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20 Oleiro

SCHWALLER DE LUBICZ, Isha. Her-Bak “Pois Chiche”: Visage vivant de l'Ancienne Égypte. Illustrations de Lucie Lamy. Paris: Prosveta, 1954. (Reedição: Paris: Flammarion, 1955; Paris: Le Courrier du Livre, 1978).

O APRENDIZ

XX OLEIRO. VASOS

  • A vida de oficina de Pois Chiche começa pelo trabalho do oleiro, por decisão de Menkh, tendo como material a terra e a água e como ferramentas as mãos e o suor do aprendiz.
  • A preparação da argila cinzenta exige amassá-la, batê-la para expulsar as bolhas e sová-la até formar uma pasta lisa, mole o bastante para ser maleável e firme o bastante para se sustentar.
  • Ao fim do primeiro dia, o menino exausto contempla os inúmeros potes que secam à espera da cozedura e, coberto de barro como tudo ao redor, ri ao olhar as próprias mãos.
  • Um desenho sobre uma grande jarra representa Khnum, o divino oleiro, modelando o ovo do mundo, e o menino se pergunta onde o deus teria obtido a terra.
  • Ao amanhecer, Pois Chiche chega à oficina antes dos aprendizes para tentar manejar o torno, que lhe fora proibido na véspera.
  • Depois de vários fracassos, ele consegue erguer as bordas de uma taça, mas a forma se deforma, gira em sobressaltos estranhos e desaba como uma flor murcha, e cada nova tentativa termina da mesma maneira.
  • O velho oleiro observa da soleira, ri com ironia e repreende o noviço por julgar que se torneia um pote como se escreve uma frase.
  • O escriba pode ser senhor do cálamo, mas é o torno que é senhor do oleiro, pois a lei do equilíbrio é rígida e não perdoa o mais ou menos.
  • O eixo é o Neter, o deus do torno: desrespeitado, ele produz um monstro, e situado em seu lugar, serve ao artesão e dá estabilidade à obra.
  • Num gesto de virtuose, o velho oleiro centra a massa, que se escava, se estira e se eleva em bojo regular em torno de um centro vazio, enquanto o movimento circular faz o trabalho e uma pressão quase imóvel dos dedos desenha gargalos estreitos ou ventres arredondados.
  • Basta situar o eixo bem no meio, e diante da objeção de que o meio está vazio, o velho artesão pergunta quem, em todos os tempos, terá visto o eixo.
  • Pois Chiche sonha com o eixo naquela noite.
  • No dia seguinte, julgando monótonas as formas sempre redondas, o aprendiz dispõe a argila em quadrado, mas o torno arranca a terra supérflua até o retorno inevitável à forma redonda.
  • Nem cubos nem ovais mantêm sua forma, pois o torno é inflexível, e o inventor, despeitado, resigna-se a tornear formas redondas como todos.
  • Os potes não podem servir sem cozedura, pois os líquidos os desagregariam, e a cozedura os torna porosos, exigindo verniz para tapar os poros.
  • O verniz mais natural se obtém deixando a peça longamente em água salgada e levando-a de novo ao fogo, enquanto o verniz do vaso azul é um segredo reservado a quem já fez sua obra-prima.
  • A obra-prima é a obra criada com a alma, concebida com o coração, gerada com o corpo inteiro, da pele às entranhas, vivida e carregada até ser trazida à luz pelos dedos como um fruto maduro.
  • Gerações inteiras preparam a obra-prima, e um homem, seu herdeiro, a produz.
  • Para ser esse homem é preciso escutar a voz muda dos Antigos, observar a Natureza e calar.
  • A verdadeira obra-prima do menino foi ter tido a ideia do pote quadrado, pois o torno, ao arrancar a terra excedente, revelou a potência oculta do Neter em luta com o movimento e ensinou a lei das coisas redondas, que nenhuma escola ensinaria.
  • A explicação entra apenas na cabeça, mas o despeito dos dedos impotentes para impor outra forma é o que permanece.
  • O eixo não era o único em jogo, pois outra lei intervinha, e um Neter é todo-poderoso na lei que rege, mas jamais além dela.
