá a medida e a direção da força motriz sediada na coxa.
- Os gestos do ofertante também significam: o braço estendido oferece o emblema da coisa desejada, as mãos erguidas em oposição ao Neter o provocam e as mãos em concha para receber são gesto de evocação.
- Cada detalhe da oferenda é uma palavra e cada quadro é um livro.
- O cuidado minucioso dos detalhes, suas coincidências com os textos conexos, os retoques oportunos das medidas ao longo das épocas e a correspondência rigorosa dos gestos com a intenção da oferenda provam que as cenas aparentemente banais contêm ensinamentos.
- A prova eficaz será a experiência de aplicar esse modo de pensamento ao deciframento das composições.
- A correspondência integral das composições com as leis da Natureza lhes confere universalidade, de modo que o princípio descoberto num quadro serve para explicar seus correspondentes no devir do pinto, do feto, do homem na Terra ou de um ser na Duat, desde que não se erre quanto à fase simbolizada.
- O sentido mais secreto da oferenda está na estátua de Ptah enfaixado, diante da qual Her-Bak passou a noite sem compreendê-la.
- Pth é a energia criadora amarrada por sua queda na matéria, causa de vida que só será viva quando for desatada pelo hotep, htp, que é pth invertido, isto é, quando tiver feito a paz ou a união entre si e as coisas a animar.
- Há em Ptah um fogo destruidor que pelo hotep se torna gerador, e por isso hotep é o nome tanto da paz quanto da oferenda.
- A paz ou conciliação entre naturezas opostas é a mais perfeita das oferendas, aquela em que o doador se dá a si mesmo por comunhão e se torna mediador, fermento de união.
- O ensinamento permanece secreto embora escrito nas duas palavras pth e htp, porque o homem busca o simulacro e teme o sentido real.
- Her-Bak oferece a joia que recebera do Sábio, único objeto ao qual está apegado, e aprende que nenhum dom é proporcional ao dom do Céu, mas que o sacrifício do orgulho dá eficácia à oferenda.
- O Mestre deposita a joia no altar, cruza os braços do discípulo, toma suas mãos nas próprias mãos cruzadas e declara que a coisa criada por Ptah lhe é devolvida para que ele faça hotep no discípulo e se torne vivo naquilo que criou.
- Her-Bak se sente mais provido nessa hora do que em todo um ano de Peristilo, pois as portas não são as mesmas.
- O Mestre conduz o discípulo a uma câmara escura, fracamente iluminada por uma lâmpada, com muros cobertos de textos e cenas esculpidas e presidida por uma grande imagem de Min.
- Her-Bak senta-se diante do Neter de pernas cruzadas e mãos abertas sobre os joelhos, o Sábio queima perfumes e espera que o silêncio acalme a impaciência do discípulo.
- A Vida é a expressão da presença divina.
- A Vida é o poder, imanente às coisas criadas, de transformar-se por destruições sucessivas de suas formas até a libertação da alma, força atuante do influxo original, e esse poder está na própria natureza de cada coisa.
- A destruição sucessiva das formas, ou metamorfoses, pelo Fogo divino, com renascimento de novas formas vivas, é a expressão da consciência.
- O fim espiritual de toda vida humana é desejar chegar ao estado consciente de alma independente das contingências corporais.
- Isso diz respeito à alma vivente concedida ao homem, que antes, como todo ser vivo, era animado apenas por uma primeira alma animante, e essa animação faz do homem uma criatura superior ao reino animal-humano.
- Quem reconhece o sentido divino da Vida sabe que o conhecimento tem um só fim: seguir as etapas sucessivas que libertam do perecível, pois as coisas só morrem por seu corpo, enquanto a alma é Verbo divino, retorna à sua fonte e não morre.
- Infeliz é o KA que não reencontra mais sua alma.
- De olhos fechados, Her-Bak recolhe cada palavra e sente seu peso, e sua voz já não exprime a curiosidade inquieta, mas a certeza do coração que encontrou enfim sua estaca de amarração.
- Os termos da resposta não devem satisfazer, pois o caroço não revela o arbusto que contém.
- A palavra deve ser enterrada no coração para que ali produza raízes e germe, e o discípulo deve voltar a ela incansavelmente em busca de alimento até esgotar sua substância.
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