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Personalidade Humana, imagem reduzida do Universo

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

O homem egípcio considera-se uma imagem de Deus, digna de seu amor e capaz de a ele responder. A posição que ocupa no universo não é a de uma criatura de exceção por suas origens, mas pelo fato de que, sendo um ente pensante, o homem está em condições de conceber as coisas, conferindo-lhes assim uma realidade coerente à qual busca integrar-se.

Um certo número de traços que definem a personalidade lhe são comuns com os deuses e os animais. Todos são manifestações da vida; a parte especial do homem consiste em tê-la representado e dela ter feito uma força à qual não se limita a sofrer, mas que imagina poder regular por meio de ritos cuja execução regular lhe faz sentir a continuidade para além da morte e da destruição que atinge diariamente os indivíduos.

O rei Kheti III dirigia-se assim ao seu filho e sucessor Merikare, ao final da X Dinastia:

Governa os homens, o rebanho de Deus,
Pois ele fez o céu e a terra em sua intenção.
Por eles, ele afugentou o monstro das águas.
São suas imagens saídas de si mesmo.
Ele ascende ao céu em sua intenção.
Fez para eles as plantas, os animais,
Os pássaros e os peixes para os nutrir.
Fez para eles príncipes no ovo,
Chefes para sustentar o dorso do fraco.

O homem possui também sua geografia sagrada ou conjunto de ligações entre seus diferentes níveis de realidade. A dualidade corrente corpo-alma não pode ser aplicada, pois os egípcios representam a personalidade humana como uma realidade complexa onde vários princípios ou funções se relacionam de maneira interativa.

De fato, encontra-se no homem uma interação ativa entre os mundos concreto e imaginal: a personalidade humana compreende quatro componentes no plano concreto e quatro componentes no plano imaginal. Esses oito componentes não constituem dois sistemas paralelos, independentes um do outro, mas dois sistemas em estreita interdependência. Não se deve tampouco imaginar esses oito componentes sobrepostos uns aos outros. Entre as duas séries, concreta e imaginal, existe um intervalo que permite uma relação dinâmica e de interpenetração; todas as inter-relações são simultâneas.

Cada nível de realidade — concreto e imaginal — age como uma unidade composta de elementos sem diferença hierárquica entre si; isto é, segundo as funções desempenhadas, alguns dirigem os outros, mas não são sempre os mesmos que dirigem. Há uma permutação de papéis.

Esses oito componentes constituem um verdadeiro circuito de correspondências.

Os componentes do mundo concreto são: o corpo, o nome, a sombra e o coração.

Os componentes do mundo imaginal são: Akh, o corpo de luz; Ka, a força vital universal; Ba, a identidade paradoxal e Sahu, o Caráter ou Deus no homem, ou ainda o corpo de glória.

A personalidade humana é, portanto, formada por duas cruzes complementares, deslocadas uma em relação à outra. Entre duas realidades concretas, há uma realidade imaginal e vice-versa, o que cria sempre uma relação de terceiro incluído.

Estudar-se-ão sucessivamente os oito componentes da personalidade humana:

O corpo

Após a morte, o corpo torna-se múmia, suporte-símbolo neste mundo da reconstituição dos componentes que tendem à dissociação e que, graças aos ritos funerários, permite a transfiguração do defunto em um corpo de luz ou Akh.

O corpo reveste vários aspectos, correspondendo a denominações diferentes: Djet é o corpo material oposto à noção de alma. Djet é também o nome da estátua enquanto corpo do deus.

Sahu é a múmia, isto é, o corpo incorruptível, o corpo de glória. Finalmente, Khat é o cadáver, ou matéria corruptível.

Akh

Toda aventura humana é vivida como uma via de mutação, e a personalidade humana, graças ao olhar paradoxal do gesto-símbolo, permite essa transfiguração que os egípcios situam após a morte, expressa pela noção do Akh ou corpo de luz. O Akh é uma sorte de corpo de glória ou potência superior do ser que se manifesta após as mutações da morte ou bem após uma alta iniciação, visto que certos personagens se outorgaram o título de Akhou ou Maakherou (Justificado) ainda em vida.

O nome ou Ren

Os deuses, os homens e os animais o possuem; os animais possuem apenas raramente um nome individual, mas sim o da espécie. O homem, por outro lado, possui antes de tudo um nome individual; quanto aos deuses, portam uma infinidade de nomes.

O nome das coisas indica sua potência, sua realidade vibratória. Cada coisa possui um nome interno que contém seu segredo. Conhecer o nome de uma coisa torna capaz de agir sobre ela, pois seu nome a devolve à existência pela recordação.

