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TRANSCENDÊNCIA DO TAO
CECT
- A transcendência do Tao é uma das verdades mais repetidas na doutrina taoista desde Lao-Tse, e se exprime por quatro atributos fundamentais: sua incognoscibilidade, sua inefabilidade e anonimato, sua distinção dos demais seres e sua infinitude.
- O Tao é incognoscível não apenas para os sentidos, mas também para o entendimento — somente o espírito despojado de todo conhecimento pode percebê-lo
- Por ser diferente de todos os seres, não pode ser denominado com nome ou apelativo próprio destes, sendo designado por nomes negativos como o nada e o não-ser
- Embora faça as coisas e seja imanente a todas elas, o Tao mesmo não é coisa alguma
- Em sua infinitude, ultrapassa e remonta todos os seres — sua pátria verdadeira é a pureza do vazio sem seres
- Lao-Tse enuncia a incognoscibilidade e a inefabilidade do Tao em múltiplas passagens de sua obra.
- “Chama-se-lhe invisível porque os olhos não o podem ver, imperceptível porque os ouvidos não o podem ouvir, impalpável porque não se o pode agarrar… De frente não lhe vês a face, e por trás não lhe vês as costas” — capítulo 14
- “Entender o Tao é obscuridade” — capítulo 41
- “Ele é a Forma que plasma todas as formas, mas não tem forma” — capítulo 14
- “É o arcano de todos os seres” — capítulo 62
- No primeiro capítulo, Lao-Tse começa afirmando que o Tao não tem nome, e o repete muitas vezes — capítulos 14, 25, 32 e 41
- Zhuangzi é igualmente explícito quanto à transcendência do Tao, e o enuncia em boca de figuras legendárias e de personagens alegóricos.
- Capítulo 11: “Vem e eu te ensinarei o mais alto Tao. A essência do mais alto Tao é profunda e obscura. O mais elevado do Tao é obscuro e silencioso”
- Em boca do lendário imperador Shen Nung: “O ouvido não percebe sua voz, o olho não percebe sua figura. Enche Céus e Terra e envolve os seis pontos espaciais — os quatro cardinais mais os dois verticais. Tu quiseste ouvi-lo e não o percebeste, por isso ficaste atordoado” — capítulo 14
- O capítulo 22 aborda especialmente o tema da cognoscibilidade do Tao, valendo-se de personagens alegóricos — Inteligência, Silêncio, o imperador Huang Ti, Grande Pureza, Infinito, Inoperância e Semprincipio — para mostrar que a ignorância penetra mais fundo que o conhecimento.
- Inteligência pergunta a Silêncio sobre a natureza do Tao e, não encontrando resposta, recorre ao imperador Huang Ti
- Huang Ti responde: “Quando nada pensas e nada raciocinas, é quando começas a entender o Tao. Quando em nada te assentas e de nada te ocupas, é quando te assentas no Tao. Quando não segues direção alguma e não levas caminho algum, é quando começas a apoderar-te do Tao”
- Huang Ti conclui que Silêncio está na verdade e que Inteligência e ele próprio estão longe — “Quem o conhece não fala, quem fala não o conhece. Assim o Santo pratica o ensinamento calado. O Tao é inacessível e a Virtude — Te — tampouco pode ser alcançada”
- Capítulo 22: “Olhas e não vês sua forma, escutas e não percebes sua voz. Os que tratam d'Ele o chamam tenebroso, mas quanto dizem do Tao não é o próprio Tao”
- Grande Pureza pergunta a Infinito se conhece o Tao — Infinito responde que não conhece
- Inoperância afirma conhecer o Tao: “Eu sei do Tao que pode ser eminente e pode ser vil, pode contrair-se e pode difundir-se”
- Semprincipio responde a Grande Pureza: “A Ignorância penetra mais fundo e o conhecimento é mais superficial”
- Grande Pureza exclama: “Ignorá-lo não é acaso conhecê-lo; conhecê-lo não é acaso ignorá-lo? Quem pudesse lograr a sabedoria da ignorância?”
- Semprincipio conclui: “O Tao não pode ser percebido — o que se percebe não é; o Tao não pode ser visto — o que se vê não é; o Tao não pode ser expresso com palavras — o que se expressa com palavras não é. Sabes que o que dá figura ao figurado, Ele não é figura? O Tao é inominável. Quem, ao ser perguntado sobre o Tao, tenta responder, ignora o que é o Tao”
- O capítulo 25 reitera a inadequação das palavras e do entendimento para alcançar o Tao, e aponta o paradoxo de que falar mais d'Ele é afastar-se mais d'Ele.
- “Tudo quanto podem expressar as palavras e alcançar o entendimento são coisas e nada mais”
- “Pode-se falar d'Ele. Pode ser objeto de nosso pensamento, mas na realidade, quanto mais se fala d'Ele, mais se afasta”
- A atitude de deter-se e calar diante do que se ignora é chamada por Zhuangzi de sabedoria suprema no capítulo 23, e não representa inibição agnóstica, mas reconhecimento humilde dos limites da inteligência diante da infinitude do Tao.
- “Ao que não se conduz assim, a roda do Céu — a lei do Céu — o desbaratará” — capítulo 23
- “A grande sabedoria chega a entrar naquele mundo, mas não chega a ver seu termo” — capítulo 22
- Zhuangzi exorta a avançar ao desconhecido apoiando-se no conhecido, e o capítulo 24 desenvolve esse movimento ascendente mediante uma série de enunciações sobre as grandes realidades que o conhecimento parcial permite vislumbrar.
- “Os pés pisam o chão; mas não está naquilo que pisam, e sim naquilo que não pisam, o que os faz progredir. Assim também aquilo que o homem conhece é pouco; mas, embora seja pouco, pode, apoiado no que ignora, conhecer o que o Céu lhe diz”
- As grandes realidades enunciadas: a Grande Unidade, a Grande Yin — obscuridade —, o Grande Olho, a Grande Igualdade — justiça —, a Grande Forma, a Grande Verdade, a Grande Estabilização
- “Ao término das coisas está o Céu. Seguindo-o chega-se à Claridade. Na Obscuridade se halla o gonzo e ponto cardeal. No começo de tudo está Ele”
- “Explicá-lo é igual a não explicá-lo. Conhecê-lo é como não conhecê-lo. O não conhecê-lo é já conhecê-lo. Sua inquisição não pode ter termo n'Ele e não pode não ter termo em nós”
- “Naquele caos existe uma realidade. Desde a antiguidade até os tempos atuais permanece invariável. Não pode faltar. Não é isto o que pode ser denominado a Grandeza Incontrastável?”
- “Com a certeza resolve-se a dúvida e volta-se à segurança. Isto é ter em grande estima a Grande Certeza”
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