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HERÓI PAGÃO

ZIMMER, Heinrich. A Conquista Psicologica do Mal. São Paulo: Editora Palas Athena, 2005.

  • O reinado do Rei Conn da Irlanda e da Rainha Eda da Bretanha representava a união perfeita entre Céu e Terra, gerando prosperidade natural extraordinária em todo o reino.
    • A terra produzia colheitas abundantes, árvores com nove vezes mais frutos, rios e mares repletos de peixes, rebanhos excepcionalmente prolíficos.
    • A perfeição do caráter e da conduta dos soberanos se refletia diretamente na prosperidade do reino.
    • O rei e a rainha tornavam manifesto o que os chineses chamam de Tao: a virtude da ordem universal, expressa como Teh, a virtude da própria natureza.
  • O filho de Conn e Eda recebeu os nomes de ambos os pais, tornando-se Conn-eda, criança extraordinária e idolatrada que encarnava as qualidades dos dois progenitores.
    • Os druidas previram ao nascimento que ele herdaria as boas qualidades de ambos os pais.
    • Crescendo, tornou-se o orgulho do rei, da rainha e de todo o povo, muito honrado e amado.
  • A morte da mãe e o novo casamento do pai com a filha do arquidruida trouxeram adversidade a Conn-eda, pois a madrasta, movida por ciúme e ódio, começou a tramar sua ruína.
    • A madrasta desejava a morte ou o exílio do príncipe, para garantir o trono a seus próprios filhos.
    • Diante do fracasso das calúnias, recorreu a meios sobrenaturais e consultou uma célebre feiticeira.
    • Obteve um tabuleiro de xadrez mágico que assegurava sempre a vitória da primeira partida ao seu proprietário.
  • A madrasta desafiou Conn-eda para uma partida em que o vencedor poderia impor um geis ao perdedor, venceu com o auxílio do tabuleiro mágico e impôs ao príncipe a obrigação de conquistar três troféus míticos em um ano.
    • Os troféus exigidos eram: três maçãs de ouro do reino das fadas, o corcel negro e o sabujo do rei das fadas, ambos dotados de poderes sobrenaturais.
    • Tentar se apoderar desses objetos significaria morte certa para o príncipe.
    • A madrasta, porém, perdeu a revanche, e Conn-eda a condenou a permanecer imóvel no pináculo da torre do castelo durante toda a sua ausência.
  • Conn-eda buscou conselho com um poderoso druida, que admitiu não ter poder para ajudá-lo, mas indicou a existência de um Pássaro de Cabeça Humana capaz de conhecer o passado, o presente e o futuro.
    • O druida vivia além dos limites de seu próprio poder e sabia exatamente o que não sabia.
    • O Pássaro de Cabeça Humana vivia oculto em terra desolada e perigosa, difícil de encontrar e de conquistar.
    • O druida entregou ao príncipe uma pedra preciosa para presentear o pássaro, garantindo assim respostas às suas perguntas, e indicou um poldro de pelo eriçado para guiá-lo.
  • O príncipe montou no poldro encantado e dotado do dom da fala, deixando-o seguir livremente, e assim saiu ileso de diversas aventuras até chegar ao esconderijo do estranho pássaro.
    • O cavalo era um animal fadado, com o dom da palavra.
    • Conn-eda apresentou a pedra preciosa ao pássaro e lhe submeteu o problema de sua busca.
  • O Pássaro de Cabeça Humana respondeu ordenando que Conn-eda levantasse uma pedra sob seu pé direito, retirasse de lá uma bola de ferro e uma taça, montasse a cavalo e lançasse a bola à sua frente, cabendo ao cavalo explicar os passos seguintes.
    • A bola começou a rolar à frente do cavaleiro a ritmo constante, guiando o poldro de pelo eriçado.
    • A bola não parou à beira do lago Erne, rolando para dentro da água e desaparecendo.
  • O cavalo orientou Conn-eda a retirar de sua orelha um frasco de elixir-que-tudo-cura e uma cesta, e a montar rapidamente, pois os grandes perigos estavam apenas começando.
    • O lago tornou-se apenas uma atmosfera acima de suas cabeças quando entraram na água seguindo a direção da bola de ferro.
    • A bola foi reencontrada rolando tranquilamente até um rio de leito largo, defendido por três serpentes terríveis de fauces abertas.
