INTRODUÇÃO
A ideia do Universo que se encontra no conjunto dos autores chineses procede diretamente de concepções míticas, sendo a história do pensamento na China marcada pela independência que o saber filosófico mantém em relação ao que se chama de ciência.
- A ausência de vestígios certos do progresso das técnicas indígenas em um esforço de reflexão propriamente científica não impede que, ao argumentar, os pensadores chineses só busquem acreditar suas opiniões com o auxílio de historietas veneráveis, lendas e temas míticos.
- Independentemente do progresso do espírito científico, este não exerceu antigamente sobre o pensamento chinês nenhuma influência sensível, razão pela qual não se tratou de inventariar conhecimentos, mas de descobrir qual espírito animava certas técnicas cultivadas em vista de fins práticos.
- Para o Livro sobre o Sistema do Mundo, não se buscou fazer conhecer os resultados obtidos em diversas ciências, mas sim determinar os princípios do sistema de fins que essas artes visavam realizar, preferindo-se exemplos do pensamento mítico sem negligenciar as formulações pedantes que proclamam a autoridade duradoura desse velho saber.
- A ideia mestra do sistema, que é que o Homem e a Natureza não formam dois reinos separados, mas uma sociedade única, não pôde ser convenientemente destacada antes que a análise das Ideias Diretoras fizesse perceber seu fundamento, onde a representação do Universo repousa sobre uma teoria do microcosmo.
- No lugar de uma Ciência que tem por objeto o conhecimento do Mundo, os chineses conceberam uma Etiqueta da vida que supõem eficaz para instaurar uma Ordem total, sendo a categoria de Ordem ou Totalidade a categoria suprema do pensamento chinês, cujo símbolo é o Tao.
A análise das ideias diretoras do pensamento chinês mostra que ele se recusou a distinguir o lógico do real e a constituir categorias abstratas como Gênero, Substância e Força.
- Alguns emblemas, por serem os mais sintéticos de todos, aparecem dotados de uma potência de animação e de organização total, manifestando que o pensamento chinês desdenhou os recursos de clareza trazidos por uma lógica da extensão e uma física da quantidade.
- A noção de Tao ultrapassa as noções de força e substância, e o Yin e o Yang, que valem indistintamente como forças, substâncias e gêneros, têm por função classificar e animar conjuntamente os aspectos antitéticos da Ordem universal, evocando sinteticamente a ordem rítmica que preside à vida do mundo e à atividade do espírito.
- A íntima ligação dessas noções e a soberana eficiência que se lhes atribui revelam a origem social das categorias chinesas, confirmada quando se analisa o conteúdo de noções como Espaço, Tempo, Número, Elementos, Tao, Yin e Yang, cujo conteúdo não pode se explicar unicamente pelas concepções próprias aos pensadores ou técnicos que as utilizaram.
- A interpretação correta e completa dessas noções diretrizes só é possível quando se busca determinar suas relações com a estrutura da sociedade chinesa, tentando-se fixar o tempo e a ordem de sua formação em função de circunstâncias sociais.
- As noções às quais os chineses atribuem uma função de categorias dependem, para o essencial, dos princípios sobre os quais repousa a organização da sociedade, representando uma espécie de fundo institucional do pensamento chinês, sendo sua análise um estudo de morfologia social.
- O Yin e o Yang formam um casal e parecem presidir conjuntamente ao ritmo que funda a Ordem universal porque sua concepção remonta a uma idade da história onde um princípio de rodízio bastava para regular a atividade social repartida entre dois grupamentos complementares.
- A concepção do Tao remonta a uma época menos arcaica e só pôde se tornar explícita em um momento em que a estrutura da sociedade era mais complicada e em meios onde se reverenciava a autoridade de Chefes justificados a se apresentar como os únicos autores da ordem no mundo, onde pôde ser imaginada a ideia de um poder de animação único e central.
O trabalho crítico sobre o pensamento chinês deve ser dominado pelo estudo dos fatos sociais, com o objetivo de determinar as posições dos diferentes grupamentos sectários na história da sociedade chinesa.
- A época em que apareceram as Seitas ou Escolas cuja doutrina se pode tentar conhecer é aquela em que a ordem feudal desmoronava e se preparava a unidade imperial, fornecendo um ponto de partida para uma interpretação precisa das atitudes.
- As atitudes mais significativas expressas nas concepções próprias às Escolas chinesas correspondem a um certo número de preocupações técnicas, traindo diversas espécies de mentalidades corporativas, e são descritas sem jamais serem apresentadas em uma ordem histórica.
- Duas doutrinas merecem atenção particular: a que se qualifica de taoísta e a que se reivindica do patronato de Confúcio, ambas notáveis pela potência do espírito sectário e pela força de seus apetites sincréticos, tendo a ambição de constituir uma ortodoxia.
- Tanto o Taoísmo quanto a Ortodoxia confucionista se inspiram, de forma desigualmente aparente mas igualmente profunda, de uma dupla tendência universalista e humanista, o que explica suas fortunas gêmeas, sua oposição na história e sua conciliação nos espíritos.
