Her-Bak “Pois Chiche”
SCHWALLER DE LUBICZ, Isha. Her-Bak “Pois Chiche”: Visage vivant de l'Ancienne Égypte. Illustrations de Lucie Lamy. Paris: Prosveta, 1954. (Reedição: Paris: Flammarion, 1955; Paris: Le Courrier du Livre, 1978).
- Prefácio do autor
- Apresentação
Primeira parte — Pois Chiche
- I. O primeiro dia
- II. A família
- III. O linho
- IV. Ciúme
- V. O espantalho
- VI. Inveja
- VII. Doação
- VIII. O campo
- IX. Pescador
- X. Colheita
- XI. Os deuses
- XII. Inundação
- XIII. Criação de animais
- XIV. Procissão
- XV. Profecia
- XVI. O jardim
- XVII. Semeadura
- XVIII. Julgamento
Segunda parte — O aprendiz
- XIX. A escola
- XX. Oleiro. Vasos
- XXI. Os dois asnos
- XXII. Solidão
- XXIII. Os bastões
- XXIV. Carpinteiro
- XXV. A loja
- XXVI. O cume
- XXVII. O último dia
- XXVIII. Tecelagem
- XXIX. A festa do vale
- XXX. A caverna
- XXXI. Her-Bak
Terceira parte — Her-Bak: o peristilo do templo
- XXXII. Entrada
- XXXIII. Professores
- XXXIV. O chacal
- XXXV. Os Três
- XXXVI. Nut
- XXXVII. A visita
- XXXVIII. Os animais sagrados
- XXXIX. Akhenaton
- XL. O tesouro
- XLI. Funerais
- XLII. A mulher
- XLIII. Litania
- XLIV. A noite do Neter
- XLV. Faraó
Pranchas I a VI
Apêndice documental
- I. O país do Egito
- II. A história do Egito
- III. A civilização. A sociedade
- IV. O ensino do Egito
- V. A religião egípcia
Prefácio
1. O duplo nome “Pois Chiche – Her-Bak” constitui, por si mesmo, o programa inteiro da obra, condensando em duas designações o percurso que vai da condição inicial da criança em busca de seu caminho até a realização plena daquilo que o nome superior anuncia.
2. Conhecer e compreender o Antigo Egito exige não separar seu rosto vivo, repleto de humor e encanto, de seu rosto hierático, no qual cada expressão encerra um ensinamento, pois ambos compõem uma única civilização indivisível.
3. Sob as imagens concretas da vida cotidiana pintadas nos túmulos dos particulares, das façanhas esportivas dos faraós ou dos relatos mitológicos aparentemente licenciosos, ocultam-se sempre princípios abstratos que revelam leis fundamentais do universo.
4. O nome desempenha papel considerável e de valor iniciático, e até o nome das coisas busca estabelecer a relação entre o objeto e sua qualidade essencial ou função, como o ouro, neb ou nub, que designa também o senhor por exprimir o equilíbrio próprio do mais nobre dos metais e da maestria humana, ou a palavra men, expressão da permanência e da estabilidade, que nomeia igualmente os monumentos, as fundações, a coxa e o porto onde os barcos se estabilizam.
5. O nome era tido como definição da natureza essencial do indivíduo e como programa de sua realização, razão pela qual uma mesma pessoa podia receber vários nomes conforme as fases de sua evolução.
6. O nome Her-Bak exprime ao mesmo tempo a natureza e a meta de seu portador, pois bak ou bik designa o falcão, ave simbólica de Hórus, princípio de sobre-evolução ao qual a humanidade deve aspirar.
7. Her é simultaneamente o nome de Hórus, o da face e a palavra que significa “sobre”, aquilo que está acima, de modo que a expressão her-bak, segundo o jogo de relações próprio da língua egípcia, significa a um só tempo “face de falcão” e “face de Hórus”.
8. Her-bak era também o nome do Pois Chiche, porque esse grão reproduz a imagem da cabeça do falcão de Hórus, com seu bico e a curva característica que delineia a região do olho.
9. “Pois Chiche” traduz, portanto, o símbolo concreto de her-bak atribuído à criança que procura seu caminho, até o dia em que o sentido profundo de Her-Bak, “face de Hórus”, se torne sua luz e seu verdadeiro nome.
10. A história de Pois Chiche – Her-Bak retrata de modo vivo o caminho progressivo que se poderia chamar de “subida ao Templo”, desde que o Templo seja concebido como o edifício total do Conhecimento egípcio, com sua estrutura metafísica, suas aplicações práticas e suas vias de acesso.
11. O Templo é a projeção do Céu sobre a Terra, isto é, sobre o mundo delimitado pelo horizonte, linha de junção do céu com um mundo que pode ser a Terra, o recinto murado de um templo ou o próprio corpo, de modo que o verdadeiro templo vivo é o Homem, no qual se encarnam os Princípios e funções cósmicas, os Neter, e os templos de pedra são as casas onde seus símbolos são representados para ensinar o homem a reconhecer em si os elementos do grande Mundo de que é imagem e resumo.