  • O cavalo instruiu Conn-eda a lançar um pedaço de carne nas fauces de cada serpente, prender-se à sela e preparar-se para atravessar o guado sem errar nenhum arremesso.
    • Conn-eda lançou os bocados com pontaria infalível e o cavalo declarou que ele era um jovem destinado à vitória e ao sucesso.
    • O cavalo saltou e, num único salto poderoso, superou o rio e o guado.
    • Conn-eda respondeu que gastara metade de sua força apenas para permanecer na sela.
  • Diante de uma grande montanha em chamas, o cavalo advertiu Conn-eda para um novo salto perigoso e voou como uma flecha sobre a montanha incendiada, mas o príncipe saiu queimado.
    • O cavalo declarou que o simples fato de Conn-eda estar vivo provava que era um jovem destinado ao sucesso e às bênçãos sobrenaturais.
    • Os maiores perigos estavam superados, mas havia ainda um último obstáculo a enfrentar.
    • Conn-eda verteu o elixir-que-tudo-cura sobre suas queimaduras e ficou íntegro e fresco como antes.
  • Ao chegar à fortaleza das fadas, grande cidade cercada por altas muralhas e defendida por duas torres de fogo, o cavalo exigiu de Conn-eda o ato mais perturbador da jornada: matá-lo e enrolar-se em sua pele para atravessar a porta ileso.
    • O cavalo pediu ainda que, ao entrar na cidade, Conn-eda voltasse imediatamente para afastar as aves de rapina e derramar sobre a carcaça as últimas gotas do elixir.
    • Uma vez dentro da cidade das fadas, não haveria mais nenhum perigo.
  • Conn-eda recusou com indignação a proposta de matar o cavalo, declarando que nunca sacrificaria a amizade ao seu interesse, mesmo diante da morte.
    • O príncipe jurou por suas armas valorosas que enfrentaria o pior e até a morte antes de violar os princípios da humanidade, da honra e da amizade.
    • O cavalo insistiu, alertando que ambos morreriam se a instrução não fosse seguida.
  • Diante da insistência do cavalo, que afirmou que a recusa traria destino pior que a morte a ambos, Conn-eda cedeu com extrema relutância e, com mão trêmula, vibrou o golpe fatal na garganta do animal.
    • A lâmina pareceu movida por uma força mágica ao cortar o pescoço do cavalo.
    • O jovem se jogou ao chão junto à carcaça, soluçou até perder a consciência e, ao recuperar-se, enrolou-se na pele com pranto e angústia.
  • Conn-eda atravessou a porta da cidade das fadas sem ser molestado, mas caminhava atordoado e absorto em seu luto, sem se deixar seduzir pelo esplendor da cidade.
    • Ao se lembrar do último pedido do cavalo, voltou à carcaça, espantou as aves de rapina e ungiu os restos com o bálsamo precioso.
    • A carne sem vida começou a se transformar e, em poucos minutos, assumiu as feições do mais belo e nobre jovem imaginável, retornando à vida.
  • O jovem ressuscitado revelou-se o irmão do rei da cidade das fadas, que havia sido mantido prisioneiro pelo malvado druida na forma do poldro de pelo eriçado, e declarou que a condição de sua escravidão se rompera quando Conn-eda fora consultá-lo.
    • O príncipe das fadas só pôde retomar sua forma original porque Conn-eda agiu com generosidade.
    • Sua irmã havia induzido a madrasta do príncipe a enviá-lo em busca das maçãs, do corcel e do sabujo, não com intenção maligna, mas para libertá-lo e proteger Conn-eda de perigos futuros.
    • O corcel negro, o sabujo de poderes extraordinários e as maçãs de ouro seriam entregues a Conn-eda, que seria recebido com grande afeto na morada do rei das fadas.
  • Conn-eda obteve os três troféus, foi hóspede do rei das fadas pelo tempo restante de sua prova e, ao partir, foi suplicado a retornar ao menos uma vez por ano.
    • No regresso, não encontrou nenhuma dificuldade.
    • Ao avistar o castelo, a madrasta, que aguardava no pináculo da torre, viu o príncipe retornar a cavalo do corcel negro com o sabujo preso a uma coleira de prata e, em desespero, jogou-se da torre e se despedaçou no chão.
    • O rei, ao tomar conhecimento da conduta infame da rainha, ordenou que seus restos fossem entregues às chamas.