  • A pergunta sobre o que é um Neter ultrapassa o saber do velho oleiro, que se espanta com as inquietações do menino e o chama de falcãozinho a quem algo deu asas.
  • Uma vida inteira torneando potes foi necessária para compreender esse pouco, e é preferível descer à terra com os próprios potes, rico de um saber limitado, do que com a arrogância estéril dos escribas.
  • Não são as letras dos escribas que são falsas, pois os hieróglifos são símbolos divinos legados pela Sabedoria dos Antigos, mas o espírito do escriba é torto.
  • Os Sábios dos templos também passaram por esse caminho, e o Mestre do menino agiu como eles ao transplantar o arbusto para terra sã antes que apodrecesse.
  • O saber do velho oleiro provém das antigas tradições dos oleiros, dos nomes dos potes segundo suas formas e conteúdos, dos ritos da confraria e das palavras do chefe dos Técnicos, e todo o resto lhe foi ensinado pela terra, pela água, pelo fogo e pelo torno.
  • O aprendiz não permanecerá muito tempo com ele, pois o ritmo de seu torno é mais vasto e mais vivo.
  • Tudo o que bate com um único coração jamais se deixa, e quanto ao resto, pouco importa.
  • Pois Chiche é logo enviado ao perfurador e escultor de vasos, cuja oficina abriga vasos de todas as formas e tamanhos em xisto, diorito, alabastro e granito, polidos como espelhos, esculpidos, gravados, abertos como corolas ou figurando símbolos animais.
  • O menino fica extasiado diante dos desenhos maravilhosos das veias do alabastro, que já estavam na pedra e na montanha.
  • A dificuldade está em pressentir o sentido exato da veia antes de recortar o vaso, pois um trabalho negligente rompe o fio do alabastro e o enche de estrias e manchas como carne doente.
  • O chefe da oficina se indigna com a ideia de que o aprendiz possa interrogar o mestre, pois isso apagaria a diferença entre o noviço arrogante e o companheiro hábil formado pelo mestre.
  • O próprio escultor aprendeu observando com os olhos e tentando com os dedos, e quando os dedos resistiam, as costas se lembravam e os tornavam diligentes.
  • O escultor aplica algumas pancadas nas costas do menino para lhe ensinar a distância que o separa do mestre, e Pois Chiche as suporta de punhos cerrados, sem pestanejar.
  • Cada tentativa malfeita valerá tantas pancadas quantos são os dedos das mãos, e o menino pede que se acrescentem os dos pés e que todas lhe sejam dadas de uma vez.
  • Pois Chiche julga que trabalhará melhor sem a ameaça e, sobretudo, que as pancadas terão sido escolhidas por ele mesmo.
  • O escultor contempla o menino como a um leãozinho surgido de uma moita, aplica três pancadas pela insolência e concede crédito de uma lua inteira para as do mau trabalho.
  • A primeira tarefa do noviço é segurar um ovo de alabastro a ser escavado em vaso, e é doloroso ver a broca bifurcada atacar o interior de uma forma exterior tão bela.
  • À noite, Menkh percebe que a lição do bastão foi proveitosa, pois pôs respeito no pedido e na atitude do menino.
  • A pergunta sobre se os homens podem ser educados sem o bastão encerra uma tragédia que só compreenderá quem, sendo chefe de obras, tiver coração.
  • Muitos burros são melhores que seus donos, mas há também os preguiçosos e os pangarés, o que já contém a resposta.
  • O leão se doma pelo olhar, a serpente pelo som, o gato pelo conforto e pelo jogo, o pássaro pela doçura, o cão nobre pela voz e pelo elogio e o cão vulgar pelo chicote.
  • A humanidade traz em si toda a animalidade, o coração tem algo do leão e o pulmão algo do pássaro, e cada homem tem afinidade particular com algum animal, cujo conhecimento permite dirigir os homens.
  • O menor supervisor de obras deveria ser alguém-que-sabe, e embora nenhum povo possua tantos Sábios, a seleção vem do alto e exige o despertar no homem de algo distinto do animal, que é justamente sufocado pelo animal.
  • O animal não deve ser sufocado, assim como não se sufoca o burro, mas domado.
