1.1 Varia de Variis
SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
1. O homem define-se, antes de qualquer outra determinação, como o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe foi e lhe é dado, e dessa Recusa, situada no fundo de um abismo sem fundo e figurada no mito de Adão que se recusa a continuar vivendo no Paraíso, decorrem todas as demais determinações humanas, sendo ela a primeira afirmação do homem como vontade de firmar-se em si mesmo.
2. A Recusa não se reduz ao fascínio de só aceitar como seu o que se fez com as próprias mãos, pois todo fazer pressupõe um desfazer, e o ponto crítico dessa destruição está em atingir o que o homem não fez nem poderia fazer, a Natureza, na qual ele se sente tão pouco à vontade quanto Adão no Paraíso, mas da qual, ao contrário de Adão, não pode exilar-se, de modo que destruí-la é solução precaríssima que acabará custando-lhe a própria vida.
3. Homem e mundo são parceiros inseparáveis do mesmo jogo, como as duas projeções de um mesmo ponto num sistema de coordenadas, e ambos dependem solidariamente de um Projeto que os coordena, de modo que qualquer mudança do Projeto altera simultaneamente homem e mundo, o que torna insuficientes as correntes de pensamento que fazem um depender unilateralmente do outro.
4. O sentimento de estranheza diante do mundo ao qual se estava afeiçoado revela que o homem só o percebe como alheio quando já vive em outro mundo que começa a ser seu, porque ele mesmo se tornou outro, o que mostra que o afazer humano obedece a um plano que compromete a obra com o obreiro e o obreiro com a obra, tornando impossível saber que parte do fazer coube ao homem e que parte coube ao mundo e obrigando a buscar o ser deste homem no ser deste mundo e o ser deste mundo no grau de humanidade deste homem.
5. Contra a crença generalizada num só Mundo e num só Homem em contínua mutação, cabe preferir a ideia de uma mutação descontínua, que vai do mesmo ao outro e atinge solidariamente homem e mundo, de modo que se deve falar de homens profundamente dessemelhantes de época para época, cada um interdependente de seu mundo, como pontos situados na mesma perpendicular a duas pautas contíguas, tal como já se fala do mundo do selvagem e do mundo do civilizado ou do mundo do poeta e do mundo do cientista.
6. Desenvolvimento pode ser entendido como desocultação, retirada progressiva de todos os envoltórios até restar a pura presença, e pensar é justamente desenvolver, como se vê no pensar histórico, que consiste em encontrar o mito envolvido pela história, a qual, enquanto história universal, só abriu caminho ocultando e relegando ao esquecimento o mito do Exílio Adâmico.
7. O Projeto instituidor de homem e mundo, que talvez possa receber o nome de Cultura, é abertura por onde irrompe o impensado diante de um pensar disponível, e o mistério se apresenta no limite do pensado sob a figura do absurdo, diante do qual o pensar ordinário recua ou se detém alegando um limite imposto, raramente ousando recomeçar a pensar a partir do próprio mistério.
8. O Projeto é um todo maior que a soma de suas partes, homem e mundo, que nele estão virtualmente contidos, e a Cultura, se pensada não como soma de bens culturais, mas como nexo simbólico e condição prévia de toda correlação entre homem e mundo, identifica-se com ele, sendo como um espaço e um tempo abertos no sem-espaço e no sem-tempo, cuja finalidade permanece em questão.
9. Uma teoria do mito só se constitui quando abandona a ideia de que ele seja apenas mais um entre os traços que compõem uma cultura, compreendendo-o como o plano do traçado que designa a cada traço sua posição e assim configura a cultura num tipo determinado de correlação entre homem e mundo, algo que as discussões pseudocientíficas sobre significados e funções do mito nas diversas culturas não chegam a alcançar.
10. Mesmo culturas aparentemente adversas ao seu mito, como a grega, que contrapõe o lógico ao mítico, teriam um mito inexpresso que as configura e que não coincide com sua mitologia, a qual conserva sobretudo o mito do mundo mediterrâneo pré-helênico, devendo a Grécia autêntica ser ainda descoberta para além das imagens renascentista, iluminista, romântica e neo-humanista, sem que isso a converta no lugar de uma humanidade constituída pela exclusão dos deuses.
11. A tragédia do século V, reinterpretação genuinamente grega de fragmentos da lenda heroica, não desdiviniza homem e mundo, pois a excessividade terrível do herói trágico, sobretudo em Sófocles, provém dos deuses que dele se apossam, e no fracasso os homens aprendem que não podem viver sem os deuses nem contra eles, podendo o mito trágico ser a versão tardia, contada ao entardecer, do mito originário da cultura grega, sem esquecer o trágico já inerente a Homero, como defendeu Aristóteles a propósito da Ilíada.