  • Conn-eda plantou as três maçãs de ouro no jardim, e delas surgiu uma árvore magnífica cujos frutos garantiram colheitas abundantes ao reino, cujo reinado superou em prosperidade até mesmo o de seu pai.
    • O reino sobre o qual Conn-eda reinou ainda carrega seu nome: é a província de Connacht, na Irlanda ocidental.
    • O mito pagano antigo foi preservado na linguagem simples do século dezenove nas zonas rurais irlandesas, mantendo a força de sua ciência pré-cristã da alma.
  • O jovem príncipe Conn-eda representa o rebento sem mácula do homem e da mulher míticos ideais, encarnando as virtudes de ambos os pais, simbolizadas pelo seu nome duplo.
    • Ele é saudado como o sucessor perfeito do pai, encarnação humana do Tao.
    • Sob seu influxo, as energias da vida no homem e na natureza deveriam agir harmoniosamente, produzindo abundância.
    • Ele seria o soberano perfeito, ao mesmo tempo benéfico e autoritário, controlando, equilibrando e coordenando todos os elementos antagônicos que constituem a vida.
  • Apesar de sem mácula nas virtudes da juventude, Conn-eda ainda ignora as possibilidades do mal presentes em seu reino, no mundo, na natureza humana e nas forças elementares sub-humanas do cosmo.
    • A pureza radiosa do adolescente poupou seu coração de todos os motivos mais tenebrosos da existência.
    • Ele não sabe nada da face sinistra das coisas, das forças implacáveis e destrutivas que contrapesam a virtude.
    • Tão absolutamente isento de malícia que sequer percebeu a maldade da madrasta sob o próprio teto.
  • Antes de enfrentar a multiplicidade das forças da vida, Conn-eda precisa conhecer a lei universal da coexistência dos opostos e compreender que a completude consiste na cooperação dos opostos mediante o conflito.
    • A harmonia consiste essencialmente na resolução de tensões irredutíveis.
    • A trama da existência é tecida de cooperação antagônica, alternâncias de ascensão e declínio, claro e escuro, dia e noite, yang e yin, segundo a fórmula chinesa.
    • Para tornar-se o rei perfeito, Conn-eda deve tornar-se completo, enfrentando e integrando em si a realidade mais contrária e mais antagônica à sua natureza.
  • O mito de Conn-eda é uma alegoria do sofrimento do cumprimento de si mesmo, descrito nos termos simbólicos típicos de encontros, perigos, desafios e provas.
    • Conn-eda encontra pela primeira vez o princípio de contradição sob a forma da caparbiedade e da cobiça de domínio da madrasta impiedosa, que o expulsa do reino dos viventes.
    • Incapaz de reconhecer o mal e de enfrentá-lo no plano da vida humana, é forçado a confrontá-lo na forma muito mais crua e sub-humana dos elementos destrutivos da natureza.
    • Essa é a significação de sua descida ao lago maravilhoso.
  • No lago maravilhoso, Conn-eda está exposto à fúria cega das forças da vida em seu aspecto indomado e puramente destrutivo, oposto à sua cooperação harmoniosa no reino terrestre do pai.
    • As forças do nível infra-humano são representadas pelos elementos da água e do fogo, úteis e indispensáveis quando submetidos às necessidades humanas e a um controle inteligente, mas cegos e furiosos em si mesmos.
    • Água e fogo, energias da natureza mutuamente antagônicas, distinguem-se pela ambivalência de seus efeitos: sustentadores e destruidores da vida ao mesmo tempo.
    • Representam a totalidade da energia vital e o conjunto do processo da vida, a constante ação e interação dos opostos em conflito.
  • A passagem por serpentes e montanha em chamas constitui a iniciação de Conn-eda ao lado caótico e inumano da vida, semelhante aos antigos mistérios de Ísis e Osíris.
    • Nos antigos mistérios de Ísis e Osíris, o iniciado devia passar pela água, enfrentando a ameaça e a experiência da morte, de onde emergiria renascido como aquele que sabe e que compreende.
    • Conn-eda se torna aquele que conhece, sem fugir da maldade das serpentes, mas lhes rendendo a devida homenagem segundo sua natureza ambivalente.
    • Mozart apresenta uma alegoria dessa via de iniciação em A flauta mágica, obra inspirada na descrição dos mistérios de Ísis e Osíris na obra O asno de ouro de Apuleio.
  • Ao superar os perigos elementares, Conn-eda perde sua inocência, estado de graça infantil que deve ser superado mediante a experiência do caráter intrinsecamente duplo e ambivalente de tudo que constitui a trama da vida.
