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DISPOSITIVO

FJFI

O dispositivo do I Ching é inicialmente o mais simples, composto por dois tipos de traço (pleno e partido) que opõem os dois versantes das coisas: adro e avesso, luz e obscuridade, duro e maleável, masculino e feminino.

  • O traço contínuo (yang, ímpar) contém três em um e desdobra-se no nove; o traço descontínuo (yin, par) contém dois terços e desdobra-se no seis.
  • Esses dois traços bastam para representar os fatores constitutivos de toda realidade, pois encarnam cada vez os dois polos yin e yang.
  • Duplicando os traços, obtêm-se quatro casos (velho yin, velho yang, jovem yin, jovem yang), alinháveis em ordem progressiva formando um encadeamento contínuo (6, 7, 8, 9).
  • Acrescentando um traço a cada figura, obtêm-se os oito trigramas, representando os principais “fenômenos” do mundo exterior e as principais disposições interiores e seus modos de atividade.

No estágio dos oito trigramas, a polaridade inicial se mantém claramente, não apenas por cada figura ter um parceiro oposto, mas também pela preservação da relação entre par e ímpar.

  • Entre os seis trigramas intermediários (“pai” Qian e “mãe” Kun), os yang (três “filhos”) são compostos de maioria de traços yin e são “ímpares”, enquanto os yin (três “filhas”) são compostos de maioria de traços yang e são “pares”.
  • A tensão do par e do ímpar se mantém através da série: ao mesmo tempo que se desdobram, as figuras preservam em si o relacionamento oposto e complementar dos dois traços das quais nasceram.
  • O desenvolvimento para sessenta e quatro hexagramas (estágio último) opera-se por um desdobramento (dédoublement) no nível de cada traço, e não por um duplicamento: o hexagrama é um trigrama desenvolvido.
  • Enquanto o trigrama representa a realidade do ponto de vista de seu “ser constitutivo” (ti), o hexagrama representa a mesma realidade do ponto de vista de seu “funcionamento” (yong).
  • O duplicamento é necessário para representar a marcha das coisas, destacando a dualidade de aspectos inversos e correlacionados donde decorre a interação que permite o “funcionamento”.

A repartição dos sessenta e quatro hexagramas por seus traços constitutivos yin ou yang mostra que o equilíbrio entre par e ímpar é plenamente respeitado, e o sistema permanece trabalhado de um extremo ao outro pela polaridade.

  • O ponto forte do dispositivo é que os conjuntos de traços constitutivos dos trigramas e hexagramas têm a vocação de representar e servem de figuras (xiang).
  • O Sábio “estabeleceu os hexagramas e considerou sua figuralidade”, pois, como tudo o real procede da única interação do yin e do yang, o hexagrama pode tudo representar simbolicamente pelo jogo de seus dois traços par-ímpar.
  • A estrutura bipolar do hexagrama, explorando sistematicamente todas as possibilidades de variação, permite assumir a diversidade e a complexidade das coisas.
  • A representação simbólica não é apenas sempre adequada, mas é dotada de efeito: pela “diferenciação” entre o duro e o mole (o que cresce e decresce), ela “faz barragem aos desvios” e “estabiliza” o real “em sua positividade”; também fixa as condições de possibilidade de uma instrumentalidade das coisas.

Enquanto a figura (hexagrama) é global e corresponde ao “ser determinado” das situações e dos existentes, o traço (yao) é o elemento “diferencial” e móvel, correspondendo à “amora” (estádio inicial) das ocasiões e situações.

  • O Sábio observou como todo encontro adventício, donde decorre uma posta em movimento das coisas, se integra na lógica de conjunto dos processos, para estabelecer os “princípios normativos” do funcionamento das coisas.
  • O traço se caracteriza pelo “momento” e pela “posição” que são os seus no seio do hexagrama, servindo de critério para o caráter adequado ou inadequado da modificação que se inicia através dele.
  • A grande variedade de traços permite “explorar até o fim” a extrema diversidade das modificações, reconduzindo-a a uma mesma alternativa (evolução no bom ou no mau sentido); essa alternativa única exclui por si mesma todo “desordem”.
  • Cada traço, por permitir a análise mais “fina” do curso das coisas, está em medida de “mostrar” de forma precisa qual é, em função de sua ocasião-posição, a “via” a seguir.

As últimas peças do dispositivo são as “fórmulas” de comentário: o “julgamento” (tuan) sobre o conjunto da figura (rei Wen) e os comentários sobre cada traço individualmente (duque de Zhou).