12. É preciso distinguir o mito como relato do impulso mítico criador de mitos, que pode manifestar-se sem palavra, como no rito desligado de qualquer relato ou nas artes não verbais, de modo que o mito é apenas uma entre outras expressões do mítico, e, mesmo depois que a metafísica e os teoremas tomaram o lugar da mitologia, as raízes mais profundas da racionalidade continuam firmadas e nutridas em terra mítica.
13. A razão humana não encontra em si mesma o alimento de que vive nem o elemento em que vive, pois toda racionalização parte de um irracionalizado e nele se detém, e existe um ponto inatingível pelo intelecto e pela vontade, de onde decorrem as condições de seu próprio exercício, no qual se situa o mítico como impulso criador do mito do homem dotado de intelecto e vontade onipotentes, posto no centro de um mundo inteiramente subordinado a seus desígnios.
14. Esse homem e esse mundo não são ficções de uma fantasia delirante, pois o mundo despotenciado, cenotáfio de todos os deuses, é o mundo do homem que veio a ser Homem, e a vontade de poder disfarçada de desejo de saber encontrará seu limite quando o Homem perceber que já nem mundo tem, o que não é exagero, mas aquilo que poderia acontecer segundo a verossimilhança e a necessidade, no sentido aristotélico do mito trágico, apontando para o Projeto mítico da razão soberana, ainda que a história pareça desmenti-lo.
15. Homem sem mundo e mundo sem homem já ficaram definitivamente para trás no pensamento, mas o perigo da disjunção persiste enquanto não se esclarece a natureza do nexo que os une, que não pode ser o da sujeição de um ao outro, nem o de uma relação de conhecimento em que conhecedor e conhecido permanecem indiferentes, pois a conexão verdadeira exige o mútuo afeiçoamento do mundo ao homem e do homem ao mundo, segundo possibilidades previstas pelo Projeto.
16. A Cultura é drama, nexo dramático cujo argumento oculto é o Projeto, no qual as personagens julgam ter a iniciativa da ação sem saber que apenas desempenham papéis que lhes foram distribuídos, e somente pouquíssimos conseguem desdobrar-se em alguém que joga sabendo jogar um jogo alheio, guardando o segredo do Projeto, enquanto a pior situação é a de quem supõe que o homem cria a cultura que o criou e, no mesmo gesto, o mundo correspondente a cada forma de homem.
17. Como o compromisso entre homem e mundo assumiu formas diversas em tempos e lugares diversos, existem tantos Projetos quantos são os dramas representados, e o triunfo da Cultura moderna sobre as culturas, aparentemente marcado pela ausência dos deuses, pode ser apenas sinal externo de uma presença encoberta de deuses que já não são reconhecidos como tais, cabendo examinar primeiro os deuses assim denominados enquanto modalidades do nexo dramático entre homem e mundo.
18. A fórmula segundo a qual um deus é um aspecto do mundo é inadequada, pois os aspectos não alteram a coisa e não dariam ao deus consistência própria, devendo-se antes dizer que cada deus é um mundo, que cada deus faz seu mundo do que ainda não o era, imergindo e ocultando-se no mundo que fez emergir e desocultou, razão pela qual a mitologia ainda está por fazer.
19. A urgência de escrever essa mitologia decorre da constelação de figura imutável formada por Projeto, Mito, impulso mítico, Cultura, Drama e Jogo, termos parcialmente intercambiáveis, evitando-se identificar diretamente o Projeto com o mítico porque o mito costuma implicar a ação de entes que não são homem nem mundo, o que dificultaria mostrar que a Cultura atual, aparentemente sem deuses mediadores, é forma semelhante às culturas pretéritas.
20. A mitologia que está por escrever não pode limitar-se a ser biografia dos deuses seguida da biografia dos heróis, como fazem os mitógrafos que dão por concluído seu trabalho ao ordenar os relatos tradicionais, valendo a pena arriscar o desvio dessa tradição respeitável, ainda que seja preciso retroceder ao ponto de partida e tomar outro caminho, em vez de repetir uma lição já lida e relida até a náusea.
21. Embora se afirme, desde Schelling e Cassirer, que o mito é tautegoria e não alegoria, a exegese alegórica guarda um germe de verdade, pois o mito quer dizer e diz o que efetivamente diz, e durante mais de dois milênios os alegoristas reconheceram nele fenômenos telúricos e celestes, sentimentos humanos, pressões da coletividade e situações-limite como o nascimento, a morte e a passagem à puberdade, o que mostra que o mito não é biografia dos deuses, mas maneira de falar do mundo e do homem.