    • Tal despertar implica o perigo da perda de toda fé na virtude e nos valores do bem, ou o desastre espiritual oposto: a desespero impotente, a desilusão absoluta na capacidade humana de realizar os grandes ideais eternos.
    • Conn-eda está acima desses dois perigos, pois é por nascimento e por natureza o herói eleito, predestinado à busca que regenera a vida.
  • Os poderes mortais da água são representados de modo muito apropriado pelas serpentes gigantescas, que Conn-eda propicia executando sem medo, com destreza e atenção, um ritual de oferendas.
    • Os pedaços de carne lançados nas fauces das serpentes equivalem a substitutos sacrificiais de sua própria carne e de sua própria vida.
    • Esse gesto equivale a um reconhecimento da realidade das forças do caos e a uma admissão de seu caráter divino como presenças demoníacas que têm direito à adoração.
    • Em vez de lhes opor resistência, combatê-las ou fugir, o herói as sanciona, enfrenta sua realidade aterrorizante e torna-se aquele que sabe.
  • Conn-eda escapa à ruína tanto por sua virtude e seu valor quanto pelo apoio e conselho de auxiliadores miraculosos que se manifestam em semblantes animais, encarnando e representando as forças instintivas da natureza humana.
    • Essas figuras simbólicas, os animais prestimosos, são distintas das qualidades humanas mais altas do intelecto, da razão, da coragem e da boa vontade.
    • As qualidades humanas mais altas teriam sido inadequadas para guiar e assistir Conn-eda através de suas provas, cuja natureza é essencialmente incompatível com as crenças e as faculdades de julgamento do intelecto humano consciente.
    • Conn-eda tem humildade e fé, e é precisamente por essa disposição de espírito que as outras forças encarnadas nos animais prestimosos estão a sua disposição.
  • O jovem príncipe deposita confiança implícita nas sugestões crípticas do velho druida e se entrega humildemente ao poldro de pelo eriçado, triunfando com esses bizarros e irracionais talismãs onde um herói mais imponente teria fracassado.
    • O poldro não é um corcel digno de um guerreiro, nem um esplêndido garanhão adequado ao valor principesco de Conn-eda.
    • No linguajar figurado do folclore e do mito, a imagem simbólica do cavalo e do cavaleiro representa a natureza centáurica do homem, fatalmente composto de instinto animal e de virtude humana.
    • O cavalo é o aspecto inferior, puramente instintivo e intuitivo do ser humano; o cavaleiro que lhe monta às costas é a parte superior: o valor consciente, o senso moral, a coragem e a razão.
  • Nesse mito pagano irlandês, é o cavaleiro que se submete humildemente, deixando o animal com rédeas soltas, pois Conn-eda segue sem hesitação a guia de sua sabedoria inferior durante toda a jornada iniciática pelas forças caóticas da natureza.
    • Conn-eda segue o caminho oculto e doloroso que atravessa o imprevisível reino das forças caóticas da natureza, jornada de iniciação aos obscuros segredos dos fundamentos de ambos os mundos das formas: o mundo cósmico e o humano-social.
    • Os conselhos chegam a ele não apenas por meio de sua montaria, mas também por meio do Pássaro de Cabeça Humana e da bola de ferro que rola.
  • O druida que Conn-eda consultou no início era sábio além da sabedoria de seu saber, pois sabia exatamente o que não sabia.
    • É muito sábio ter bem claros os limites do que se sabe, saber onde e com quem se pode obter o conhecimento que não se tem, e saber quais rituais e requisitos de abordagem devem ser satisfeitos antes que a informação desejada possa ser assimilada.
    • O Pássaro de Cabeça Humana é entendido como o aspecto animal do saber do druida plenamente humano, assim como no símbolo do cavalo e do cavaleiro o animal é o aspecto inferior do cavaleiro.
    • Esse pássaro oracular sabe mais que o Velho Sábio porque faz diretamente parte da natureza, é a voz da terra selvagem que a cultura humana não tocou, o senhor do segredo da floresta onde habita.
  • A bola de ferro obedece à gravidade e rola até o centro de todas as coisas, ao reino fadado das forças universais, seguindo e tornando visível a mais geral de todas as leis, a lei que rege o movimento dos corpos celestes.