  • Essas fórmulas foram “anexadas” à representação hexagramática, apoiando-se totalmente nela e não podendo ser consideradas separadamente; sua função é indicar “o sentido da representação” e servir de “advertência” em termos de fasto e nefasto.
  • A “lógica contida na representação” não pode ser “posta em luz” sem essas fórmulas, que “mostram cada vez aonde isso vai acabar”, para que se possa retificar a conduta a tempo.
  • Todas as peças do dispositivo se imbricam: sem a figura não haveria julgamento; sem julgamento não haveria traços; sem julgamentos e traços não haveria fórmulas comentando-os.
  • A figura hexagramática é a base sobre a qual repousa todo o montagem: é por ela que “a razão das coisas se manifesta”, e na ausência das figuras não se pode aceder ao I Ching.
  • Fica invalidada a posição de Shao Yong (pré-existência do I Ching aos traçados) e a de Wang Bi (abandono da figura para alcançar o sentido), pois não há concepção própria ao livro que possa preceder o advento concreto das figuras.

O dispositivo completo se presta a dois usos complementares: a “contemplação” das figuras em repouso (estudo) e a “consulta” aos traços em movimento (ação).

  • Pelo estudo das figuras, adquire-se o que se deve conservar sempre como “regra imutável” da conduta.
  • Pela consulta relativa ao traço, analisa-se no maior detalhe a lógica própria da tendência que desponta, adaptando a conduta a cada instante pela previsão da evolução futura.
  • O simbolismo da rondeza e do quadrado evoca a combinação da estabilidade e da mobilidade: a rondeza da aquileia (maleabilidade) permite aceder ao invisível e prever o futuro; o quadrado do hexagrama (estrutura solidamente estabelecida) serve para “tesoirizar” o passado e conhecer.
  • Na estrutura do hexagrama é retida toda a experiência das evoluções passadas; o manejo fluido da aquileia permite esposar o mais próximo o menor inflectimento ainda invisível de uma evolução em curso.
  • Graças ao funcionamento correlacionado das duas peças, o dispositivo do I Ching consegue fazer coincidir as grandes linhas do funcionamento do processo e a sutileza do detalhe, as lições do passado e a previsão do futuro, revelando a imanência.

O hexagrama se desdobra de baixo para cima, sendo decifrado progressivamente da base ao topo, com as posições (wei) distribuídas em três níveis: terra (posições 1-2), homem (posições 3-4) e céu (posições 5-6).

  • O hexagrama reproduz as três instâncias do real (três “capacidades” ou “extremidades”), com o homem situando-se entre a terra e o céu, cada nível apresentando sua dualidade de aspectos (yin-yang, duro-maleável, humanidade-equidade).
  • Os três traços inferiores compõem o trigrama interior (zhen), base da figura e seu “ser determinado” (ti); os três superiores compõem o trigrama exterior (hui), adaptando a figura à “evolução” e permitindo seu “funcionamento” (yong).
  • O agrupamento por três traços também se estende aos trigramas “nucleares” (traços 2,3,4 e 3,4,5), lidos em filigrana.
  • O caráter plurívoco da estrutura (a geometria variável) permite apreender, por multiplicação e recorte de perspectivas, a natureza intrínseca do real (coerência unitária e constante renovação), pois o dispositivo recorre a vários sistemas de determinação para fazer ressaltar o indeterminado.
  • Somente através de uma superposição das grades de interpretação se pode captar a lógica das evoluções em curso, que por serem novas escapam a toda codificação unívoca e já dada, respeitando o caráter improvisante da imanência.

As posições que constituem o hexagrama reproduzem o mesmo relacionamento equilibrado do par e do ímpar: as posições ímpares (1,3,5) são yang e as pares (2,4,6) são yin.

  • O critério de adequação: o traço (yao) está normalmente em seu lugar se for yang numa posição yang ou yin numa posição yin; é inadequado no caso contrário.
  • As posições são fatores de movimento: as duas posições centrais constituem o pivô da figura, com a terceira posição sendo a da “avançada” e a quarta a do “recuo”.
  • A segunda e quinta posições correspondem ao momento de equilíbrio da evolução (centro dos dois trigramas), sendo a quinta posição a posição “soberana” da figura.
  • As primeira e sexta posições encarnam os estágios extremos do processo: o “crescimento” que começa na base e a “dissolução” que se opera no topo.

O hexagrama não possui uma posição central única (entre terceiro e quarto traços), mas possui dois centros (segunda e quinta posições); essa aparente contradição é explicada pela paridade (ausência de centro) e imparidade (dois centros) da estrutura.

  • A ausência de um centro próprio ao hexagrama deve-se a que, no estádio da unidade indiferenciada (pré-atualização fenomênica), “não há nada que não seja centro”; e, uma vez ocorrida a “cisão” diferenciadora, cada atualização segue sua lógica própria e “já não se vê mais centro”.
  • Os dois centros coexistentes criam as condições de uma variação por alternância que torna possível a continuidade da mudança, pois um centro único tenderia a imobilizar o processo.
  • Um centro único (justo meio imóvel) conduz à parcialidade por não se adaptar ao caráter constantemente cambiante das circunstâncias; a verdadeira centralidade consiste em evoluir de um centro a outro, podendo ir num sentido ou no outro (manifestar alegria ou tristeza, clemência ou severidade) conforme o que exige cada ocasião.