22. A falácia da exegese alegórica está em supor que o mito sucede a uma teoria cosmo-antropológica já elaborada, da qual seria apenas a expressão mais atraente, quando o mito não só precedeu historicamente o logos como o precede a cada momento, e, compreendido tautegoricamente, confere significação ao que por si não a tinha, continuando a ser, como alegoria ou como tautegoria, maneira de falar do homem e do mundo.
23. A mitologia tradicional não é falsa ao expor deuses e heróis em primeiro plano, mas esquece o mundo em que os deuses vivem, que não pode ser o mundo atual, definido pela inexistência dos deuses ou pela crença em que já não existem, cabendo traçar o horizonte próprio de cada deus cuja biografia se escreveu, pois os deuses não viveram no Mundo, mas cada um em seu mundo.
24. Se o alegorismo alegorizava os deuses e tautegorizava o Mundo, a nova mitologia deve tautegorizar os deuses e alegorizar o Mundo, entendendo-o como alegoria de mundos diversos com os homens que neles habitam, já que Posêidon, Zeus, Deméter ou Hefesto não são outra maneira de dizer mar, céu, terra cultivada ou fogo, e a mitologia se tece com dois fios inseparáveis, a divindade do mundo e a mundanidade dos deuses, num tecido em que o próprio intérprete se acha entretecido.
25. Prolongando Schelling e o fragmento 30 de Heráclito, um mundo seria um deus visível e um deus, um mundo invisível, de modo que o germe do mito é a cosmofania teocríptica e o mito não é biografia, mas tanatografia, cujo fato seminal é a morte de um deus que morre como deus e ressuscita como mundo, sendo o mundo a última e mais espantosa metamorfose de um deus, tese que compromete o mito com a religião, obstáculo que convém remover e não contornar.
26. O mito, mais do que teofania, é cosmofania e antropofania, pois quem vê um deus morre ou cega, como ocorreu com Sêmele, com Tirésias e talvez com Édipo, e deus e mistério se unem pela ofuscação, não se mostrando diretamente, mas ocultando-se cada deus no mundo que desocultou, de modo que a melhor definição do mítico é cosmofania teocríptica.
27. Embora antropólogos e historiadores constatem mitos sem ritos e ritos sem mitos, a ausência de provas não prova a ausência do mais provável, e nenhum rito existe sem impulso mítico, como mostra o mito da Morte de Deus em Nietzsche e Dostoiévski, continuidade de um impulso que vai do Neolítico de Hacilar e Çatal Hüyük aos cultos mistéricos e ao Cristo que morre para dar vida a um mundo, sendo o único grande mito o da Origem, segundo o qual pela morte dos deuses surgiram os mundos de outros homens e pela morte de Deus surge o Mundo em que se vive agora.
28. A Morte de Deus dá forma ao ritual da vida demasiado humana e ratifica a Recusa Adâmica, mas, diferentemente da morte dos deuses, não desoculta um mundo, e sim dá forma ao Homem que constrói seu Mundo com os destroços do mundo recusado, passando-se do deicídio ao homicídio, já que o Homem não habita o Mundo sempre por fazer e, ao pretender ocupar o lugar vazio de Deus, terá de morrer incessantemente, porque Deus é Excessividade Caótica que sobe do abismo sem fundo.
29. Deus pode ser pensado como Excessividade Caótica, negação de todo limite e abismo sem fundo que se retrai espasmodicamente, e em cada retração nasce um deus que se excede em mundo que o oculta, como a lava de um vulcão que se solidifica em estereogramas de uma linguagem cósmica, imagem que evidencia a imprescindibilidade da alegoria, pois o decisivo em mitologia é fazer que no outro se mostre o mesmo, sendo todo e qualquer mundo divino por excesso.
30. A crença de que a Excessividade Divina se transferiu ao Homem com a Morte de Deus é a mais diabólica astúcia do Grande Separador, pois o Homem pode ser excessivo, mas nunca caótico, uma vez que tem fundo, e a semelhança entre homem e Deus não pode residir na operosidade criadora, imagem antropomórfica de um Deus que nada fez nem faz, embora a crença na capacidade infinita de construir acelere a edificação do Mundo do Homem rumo a uma possível catástrofe, o que torna trágico o mito da Morte de Deus.
31. O mito da Morte de Deus é trágico porque o Homem, radicado na animalidade e dependente da vida de outros entes naturais, não pode construir o Mundo senão à custa da destruição da Natureza, que é também destruição de si mesmo, e os deuses que dormem nas formas naturais das coisas podem vingar-se apossando-se dele até que ultrapasse o limite e se mate, restando aos homens que só querem ser homens viver na Natureza como mensagem da Divindade ou suportar, sem lamentação, um breve lapso de vida à margem da tragédia.