    • A bola abre, por gravitação, diretamente o caminho que leva ao Motor Imóvel, o Princípio Primeiro de que fala Giordano Bruno em Sobre a causa, o princípio e o uno, o centro do qual procedem todas as coisas, em torno do qual todas as coisas giram e ao qual todas as coisas devem por fim retornar.
    • Entregar-se com confiança à lei fundamental que é o sentido secreto do próprio peso equivale a acordar-se com o vasto ritmo do universo e mover-se com ele.
    • Seguir os impulsos mais cegos, mais surdos e mais mudos, a pura gravidade, significa cair ao centro de todas as coisas: o ponto onde reside a máxima quietude.
  • A abertura ao não-racional torna Conn-eda apto a seguir o difícil caminho, pois, como irlandês da época arcaica, está poupado do defeito característico do homem moderno: a confiança excessiva no intelecto, na razão e na vontade conscientemente dirigida.
    • Conn-eda não opõe nenhuma resistência à guia do inconsciente.
    • Espontaneamente e de todo o coração se submete a todas as ordens insondáveis e aos agentes arcanos que o guiam.
    • Recua, porém, diante de um ato de ingratidão e crueldade, pois os impulsos à violência são tão estranhos à sua natureza que ele fica completamente indefeso diante deles.
  • A última e suprema prova exige que Conn-eda mate, com ingratidão fria e desumana, seu amigo mais querido, o pequeno poldro de pelo eriçado, a guia fiel graças à qual realizou o que suas faculdades humanas jamais lhe teriam assegurado.
    • As provas tornaram-se progressivamente mais duras: na primeira, as serpentes foram aplacadas com uma oferta substitutiva; na segunda, o próprio herói tornou-se a vítima simbólica e se queimou perigosamente.
    • Nessa última prova, a morte não pode ser enganada e é o próprio Conn-eda quem deve ser seu agente.
    • Exige-se que ele seja ingrato, desumano e sem piedade, violando sua virtude de cavaleiro, aquela virtude cavalheiresca e humana pela qual fora tanto elogiado.
  • Conn-eda deve vir a termos com a necessidade de ser cruel, pois jamais poderia tornar-se o rei perfeito sem compreender, por dentro, o crime e a natureza do desumano.
    • Como poderia o rei exercer as funções de juiz supremo se não fosse capaz de transcender seus sentimentos pessoais mais caros, sua propensão à clemência e à piedade indiscriminadas?
    • O jovem inocente deve coroar sua iniciação à sabedoria do mal mediante a consumação de um crime simbólico e sacramental.
    • Ignorando as trevas, o jovem rei jamais teria compreendido a interação de luz e trevas, seu mútuo antagonismo cooperativo, universal no cosmo como na sociedade.
  • Como símbolo de sua transformação e de seu alcance de uma estatura e poder novos e sobre-humanos, Conn-eda é obrigado a revestir os despojos ensanguentados de sua vítima sem mácula para atravessar ileso entre as torres flamejantes que guardam a entrada do reino das fadas.
    • Com essa cobertura protetora, pode passar incólume entre as torres da cólera da natureza, que custodiam a entrada do reino das fadas, onde as energias eternas da existência, que tudo preservam e tudo destroem, têm sua origem.
  • Com a morte do cavalo druídico, Conn-eda não apenas aniquila sua própria virtude humana, mas também o poder instintivo e intuitivo que até então foi sua guia indispensável, a sábia e terna natureza animal representada pela montaria do cavaleiro.
    • A impávida besta, com seus recursos oniscientes e sua força sobrenatural, ajudou-o a superar duas provas aterrorizantes.
    • Ao chegar ao momento do último salto, o animal exige sua própria imolação.
    • Conn-eda não atingirá jamais a perfeição enquanto a parte instintiva de seu caráter centáurico não for radicalmente transformada.
  • É necessária uma separação crítica entre o eu responsável e racionante e a parte inconsciente e instintiva, pois até então a guia do inconsciente profundo esteve sem contrapartida moral, e a personalidade consciente e moral não desempenhou nenhum papel.
    • Deve haver uma momentânea dissolução da fraterna unidade dos amigos ideais, uma ruptura definitiva entre os aspectos racionais e os instintivos dessa única natureza humana.
    • É por isso que a mansa guia exige sua própria fria imolação e que Conn-eda deve ser a mão sacrificial, quente do sangue da criatura que amou e à qual deve a vida.
