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BILLETER
Jean-François Billeter (1939)
“A TRADUÇÃO DE PERTO”. Trois essais sur la traduction
- Ao solicitar a estudantes que traduzissem textos chineses clássicos ou modernos, as versões entregues eram frequentemente aproximativas e inacabadas, o que levou, retrospectivamente, à constatação de uma causa fundamental do insucesso no ensino: não ter se dado conta suficientemente do que se fazia ao traduzir.
- A fórmula anteriormente repetida aos estudantes — traduzir o texto chinês para o francês e depois reescrever esse francês ruim em bom francês — era demasiado simples
- Tornou-se necessário distinguir pelo menos cinco operações
- A questão central examinada foi: o que significa “compreender um texto” e por quais vias se passa da incompreensão à compreensão
- A tradução, na maioria das vezes, não vem depois da inteligência do texto, mas é o meio de “empreendê-lo” e de progredir metodicamente em sua compreensão
- A primeira operação consiste em traduzir cada frase com a maior precisão e completude possíveis, reunindo os elementos de uma compreensão ainda por vir, e isolando as dificuldades sem fechar nenhuma opção — fase essencialmente analítica.
- Nessa fase, recorre-se a gramáticas, dicionários e comentários eruditos
- O tradutor distingue o que compreende bem, o que compreende mal e o que não compreende
- Anota as palavras francesas entre as quais hesitou e as referências exatas dos dicionários consultados, para não perder tempo em caso de retorno
- Essa primeira operação é composta de uma multidão de pequenas operações
- A segunda operação — contrariamente ao que se pensava — não consiste em reescrever a primeira tradução em bom francês, mas em imaginar o que é dito na frase, mudando de regime mental: deixar o momento de análise e ativar a memória, as associações e a intuição até que se forme interiormente a réplica, o gesto ou a imagem contida na frase chinesa.
- Engajar os estudantes a passar imediatamente para a tradução definitiva era um erro
- Wittgenstein assinalou que “compreender” algo implica uma síntese: elementos que pareciam sem relação entre si são subitamente abrangidos por uma imagem que não existia um instante antes — e nesse sentido “compreender” é um ato de imaginação
- As duas primeiras operações assemelham-se ao solve e coagula dos alquimistas: análise e síntese
- Na primeira operação, é preciso desconfiar da imaginação e não aderir prematuramente a nenhuma interpretação; na segunda, ao contrário, é preciso tirar pleno partido dela
- A terceira operação consiste em dizer o que se vê da maneira mais justa e natural na língua de chegada — não se trata mais de traduzir, mas de ver e de dizer, sendo a visão a pedra do meio do rio sobre a qual se pisa para passar para o outro lado.
- Montesquieu dizia: “Para bem traduzir, é preciso saber bem o latim, e depois esquecê-lo”
- Entre línguas da mesma família, a tradução parece uma operação de conversão de um sistema em outro; entre o chinês e o francês, é raro que a modificação de uma frase chinesa resulte numa frase francesa bem formada — é preciso ver a coisa e expressá-la novamente
- Quando se pena para exprimir o que se vê, frequentemente descobre-se que a representação da coisa não era suficientemente coerente e precisa — e a expressão justa apresenta-se então por si mesma
- Dessa conversão resulta um sentido novo dos recursos da língua francesa e um interesse renovado pelos autores que a manejaram antes
- A tradução de ensaios e cartas de Li Zhi, filósofo do século XVI, ensinou a ler melhor o chinês, mas talvez ainda mais a manejar melhor o francês
- A conversão instaura também uma espécie de igualdade entre o tradutor e o autor: ao tomar consciência da liberdade que lhe oferecem os recursos do francês e das restrições que ele impõe, o tradutor toma também consciência da liberdade que o chinês oferecia ao autor — o que autoriza deixar de reproduzir no francês o que no texto original decorre apenas de restrições lexicais, gramaticais ou retóricas
- Traduzindo, aprende-se a manejar as línguas, a ler bem e a escrever — concentrando toda a atenção nos meios de expressão, o tradutor adquire um sentido aguçado da forma
- A quarta operação consiste em verificar se o que se diz em francês corresponde ao que é dito em chinês — se as duas frases exprimem a mesma coisa e produzem o mesmo efeito —, e cada operação pode ser posta em questão pela seguinte ou por uma das seguintes.
- Se houver discrepância, é preciso retornar à terceira operação para dizer melhor o que se viu; eventualmente à segunda para ver a coisa de outra forma; ou mesmo à primeira para retomar a análise dos elementos da frase
- É importante dizer as duas frases em voz alta — de preferência — para perceber pelo ouvido o último desvio que ainda pode subsistir entre elas e corrigi-lo se possível
- Nessa fase, lida-se com duas vozes bem distintas, de modo que a contaminação de uma pela outra não é mais de temer
- A quinta e última operação consiste em retrabalhar todo o texto em francês — regular o encadeamento das frases, criar pelo ritmo o efeito de impulso desejável, enxugar e aliviar o estilo eliminando repetições e palavras supérfluas, e modificar a escolha de certos termos para criar efeitos de ressonância ou reverberação semântica.
- Nessa fase, é possível reformular inteiramente certas frases, dividir uma frase longa, reunir várias em uma só ou modificar sua ordem — liberdades a tomar sempre que sirvam melhor ao pensamento do autor
- É importante ler em voz alta o que se escreveu: após o trabalho silencioso, essa leitura provoca um distanciamento salutar e a maioria dos defeitos remanescentes aparece imediatamente, em particular os que ferem a eufonia
- O que choca o ouvido na leitura em voz alta perturba igualmente na leitura silenciosa, onde sempre subsiste um eco da música da língua
- Os estudantes sem experiência não percebem que o tempo da escrita e o tempo da leitura não têm medida comum: um parágrafo que custou horas de trabalho desenvolverá seus efeitos em poucos segundos no espírito do leitor — é preciso experimentar o texto “em tempo real” para certificar-se de que o mecanismo funcionará no momento certo
- A quinta operação realiza-se em princípio sobre o único texto francês, sem retorno ao chinês
- As cinco operações valem ser distinguidas e descritas em detalhe — o que pode ajudar aprendizes de tradução, ensinar professores a identificar com mais precisão as dificuldades dos estudantes e contribuir para uma crítica mais fina das traduções já publicadas.
- O “princípio de dificuldade” defendido é: melhor ser advertido da dificuldade de uma tarefa e encontrá-la fácil do que julgá-la fácil e fracassar por não ter compreendido suas dificuldades
- O caso do chinês tem algo de exemplar porque exige uma consciência mais aguçada dos problemas a resolver, apresentando assim certo interesse também para os não-sinólogos
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