7 Escatologia
SOUSA, Eudoro de. Catábases: estudos sobre viagens aos infernos na antiguidade. São Paulo: Annablume, 2013.
ESCATOLOGIA E GNOSEOLOGIA
1. Em resumo do que precede, a doutrina tradicionalmente designada por órfica, desde a época helenística e romana, tem por conteúdo uma teogonia que conclui por uma antropogonia implicada no mito de Zagreus, constituindo este mito o fundamento de uma escatologia que por sua vez dá sentido a uma regra de vida.
2. Todos ou quase todos os constituintes de semelhante doutrina se podem indiciar em tempos mais antigos, ficando apenas em aberto a questão de saber se a organização sistemática que se observa nos comentários neoplatônicos também poderia ascender à antiguidade relativa destes elementos, inclinando-se para uma resposta negativa a esta questão e para pensar, com base nos testemunhos conhecidos, que a um sincretismo tardio se deve, por exemplo mais claro, o arranjo de versões de teogonias que entre si diferiam pelo menos quanto à sucessão dinástica.
3. Resta porém esta certeza: se o mito de Zagreus não é invenção recente, e pode-se com segurança afirmar o contrário, e se ele, como se pode depreender das notícias acerca da obra de Onomácrito, já no trânsito do século VI para o século V fazia parte das doutrinas órficas, difícil é imaginar que o papel que desempenhava então fosse diverso daquele que o vemos desempenhar no fim, isto é, precisamente o de coordenar a teo-antropogonia com a escatologia, quaisquer que tivessem sido as formas em que os respectivos elementos se encontravam dispostos.
4. O preconceito derrotista e paralisante de não querer ver orfismo em lugar nenhum pode levar ao de o ver, sem nome, em algum lugar em que, com nome, nunca esteve, sendo o caso por exemplo de quem acha hoje na área do xamanismo o que ontem era orfismo, e desta nova orientação do problema órfico se tratará a seguir na parte de verdade que sugere, estando por ora em causa o mito de Zagreus e sobretudo esta tese que apenas se enuncia: de tal maneira órfico é este mito que órfico terá de ser qualquer contexto em que o menor vestígio dele alguma vez tenha surgido, de modo que por extremamente provável que seja a influência pitagórica na redação das lamelas áureas, mais provável se afigura o fundamento órfico desses documentos, uma vez que mencionam a fórmula cabrito, caí no leite, e isso justamente porque só rituais que incorporam o mito de Zagreus lhes podem conferir um sentido histórico inteligível.
5. A primeira e mais evidente das contaminações culturais denuncia-se pela nova concepção de alma, alma de origem divina e proveniência urânica, a alma de vida que se encontra nas culturas de caçadores e não o espírito do morto das culturas dos plantadores, insinuando-se por aqui na Grécia uma nova crença que credita o homem com um ser oculto de origem divina, a qual, pondo a alma e o corpo em desacordo, introduziu na cultura europeia uma nova interpretação da existência humana, a interpretação que Dodds designa por puritana e que seria resultante de um adstrato xamanístico cuja ação começou a exercer-se com a abertura do Mar Negro ao comércio e à colonização grega, isto é, no século VII a.C.
6. Xamã é o indivíduo que, havendo recebido um apelo para a vida religiosa, passa por um estágio de rigoroso treinamento que inclui comumente solidão e jejum, donde emerge com a faculdade real ou suposta de passar à vontade para um estado de dissociação mental, e nessa condição se admite que a sua própria alma abandona o corpo e viaja para regiões distantes, frequentemente para o mundo dos espíritos, sendo bem de ver que estas e outras características de um xamã da Cítia e talvez da Trácia se repartem em diversas proporções por personalidades conhecidas, históricas ou lendárias, como as de Ábaris, Aristeas, Hermótimo, Epimênides, Zalmóxis, Pitágoras e Empédocles, e que teriam sido estes últimos os propagandistas na Grécia de uma escatologia baseada no dualismo psico-físico, na crença por conseguinte em uma alma separável que por meio de técnicas adequadas pode apartar-se do corpo mesmo durante a vida e que, sendo de mais remota origem do que o corpo, a este sobreviverá.
7. Pois bem, se houve uma influência xamanística, a obra de Onomácrito no fim do século VI podia ter consistido precisamente em traduzir o mito de Zagreus nessa linguagem nova, e com efeito no mito cretense os matadores de Dioniso não são os Titãs mas sim os Curetas, o que constitui uma ligação direta entre o mito de Dioniso Zagreus com o de Zeus Kretagénes, e provavelmente em Creta nada se dizia ainda acerca da fulminação dos assassinos, de modo que o fato apontado por Pausânias de que Onomácrito tirou de Homero os nomes dos Titãs e deles fez os autores da paixão de Dioniso teria dado origem à tradição segundo a qual Orfeu imitou Hesíodo.
