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RELIGÃO TRADICIONAL
ZAEHNER, R. C.. The Dawn and Twilight of Zoroastrianism. New York: G. P. PUTNAM'S SONS, 1961.
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Zoroastro ataca uma religião tradicional ao censurar Yima, filho de Vivahvant, primeiro homem segundo a tradição iraniana antiga, por ter dado ao povo porções de carne de boi para comer.
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O crime de Yima parece ter sido não tanto a introdução do consumo de carne quanto o abate de gado em sacrifício aos deuses antigos.
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Esse sacrifício estava associado ao rito do consumo da seiva fermentada da planta Haoma, ligado à intoxicação ritual.
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Yima e seus correligionários são ainda acusados de devastar pastagens e de declarar que o sol e o boi eram “as piores coisas de se ver”.
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A estranheza dessa acusação levou estudiosos a sugerir que o rito instituído por Yima consistia no abate ritual de um touro em local sem sol ou à noite, o que guarda semelhança marcante com os mistérios mitráicos posteriores praticados no Império Romano.
O rito do Haoma, que Zoroastro condenava em sua forma original associada ao sacrifício animal, tornou-se paradoxalmente central à própria liturgia zoroastrista posterior.-
No Yasna 11, parte da liturgia dedicada a Haoma, tanto o boi quanto Haoma aparecem se queixando de maus-tratos, mas o boi não reclama de ser abatido, apenas da distribuição desigual de sua carne sacrificial.
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Haoma queixa-se de que o sacerdote lhe retém a mandíbula, a língua e o olho esquerdo do animal sacrificial, partes que lhe foram destinadas por Ahura Mazdah.
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Na evolução histórica do ritual, o “boi vivo” passou a ser representado pelo leite, mas em sua forma original um boi era efetivamente imolado.
A religião tradicional atacada por Zoroastro pode ser reconstituída em suas linhas gerais tanto pelo Avesta posterior, que readmitiu elementos do paganismo anterior, quanto pela religião paralela do Rig-Veda indiano, que nunca passou por reforma radical.-
No Rig-Veda coexistiam dois tipos de divindades: os asuras, mais remotos e ligados à ordem cósmica, e os devas, mais próximos dos homens e associados ao avanço guerreiro ariano.
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No Irã pré-zoroastrista esses dois tipos também devem ter coexistido, e os daëvas foram considerados por Zoroastro não deuses, mas potências maléficas.
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Indra, o mais popular dos deuses do Rig-Veda, aparece no Avesta posterior como demônio; o mesmo ocorre com Saurva, correspondente ao indiano Sarva ou Rudra, e Nanghaithya, correspondente aos Nasatyas ou Asvins védicos.
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Zoroastro nunca ataca os ahuras, mas também evita mencionar qualquer um deles pelo nome, chegando a mencionar “ahuras” no plural em dois hinos, o que indica que não os havia rejeitado inteiramente ao compô-los.
A visão de mundo de Zoroastro parte das condições concretas de seu tempo, retomando da religião antiga a antítese entre Verdade (asha) e Mentira (druj), mas colocando esse antagonismo no centro de seu ensinamento religioso com uma radicalidade ausente no Rig-Veda.-
De um lado havia uma comunidade pastoril e agrícola sedentária dedicada ao cultivo da terra e à criação de gado; do outro, uma sociedade tribal predatória e destruidora.
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Os deuses dos nômades eram descritos como correspondentes a seu caráter, pois entregavam o boi à Fúria em vez de prover-lhe boas pastagens.
Na guerra contra os “seguidores da Mentira”, Zoroastro não admite compromisso, declarando que quem for benevolente com o seguidor da Mentira torna-se ele próprio um seguidor da Mentira.-
Em seu diálogo com a Boa Mente, Zoroastro se descreve como “verdadeiro inimigo do seguidor da Mentira” e “firme apoio do seguidor da Verdade”.
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O Profeta, porém, não considerava os seguidores da Mentira irremediavelmente condenados, pois todo homem é livre para escolher entre os dois partidos.
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O objetivo último de Zoroastro não era apenas fazer guerra aos seguidores da Mentira, mas convertê-los, a eles e a todos os homens, à nova religião que proclamava.
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