12. O Templo dos Sábios é o próprio Ensinamento, ou antes a atmosfera radiante em que se elabora a comunhão enriquecedora entre quem busca e quem sabe, e sob esse ângulo o Egito inteiro é o Templo, sua história é a história do homem como símbolo vivo de todas as funções cósmicas, e as coroas e cetros do Rei representam os poderes conferidos pela consciência adquirida, que o tornam rei da Natureza e das criaturas inferiores.
13. A função do Templo egípcio consistia em selecionar e formar os indivíduos capazes de aspirar a esse tipo ideal e de receber o legado da antiga Sabedoria, formação que se desenvolvia em fases progressivas, das quais as três principais constituem os temas de Pois Chiche e de Her-Bak.
14. A fase preliminar consistia no despertar da consciência latente pelo cultivo das faculdades de observação, do discernimento das qualidades e da noção de responsabilidade, resumindo-se em experimentar a vida, olhar e discernir, na candura da criança diante da escola da Natureza.
15. A segunda e a terceira fases correspondiam à iniciação progressiva no conhecimento das leis causais, graduada segundo as possibilidades de cada estudante.
16. Esse programa de fases sucessivas foi simbolizado no próprio desenrolar das dinastias egípcias.
17. Uma primeira expressão desse simbolismo encontra-se na progressão do desenvolvimento dos textos, desde a concisão enigmática das inscrições das Pirâmides até a prolixidade da época ptolomaica.
18. Uma segunda expressão está na progressão análoga da participação dos funcionários e, depois, do povo nas prerrogativas faraônicas relativas aos ritos religiosos e funerários.
19. A história de Pois Chiche refere-se à realização da primeira fase, amplamente documentada pela decoração mural dos túmulos particulares e por diversos contos e relatos, e procura evocar a atmosfera de seu meio, o caráter de sua terra, a linguagem e a atitude da vizinhança, bem como as influências e circunstâncias capazes de favorecer ou perturbar essa educação preliminar.
20. Her-Bak introduz a segunda fase, com uma visão da simbologia hieroglífica e teológica, para alcançar, na terceira fase, a questão suprema dos destinos do homem.
21. Pois Chiche e os heróis de sua história encarnam alguns seres de elite que extraem de si mesmos a força do discernimento, cultivando-se como sementes no meio da massa do fruto, massa nem pior nem melhor que outras, mas que a sabedoria das sementes faz cooperar para a qualidade do próprio fruto.
22. A educação de Pois Chiche, sob sua aparência infantil, é tão importante quanto a instrução de Her-Bak, pois retrata as condições indispensáveis à compreensão da antiga Sabedoria.
23. A primeira dessas condições é a abertura do “ouvido interior”, que os egípcios consideravam necessidade primordial para qualquer acesso ao conhecimento.
24. As demais condições são a simplicidade de coração e de pensamento, oposta à complexidade do pensamento moderno, e o espírito de síntese, oposto à mentalidade analítica contemporânea.
25. Pela aquisição dessas disposições, Pois Chiche se tornará Her-Bak e poderá aproximar-se da sabedoria dos Mestres.
26. Her-Bak é o estudante ainda livre para escolher a matéria e a qualidade da instrução que receberá, e virá a ser o discípulo, artífice por sua própria escolha de seu destino, evoluindo entre outros discípulos que encarnam diferentes pontos de vista da busca humana.
27. O Mestre apresentado em Her-Bak é, em sua realidade, o próprio Egito, isto é, sua Sabedoria milenar, construtora da obra formidável que transmite seu testemunho por meio da linguagem arquitetônica, escultórica e hieroglífica.
28. A compreensão dessa simbologia exige uma mentalidade tão diferente da moderna que requer um considerável esforço de adaptação, pois a Ciência revelada pelos monumentos egípcios não é acúmulo de noções, mas conhecimento das leis causais que permitia encontrar na Natureza as formas e expressões simbólicas capazes de concretizar vitalmente abstrações de outro modo inexprimíveis.
29. O ensinamento desses Mestres não pode ser transmitido por fórmulas teóricas, e a própria posse de suas chaves seria insuficiente sem a adaptação do modo de pensar ao seu espírito de síntese e do modo de ver à sua simplicidade, entendida como supressão das deformações impostas pelas restrições do mental, pelas teorias rotineiras e pelos preconceitos.
30. Pois Chiche – Her-Bak propõe-se, por isso, a criar uma atmosfera capaz de refletir a ambiência egípcia, levando o leitor como companheiro de busca, associando-o a suas dúvidas, fracassos e descobertas e abrindo-lhe sucessivamente as portas do Templo egípcio, até que, munido do necessário, esse companheiro de jornada possa por sua vez empreender a viagem do peregrino.