O estado dos documentos e o conhecimento da história antiga da China impõem limites severos a qualquer tentativa de escrever uma história seguida das doutrinas filosóficas.
- Poucas obras atribuídas à Antiguidade chegaram até o presente, sua história é obscura, seu texto incerto, sua língua mal conhecida e sua interpretação comandada por glosas tardias, tendenciosas e escolásticas.
- Nada de positivo se sabe sobre a história antiga da China; a personalidade dos pensadores mais ilustres mal se deixa entrever e quase não há nenhum renseignement útil ou concreto sobre suas vidas, havendo apenas datas frequentemente contestadas para tempos particularmente vazios de fatos.
- Os intérpretes reconhecem a existência de capítulos ou trechos interpolados nas obras mais autênticas, mas todo acordo cessa quando se trata de fazer a triagem, como no caso de Tchouang tseu ou Han Fei tseu.
- Desde o século IV, o papel desempenhado por Escolas ou a importância concedida às polêmicas entre Escolas foi considerável, mas tais polêmicas traduzem conflitos de prestígio e não provam uma oposição propriamente doutrinal.
- A tradução da palavra Kia por Escola deve ser feita com ressalvas, pois os chineses lhe dão uma acepção muito larga, empregando-a tanto para as diferentes Artes quanto para os diversos Métodos de conduta, que se ensinam com o auxílio de atitudes e não visam primeiro a se traduzir em um sistema dogmático.
- A ideia de opor Escolas como se tivessem por primeiro objeto dar um ensino teórico é relativamente tardia e nasceu de preocupações práticas, sendo a repartição das Obras e dos Autores entre as Escolas emprestada de um tratado de bibliotecário que é um simples classificação de catálogo.
- O estudo do vocabulário filosófico apresenta dificuldades singulares na China, pois a língua prefere símbolos ricos de sugestões práticas aos signos abstratos, possuindo uma eficácia indeterminada que visa a uma espécie de conversão total da conduta, sendo necessário romper com a tendência de traduzir esses emblemas por termos emprestados do vocabulário dos filósofos do Ocidente para evitar anacronismos.
- Para a leitura dos textos antigos, depende-se de comentários que datam da era cristã, inspirados pelo movimento de pensamento que orientou a China para as vias da ortodoxia, e nenhum leitor, chinês menos que qualquer outro, lê um texto livremente, pois é solicitado pelas glosas.
- Não existe acordo entre especialistas sobre as grandes linhas da história antiga da China, e o trabalho de ultrapassar o comentário é dominado pela incerteza, já que o espírito ortodoxo oscila entre uma paixão polêmica e uma paixão de conciliação.
- Na ausência de uma consciência clara do caráter dogmático das tradições chinesas, era possível se arriscar a contar a história das Doutrinas, mas hoje os críticos atribuem a um breve período a quase totalidade das Obras consideradas antigas, um dos períodos menos conhecidos da história da China.
- A crítica literária parte de postulados não explicitados, admitindo que uma concepção comum a todos os pensadores de uma época se elaborou naquele século porque se postula que a filosofia chinesa não havia saído da infância antes, transferindo uma opinião sobre os documentos para um julgamento sobre os fatos.
A análise de um certo número de concepções e atitudes chinesas é proposta de maneira a ser o mais objetiva possível, escolhendo-se as mais significativas e rejeitando-se qualquer ordem cronológica.
- Nos Livros iniciais, visam-se a fazer conhecer as concepções chinesias como noções comuns, assinalando hábitos mentais aos quais os chineses parecem atribuir uma potência imperativa, enquanto no último Livro estudam-se concepções relacionadas a Obras que atestam certas direções do pensamento chinês.
- Não se tenta definir os ensinamentos enumerando as ideias acolhidas por cada Escola, pois todos os autores chineses abundam em desenvolvimentos parasitas, justapondo temas emprestados de concepções divergentes ou usando raciocínios astuciosos e a emprego ornamental ou dialético de ideias emprestadas de um ensino concorrente constitui um fato significativo em si mesmo.
- Uma doutrina chinesa deve ser definida não tentando determinar as articulações de um sistema dogmático, mas tentando extrair uma espécie de fórmula mestra ou receita central, que deve parecer possuir ao mesmo tempo uma essência singular e uma virtude de panaceia.
- Não se pode pretender atingir a essência de um ensinamento enquanto não se conhece o sistema de práticas que permitia que essa essência fosse apreendida ou realizada, devendo-se buscar reconhecer o gênero de eficácia que o conjunto dos mestres antigos atribuía às suas receitas.
- Toda a Sabedoria chinesa tem fins políticos, propondo-se a realizar um arranjo da vida e das atividades humanas tomadas em sua totalidade, incluindo os prolongamentos sociais e cósmicos, correspondendo a uma certa atitude em relação à civilização e a uma certa receita de ação civilizadora.