8. A introdução dos Titãs no mito mediterrâneo de Zagreus seria pois um dos vestígios mais claros da intersecção histórica de dois grandes círculos culturais na concepção e na terminologia de Jensen: o círculo bem definido dos plantadores primitivos, cujo mito fundamental é o da divindade dema de cujo corpo nascem as plantas úteis, e de outro círculo de muito mais difícil determinação que abrange também culturas de plantadores não de tuberosas mas de cereais, em que ocorre com significativa frequência o mito prometeico do fogo e da semente roubados ao céu.
9. Portanto, provado que estivesse ou provado que fosse que o mito de Zagreus forma o núcleo primitivo da mitologia órfica, que este mito de origem mediterrânea emerge efetivamente dos mais antigos substratos da cultura grega e que Onomácrito o reelaborou no sentido do xamanismo recém-difundido na Grécia, chegar-se-ia por via de mais concreto referencial a concluir mais uma vez na possibilidade já apontada da precedência do orfismo em relação ao pitagorismo.
10. Sem dúvida que Pitágoras e pitagóricos procederam nas colônias de Itália em sentido convergente àquele em que procedeu Onomácrito na Grécia metropolitana, mas o influxo da escola muito mais transparece no elemento escatológico do que no elemento teo-antropogônico das doutrinas órficas, sendo em todo caso certo que não se podem imaginar os mitos terminais de Platão, pelo menos na parte em que o filósofo os não deformou sob imperativo da sua dialética, sem a transmigração das almas e a catarse apolínea que bem se acomodam ao pitagorismo mais antigo, e aquela espécie de pecaminosidade original de que uma primitiva versão do mito de Zagreus estava inteiramente destituída mas que surge por obra de um ou mais intérpretes do espírito da época nas versões em voga a partir do século V.
11. Provável é que se trate de outro modo de sugerir a mesma coisa em quem para tal se predispôs pelo exercício da inteligência, pois se há uma diferença é nela que se expressará a ideia que ainda não estava nem podia estar presente no mito primitivo das catábases, órficas ou não órficas.
12. A aspecção mais superficial não notará qualquer diferença, e por isso se disse que a mais antiga versão histórica da escatologia do orfismo é a que se reconstrói pelo confronto dos testemunhos prestados por Píndaro, Empédocles, Lamelas Áureas e Platão, podendo consultar-se por exemplo o quadro em que Frutiger traçou uma concordância pela qual se verifica que a cada um dos elementos da escatologia mencionados pelo grupo Píndaro-Empédocles-Lamelas Áureas corresponde sempre uma ou várias passagens de Platão em que o filósofo cita ou alude ao mesmo elemento, resultando daí a certeza de que no referente ao conteúdo a alteração platônica é insignificante.
13. Portanto, se alteração existe, e não se pode deixar de supor que exista, não reside ela na matéria mas na forma, ou melhor, na intenção em que os mesmos elementos se recompõem para constituir uma mensagem original, e é essa intencionalidade platônica que faz que não mais, depois de Platão, as antigas catábases possam vir a ser tão somente o que eram antes, ou que, como foram antes, voltem a ser entendidas.
14. Antes, julga-se saber o que foram: na epopeia homérica, a expressão original da ideia de que o herói não o será verdadeiramente sem que ultrapasse o último horizonte da experiência, ainda a da menos.
15. Poder-se-ia certamente tentar uma destrinça do que no Mito de Er se deve às catábases tradicionais e à mitopoética de Platão, mas não se está certo de que por semelhante processo mais se lograsse obter do que algumas diferenças quanto à matéria do relato, destituídas de valor indicial no que se refere ao sentido da aplicação especificamente platônica da expressão original das catábases, em contrapartida afigurando-se que na Alegoria da Caverna é que esse sentido mais claramente se poderá entrever.
16. Em primeiro lugar os antecedentes: no livro VI da República, por boca de Sócrates, Platão diz, como por sua própria conta o dirá na VII Epístola, que o Bem, objeto supremo do conhecimento filosófico, reside epékeina tês ousías, quer dizer, para além da essência, o que significa que por muito longe que alcance no conhecimento dos entes a dialética sempre se deterá para aquém daquele Ser que faz que os entes sejam o que na verdade são, e por isso Sócrates, que era filósofo, se calou no momento em que Adimanto e Gláucon esperavam o fim de tão longo discorrer, e por isso Dionísio, que não era filósofo, supunha ter escrito as palavras definitivas, aquelas que Platão sabia por experiência filosófica que nunca escreveu e jamais poderia escrever, embora também soubesse que, podendo, ninguém melhor do que ele as escreveria.
17. Do Bem, Ser do que é, Sócrates não pode falar, mas instâncias de Gláucon resolvem-se a um expediente: dirá do filho (tôkos), neste caso o Sol, o que não pode dizer do pai, prevenindo sempre Gláucon de que não se iluda tomando o juro (tôkos) pelo capital.