  • A vida do homem é curta para a escada que precisa subir e seu cérebro é o mais obstinado dos macacos, de modo que, se o coração domina, a consciência logo substitui o bastão, e caso contrário é preciso punir para sacudir a inércia, honrar as corporações e salvar a qualidade das técnicas.
  • O homem que progride a cada dia é logo reconhecido e instruído no ramo que lhe convém, e nenhuma porta, nem mesmo a dos segredos do Templo, permanece fechada para quem se mostra digno.
  • O velho oleiro não recebeu cargo importante porque não despertou na juventude, e sua compreensão é fruto de longo trabalho silencioso.
  • À força de aperfeiçoar a técnica, o velho oleiro arrancou ao centro vazio seu segredo, descobriu vernizes admiráveis e recebeu recompensas, mas nunca quis deixar a oficina onde busca a Realização.
  • O velho oleiro é o Oleiro dos oleiros e a pedra de toque dos novos aprendizes, tendo despertado a consciência de muitos, e homens assim são os verdadeiros pais das técnicas.
  • Esse título de nobreza vale tanto quanto outros, e certos grandes dignitários não podem, como ele, chamar Menkh de amigo.
  • O Templo não é limitado por muralhas, e a pergunta sobre quem faz parte dele vale ao menino uma bofetada magistral que lhe ensina sua presunção.
  • O menino foi colocado na oficina do escultor de vasos porque ela é a última que trabalha segundo os procedimentos antigos, já que o ouro e a prata destronaram a pedra, e era preciso conhecer esse ofício.
  • O ofício do escultor parece menos divertido que o do oleiro, pois a argila sobe e se abre à vontade sob os dedos, enquanto a pedra é dura e é a ferramenta que faz o trabalho.
  • O oleiro pode alargar uma pequena massa em vasta forma, enquanto o escultor não pode escavar o vaso mais largo que seu bloco.
  • O vaso do oleiro contém o espaço que se lhe dá, e o vaso do escultor contém o que lhe foi retirado.
  • O espaço entre três jarros semelhantes também possui uma forma delimitada pelos vasos, o que levanta a questão de qual das formas é o vaso.
  • O nome khent ensina a relação entre o dentro e o fora, aquilo que estava dentro e que dele procede.
  • As colunas também têm dupla forma, uma dentro e outra fora, e uma não existiria sem a outra.
  • Habituar os olhos a olhar dessa maneira permite decifrar a lição real dos hieróglifos, cujos nomes revelam então a ciência egípcia.
  • O menino deve observar os vasos, o jarro, o pote nou redondo como um céu de Nut, a bilha porosa, o pote envernizado, o vaso que contém, o vaso que derrama e o vaso selado, e deve modelar vasos.
  • Muitos dias depois, o escultor se queixa de que o aprendiz poupa seu esforço e suas costas, deixando o trabalho para o vizinho.
  • Pois Chiche alega que o ofício não é divertido, que a pedra é dura, a ferramenta brutal e o esforço do dia rende pouco.
  • O que importa não é o que se faz, mas o que se aprende, e o menino só deixará o ofício quando tiver vencido sua covardia.
  • Pois Chiche protesta que Her-Bak jamais será covarde, mas é lembrado de que fraquejou na primeira dificuldade e preferiu perder tempo precioso a ser corrigido.
  • Diante do receio de tornar-se caduco antes de tornar-se sábio, a resposta é que nesse caso Her-Bak terá de mudar de nome.
  • O menino permanecerá no ofício até que a técnica penetre em sua pele, à força de acidentes, erros e até de bastão.
  • Pois Chiche jura, frêmito, que nunca mais será acusado de covardia.
  • Nas noites seguintes, ele relata seus erros com honestidade: o vaso escavado torto e a correção recebida como justa, o vaso perfurado por acidente com sangue nos dedos, o bloco mal esquadrejado que obrigou a talhar um vaso mais estreito e o erro no sentido da veia que arruinou um belo vaso de alabastro.
  • Chega enfim o tempo em que Pois Chiche apresenta todas as noites um rosto sereno, e Menkh julga que é hora de mudar de ofício.
  • O menino aceita a decisão como justa e se despede do chefe da oficina somente com gratidão.
  • Da soleira, ele se volta, olha as ferramentas e os vasos e murmura que não existe ofício tolo.
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