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FIGURAS DA IMANÊNCIA

FJFI. Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

PREFÁCIO

  • De todos os livros que as diversas civilizações puderam produzir ou sonhar, o Yi King ou Clássico da Mutação pode ser o mais estranho, não tanto pela mensagem que transmite quanto pela forma como é composto, pois não é constituído de palavras mas apenas de dois traços — contínuo e descontínuo, pleno ou partido — e é do jogo das combinações possíveis entre esses traços, e não da enunciação de um discurso, que nasce o sentido.
    • O traço contínuo é representado por — e o descontínuo por _ _; essas são as marcas mais simples possíveis.
    • O livro não está, em sua origem, em língua alguma, nem possui língua própria — não transcreve pensamento nem vontade.
    • Do lado da leitura, não há uma trama definitiva que conduza o leitor, mas um modo de uso a seguir, um dispositivo a manipular, cujo cenário é sempre improvisado.
  • Um livro que não visa a comunicar um sentido, feito apenas de casos figurativos e indicações a observar, dado a consultar tanto quanto a ler, e que não fornece plano ou ordem fixos, serviu contudo de livro de fundo a toda uma civilização, o que coloca a questão de saber se se trata de vestígio de mentalidades arcaicas pietozamente conservadas na China ou de um sistema de forte coerência que chegou até nós e ainda se desenvolveu.
    • A questão é colocada como alternativa: relíquia pré-lógica ou sistema de alta coerência?
    • A China é evocada como terra da tradição que preservou o texto ao longo de milênios.
  • Diante do Yi King, os ocidentais dividem-se entre desconfiança — que o reduz a um bazar de superstições — e fascínio esotérico, e esse terreno deixado vago pelo saber especializado é invadido por gurus, de modo que quanto menos se compreendem as fórmulas do livro, mais elas exercem fascinação.
    • Muitos especialistas da China o consideram um thesaurus de fórmulas e imagens indispensável para a leitura de outros textos, mas não um livro que merecesse ser estudado em si mesmo.
    • Os dois caracteres do título — Yi King (em pinyin: Yijing) — assumem, no imaginário do Oriente, valor de talismã.
  • O objetivo do ensaio é superar essas duas atitudes opostas — a suspeita erudita e o fantasma ideológico — propondo o livro à reflexão filosófica como ferramenta, pois ele se enriqueceu demasiado a partir de sua origem divinatória e fecundou em demasia o pensamento chinês para que se hesite em tomá-lo a sério.
    • A questão não é classificá-lo na prateleira da sabedoria ou da filosofia estrita — outra maneira de esvaziar o livro enquanto o magnifica.
    • O trabalho que se impõe é de natureza filosófica: reinterpretar a partir dos próprios termos ocidentais a lógica do Clássico e fazê-la servir filosoficamente por confrontação com a visão ocidental das coisas.
    • O Yi King propõe-se como clássico daquilo de que menos se esperaria um clássico: a mudança — o mutável não é inconsistente, é a única realidade, e esta possui sua coerência.
    • O livro convida a reexaminar pressupostos filosóficos ocidentais como o ser, o eterno e a verdade, a partir de um exterior que os revela em seus pontos cegos.
  • A introdução ao Yi King é uma introdução à leitura, reagindo contra a tendência de dissociar a combinatória figural das camadas de texto que lhe foram sucessivamente acrescentadas como comentários — pois esses comentários foram menos sobrepostos à combinatória do que enxertados nela.
    • O padre Joachim Bouvet, um dos primeiros a apresentar o Yi King ao público europeu, escreveu a Leibniz que a combinatória das figuras é obra de um gênio extraordinário e constitui um método geral das ciências muito perfeito, mas que teria sido corrompida pelos comentários.
