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WANG

MARCEL GRANET

Essa é a tradição ritual atestada por um poema antigo que procura explicar o título de Filho do Céu e o princípio do Poder real. Quando, por sua vez, desejam definir o Poder real, os Mestres do Calendário declaram que o papel do Chefe é instituir os Cinco Elementos e as Cinco (categorias de) Oficiais, de modo a atribuir aos homens e às divindades (chen) tarefas bem distintas. Ao distribuir as funções, ao classificar as coisas e os seres, o rei impede uma mistura das atividades vulgares e divinas, um contato desordenado entre o Céu e a Terra. O contato entre a Terra e o Céu só pode ser estabelecido de maneira útil e auspiciosa por intermédio do único Soberano, mestre exclusivo do culto público. Este percorre o Império no sentido do Sol (T’ien tao), de modo a ajustar, assim como os Orientais às Estações, os Insígnios dos fiéis às Virtudes emblemáticas dos quatro cantos do Mundo; demonstrando assim que é capaz de fazer reinar sobre “a Terra dos Homens (T’ien hia)” uma Ordem celestial (T’ien Tao): ele merece ser chamado de Filho do Céu (T’ien tseu), pois demonstrou possuir a Via celestial (T’ien Tao). Ele merece ser chamado de Rei-suzerano (Wang) quando demonstra possuir o Caminho real (Wang Tao): para isso, deve provar que é o Homem Único e o único Caminho pelo qual o Céu, os Homens e a Terra podem se comunicar.

A palavra “rei” (wang) escreve-se com um sinal composto por três traços horizontais que representam, segundo os etimologistas, o Céu, o Homem e a Terra, unidos, no meio, por um traço vertical, pois o papel do rei é unir. As tradições preservadas sobre os símbolos gráficos não são, neste caso, menos instrutivas do que as tradições preservadas sobre os símbolos numéricos. Para encerrar o inverno, os antigos chineses celebravam uma festa que servia tanto para renovar a Virtude do Chefe quanto para entronizar um Rei do Ano. Ela incluía numerosos jogos e múltiplas provas, pois um Chefe deve provar sua Virtude triunfando nos jogos públicos. Havia uma prova de bebedeira: era preciso, depois de se encher de bebida, ainda saber manter-se em pé. Havia provas sexuais: os primeiros Chefes, que parecem ter levado o título de “Grande Casamenteiro”, eram responsáveis pela fertilidade universal e, desde sempre, os chineses acreditavam que o Sol perde seu caminho (T’ien tao) se o Rei não se deitar, no momento certo, com a Rainha. Havia, sem dúvida, outra prova de resistência: o Chefe, patinando na ponta dos pés ou imóvel como um tronco, esperava e provocava a subida da seiva. Havia, sobretudo, uma prova do mastro de Cocagne. Esse mastro estava erguido no centro da Casa dos Homens, que foi o protótipo do Ming t’ang e que era uma casa subterrânea, pois, ao chegar ao topo do mastro, podia-se mamar o Céu — é assim que se torna Filho do Céu — ou melhor, a Sino Celestial, mas os mamilos da “Sino Celestial » (que são as estalactites) estão suspensos nos tetos das cavernas. Era ao vencer a prova da ascensão que o novo Filho do Céu merecia, tendo-se tornado o elo entre o Céu e a Terra, impor sua estatura ao gnômon, sua medida ao tubo-padrão: ele havia se identificado com a Via Real.

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