  • O sacrifício, por mais criminoso, cruel, irrevogável e irracional, dá lugar a uma transformação miraculosa e a um renascimento, pois nada morre, nada se extingue e nada se aniquila completamente.
    • O sacrifício miraculoso é realizado sobre uma vítima voluntária que o exigiu e a ele se submete como a um serviço supremo.
    • A obra é realizada com profundo pesar e consternação, contrabalançada por uma disposição de espírito e um comportamento diametralmente opostos: contrição e compaixão, e a aspersão com o precioso elixir-que-tudo-cura.
    • O príncipe torna possível uma integração de antíteses: ao reagir contra sua mansidão, não a perdeu.
  • A guia ressuscitada assume a aparência de um príncipe das fadas muito semelhante ao próprio Conn-eda, herdeiro legítimo ao trono do reino fadado da vida, com natureza sobrenatural e portanto superior.
    • O poldro, em sua forma animal, era forçado a agir no nível inconsciente-clarividente, mudo e instintivo, como o intuito de um sonâmbulo em equilíbrio na beira de um telhado.
    • Com a morte e a quebra do encantamento, a subconsciência torna-se imediatamente superconsciência.
    • Não mais animal, mas humano na natureza e na expressão, o poder fadado lhe é restituído na plenitude de sua glória.
  • A moral da história, tal como expressa pelos mitos e contos de fadas irlandeses, é a de seguir cega e confiantemente as forças instintivas inconscientes, pois elas farão superar as provas perigosas.
    • Amá-las, acreditar nelas e não frustrá-las com a desconfiança intelectual e com a crítica, mas permitir que impulsionem e sustentem o caminho.
    • Quando chegar o momento, serão elas a estabelecer o momento e a indicar o modo, pois essas forças mudas entendem melhor que o cavaleiro que a morte e a separação dolorosa são um prelúdio ao renascimento, à transmutação e à reunião.
    • Elas sabem o que o eu consciente e racional jamais compreenderá: que a morte não existe.
  • Morte e aniquilamento são conceitos basilares que circunscrevem a consciência e constituem o fundamento do mundo do eu, sendo passíveis de destruição e tendo razão de temer a morte.
    • A consciência de si da personalidade e seu raio de ação são apenas uma fase, uma expressão, um reflexo ou uma manifestação da energia vital na substância composta do indivíduo.
    • Há em cada ser humano um outro ser, abaixo do eu nascido e perecível, que, ignorando completamente o aniquilamento, se sente perfeitamente seguro no vale das serpentes e no salto para além do rio perigoso.
    • Essa presença intrepida diante dos perigos dos elementos, ilesa pelas chamas da montanha, sacrificada, renascida e virtualmente imperecível, participa da virtude dos imortais.
  • A energia vital inconsciente, que subsiste independentemente da consciência do eu e é invariavelmente instintiva, reflete a porção divina da natureza humana, mas só transformando-a, mediante o trabalho consciente, na forma mais alta da superconsciência intuitiva se alcançarão os dons mágicos que são o prêmio da busca.
    • As maçãs de ouro, o filhote de sabujo de poderes extraordinários e o corcel negro são os dons e os penhores das virtudes do reino fadado da vida imortal.
    • As maçãs são idênticas às maçãs nórdicas do jardim de Freya, aos frutos clássicos das Hespérides e ao fruto bíblico da árvore da vida eterna.
    • Afrodite, a deusa do Amor do Trono de Ouro, doou três talismãs semelhantes, provenientes de seus jardins na ilha sagrada de Chipre, ao jovem Hipômenes, quando este arriscou sua vida na corrida com a virgem Atalanta.
  • As maçãs de ouro quebram o encantamento do medo da morte, unindo a vontade ao seu justo objetivo, e são o alimento que faz mudar a pele da mortalidade.
    • São o alimento dos imortais, e os que as provam se identificam com a parte imperecível de sua natureza e são como deuses.
    • O filhote de sabujo de poderes extraordinários, que fareja e persegue sem jamais perder o rastro, é o cão de aponte ideal, uma encarnação de sabedoria instintiva e de consciência.
    • O corcel negro é uma alta e cavalheiresca transfiguração da montaria antes tão modesta, o aspecto que convém ao destrier e companheiro do rei herói.
  • Conn-eda não perdeu nada ao partir do lago fadado e de seu príncipe, pois não há separação, morte nem perda no plano mais alto da existência suprapessoal.