18. Imagem apropriada e a mais sugestiva, pois o Sol é fonte de luz e fonte da existência, fonte da geração das coisas que existem e do meio pelo qual melhor do que por qualquer outro nos apercebemos da existência delas, mas imagem somente, sendo o Sol no mundo visível o que seria o Bem no mundo inteligível.
19. A partir do símbolo proposto a parábola desenvolve-se muito naturalmente: no mundo visível o Sol produz as coisas que se veem e dele emana luz mediante a qual a visão, faculdade, apreende o visível; no mundo inteligível a Ideia do Bem produz as ideias que se intuem e dele emana a verdade, que é o meio pelo qual a ciência apreende o inteligível, sendo pois a proporção a seguinte: Sol está para Ideia do Bem assim como Luz está para Verdade, Visão para Ciência e Visível para Inteligível.
20. Esta relação estabelecida pela análise do Símbolo-Sol desenvolve-se mais pormenorizadamente na comparação que se segue, toda referida ao esquema geométrico da Linha Segmentada, na qual Sócrates divide um segmento de reta primeiro em duas partes desiguais A e B, representando A o mundo inteligível e B o mundo visível, e depois subdivide cada uma destas partes em dois segmentos, A em a' e a“ e B em b' e b”, de maneira a satisfazer a relação de proporcionalidade a' está para a“ assim como b' está para b” assim como A está para B.
21. No segmento B, que representa o mundo visível, b' e b“ referem-se a dois graus sucessivos de realidade na irrealidade do visível, o primeiro às imagens e sombras dos objetos e o segundo aos próprios objetos visíveis, e no segmento A, que representa o mundo inteligível, a' e a”, simétricos a b' e b“, correspondem, o primeiro à menor realidade do hipotético e o segundo à maior realidade do não hipotético.
22. Por outro lado, se a ciência é a faculdade do inteligível, também há dois graus de ciência: sobre o hipotético incide a razão (diánoia) e sobre o não hipotético a inteligência (nóesis), e do mesmo modo, se a opinião (dóxa) é a faculdade de apreensão do sensível, também há dois graus de opinião, simétricos e homólogos aos dois graus de ciência: à razão corresponde a conjetura (eikasía), faculdade de apreender relações de verossimilhança entre imagens, e à inteligência a fé (pístis), faculdade de apreender relações corretas entre coisas.
23. Em suma, dois graus de irrealidade (b' e b”) e dois graus de opinião, dois graus de realidade (a' e a“) e dois graus de ciência, os dois primeiros no mundo visível das cópias e os dois últimos no mundo inteligível dos paradigmas ou das ideias, os dois primeiros à luz física do Sol e os dois últimos à luz metafísica do Bem.
24. Com isto Sócrates ainda não se dá por satisfeito e propõe a alegoria, dizendo a Gláucon para imaginar homens habitando um subterrâneo em forma de caverna, cuja entrada aberta à luz exterior se prolonga por toda a extensão da frente, e desde crianças voltados para o fundo do antro, agrilhoados pelos pés e pelo pescoço, não podem mover-se e assim não veem senão o que diante deles se passa, ardendo atrás e ao alto, do lado da entrada, uma fogueira, e entre ela e a parede do fundo um muro pouco elevado, como o tabique dos teatros de fantoches, ladeando um caminho percorrido por outros indivíduos que carregam estátuas de homens e de animais, entre estes havendo uns que falam e outros que nada dizem.
25. Em tais condições os prisioneiros só veem as sombras daquelas figuras projetadas pela fogueira, e se falam a conversa incide sobre as sombras que veem passando, sombras que têm voz se ecoa a voz dos portadores das imagens, sendo este o mundo em que vivem e o único que conhecem.
26. Imagina-se agora que um dos prisioneiros, liberto dos grilhões, é obrigado a voltar-se, a caminhar e a erguer os olhos para a luz, e como não sofrerá ofuscado e como não o impedirá o deslumbramento de olhar as coisas cujas sombras há pouco contemplava, e qual não será a sua perplexidade se lhe disserem que menos reais são as sombras do que esses objetos que as produziam, e depois, se o forçarem a olhar a luz da fogueira e a subir a montanha abrupta até chegar à luz do sol, quanto mais ofuscado e deslumbrado não lhe hão de doer os olhos só de ver as coisas que naturalmente se veem, não sendo o caso de revoltar-se contra a violência.
27. Mas acomodada a vista ao brilho do Sol refletido nas águas ou à sua imagem reproduzida em qualquer objeto, momento virá em que o próprio Sol nas alturas do céu ouse contemplar, e então ficará sabendo que ao astro rei se deve o revolver das estações e dos anos e que o Sol de algum modo é a causa de tudo quanto viam ele e seus companheiros no fundo da caverna, e por fim imaginando que, decidindo regressar à sua habitação primeira, como não o ofuscarão as trevas daquele antro e, até reacomodar seus olhos à obscuridade, que riso não provocará em seus companheiros.
