8 Inanna
SOUSA, Eudoro de. Catábases: estudos sobre viagens aos infernos na antiguidade. São Paulo: Annablume, 2013.
ANEXO I SOBRE A DESCIDA DE INANNA AOS INFERNOS {E OUTROS TEXTOS SUMERO-ACADIANOS}
1. De certo modo considerada, toda a literatura é profanação, sendo pelo menos certo que os primeiros documentos literários do Ocidente parecem resultar de uma cisão da primitiva unidade mítico-ritual constituída pelo drama religioso, tornando-se os deuses, cuja verdadeira natureza se encontra toda ela implicada na ação cultural e litúrgica, virtualmente personagens da epopeia e do romance no momento decisivo para a história da literatura em que se apartam o rito, que é mito em atos, e o mito, que é rito em palavras, para se fixar o primeiro sob o gesto encantatório da poesia e o segundo sob o olhar petrificante da medusa legalística e rotineira.
2. À mesma tradição órfico-pitagórica pertenciam as crenças daqueles membros da comunidade ítalo-grega que à hora da morte se muniam das famosas Lamelas Áureas, em que se refletem imagens do Além não muito diversas das visões escatológicas de Empédocles, Píndaro e Platão, sendo escusado lembrar que há quase dois milênios o Símbolo dos Apóstolos propõe à meditação da cristandade a descida aos infernos do próprio Filho de Deus.
3. A mitologia das catábases envolve no seu maravilhoso tecido de imagens uma conceitualizável doutrina acerca da vida e da morte, não sendo ela própria uma teoria explicativa ou o resultado de um esforço de teorização cosmo-biológica, pois teorias e doutrinas começam precisamente no lugar e no instante em que mitos deixam de o ser, mas como primeira aproximação pelo lado mais inteligível poder-se-iam talvez compreender as descidas aos infernos atribuindo certa ideia da vida aos povos que ritualmente celebravam a insólita viagem ao Além.
4. Atendendo todavia a esta eventualidade, que é das mais extraordinárias, entre todas as historicamente concebíveis concepções da vida humana só aquela que teve início coetâneo do próprio advento da literatura épica deverá ser excluída de entre as que mais naturalmente a mitologia sugere, pois nada tão contrário ao espírito e à letra das primitivas catábases como entender que exprimem elas a última aventura da alma, já que almas não descem aos infernos e, quando havia quem descesse aos infernos, ainda não se conhecia a existência das almas.
5. Embora não pareça, o autor da Odisseia já sabe que, heróis ou simples mortais, os homens são entes dúplices, compostos urânicos e telúricos, filhos da Terra e do Céu constelado, não ignorando portanto que Tirésias e Aquiles não podiam ter empreendido após a morte a tremenda viagem para o subterrâneo domínio de Hades e Perséfone e sobretudo que não podiam eles habitar os infernos mantendo uma aparência de vida revigorada pelo sangue do necromântico sacrifício de Ulisses, mas as personagens da Nekyía homérica pertencem ao mais profundo substrato da cultura grega, vindo de tempos remotos em que todos os entes, humanos ou divinos, são unos e simples, corpo-alma ou alma-corpo e não corpo e alma ou alma e corpo, consistindo nisso a gloriosa ficção de Homero: fingir na unidade estética da epopeia a absurda harmonia de um antiquíssimo monismo cosmo-biológico com o recentíssimo dualismo psico-físico.
6. Se a contradição dos dois sistemas e o absurdo que resultava da coexistência pacífica de uma alma de vida e uma alma de morte nos mitos e cultos tradicionais não ofendia a razão do ouvinte e do leitor dos grandes poetas da Grécia, é só porque as descidas aos infernos, que implicam e envolvem a doutrina monística, constituíam o privilégio de alguns deuses como Perséfone e Dioniso ou semideuses como Héracles e Orfeu, para os quais evidentemente se admitia uma condição excepcional.