    • Sob a forma das maçãs, do cão e do corcel negro, ele conserva os poderes que antes, mediante os humildes serviços do poldro de pelo eriçado, o haviam assistido e guiado.
    • O poldro de pelo eriçado, que não era nem negro, nem branco, nem alazão, mas a união perfeita de todas as qualidades e de todos os contrários, era o mais modesto veículo da mesma força vital que agora revelou seu poder.
  • Na busca do reino mais alto, o herói passa o período ritual de um ano, símbolo de uma vida ou encarnação, um ciclo completo de existência da primavera ao inverno, do nascimento à morte.
    • Durante esse período, Conn-eda participa da vida dos imortais, sendo aceito por eles como um da sua estirpe mediante o rito sagrado da hospitalidade.
    • Ele se impregna da qualidade de seu superior modo de ser e nela se confirma.
    • Assim, despertada nele a essência divina antes latente, adquire uma natureza dupla e torna-se habitante das duas esferas, a mortal e a divina.
  • Quando o homem-deus finalmente retorna, renascido e com os símbolos de sua sabedoria e de seu poder, as forças do mal desmoronam automaticamente por si mesmas, e a madrasta se lança no vazio.
    • Tal fim é a única verdadeira derrota que pode existir para as forças do mal: autodissolução e autoaniquilamento diante de uma superioridade qualitativa, não quantitativa, alcançada mediante o sacrifício de si mesmo e a vitória sobre si mesmo.
    • Toda falha de integração na esfera humana exige o aparecimento, em algum lugar do espaço e do tempo, do oposto ausente.
    • A personificação do antagonista predestinado mostrará inevitavelmente seu rosto.
  • O dragão presta um serviço à vida ao transformar em afirmação inegável o poder do fator ausente e ainda não integrado, forçando os guardiões da sociedade a levá-lo em consideração.
    • Antes que o dragão possa ser destruído, o próprio herói e a sociedade heroica devem sofrer uma transformação, uma crise de desintegração e depois de reintegração em base mais ampla.
    • Se o dragão for vencido apenas pelo peso das armas, a necessidade de seu reaparecimento não terá sido eliminada, e após um período de recuperação ele romperá as correntes de qualquer prisão subterrânea e desencadeará outra guerra.
    • Os inocentes se esforçam sempre por excluir de si e negar no mundo as possibilidades do mal.
  • A função do mal é manter em movimento as dinâmicas da mudança, pois as forças do mal, cooperando com as forças benéficas de modo antagônico, contribuem para a tessitura da tapeçaria da vida.
    • A experiência do mal, e em certa medida apenas ela, produz a maturidade, a vida real e o real controle dos poderes e das tarefas da vida.
    • O fruto proibido, o fruto da culpa mediante a experiência e do conhecimento mediante a experiência, devia ser engolido no Jardim da Inocência antes que a história humana pudesse ter início.
    • O mal devia ser aceito e assimilado, não evitado.
  • O reino das fadas precisa da ação do perfeito herói humano para reconquistar seu príncipe perdido e ser salvo da desventura, pois, devido a uma desgraça mitológica anterior, o irmão do rei do reino das fadas havia sido afastado de sua morada transcendente e condenado à forma de existência inferior do poldro de pelo eriçado.
    • O príncipe das fadas deseja a libertação desse exílio e seu reino aguarda seu retorno, mas ele não tem permissão de empreender a jornada necessária senão com o cavaleiro humano às costas.
    • O príncipe sobre-humano só pode realizar sua própria salvação ajudando o herói mortal a alcançar a vida imortal.
    • O herói humano alcança a salvação e a completude enquanto o reino das fadas, reintegrando aquele que havia perdido, é curado de sua aflição, restituído em sua perfeição e preenchido de alegria.
  • Uma cooperação entre as forças conscientes e inconscientes é necessária para que se conheça o estado de perfeição hipercosciente, pois as faculdades mudas e instintivas da psique cooperam com a personalidade consciente na perigosa busca dos símbolos divinos da vida.
    • Essas faculdades já tendem por si mesmas a retornar à esfera mais alta, sobre-humana, de onde surgiram; esperam, aguardam e lutam por sua reinstauração há muito retardada.
    • Necessitam, porém, da ação do ser humano, razão pela qual o animal adverte: Se não seguires meu conselho, morreremos ambos.
    • Toda a ação repousa sobre o herói: como protagonista do princípio consciente, cabe a ele realizar os atos decisivos, ainda que seu papel seja o de simples instrumento.
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