    • Bouvet escreveu: como todos os comentários feitos há quase três mil anos sobre esse sistema por grandes homens, dos quais Confúcio foi um dos principais, parecem mais aptos a embaralhar e obscurecer o verdadeiro sentido do que a desenvolver seu mistério, deixei de lado todos esses comentários e, apegando-me unicamente à figura, a considerei sob tantos sentidos diferentes… que não duvido de ter finalmente descoberto todo o mistério, ou ao menos uma rota muito segura e fácil para chegar lá.
    • Na metafísica numerária que descobre pelo exame das figuras, Bouvet reencontra sucessivamente o sistema de Pitágoras e de Platão, os números do Sábado e da antiga Cabala, e até o sistema de numeração binário que Leibniz estava desenvolvendo.
    • Hegel, por sua vez, considerou que essa máquina de traços, uma vez montada, não chega a nenhuma ordem concreta, por passar de modo demasiado abrupto da abstração à matéria — e que gira em vazio.
    • A escolha proposta é inversa: ler o Yi King a partir do que a tradição chinesa fez dele, mantendo associadas a transformação das figuras e o sentido que os glosadores delas incessantemente extraíram.
  • O trabalho de interpretação não se encerrou com os comentários atribuídos a Confúcio, pois ao longo de mais de dois milênios o Clássico foi objeto de imensa exegese que renovou periodicamente o pensamento chinês — com Wang Bi no século III da era comum e com os pensadores neoconfucionistas a partir do século XI.
    • Wang Bi (século III d.C.) é citado como exemplo de renovação da leitura do Yi King.
    • Os pensadores neoconfucionistas, reagindo à influência do budismo a partir do século XI, também renovaram a exegese do Clássico.
    • É impossível ler o Clássico independentemente dessa história, ou ao menos sem buscar ancoragem nessa evolução, pois só a partir de tal ancoragem a explicitação do livro terá chances de ser significativa.
  • O ponto de apoio escolhido para abordar o livro é Wang Fuzhi (Wang Chuanshan, 1619-1692), pensador do século XVII, cuja leitura do Yi King é central em sua obra e o funda para descobrir a racionalidade dos processos naturais e históricos, em vez de buscar refúgio na fé budista diante do colapso da dinastia Ming em 1644 e da invasão manchu.
    • Wang Fuzhi viveu uma das piores épocas da história chinesa: facções que aterrorizavam a corte, vastas revoltas populares, a queda de Pequim e a destruição da dinastia Ming.
    • Sua leitura do Yi King visa a tornar o real, por mais perturbador que pareça, diretamente inteligível — sem ruptura com o curso imediato dos fenômenos nem passagem à fé.
    • Sob a crise que assola o mundo, podem-se detectar os indícios de uma lógica em ação, e essa lógica permite manter confiança no desenrolar por vir.
    • Uma segunda razão do interesse por Wang Fuzhi é a exigência teórica que lhe é própria: seu pensamento move-se com flexibilidade, é surpreendentemente ousado, formula com precisão suas questões e desenvolve-se com rigor — contrariamente ao lugar-comum de que os chineses prefeririam a intuição ao raciocínio e seriam pouco afeitos à lógica.
  • O estudo apoia-se ao longo de toda a análise no último comentário de Wang Fuzhi — o Comentário Interior, o Neizhuan — propondo uma via de acesso ao Yi King que, apesar de seu extremo recorte, permite superar tanto a fascinação fácil do exotismo quanto a rejeição do insólito, ganhando em coerência e clareza por proceder de uma única perspectiva.
    • A interpretação de Wang Fuzhi é ao mesmo tempo minuciosa nas análises e radical nas posições, passando sem cesura da exegese filológica ao debate filosófico.
    • Ela é engajada — em busca de respostas ao drama de seu tempo — e ao mesmo tempo cuida de remontar aos princípios e fazer obra racional.
    • Ela é constantemente apaixonada pela sistematicidade sem jamais se encerrar no conforto de um sistema — defeito demasiado frequente nos intérpretes do Yi King.