O nome guarda a qualidade do que se é. Para os animais ou as plantas, é uma qualidade genérica ou coletiva; para o homem, uma qualidade individual e, para os deuses, uma qualidade múltipla como as faces do Universo.

Ka

Assemelha-se ao nome, à potência. Mas se o nome nos sinaliza como entidade particular, o Ka nos liga à força universal que anima o Cosmo.

O Ka é a força vital que permite ao nome existir.

O nome é mental (forma), o Ka é energia. É a vitalidade de um ser, sua faculdade de executar os atos da vida. O plural da palavra é frequentemente empregado para designar os alimentos com o auxílio dos quais a vida se mantém nos corpos.

O Ka é associado à oferenda, ao sustento energético de todas as ações. É a ele que se dirige explicitamente na fórmula de evocação do nome.

Quando Khnum, o deus oleiro, fabrica na argila o primeiro corpo, cria ao mesmo tempo o Ka, gêmeo energético do corpo físico. Sem o Ka, não há vida. Morrer é separar o Ka do corpo. O corpo pertence apenas a este mundo, enquanto o Ka habita o visível e o invisível; é ele quem se dirige ao além através da falsa porta do túmulo.

Afirmar que os mortos têm um Ka é, de certa forma, negar a própria morte. Mas esta negação só tem sentido se os vivos continuarem a ocupar-se de seus antepassados pela recordação e pelas oferendas (manifestação visível da recordação).

A visualização da morte permite fazer reviver. Ela é o agente da ressurreição, da imortalidade.

Pelos ritos, cuida-se da memória do morto; impede-se que se dissolva ou que se fragmente em múltiplos pedaços, ou seja, que se torne inconsciente ou inerte. O culto aos antepassados põe em marcha a imaginação revivificadora que abole a morte como extinção.

O coração

Se o nome possui o princípio de identidade ou o segredo das coisas (a chave do personagem), se o Ka o mantém vivo neste mundo e no outro, o coração é a sede da atividade criadora.

A imaginação torna-se realidade por intermédio da língua, que transforma o pensamento em palavra e, portanto, em ação (nomear as coisas é agir sobre elas). Mas o coração funciona também como memória e por isso pode servir para caracterizar a pessoa até no além, onde os corações são pesados no tribunal de Osíris, para saber se o coração do defunto permaneceu durante a vida na terra tão leve quanto Maat, se soube guardar o equilíbrio em seus atos.

O coração não é a consciência, mas o testemunho da atividade pensante inteligente do homem. É habitado pelo deus Sia, cujo nome significa simplesmente conhecimento. O conhecimento do passado está ligado à memória, enquanto a imaginação criadora se refere necessariamente ao futuro.

Assim, para os egípcios, o coração simboliza o lugar da reunião dos contrários: passado e futuro, memória e renovação. Este componente da personalidade aparece como o lugar onde as coisas se cruzam e se ligam.

O templo, chamado o lugar do coração, Set Ab, é o lugar da coincidentia oppositorum, onde o tempo é abolido. É também no coração que está estabelecido o deus que reside no homem.

Sahu

É o eu pessoal/temporal.

Sahu, o caráter, é responsável pelo comportamento social do indivíduo. Se a relação com o deus interior parece intermitente, o caráter possui uma permanência e constitui o que diferencia os homens uns dos outros, ditando-lhes seus tipos de conduta pessoal.

A sombra

A sombra de uma árvore é o signo do frescor e da proteção. A sombra é a imagem silenciosa de nossa personalidade. Ela protege e desempenha um papel ativo após a morte. É ela que aparece como um duplo capaz, à noite, de deixar o mundo dos vivos para atingir o dos falecidos. Esta mobilidade entre o visível e o invisível fê-la ser confundida, no último período do Egito faraônico, com o Ba, isto é, a identidade de cada um; da mesma forma que se estabelece um amálgama entre o nome e o Ka. Com efeito, nessa época tardia, a imagem humana vê-se reduzida e simplificada em detrimento da visão metafísica dos tempos arcaicos.

Esta sombra chama-se Shut ou Shuit (impropriamente chamada Khaibit em certas épocas) e não deve ser confundida com a sombra errante, muito menos favorável, denominada Lamdzi.

O Ba

O Ba é representado antigamente como um pernalta e mais tarde, a partir da III Dinastia, como um pássaro com cabeça humana.

Como em todos os elementos vistos até aqui, o Ba não é exclusivo do homem. Sua função é capital, pois pode ser definida como aquela que liga as duas faces do ser, o real e o imaginário. O Ba liga visível e invisível, observável e não observável, passado e futuro, noite e dia, deuses e homens, além e aquém, assegurando assim à pessoa sua continuidade.

A sede da dualidade complementar é o coração, onde residem a memória e a imaginação criadora, o passado e o futuro.