7. O centro comum das catábases é certa ideia de uma divindade que morre, que ao morrer empreende a primeira viagem ao reino dos mortos e se transforma ela própria nesse reino de que o lugar de culto é a cópia terrestre, exprimindo estas palavras a situação etnológica de uma antiquíssima cultura de plantadores primitivos que hoje se encontra dispersa pela Indonésia, África e América do Sul à margem de outras culturas de mais alto nível na escala valorativa da história universal, mas sendo também verdade que a mesma situação etnológica define o substratum de numerosos elementos mítico-rituais do politeísmo oriental e clássico, mormente aqueles que se denunciam nas artificiosas suturas a que poetas e teólogos procederam sempre que na religião tradicional se lhes antolhava a vigência das mais heterogêneas e heterônomas crenças, sendo assim que por exemplo alguns paralelos submetidos à prova de rigorosos critérios da análise comparativa permitem a espantosa identificação da Perséfone de Elêusis com a Hainuwele de Ceram.
8. As suturas no tecido da mitologia tradicional facilmente se reconhecem pelo modo como é tratada a flagrante contradição entre os poderes das divindades telúricas ou ctônicas e das divindades urânicas ou olímpicas, mostrando-se bem frágeis em certos momentos críticos os laços de parentesco mediante os quais todos os deuses de um panteão se subordinam à autoridade suprema do deus do céu como Enlil e Zeus, sendo exemplo dos mais elucidativos, e referido precisamente pela literatura das catábases, que não há poder divino que obste à devastação da terra enquanto algum deus ou deusa permanece no reino dos mortos.
9. Nas páginas que seguem encontrará o leitor uma tradução da mais antiga catábase da literatura ocidental, a Descida de Inanna aos Infernos, protótipo sumeriano da mais conhecida versão babilônica do poema de Ishtar.
10. A aderência do mito ao ritual claramente se exprime pela ambiguidade em que é descrita a descida do Grande em cima, pelo abandono de Eanna, Emushkalamma e outros templos de Inanna em Erech, Badtibira e outras cidades de Sumer, e pela simulada morte nos infernos mediante a ameaça de destruição da estátua da deusa por artífices do metal, da pedra e da madeira, sendo possivelmente a ação narrada pelo poema apresentada pelo desnudamento ritual do simulacro de todo o vestuário, adornos e emblemas mencionados nos versículos 14-25 e celebrada a ausência periódica nos infernos pela lamentação fúnebre que a própria deusa prescreve ao seu acessor Ninshbur.
11. As sete leis são objetos de culto, notando-se o paralelo com os thesmoí pelos quais se designava a festividade grega das tesmofórias dedicada a Deméter e que evidentemente celebra uma catábase, tendo os latinos traduzido por legífera a epíclese thesmophóros atribuída à deusa das tesmofórias e entendido Deméter ou Ceres como legisladora na sequela de Isócrates, mas como se depreende do mencionado escólio e agora do poema sumeriano não se trata de leis uma vez instituídas mas de objetos sacros anualmente enterrados na fossa que representava a entrada para os infernos.
12. Inanna e Ereshkigal, como Hainuwele e Satene no mito indonésio e Deméter e Perséfone no mito eleusino, são talvez dois aspectos contra-polares, urânico e ctônico, da mesma divindade, não faltando paralelos históricos e etnológicos de tal desdobramento ou contra-polaridade.
13. Os preceitos de Enki a Kalaturru e Kurgarru, de que só restam os últimos após a lamentável lacuna de dezenove versículos, deviam conter preciosos esclarecimentos acerca dos ritos funerários, sugerindo no entanto o alimento da vida e a água da vida as conhecidas libações do ritual ctônico na religião grega, se não o discutidíssimo kykeon dos mistérios de Elêusis.
14. A nota de Kramer lembra que um fragmento inédito da coleção babilônica de Yale completa a sua versão do poema sumeriano de modo surpreendente, pois punha-se outrora a hipótese de o motivo pelo qual a deusa pôs sentido no grande embaixo ter sido o recuperar dos infernos os despojos de Dumuzi, mas ao que refere o fragmento de Yale o paredro de Inanna-Ishtar, em vez de proceder propiciatoriamente como Ninshubur, Shara e Latarek, não se arremessa aos pés de Inanna e por isso a deusa o abandona às mãos do demoníaco cortejo que a acompanha no seu regresso dos infernos, comportando o inesperado desfecho duas interpretações: ou as histórias de amor como a de Orfeu e Eurídice constituem tardia invenção de poetas-mitólogos, ou se trata de mais um exemplo das desumanas relações entre a grande divindade agrária do substrato mediterrâneo e o seu acessor masculino, filho ou amante.