Todas as fases do processo do real são justificadas, e todas as posições ocupadas pelos traços do hexagrama são fundadas, inscrevendo-se numa mesma continuidade e participando da mesma lógica de conjunto.

  • A única questão é a da adequação ao momento (relação entre shi e wei), e não a de não ousar ir até o fim dos sentimentos ou não se engajar plenamente, mas fazê-lo de maneira “oportuna” (quando é adaptado).
  • A continuidade entre o julgamento (totalidade da figura, “ser constitutivo”) e o comentário dos diversos traços (“funcionamento”) mostra que os seis traços “comunicam entre eles para formar um único ser constitutivo”.
  • O primeiro traço (base) é como a “souche” enterrada, indicando o estádio inicial não afirmado de uma evolução; o sexto traço (topo) é como a “ramificação” distinta, o do “acabamento”, atribuindo seu desfecho à evolução.
  • As quatro posições intermediárias conferem toda sua amplitude à capacidade encarnada pela figura e operam as diferenciações necessárias, sendo por elas que se pode opor situações como a da “família feliz” (todos em seu lugar) e a da “dissensão” (ninguém em seu lugar).

A segunda e quarta posições (pares, yin) têm méritos opostos: o da quarta é a “apreensão” respeitosa por sua proximidade com a quinta (posição soberana); o da segunda é sua posição central no trigrama inferior sem rivalidade com a soberana.

  • A terceira e quinta posições (ímpares, yang) opõem-se por seu maior ou menor “valor”: na terceira, ocupada por um traço yin é “perigoso”, ocupada por um traço yang pode ser “nefasto” por excesso; na quinta, mesmo ocupada por um traço yin pode ser “fasto”.
  • Dois tipos de relação entre traços: o relacionamento de analogia (primeiro traço com o quarto, segundo com o quinto, terceiro com o sexto) é favorável se houver um parceiro oposto e complementar no campo oposto, com possibilidade de acasalamento e interação (ying).
  • O relacionamento de contiguidade (traço com seu vizinho imediato no mesmo trigrama) é significativo se se apoiar na similitude, gerando confiança e sustento (fu).
  • O relacionamento de “acasalamento” (à distância) é a lógica do “casamento”, donde decorre o engendramento do real; o relacionamento de “amizade” (proximidade) assegura a coesão do real.

Um hexagrama não pode ser considerado isoladamente, compreendendo-se por relação às transformações que o ligam a outros hexagramas.

  • Dois modos de conversão: a inversão sistemática traço por traço (cuo) e o duplo revesamento entre alto e baixo de cada trigrama e entre os dois trigramas (zong).
  • Os sessenta e quatro hexagramas formam trinta e duas pares de hexagramas invertidos traço por traço, mas apenas vinte e oito pares invertidos entre alto e baixo; oito hexagramas permanecem idênticos a si mesmos ao se revesar.
  • Hexagrammas invertidos ou revessados possuem laços particulares: um se opõe ao outro ao mesmo tempo que permanece presente nele de modo latente; marcam-se mutuamente mas se inflectem também.

Os princípios de leitura colaboram entre si mas não podem ser considerados regras fixas, pois a “via” do I Ching está em “frequente evolução” e não visa a propor uma ordem determinada de uma vez por todas.

  • Conforme uma fórmula do Grande Comentário (B §8), embora haja uma ordem de conjunto (exemplo: quente-frio, juventude-velhice), não existe uma ordem concreta (data precisa para cada estágio da evolução); evoluções como o “enfraquecimento súbito” na juventude ou o “reganho de vitalidade” na velhice mostram isso.
  • Os classificações rigorosas dos hexagramas (Jing Fang, Shao Yong) são vãs e seu efeito de ordem é ilusório; o hexagrama não pode se constituir em “norma” estereotipada.
  • Trata-se de um modelo aberto, disponível para acolher a inovação sem fim das coisas; é preciso se defender de o codificar em demasia e manter a flexibilidade das regras de interpretação.
  • O quinto traço é usualmente o “soberano”, mas às vezes não o é; “estar em seu lugar” é usualmente “correto”, mas às vezes não; ocupar o centro do trigrama é usualmente “fasto”, mas às vezes não; o relacionamento de parceria à distância (ying) é usualmente “proveitoso”, mas às vezes não.
  • O bom uso do I Ching é formar o espírito para a complexidade, sempre movente, das situações, tornando atento à sutileza das “adequações”.
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