    • Os termos do pensamento chinês do século XVII fazem sentido apenas em relação a seu próprio contexto nocional — desenvolvido independentemente do ocidental — e repousam sobre oposições do tipo duro-mole, yin-yang; por isso não são diretamente transponíveis no universo das representações ocidentais.
    • Introduzindo o pensamento de Wang Fuzhi ao horizonte do pensamento ocidental, os dois são forçados a confrontar a falsa evidência em que cada um tende individualmente a se encerrar — ler de fora e de dentro ao mesmo tempo transforma a exterioridade cultural em trunfo heurístico.
  • Na cultura ocidental a palavra é originária e a escrita apenas a registra — a epopeia homérica é o canto de um aedo e Hesíodo aprende dos lábios da Musa; a Bíblia é palavra antes de ser Escritura santa —, ao passo que na China não há Palavra divina nem epopeia, e a consciência nasce do traçado, sendo o Yi King a obra por excelência da marca escrita em sua forma primitiva.
    • Hesíodo e a tradição dos aedos são evocados como exemplos do primado ocidental da palavra oral.
    • A Bíblia vincula-se às tradições pastorais do povo judeu, onde o pastor se dirige ao seu rebanho.
    • Um primeiro traço, pleno e contínuo, liga à simplicidade fundamental da Origem; é somente de sua ruptura que cresce um valor diferencial — mas como esse valor é o mais geral, os dois traços não cifram nenhuma Mensagem, bastando para reproduzir, por sua relação de oposição-correlação, a polaridade em ação em todo real.
    • A série de figuras compostas desses dois traços representa, aos olhos dos chineses, uma escrita ao mesmo tempo mais originária e mais fundamental, em prise direta com o dinamismo das coisas — mediação entre a ordem da natureza e sua formalização lógica.
    • Diferentemente dos ideogramas, os trigramas e hexagramas que servem de base ao Clássico não exprimem um sentido, mas definem os elementos de uma matriz — são o proto-texto que assegura a continuidade entre o poder figurativo do mundo e a invenção do texto escrito, e também o arquitexto que contém todos os textos possíveis.
  • Por trás da oposição entre palavra e traçado perfila-se outra oposição entre mito e diagrama, sendo que o diagrama do Yi King funciona em dois sentidos: como traçado que representa de forma sumária os fatores de um conjunto e como traçado que apresenta graficamente o desenrolar e as variações de um fenômeno — e a comparação entre mito e esquema diagramático é antiga e se justifica em vários pontos.
    • Mito e diagrama visam a revelar algo que ultrapassa a capacidade de apreensão de uma linguagem abstrata; recorrem ambos a uma figuração imagética; e são ambos organizados em sequências.
    • O Clássico afirma que o Sábio instaurou as figuras hexagramáticas para exprimir completamente o sentido.
    • A linha de fratura entre mito e diagrama pode ser esquematizada assim: o mito encena um drama como história, o diagrama representa uma evolução por transformação; o mito apela a actantes, o diagrama a fatores constitutivos como yin-yang; o mito é explicativo e remete a uma causa, o diagrama é indicativo de uma tendência; o mito é inventivo e faz servir a ficção, o diagrama desempenha papel de detecção — conforme sua função primeira de adivinhação.
    • No ponto de chegada desse clivagem opera-se uma separação de planos: o mito tem relação com a transcendência; o esquema diagramático do Yi King vale como revelação da imanência.
  • O próprio de um pensamento preocupado com a transcendência é explorar o outro do outro — em que o outro é verdadeiramente outro e pode se constituir em exterioridade —, ao passo que o próprio de um pensamento da imanência é valorizar tudo o que há de mesmo no interior do outro e que permite sua correlação, sendo o único objeto do livro revelar a coerência interna aos processos.
    • O pensamento do Yi King é dominado por uma lógica de emparelhamento que permite um funcionamento bipolar e do qual decorre espontaneamente uma interação contínua.
    • O único objeto perseguido na leitura proposta é conceber o que pode ser essa lógica da imanência.
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