O residente oculto do coração, aquele que estabelece a ligação paradoxal, é o Ba, o agente do mundo imaginal, seu princípio ativo. O coração é testemunha, o Ba é ator. O coração é a residência, o templo; o Ba é o oficiante e o habitante.

Esse mesmo jogo de polaridades estabelece-se em outro registro entre o corpo-múmia (o inerte, a pedra) e o Ka (a força vital que ativa as coisas). Os componentes da personalidade ligam-se, portanto, por pares de polaridades antagônicas e complementares ao mesmo tempo. Tudo indica que a visão antropológica forjada pelos egípcios faz do homem um residente do paradoxo.

O plano físico é animado pela biunidade corpo-Ka; o plano psíquico pela biunidade coração-Ba.

A estátua divina que reside no naos do templo é animada anualmente durante a solarização; faz-se descer sobre ela o Ba da divindade. Pela descida do espírito Ba do deus, a estátua torna-se a sede efetiva do deus, capaz de irradiar com sua presença todo o templo.

Chama-se também Ba de um deus o animal sagrado que o encarna no recinto reservado próximo ao seu templo (é a imagem portadora do sagrado do deus neste plano, visto que cada animal é suposto portar uma energia particular do Cosmo). Associa-se igualmente ao Ba as forças que fazem com que, cada dia, o Sol passe do mundo subterrâneo da noite ao céu diurno para iluminar a terra. Através do Ba, o homem morto pode manter conscientemente contato com os vivos e vice-versa. O Ba é a identidade paradoxal que permite a individuação e a imanência.

Nesta visão, a imagem-símbolo do coração aparece como o lugar das mutações, e pode-se melhor compreender por que, nos grandes sacerdotes ou no Faraó, o órgão físico era substituído na múmia por um escaravelho-coração.

O escaravelho, Kheper, etimologicamente devir, chegar a ser, é suposto empurrar o Sol. De fato, este inseto empurra entre suas patas seu alimento que, com a areia e sua saliva, torna-se uma grande esfera com a qual ele se confunde. Os egípcios viram nessa imagem a da transmutação do ser terrestre em consciência de luz.

O escaravelho alado solar protege o defunto e simboliza sua nova metamorfose. Reaparece sobre o peito do morto, sobre seu coração — com as asas fechadas — e sobre seu plexo — com as asas abertas — alçando voo e reinando sobre o plexo do transfigurado, acima dos quatro filhos de Horus que simbolizam os quatro elementos ativos da personalidade: o corpo-múmia, o Ka, o coração e o Ba, ou seja, a Terra, a Água, o Ar e o Fogo.

Cada um dos personagens representa uma direção do espaço que, com o escaravelho alado, compõe a pirâmide de luz do novo ser. Não se deve ceder à tentação de atribuir um valor real ao que lembra uma realidade física, como o coração ou o corpo, visto que para o egípcio o mundo é constituído de duas faces complementares e antagônicas: o imaginário e o sensível, que constituem o real.

O reducionismo do pensamento egípcio, que se efetua na época tardia do Egito faraônico, produz o desaparecimento dos componentes imaginais ou bem sua identificação com os componentes do plano concreto; assim, o Ba identifica-se com a sombra, e o Ka com o nome, etc.

Ora, a perda de consciência do mundo imaginal faz perder o contato com o real, e o concreto não é mais do que aparência, a espiritualidade torna-se superstição e fetiche.

Por outro lado, graças ao pensamento simbólico (imaginação ativa) e ao rito (gesto simbolicamente concreto), o egípcio introduz-se em outra dimensão: a da participação na manutenção do mundo. Ele é então cogestor da Criação por sua ação sacerdotal, como ponte entre dois mundos.

Os deuses manifestam-se no plano concreto graças aos templos e às estátuas ou lugares de emergência hierofânica.

O homem, ao contrário, passa ao imaginal por princípios não observáveis (Ka, Ba, etc.), dos quais o Faraó é a imagem transcendida, visto que representa o homem possuidor de um Ka divino.

A diferença entre os homens e os deuses está na capacidade relativa de residir mais em um plano ou no outro. O plano natural dos deuses é o imaginal e o dos homens, o concreto; mas o homem constitui sua realidade com componentes dos dois planos — tal como o Egito terrestre é o duplo do Egito celeste ou imaginal. Assim como os mortos vão visitar o reino dos deuses (com seus componentes imaginais), os deuses visitam os homens.

Através de estátuas, pedras ou animais, a potência dos deuses pode emergir na terra e é por intermédio do Faraó, dos sacerdotes iniciados e dos mortos que o homem se exprime e participa do mundo dos deuses.

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